Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este episódio contém descrições de violência que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. Noite de domingo, 9 de janeiro de 2011. Carlos Castro foi assassinado há cerca de 48 horas.

Boa noite a uma família e também muitos amigos.

A partir do largo da igreja em Cantanhede, o jornal da noite da SIC arranca com uma entrevista à irmã de Renato Seabra. Joana explica que o irmão mais novo é uma pessoa calma e não violenta. Garante que ele viajou para Nova York a trabalho e revela que ao longo da estadia nos Estados Unidos, se manteve sempre em contato com a mãe. Em rodapé, vão passando informações sobre o caso. Mãe de Renato Seabra viajou esta manhã para os Estados Unidos. Família de Renato Seabra contratou advogado nos Estados Unidos.

O seu irmão, nestes últimos dias, manifestou alguma preocupação, algum problema? Nos últimos dois dias, quando ele falava com a minha mãe, dizia que não estava a dormir muito bem, que a comida era estranha, que não sabe o que estava a passar, que a comida estava diferente e que estava um bocado cansado de lá estar, que queria vir para casa e que estava um bocado farto com a luxuria toda que estava à volta dele. Ele até chegou a dizer à minha mãe: "Eles querem me comprar com esta luxuria, eu estou farto, sinto uma prisão, quero vir para casa, estou farto".

Há pelo menos dois dias que Renato Seabra não estava bem, revela a irmã mais velha. Queria até voltar para Portugal mais cedo e, de preferência, sem Carlos Castro. Quando regressar de Nova York, Odília Pereirinha também vai dar uma entrevista, mas ao jornal Sol. Vai contar como achou o filho magro, pálido e em choque. E vai revelar como, dois dias antes do crime, Renato terá começado a queixar-se. Sentia que dependia de Carlos Castro para tudo e nem telemóvel tinha para poder comunicar com quem quisesse. Em tribunal, a defesa vai apoiar-se nestes e noutros relatos para tentar provar que pelo menos dois dias antes do crime, Renato Seabra já estava na fase inicial do episódio maníaco agudo que lhe havia de ser diagnosticado. Primeiro no hospital Roosevelt, depois no Bellevue. O psicólogo Jeffrey Singer vai ser um dos peritos ouvidos e vai explicar que não é raro que doenças como o transtorno bipolar sejam identificadas pela primeira vez na idade do arguido.

É muito comum que o primeiro episódio psicótico de uma pessoa com perturbação bipolar ocorra por volta dos 21 anos. Normalmente, isso acontece entre os 16 e os 25 ou 26 anos. Para mim, era muito óbvio que ele estava a ter um episódio psicótico.

Mas a acusação vai pôr em causa toda esta argumentação. Primeiro, questiona o diagnóstico, que foi assinado por um médico interno das urgências e não por um psiquiatra. Depois, acusa Renato Seabra de ter exagerado e fingido sintomas quando estava internado. E afirma que os advogados dele o instruíram nesse sentido. Para conseguir enganar o júri e escapar a uma pena de prisão, disseram-lhe que tinha de tentar parecer maluco. Maxine Rosenthal é a procuradora do Ministério Público, responsável pelo caso contra Renato Seabra. Faz parte da unidade de crimes sexuais e é conhecida por ser minuciosa, persistente e implacável. É temida por arguidos e advogados de defesa. Em 2009, Maxine Rosenthal foi a responsável pela acusação a Joe Brooks, realizador e compositor vencedor de um Oscar, acusado de 11 crimes de violação, que acabou por cometer suicídio antes de chegar a julgamento. Dentro de alguns anos, quando o movimento Me Too rebentar, será também Maxine Rosenthal a responsável pelo processo contra o produtor de Hollywood, Harvey Weinstein. Por agora, a procuradora está concentrada em preparar o julgamento de Renato Seabra. Vai ser um processo relativamente rápido. Em menos de dois meses e ao fim de apenas 22 sessões, o júri vai chegar a um veredito. A acusação liderada por Maxine Rosenthal vai chamar 22 testemunhas. Já a defesa encabeçada por David Tuger vai chamar apenas duas. Renato Seabra não vai sentar-se no banco de testemunhas, mas vai falar. "Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do ObservadorÉ narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Episódio 6: O júri chegou a uma decisão. Conhecer a verdade muda tudo. Muda histórias, muda caminhos. Na estrada também há escolhas que fazem a diferença. A gama elétrica Kia tem cinco modelos, com opções para todos os estilos de condução e momentos da vida. Uma nova forma de avançar com liberdade em mais de 600 km de autonomia. Gama elétrica Kia. Elétricos sem limites.

