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Bem-vindos a mais uma edição da "Operação Stop", com o Alfredo Lavrador. Hoje pegamos num assunto que já tem feito correr muita tinta e continuará a fazer correr muita tinta, ao que tudo indica. Isto porque depois de muita contestação e polêmica, Alfredo, o Parlamento Europeu aprovou o fim da comercialização de veículos equipados com motores de combustão, mas nesta edição tu queres chamar a atenção para o fato de ter sido deixada uma porta para algumas marcas poderem continuar a vender este tipo de veículos. Afinal, que mudanças é que se estão aqui a verificar?
Olha, Miguel, antes de mais, bom dia. Efetivamente, foi deixada uma porta aberta, mais do que aberta, escancarada, porque através de uma emenda, a emenda 121, foi permitido que continuasse a ser aceitável para pequenos construtores comercializar veículos com motores de combustão, essencialmente a gasolina, porque trata-se de construtores ou de veículos de luxo ou de veículos desportivos. E não há assim veículos a gás, motores a gasóleo nesse segmento. Quem pressionou foi a Itália, uma vez que tem uma série de marcas com estas características, só para te enumerar uma ou duas que toda a gente conhece, a Lamborghini, Ferrari, por aí fora. E o objetivo acabou por ser beneficiar os construtores que produzem entre 1000 e 10 mil carros por ano, que assim vão continuar a poder comercializar veículos com motores de combustão durante mais uns anos, mas não muitos, mais uns quantos.
Ou seja, está aqui, sobretudo, um jogo de cedências, não é? Há aqui várias negociações com cedências para aprovar essa legislação que importa. Mas que marcas é que saem favorecidas com esta medida?
Olha, Miguel, uma vez que esta medida foi sobretudo pressionada por Itália, posso dizer que a marca mais sonante é a Lamborghini, entre aquelas que em 2021 produziram menos, venderam menos de 10 mil carros. Mas há outros construtores, muitos deles são conhecidos, a Pagani, por exemplo, a Koenigsegg, a Morgan, a Bugatti, tu conheces bem, se calhar não te importavas de ter uma. Eu não podia, que eu tenho uma garagem muito pequenininha, e depois não cabia.
Não dava jeito.
Não, não dava jeito nenhum. Depois chegavam os impostos ao final do ano e era uma obscena. Mas dou-te outro exemplo, a Aston Martin, a McLaren, e uma que na volta também não te importavas ter, a Rolls-Royce, que também é uma marca que ficava muito bem.
Tudo marcas humildes. Mas entre essas marcas-
A parte boa é que os carros têm espaço, andam bem.
Não é só pontos negativos.
Não é só pontos negativos.
Mas entre essas marcas, desse segmento mais elevado, há aqui uma que fica de fora e que salta à vista, que é a Ferrari. Há aqui alguma justificação para a Ferrari ficar de fora desta lista de marcas beneficiadas com esta emenda 121?
Olha, isso parece aquela história do azar do Estábulo, porque quando a lei foi criada, inclusivamente, essa proposta foi conhecida como emenda Ferrari. Não que visasse apenas favorecer a Ferrari, mas era para favorecer ou para não prejudicar, se quiseres, os construtores como a Ferrari, construtores de pequeno volume. A verdade é que, como dizia e muito bem, a Lamborghini está na lista, porque efetivamente em 2021 vendeu apenas 8405 unidades. Mas a Ferrari, estranhamente, está de fora, porque transacionou 11.155 veículos, o que a deixa para além da fronteira. Logo, não vai beneficiar das benesses previstas nessa emenda 121.
A vida dá muitas voltas, não é? Há aqui outros casos de construtores em que os concorrentes diretos acabem por usufruir desta porta aberta e outros não?
Olha, Miguel, eu estive a analisar a lista das marcas que comercializam menos de 10 mil carros e só encontrei um outro caso, que também vai ser uma estatística. Eu refiro-me à Bentley, que é a grande rival da Rolls-Royce. Digamos que ambas constroem carros de luxo, são mesmo os mais luxuosos do mercado. A Bentley tem uma orientação mais desportiva. A Rolls tem uma orientação mais formal, os carros são mais pesadões, favorecendo o volume interior, etc. A Rolls vendeu 5586 unidades em 2021, mas a Bentley, que tem uma gama muito mais extensa, ultrapassou largamente a meta dos 10 mil, logo, está fora.
