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E hoje temos uma edição especial do "Outras Histórias do Desporto". Está em estúdio a Mariana Fernandes. Olá, Mariana, bem-vinda.
Olá, boa tarde.
Boa tarde. E vamos começar por perceber como é que esta guerra na Ucrânia chega também ao desporto. E vamos começar com uma demonstração de apoio ontem, no Estádio da Luz. O Estádio da Luz inteiro esteve a aplaudir Yaroslav Tsygankov, o avançado ucraniano do Benfica, e nós temos aqui um registo desse momento. Vamos ouvir. Foi um momento que correu também as redes sociais, Mariana.
Sim, a verdade é que correu as redes sociais no mundo inteiro. Os jornais também no mundo inteiro, está a ser notícia no mundo inteiro. Foi o grande momento da noite, foi o grande momento da jornada, diria até que será o grande momento, talvez, desta temporada do campeonato. Foi ao minuto 62 deste jogo do Benfica contra o Vitória de Guimarães, no Estádio da Luz. Darwin saiu, Yaroslav Tsygankov entrou e recebeu esta ovação gigantesca que pudemos ouvir por parte dos adeptos encarnados, que tinham demonstrado esse apoio, na verdade, desde o início, com bandeiras da Ucrânia, com cartazes, com mensagens que foram aparecendo nas bancadas ainda antes do início do jogo. E antes de entrar em campo, Yaroslav Tsygankov recebeu então a braçadeira de capitão das mãos de Vertonghen, num momento simbólico que o Benfica criou para homenagear e apoiar o jogador e que o deixou claramente surpreendido. E o que se passou ontem na Luz e que se seguiu, obviamente, ao festejo de Yaroslav Tsygankov depois de marcar o segundo gol do Benfica contra o Ajax, quando tirou a camisola para mostrar outra que tinha o símbolo nacional da Ucrânia, foi um quase três em um, que está a correr o mundo, como dizias, e que é hoje notícia em praticamente todo lado e que mostrou três coisas: o apoio incondicional de um clube a um jogador, espelhado na questão da braçadeira, obviamente, e nas declarações também de Darwin e do próprio treinador, do Nelson Veríssimo, que explicaram que o balneário está completamente ao lado de Yaroslav Tsygankov; o apoio incondicional dos adeptos a um jogador, espelhado até nas muitas crianças que estavam nas bancadas com cartazes ou com bandeiras, que podem até não perceber exatamente o que se está a passar na Ucrânia, mas que já perceberam que é preciso ajudar, é preciso apoiar aquela pessoa que ali está; e claro, o apoio incondicional de uma equipa a um jogador, porque ficou claro que todos os jogadores do Benfica quiseram oferecer a Yaroslav Tsygankov um gol contra o Vitória de Guimarães, que acabou por não aparecer. E esse três em um ficou também claro na emoção do avançado ucraniano, que não chegou a deixar cair as lágrimas, mas que ficou claramente emocionado com tudo o que se passou e que tem, obviamente, motivos para isso. Ele depois deixou também uma curta mensagem nas redes sociais a agradecer o apoio em nome da Ucrânia, em nome do povo ucraniano. E é óbvio que aconteça o que acontecer, a Yaroslav Tsygankov no Benfica, tenha ou não sucesso desportivo, pelo menos já não se esquecerá daquilo que os adeptos portugueses lhe deram preferencialmente neste jogo contra o Vitória de Guimarães.
Sim, não esquecerá esse apoio de todos os benfiquistas. Vamos continuar com o Nelson Monte, o jogador português que estava a jogar na Ucrânia e que conseguiu voltar para Portugal entretanto, Mariana.
Sim, o Nelson chegou a Portugal já perto das 11 da noite no sábado e fez um relato um bocadinho inacreditável daquilo por que passou, por que teve de passar para conseguir sair da Ucrânia. Ele joga no Dnipro e apesar de até ter explicado que a cidade de Dnipro é nesta altura um dos lugares mais seguros no país, não quis arriscar e começou a reunir informação para voltar a Portugal assim que a invasão da Ucrânia por parte da Rússia começou de forma oficial. Foi apoiado pelo governo português, pela embaixada portuguesa na Ucrânia, pelo sindicato de jogadores, pela Federação Portuguesa de Futebol e até pela própria Câmara Municipal de Vila do Conde, de onde ele é natural. Ele jogou no Rio Ave, até. E quando chegou já no aeroporto, acabou por então contar os primeiros passos de uma viagem que, na verdade, não foi mais do que uma fuga.