Kia. Movement that inspires.

5 de outubro de 2012, quase dois anos depois do crime e após inúmeras audiências preliminares, atrasos e pedidos de adiamento, que deixaram o juiz do Supremo Tribunal de Manhattan à beira de um ataque de fúria, o julgamento de Renato Seabra vai finalmente começar. Justamente no dia de aniversário de Carlos Castro. Maxine Rosenthal não deixa passar a coincidência. É a primeira a falar. Na declaração inicial da acusação, recapitula os três meses que vítima e arguido passaram juntos. Descreve detalhadamente os dias de lua de mel em Nova York. Depois de relatar a descoberta do corpo mutilado do cronista social no interior do quarto 3416, conclui: "E Carlos Castro, que hoje, 5 de outubro, completaria 67 anos se nunca tivesse conhecido Renato Seabra, foi declarado morto". A sala está cheia. A mãe de Renato Seabra está presente, as irmãs de Carlos Castro também. Há dezenas de jornalistas americanos e portugueses. Rodrigo Freixo é um deles.

O Renato estava apático. Ele parecia que não estava lá. Não estava lá. Ele era outra pessoa, era um estranho naquela sala, parecia que estava a viver noutro mundo.

Renato Seabra fez 23 anos há menos de um mês. Passou o último ano e meio preso na cadeia de Rikers Island, de onde foi trazido esta manhã sob forte aparato policial. Ao longo deste período, tem sido observado e analisado por peritos, psiquiatras e psicólogos, contratados pela defesa ou pela acusação. Agora, chegou finalmente a hora de ouvir a argumentação de cada uma das partes. Apesar de nos últimos meses se ter visto obrigado a melhorar o inglês, Renato Seabra conta com a ajuda de um intérprete, que está sentado à direita dele.

O Renato esteve sempre de olhar muito concentrado. Sabe quando tu estás a pensar e olhas o infinito? Centrou-se muito no juiz, mas não se viu muito sentimento, não se viu desespero, por exemplo, não se viu culpa, tampouco.