Ó Alfredo-
Vai implicar alterações grandes, porque enquanto, para já, o tipo de cliente que favorece, prefere os carros que sempre comprou, o motor de combustão. E agora imagina tu no mercado, a Bentley até que oferecer veículos elétricos a partir de 2035 e a Rolls puder satisfazer os seus clientes com motores de combustão, vai desequilibrar um bocado ali a contenda entre as duas marcas.
Pois, isto mexe com o mercado, não é só uma questão ecológica, há aqui uma questão de negócio que tem maior peso. Não é que tu recebas para isto, mas qual é a solução para tudo isto e para este imbróglio que se está a criar?
Custa-me acreditar que isto tenha sido feito levemente, porque para além dos parlamentares europeus, todos eles bem cientes das necessidades do país e da indústria. Nota, por exemplo, que os alemães também estão presentes e a indústria automóvel é a indústria mais importante da Alemanha. Olha que na Itália não é muito diferente. Nenhum país se esquece da indústria de que depende. Eles sabem exatamente o que estão a fazer. Custa-me acreditar que tenha sido uma distração. Ainda espero que surja uma emenda 121-A em que diga: "Eleva a fasquia para 15 mil carros" ou assim uma coisa dessa.
Que volte novamente isto tudo ao contrário.
Não, pelo menos que entre a Ferrari, que é para não ficarem de fora, coitados. Agora, a verdade é que neste tipo de situações, quando tens que criar uma fronteira, muitas vezes alguém fica do lado mau da fronteira e neste caso parece ter sido a Ferrari. Ainda por cima, o construtor está numa situação muito boa para eles, mas que acaba por ser muito má para essa história do limite de produção, uma vez que no final deste ano, as vendas irão começar apenas em 2023, mas logo no início do ano, eles vão lançar um novo carro, que é um SUV, o primeiro carro de quatro portas e quatro lugares que a marca produz. A marca, nas previsões muito pouco otimistas, considera que poderá vender mais 20% de modelos à conta desse Puro Sangue, assim se chama o carro. Estás a ver, tudo que seja incrementos deste tipo só vão prejudicar a situação da Ferrari. Logo, não estou a ver bem como é que eles vão arranjar uma forma airosa de sair deste imbróglio.
Isto ainda acaba a fatura a ser paga pelo cliente final, ou não?
Não.
Normalmente é sempre assim que se resolve.
Sim, mas neste caso o que está em causa é se podes comprar um Ferrari com motor a gasolina em 2035, 2036 e por aí fora, ou se tens que comprar necessariamente um Ferrari elétrico. A diferença é essa. E há muita gente que não gosta, há muita gente que prefere os Ferrari com motor de combustão, por todo aquele ruído.
É a história do barulho. A Fórmula 1 também surge disso.
Exatamente. Imagina a Fórmula E, que parecem uns aspiradores, parece uma corrida de aspiradores, não é tão justo. Tanto primor para quem corre na Fórmula E.
Exatamente. E que estamos também muito bem representados.
Exatamente.
Veremos então, este não é o primeiro volte-face nesta matéria ou primeira adenda a esta matéria e por isso também não estamos livres de, em semanas seguintes, surgirem aqui outras novidades sobre este mercado dos elétricos e a forma como a União Europeia quer adotar este modelo mais ecológico. Veremos também ao longo das próximas semanas se a Ferrari se vai aqui mexer, se as marcas se vão mexer para novas alterações. Obrigado, Alfredo.
Estamos a ver. Obrigado, Miguel.
Por mais uma edição. Nós, na rádio, estamos de regresso no próximo sábado, na "Operação Stop", mas claro, as novidades sobre o mundo automóvel estão também disponíveis no site do Observador, na seção Auto, diariamente pode também ficar a par dessas novidades do mundo automóvel. Até para a semana.
Até para a semana.