É de loucos. Eu quando acordei com o bombardeamento, há três dias, basicamente nós estrangeiros que vivíamos em Dnipro organizámo-nos e fugimos para o centro de estágio do clube para tentar perceber o que era para fazer. E a informação que nos deram era para ir para Lviv. E enquanto estávamos no centro de estágio, ou seja, eu quando estava em casa ouvi duas bombas, e quando estava no centro de estágio a organizar as coisas para o que íamos fazer, foi quando arrebentou outra e escondemo-nos dentro de um bunker dentro do centro de estágio. E entretanto fizemos a estrada e quando já estávamos mais ou menos a 40 minutos da estrada, tivemos a informação que podíamos ficar no hotel do nosso presidente a pernoitar, que era um local seguro, apesar que neste momento não havia locais seguros, para mim, em lado nenhum.
O Nelson Monte, por ter sido uma história que surgiu tão rapidamente, ou seja, logo na quinta-feira, depois daquela madrugada em que todos nos apercebemos que a guerra tinha, de fato, começado, começaram logo a surgir notícias de que o Nelson Monte era o único jogador português a jogar na Ucrânia, de que era o jogador que queria sair, que queria fugir de forma imediata, tanto que ele na altura nem falou, nem teve grandes declarações à comunicação social portuguesa, só a partir do momento em que se percebeu que estava em segurança e que ia conseguir voltar a Portugal é que começou a falar de forma mais extensa. Tornou-se um bocadinho, por tudo isso, a grande figura da ligação portuguesa, obviamente, pelo menos no que toca ao desporto, a tudo o que se está a passar na Ucrânia. E quando chegou aqui no aeroporto também ainda explicou que, na verdade, nunca pensou sequer na possibilidade de não conseguir regressar a Portugal.
Nunca me passou isso pela cabeça. Aquilo que eu mais pensava era nos meus filhos, na minha mulher, na minha família, mas era não saber como é que ia chegar a Portugal, porque ainda hoje na fronteira foi muito complicado para passar à fronteira, porque quando eu chego lá de carro, era uma fila inacreditável, porque para além das estradas fracas, existia o trânsito e era uma fila incrível para fugir do país. Então o que eu fiz foi deixar o carro mais ou menos a 10 quilômetros da fronteira e fazer o resto do percurso a pé para passar. Mas o problema é que quando chego à fronteira Só estavam a deixar sair mulheres e crianças.
Esta ligação de Portugal a tudo o que se está a passar na Ucrânia também passou, obviamente, por Paulo Fonseca, que faz parte deste voo de repatriamento que chega hoje a Portugal, vindo de Kiev.
Sim, às onze da noite.
Exatamente, porque o antigo treinador do Shakhtar Donetsk ficou retido na capital ucraniana com a mulher, que é cidadã ucraniana, e com os filhos também. Mas a verdade é que as instituições portuguesas não têm apoiado apenas os cidadãos portugueses que estão na Ucrânia e têm recebido muitos pedidos de ajuda também de jogadores e jogadoras brasileiros que, obviamente, pela proximidade da língua e por verem que os organismos portugueses estão a conseguir, de facto, resgatar todos os que estão na Ucrânia e que querem voltar, pedem ajuda a Portugal. E foi precisamente isso que nos disse hoje Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores, em entrevista no programa "Nem tudo que vai a rir é bola", aqui da Rádio Observador, que revelou então que jogadores e jogadoras brasileiros têm pedido aos portugueses os contactos do sindicato para pedirem ajuda e para conseguirem sair da Ucrânia da forma mais breve possível.
Bom, Mariana, nesta edição especial do Outras Histórias do Desporto, vamos falar também da liga inglesa, porque este fim de semana foi também marcado por várias homenagens, não é?