Ricky Durães também está na sala. É um dos quatro fotógrafos autorizados a registar o julgamento. Só podem fotografar o arguido imediatamente antes da sessão começar e apenas durante 30 segundos. Durante o resto do dia, têm de pousar as câmaras e ficar só a assistir. Maxine Rosenthal terminou a argumentação a acusar Renato Seabra de ter assassinado Carlos Castro movido pela ira, fúria, desilusão e frustração causadas pelo fim da relação. Do lado da defesa, quem faz as declarações iniciais não é David Tuger, mas o colega dele, David Sinnens. Começa por deixar bem assente que este não é um caso de raiva, mas de doença mental. Logo depois, arruma definitivamente a questão da autoria e da violência extrema do crime. A prova mostrará que Renato Seabra matou Carlos Castro naquela divisão de hotel. Isso dizemos já. Mais ainda, mostrar-se-á que durante o incidente, Renato Seabra pegou num saca-rolhas e atacou violentamente Carlos Castro. Aos 12 jurados, escolhidos aleatoriamente a partir de listas públicas de cidadãos residentes no estado de Nova York, não vai ser pedido que decidam sobre se Renato Seabra matou ou não Carlos Castro. A tarefa deles é determinar se ele pode ou não ser responsabilizado criminalmente pela morte. Ou seja, o que lhes é pedido é que decidam se no momento do crime, o arguido tinha capacidade para distinguir o certo do errado ou se, pelo contrário, deve ser considerado inimputável por motivo de doença ou anomalia mental. Para o fazerem, as oito mulheres e quatro homens que fazem parte do júri vão ouvir dezenas de horas de depoimentos de testemunhas e vão poder consultar os milhares de páginas de provas que fazem parte do processo.A defesa fez tudo para tentar riscar um documento dos autos, mas três semanas antes do julgamento arrancar, o juiz decidiu rejeitar a moção interposta pelos advogados de Renato Seabra. Por isso, os membros do júri vão poder ler e ouvir a confissão do arguido. Tudo aquilo que Renato Seabra disse à polícia de Nova York 24 horas depois do crime, vai ser usado em tribunal, muito provavelmente contra ele. Ninguém questiona um ponto: o crime foi cometido com violência extrema. Mas há uma divergência fundamental. O que provocou esse episódio de violência? A acusação acredita que a motivação de Renato Seabra foi a fúria contra Carlos Castro. Chama 22 testemunhas para tentar provar essa tese. Entre elas estão Vanda Pires, a amiga da vítima em Nova York, a empregada de limpeza, que foi a última pessoa a vê-lo com vida, o segurança que descobriu o corpo no quarto de hotel, os detetives que analisaram a cena do crime e interrogaram Renato Seabra, e o taxista que o transportou até ao hospital. Já a defesa argumenta que a violência extrema é a prova de que Renato Seabra estava a sofrer um surto psicótico naquele momento. E só vai chamar duas pessoas para o tentar provar. A primeira é o psicólogo Jeffrey Singer.

Foi um ato extremamente impulsivo e descontrolado. Ficou claro que não houve qualquer planeamento, preparação ou premeditação. Foi uma manifestação psicótica de raiva, no momento em que a pessoa não tinha controle sobre as suas faculdades mentais. Tanto quanto sei, ele nunca tinha tido comportamentos violentos. Também não tinha antecedentes de consumo problemático de substâncias, nem qualquer histórico de doença mental. Pelo que pude perceber, era uma pessoa bastante estável, até se ver envolvido naquela situação. Este conjunto de circunstâncias ultrapassou completamente a capacidade dele de se manter ancorado na realidade. E a forma como assassinou o senhor Castro foi verdadeiramente horrível. Disseram que encontraram três conjuntos diferentes de pegadas de tênis e, obviamente, o saca-rolhas e a castração também têm um significado simbolicamente primitivo e revelam bem o grau de psicose em que ele se encontrava naquele momento.

Jeffrey Singer recorda a brutalidade do crime e ensaia uma explicação para a origem do surto psicótico diagnosticado a Renato Seabra horas depois do crime, nas urgências do Hospital Roosevelt.

Com o passar do tempo, e tanto quanto o Renato sabia, a carreira dele estava na mesma, apesar de estar a cumprir a sua parte do acordo com o senhor Castro. Eventualmente, penso que a incongruência entre a orientação sexual primária do Renato e a sensação de estar a ser extremamente explorado, acabou por ultrapassar a capacidade que ele tinha para lidar com a situação. Além disso, tudo indica que ele já tinha uma vulnerabilidade biológica que o deixou mais propenso a sofrer um episódio maníaco, neste caso, um episódio maníaco psicótico, associado à perturbação bipolar. As circunstâncias alinharam-se todas. Não creio que soubesse verdadeiramente o que lhe estava a acontecer. Estava só a agir como uma pessoa psicótica e a natureza do seu comportamento durante o homicídio reflete isso.

