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Está na hora de falarmos de desporto e conhecermos outras histórias com a jornalista do Observador, Mariana Fernandes. Olá, Mariana, bom dia.
Olá, bom dia.
E começamos nos Jogos Olímpicos de Inverno.
Nos Jogos Olímpicos e com um pezinho na Rússia. Não é preciso estar muito atento aos Jogos Olímpicos de Inverno para perceber que a grande história da competição está a girar à volta de Kamila Valieva, a patinadora russa de apenas 15 anos, que impressionou o mundo inteiro com uma coreografia muito complexa, que foi medalhadora no programa curto, mas que entretanto terá testado positivo para uma substância proibida em dezembro, voltando a levantar os fantasmas de doping no desporto russo. Especulações de lado, a verdade é que uma cota parte do sucesso de Kamila Valieva pertence a Eteri Tutberidze, a treinadora de 47 anos, que até há bem pouco tempo parecia ter um toque de Midas e que agora está a ser cada vez mais criticada.
Mas por que está a ser criticada, Mariana?
Só para termos uma ideia, esta treinadora fez um pequeno milagre na patinagem artística da Rússia. Até 2014, nos Jogos Olímpicos de Sochi, a Rússia não era propriamente uma potência na patinagem artística feminina, estava até bastante atrás dos restantes países. Atualmente, conquista praticamente todas as medalhas e tem patinadoras a realizar elementos que mais ninguém consegue sequer tentar, como é o caso dos saltos quádruplos, os saltos em que as patinadoras dão quatro piruetas no ar antes de regressarem ao chão. O problema, ao que parece, está na forma como Eteri Tutberidze levou as atletas até este nível. Há relatos de dietas extremas que implicavam ingerir apenas nutrientes em pó às refeições e que até proibiam a ingestão de água. Quase todas as antigas patinadoras lutam agora contra distúrbios alimentares. Muitas têm lesões na coluna para o resto da vida e existe um número alarmante de fins de carreira aos 17, aos 18 e aos 19 anos, porque muitas destas atletas acabam, pura e simplesmente, por deixar de conseguir saltar devido às dores nas costas.
Esses relatos são um pouquinho preocupantes, mas afinal, quem é essa treinadora, Mariana?
Ela nasceu em Moscovo, em 1974. Começou por fazer patinagem artística, mas teve uma fratura na coluna na adolescência, para além de ter dado um pulo de 22 centímetros e acabou por passar para a dança no gelo. Esteve seis anos nos Estados Unidos, onde casou, onde teve uma filha e voltou à Rússia já no início deste século, para abrir um estúdio em nome próprio em Moscovo e começar então a dar aulas. A base de todo este método, que é agora colocado em causa, é um certo patriotismo, já que esta treinadora lembra sempre todas as alunas que têm a palavra Rússia escrita nas costas dos casacos que vestem nas competições internacionais e têm de respeitar a honra de representarem o país. Já foi condecorada por Vladimir Putin em pleno Kremlin e é a grande responsável pelo facto de a Rússia, nesta altura, ser uma potência mundial na patinagem artística feminina. Resta saber ainda a que custo.
E da Rússia, ou se quisermos, dos Jogos Olímpicos de Pequim, passamos para a Noruega.
Sim, e aqui trocamos e passamos para a Noruega, mas ainda com um pezinho nos Jogos Olímpicos de Inverno, que estão a decorrer em Pequim. Isto porque atualmente a Noruega é o país com mais medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos. Tem 28 e leva já 13 medalhas de ouro, o que significa que tem mais três do que a Alemanha, mais cinco do que os Estados Unidos, mais seis do que a China e essencialmente mais nove do que a delegação do Comitê Olímpico Russo. É um país com 5 milhões e meio de pessoas, cerca de metade da população portuguesa, que está a dominar por completo os Jogos Olímpicos, com uma transversalidade que é impressionante, já que consegue medalhas em praticamente todas as modalidades. Claro que a geografia e o clima ajudam muito, porque a Noruega é um país com muitos dias de neve por ano, onde as modalidades de inverno são muito populares e onde os atletas podem treinar sem terem de emigrar, sem terem de sair do país. Mas a verdade é que nem tudo pode ser explicado por aí.
Então, como é que se explica?
A Noruega tem uma abordagem ao desporto e à introdução à prática desportiva que é um pouquinho diferente daquilo que é a realidade dos outros países. O sistema norueguês coloca o desporto como caminho para a saúde mental e física, e as competições infantis e juvenis nem sequer têm classificações. Portanto, os jovens só começam a receber medalhas e a subir a pódios depois de praticarem as respetivas modalidades durante alguns anos. E a prova de que esta mentalidade resulta, para além do efeito prático que está à vista de todos, está nas declarações, por exemplo, de Vetle Christiansen, uma destas 13 medalhas de ouro da Noruega em Pequim, que explicou que o sistema do país não está configurado para o êxito, mas sim para a alegria, para a felicidade e para a saúde, o que não deixa de ser um contraste interessante com a realidade da patinagem artística russa.
Mariana, terminamos estas outras histórias em Inglaterra.
E terminamos com o Joe, um adepto de apenas seis anos do Swindon Town, um clube que joga na quarta divisão de Inglaterra. O Joe enviou uma carta ao clube, escrita à mão, onde dizia que nunca tinha ido ver um jogo ao estádio porque a mãe tinha de pagar a comida e não conseguia levá-lo. O pormenor aqui, para além da história ser obviamente emocionante, é que o Joe também diz que tem um jogador preferido, o avançado Harry McCurdy, e em conjunto com a carta, enviou 30 cêntimos para o jogador, colocou três moedas com fita-cola coladas à carta e escreveu para o Harry, quase em recompensa por não poder ir ver os jogos. O Swindon Town obviamente partilhou a história nas redes sociais, já está a tentar identificar o Joe e a mãe, sendo que também já está a decorrer uma angariação de fundos para levar o jovem adepto a todos os jogos que o Swindon Town ainda vai fazer em casa até ao fim da temporada.
Isto é maravilhoso. E assim chegamos ao fim das outras histórias do desporto com a jornalista Mariana Fernandes. Amanhã há mais para conhecer. Obrigada, Mariana. Até amanhã.
Até amanhã.