A defesa diz que dois dias antes do crime, Renato Seabra começou a evidenciar sinais compatíveis com o início de um surto. A forma efusiva como se comportou no jantar no Polino's com Vanda Pires e o namorado dela, os brindes que propôs e as queixas que foi fazendo à mãe pelo telefone sobre a comida que tinha um gosto diferente e as noites passadas sem dormir, que compensou com sestas na viagem de carro a Atlantic City. Os advogados de Renato Seabra apoiam-se nos relatórios clínicos e nas avaliações dos peritos contratados pela defesa, mas também no relatório feito pelo único perito chamado pela acusação. William Barr é neuropsicólogo. Esteve com Renato Seabra três vezes, em sessões de duas horas cada, sempre no gabinete da procuradora e sempre na presença de pelo menos um dos advogados de defesa e de um intérprete. Para escrever o relatório apresentado agora em tribunal, para além de avaliar o arguido, consultou os autos da polícia, o relatório elaborado por Roger Harris, o psiquiatra contratado pela defesa, e entrevistou Vanda Pires e Mónica Pires, filha dela. É justamente em declarações feitas por Vanda Pires a William Barr que a defesa se apoia para tentar convencer o júri de que Renato Seabra não pode ser responsabilizado pelo crime. "O Renato parecia completamente louco e estava muito acelerado", descreveu Vanda ao neuropsicólogo.Mais, quando Carlos lhe ligou no dia do crime, nitidamente com medo de Renato, disse-lhe que parecia que ele tinha dupla personalidade. Para a defesa, é uma prova irrefutável. Até a testemunha principal da acusação, a melhor amiga de Carlos Castro em Nova York, diz que Renato Seabra não estava mentalmente são. Na confissão que fez à polícia e que o detetive Richard Tirelli leu na íntegra aos jurados, Renato Seabra disse que Carlos Castro lhe revelou que já tinha antecipado a viagem de regresso a Portugal. Para David Tuger, isso não prova nada. O advogado de defesa garante que Renato Seabra não matou Carlos Castro porque ele queria voltar para casa mais cedo e terminar a relação. Até porque Renato também disse na confissão que achava que Carlos estava a dizer aquilo só para o irritar. Mas esta justificação vai ser igualmente rebatida. E a acusação tem uma testemunha e várias fotografias para o comprovar. A funcionária do Hotel Intercontinental, que na tarde do crime pôs os novos bilhetes de avião debaixo da porta do quarto 3416, e as inúmeras imagens captadas pela equipe forense, que mostram a capa azul onde os bilhetes estavam guardados, aberta e vazia em cima da cama. Em inglês, existe uma palavra que exprime o ato de simular ou fingir os sintomas de uma doença: malingering. Esta palavra vai ser central para o caso e ao longo de todo o julgamento vai ser repetida 133 vezes. Jeffrey Singer foi o último dos três peritos a avaliar Renato Seabra. Falaram nos dias 16 de julho e 9 de agosto de 2012, mais de um ano e meio depois do crime. Ainda assim, é no relatório assinado por este psicólogo que surge um dos detalhes mais perturbadores sobre o homicídio de Carlos Castro. Há uma coisa que Renato Seabra revelou a Jeffrey Singer, que não contou a mais ninguém. Acha que depois de matar o cronista social, bebeu parte do sangue dele. No contrainterrogatório ao psicólogo contratado pela defesa, a procuradora reage a esta descrição com uma das palavras que mais usou durante todo o julgamento: malingering. O arguido está a inventar sintomas para tentar parecer maluco. O relatório assinado por William Barr vai exatamente nesse sentido. O neuropsicólogo contratado pelo Ministério Público acusa Renato Seabra de acrescentar detalhes e piorar a história de cada vez que conta a versão dele dos fatos. E dá três exemplos para o comprovar. Um: aos detetives da Polícia de Nova York, Renato Seabra contou apenas que cortou os pulsos tomado por um instinto animal. Mas seis meses mais tarde, ao psiquiatra Roger Harris, contratado pela defesa, Renato deu mais uma informação. Revelou que depois disso, pousou os testículos de Carlos Castro sobre os próprios pulsos feridos para ter proteção. E disse: "Misturar o sangue dele com o meu era proteção". Dois: a primeira vez que Renato Seabra disse a alguém que tinha assassinado Carlos Castro depois de ouvir vozes, também foi durante uma das sessões com este psiquiatra. Três: também foi a este médico contratado pela defesa que ele relatou uma suposta profecia que lhe teria sido revelada através de números numa pulseira. "Eu era o escolhido, como no Matrix. Eu tinha de erradicar o mal. Era a minha missão erradicar o mal e começou com o Carlos. Foi-me dada essa profecia", pode ler-se no relatório entregue ao tribunal no dia 27 de julho de 2011. Quando o caso da defesa parece não poder piorar mais, William Barr faz outra revelação. Acusa o advogado David Tuger de ter interferido durante a avaliação psicológica que fez a Renato Seabra. Diz que no final da segunda de três sessões, o advogado de defesa o chamou de volta à sala. Renato tinha se esquecido de lhe dizer uma coisa. "No final da entrevista, tínhamos estado a discutir a ideia de que o senhor Seabra teria retirado um demônio do senhor Castro e a informação adicional que ele queria que eu soubesse era que esse demônio, na verdade, era a homossexualidade", conta o neuropsicólogo. Questionado pela procuradora sobre se esse foi o único momento em que a defesa tentou interferir no trabalho dele, o perito contratado pela acusação diz que não. "Houve outra altura em que me disseram que havia um historial de abuso na família". Não há em todo o processo qualquer outra referência a estes alegados abusos. No relatório do psicólogo da defesa, Jeffrey Singer, pode ler-se que Renato Seabra teria sido vítima de abusos sexuais com apenas oito anos, mas o agressor é identificado como um vizinho. Este é também o único momento em todo o caso em que o assunto é referido.O perito contratado pela acusação diz ainda que Renato Seabra não exagerou apenas nos sintomas. Foi erradamente diagnosticado com perturbação bipolar. "Não vi nenhuma das normas de elevação do perfil que se observam na perturbação bipolar ou, mais importante ainda, das características residuais que se veriam numa pessoa que supostamente tivesse tido um episódio maníaco há um ano. Mas vi elevação noutra escala", diz ao microfone, sentado no banco de testemunhas. Guiado por Maxine Rosenthal, o neuropsicólogo está prestes a dar o golpe final. Explica que, segundo os testes que fez, na escala que mede a hostilidade, a capacidade de manipulação e a raiva, Renato Seabra teve resultados expressivos. Quando a procuradora lhe pergunta em que situações costumam registar-se este tipo de valores, William Barr tem a resposta pronta: "Isto observa-se frequentemente em pessoas que são delinquentes violentos, pessoas que cometeram crimes violentos. Na verdade, as prisões estão cheias de pessoas que apresentaram elevações nesta escala". Na fase final do julgamento, Renato Seabra vai deixar de estar presente nas sessões. O interrogatório do psiquiatra Roger Harris, contratado pela defesa para o avaliar, vai a meio. As testemunhas já foram quase todas ouvidas, mas Renato nem sempre foi capaz de permanecer impávido perante os argumentos da acusação. Chegou a ser chamado a atenção pelo juiz, por estar a rir ou por falar demasiado alto. Agora, ao 18º dia, o advogado David Tuger pede ao juiz que o cliente seja autorizado a ausentar-se. "É muito claro que ele não quer estar aqui." Até ao resto do julgamento, Renato Seabra vai ter de continuar a fazer diariamente a viagem desde a prisão de Rikers Island até ao tribunal no centro da cidade. Mas em vez de sentado no banco dos réus, vai permanecer numa cela sozinho, no topo do edifício. Quando o juiz manda perguntar se Renato mudou de ideias, ele faz saber que só à força o poderão levar a assistir ao resto do próprio julgamento. Mantém-se assim, irredutível, até 30 de novembro de 2012. Só no dia do veredito é que vai finalmente voltar à sala de audiências. Nas alegações finais, David Tuger demorou três horas e um quarto a tentar convencer os jurados da inimputabilidade de Renato Seabra. Descreveu-o como um miúdo de 21 anos de uma pequena aldeia em Portugal, na sua primeira viagem à América. Explicou-lhes que se o declararem não responsável por motivo de doença mental, Renato Seabra não vai ser libertado. Bem pelo contrário, disse-lhes: "Provavelmente ficará institucionalizado para o resto da vida". E atacou, sobretudo, o depoimento do neuropsicólogo contratado pela acusação, William Barr. Julga que é a pessoa mais esperta da sala e diz que toda a gente está a mentir, menos ele. A procuradora Maxine Rosenthal foi mais breve. Defendeu a posição do perito da acusação e questionou, por uma última vez, a tese da insanidade do arguido. Se ele estava tão tresloucado, por que é que durante o crime retirou o telefone do auscultador, fechou as cortinas, roubou dinheiro à vítima e à saída colocou o sinal de não incomodar na porta do quarto? Um cavalete, um bloco de folhas A3, uma lupa, a planta do quarto 3416 feita pela polícia de Nova York e o relatório do detetive Richard Tirelli. Foi tudo o que os 12 jurados pediram ao tribunal quando se fecharam na sala para deliberar. São inesperadamente rápidos. Em apenas seis horas, o juiz é informado de que o júri chegou a um veredito. Quando finalmente a porta-voz comunica a decisão a que chegaram, Renato Seabra está na sala. Ouve a decisão e ouve os jurados confirmarem um a um. É considerado culpado do crime de homicídio em segundo grau. E permanece impassível, recorda Rodrigo Freixo.

As únicas sensações que saíam do Renato, que eu me recordo na altura, já passou muito tempo, mas era aquele baixar de cabeça dele. Não sei se era um resignar, se era um "não sei o que estou aqui a fazer ainda". Era muito difícil de avaliá-lo, era difícil perceber quem era aquela pessoa que estava ali. Não o conhecendo antes, é difícil dizer, mas falando com amigos, família, colegas da escola secundária dele e toda a gente, aquela pessoa que nós vimos ali em tribunal e aquela pessoa que nós vimos naquele processo não era o Renato Seabra, não era o miúdo de Cantanhede que toda a gente nos disse que era incrível, que era isto e era aquilo. Ou seja, não estamos aqui à frente de um assassino que de repente acordou e começou a efetivamente a matar pessoas. Não acho que seja esse o caso. Acho que há ali algo, efetivamente, que despoletou isso e acredito que mentalmente ele tenha ficado afetado.

Renato Seabra vai ter de passar pelo menos 15 anos na prisão. É essa a pena mínima prevista para os crimes de homicídio em segundo grau no estado de Nova York. No máximo, pode ser condenado à prisão perpétua. Antes do juiz revelar finalmente a sentença, Renato Seabra vai pedir a palavra pela primeira vez ao tribunal. É o dia 21 de dezembro de 2012. Renato Seabra quer pedir desculpa à família e aos amigos da vítima. Assume: cometeu o crime. Matou Carlos Castro. Mas diz que não sabe por que motivo o fez, que nunca antes tinha sido agressivo, que não sabe o que se apoderou dele naquele dia e que não compreendeu a forma como as coisas se passaram. "No momento em que entrei no quarto, nesse dia, algo tomou conta de mim". Depois, coloca-se nas mãos do juiz. "Aceito qualquer pena que o juiz me quiser aplicar, porque cometi o crime. E agora, só Deus sabe o que aconteceu naquele dia". 25 anos a prisão perpétua. Quando o juiz profere a sentença, a mãe de Renato Seabra desfaz-se em lágrimas.

Via-se na cara dele, via-se nos olhos dele. Ele não estava nele, não era uma pessoa normal que estava ali. Eu acho que ele estava ali quase anestesiado a viver todo aquele momento e a tentar perceber o que lhe aconteceu. E a mãe desesperada.

O juiz justifica a pena. Diz que o crime é um exemplo arrepiante da desumanidade do homem para com o homem. Em janeiro de 2013, Renato Seabra vai sair de Rikers Island para ser enclausurado noutra prisão de alta segurança, mais a norte. A prisão de Clinton fica numa zona isolada e gelada, perto da fronteira com o Quebec, e é conhecida como a Pequena Sibéria. Aloja alguns dos criminosos mais violentos do estado de Nova York. É a partir da cela que ocupa em Clinton, que Renato Seabra responde às cartas de uma jornalista portuguesa que acompanhou o processo em tribunal. São mensagens privadas. A primeira coisa que Renato escreve à jornalista, em junho de 2013, é que não se sente à vontade para dar uma entrevista. Ainda assim, as mensagens acabam a ser reveladas na imprensa e no livro sobre o caso. Nelas, Renato Seabra conta como tenta manter-se ocupado a ler, escrever e ver televisão. E como nos dias piores, cede à tristeza, chora, reza e pede a Deus ajuda e uma redução de pena. Mas não responde à pergunta mais importante: por quê?

Até hoje, gostava muito de perceber o que aconteceu, porque nada fazia parecer que este miúdo fosse um, sei lá, nem sei que palavra dizer, porque o que ele fez não tem justificação, é mau demais para poder sequer tentar entender.

Quinze anos depois, o psicólogo Jeffrey Singer continua a garantir: não acredita que Renato Seabra tenha exagerado ou fingido sintomas.

Tudo é possível, mas para simular uma coisa dessas, teria de haver sinais de psicopatia extrema, de grande astúcia e manipulação. Muito antes disso acontecer, teríamos que ter visto alguma coisa para alguém ser tão demoníaco. Ele era um modelo de roupa interior. Para mim, era um tipo simples. Era um homem extraordinariamente bonito, mas psicologicamente era muito simples. Não tinha a complexidade necessária para ser assim tão maquiavélico.

O fato do júri o ter considerado culpado e imputável não significa que Renato Seabra não sofra ou tenha sofrido no momento do crime, de doença mental. Significa apenas que quando assassinou Carlos Castro, Renato Seabra tinha capacidade para distinguir o certo do errado. Quinze anos depois do crime, Renato Seabra já não está na prisão de Clinton. Foi transferido para Attica, outra prisão de alta segurança no norte do estado de Nova York, junto às cataratas do Niagara. David Tugar também já não é o advogado dele. Em 2014, a família contratou Scott Pete Holman, um ex-procurador de homicídios, agora advogado especializado em crimes econômicos, crimes violentos e infrações relacionadas com drogas, que já representou Courtney Love, a viúva de Kurt Cobain. Uma das primeiras ações do novo advogado de Renato Seabra foi interpor um recurso para tentar uma redução de pena, alegando que o anterior advogado não o tinha defendido eficazmente. Em fevereiro de 2018, esse recurso foi interferidoAgora, em 2026, Scott Bitelman está a ultimar um novo recurso, desta vez para impugnar a condenação. O advogado diz que está a trabalhar há meses para preparar a moção, que vai incluir uma declaração de Renato Seabra. E revela: desta vez, Renato Seabra está preparado para depor e para se submeter ao contra-interrogatório da acusação. Se, tal como o primeiro, este recurso também for recusado, Renato Seabra terá apenas uma outra hipótese de sair da cadeia: dar início ao pedido de liberdade condicional. Mas só poderá fazê-lo em setembro de 2035, dentro de nove anos. O jornalista Ricky Durães acredita que as probabilidades de esse pedido ser aceite são elevadas.

Tem muito a ver com o país de origem. Eu acredito que, devido ao facto de ser português, é muito possível que ele consiga a liberdade, porque ele vai ser depois deportado. Neste momento, ele é um custo pro governo norte-americano. Se não há possibilidades de reincidência, se há um comportamento normal, eu não vejo por que não. Se fosse um cidadão americano, era diferente, poderia haver outros fatores. Neste caso concreto, eu acredito que será uma opção bastante viável. Eu acredito que daqui a 10 anos ele poderá estar em liberdade.

Significa que, se tudo o resto falhar, a partir do dia 1 de março de 2036, Renato Seabra poderá finalmente regressar a casa. O jovem de 21 anos que embarcou num avião com Carlos Castro para Nova York terá, nessa altura, 46 anos. O Observador tentou falar com o pai, a mãe, a irmã, com o antigo e o atual advogado e com o próprio Renato Seabra. Nenhum deles aceitou ser entrevistado. "Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia e o desenho de som são de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Verazzo Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.