Sim, Premier League raramente desilude nestas questões e nestas ocasiões. E desta vez também cumpriu e praticamente todos os jogadores fizeram o aquecimento com camisolas negras, com a mensagem "não à guerra". E praticamente também todos os jogadores tiveram homenagens mais espontâneas ou mais ponderadas, como o caso do West Ham, a levar para dentro de campo a camisola de Yarmolenko, avançado ucraniano que foi dispensado pelo clube durante uns dias devido a tudo o que se está a passar na Ucrânia, a pedido do próprio, e o Everton a apresentar também enormes tarjas em tons de azul e amarelo em Goodison Park. Foi neste jogo, aliás, que esteve a grande figura de tudo isto em Inglaterra, Zinchenko, lateral ucraniano do Manchester City, portanto colega de equipa de Bernardo Silva, de João Cancelo, de Rúben Dias. Já tinha apoiado o gesto de Yaremchuk, precisamente na Liga dos Campeões. Já tinha deixado também uma mensagem um bocadinho agressiva dirigida a Putin nas redes sociais, que ele próprio também acabou por apagar. E foi o protagonista deste jogo da Premier League, sem sequer precisar de sair do banco de suplentes. Ainda durante o aquecimento, correu até à zona do meio-campo para abraçar Mykolenko, ucraniano do Everton, portanto jogador adversário, e depois não conseguiu evitar as lágrimas quando todo o estádio fez então a tal homenagem com bandeiras ucranianas antes do apito inicial. Na segunda parte, ficou até a ideia de que Guardiola quase pôs Zinchenko a aquecer só para que este pudesse falar com Mykolenko, que também estava a realizar exercícios de aquecimento junto à linha de fundo. Os dois jogadores tiveram a conversa durante largos minutos e Zinchenko é mesmo uma das caras, nesta altura, da resistência que o desporto tem demonstrado à invasão da Ucrânia por parte da Rússia.
Certo, e esse também foi o momento que correu as redes sociais. Mariana, nas outras modalidades, este conflito também tem sido o tema em praticamente todo o lado.
Como não podia deixar de ser, o Comité Olímpico Internacional pediu o cancelamento de todas as provas e competições desportivas que estavam marcadas para a Rússia e quase todas as modalidades têm seguido esta linha de pensamento, com o rugby, a natação, o xadrez e o basquetebol, só para citar alguns casos, a retirarem as competições do país. Num caso muito específico, a Federação Internacional de Judo já anunciou que suspendeu o título de presidente honorário e embaixador que Putin tinha, ele que é cinturão negro desde os 18 anos, sendo que a Ucrânia desistiu da Taça do Mundo de Esgrima, que está a decorrer no Egito, por não querer defrontar a Rússia nas etapas de final.
"We cannot face today against them while our families are in danger. Everybody in danger. So that's why we can't fence. This is our protest. Thank you."
Quem é que estamos a ouvir neste som, Mariana?
Estamos a ouvir o capitão da seleção de esgrima da Ucrânia, que numa tradução muito livre explica aos delegados que a equipa não pode competir contra a Rússia quando tem as famílias em perigo em casa, quando todos os cidadãos ucranianos estão também em perigo. As palmas que se ouvem no fim são também de dois dos jogadores russos que tiveram essa coragem de aplaudir a decisão dos adversários. Os jogadores ucranianos saíram do recinto com um cartaz onde se lia: "Parem a guerra, salvem a Ucrânia" e parece-me que o gesto foi apenas o primeiro capítulo daquilo que muito provavelmente vamos começar a ver repetido em várias modalidades.
E vamos terminar com uma decisão tomada hoje pela UEFA.
Uma decisão que vai abrir um precedente e que dificilmente vai ser isolada. A UEFA decidiu afastar o Spartak Moscovo da Liga Europa, o que significa que o Leipzig da Alemanha, e onde joga o português André Silva, vai passar automaticamente para os quartos de final e que os russos foram praticamente desclassificados. É um passo que acaba por encaixar com aquilo que tem sido a postura da UEFA, que demorou também poucas horas a decidir que a final da Liga dos Campeões ia mesmo sair de São Petersburgo para Paris, num processo que foi muito mais célere até do que aquilo que era expectável. Por outro lado, a FIFA tem tido posições um bocadinho mais limitadas e conservadoras. Depois da República Checa, a Suécia e a Polónia terem recusado jogar contra a Rússia no playoff de acesso ao Mundial, a FIFA anunciou que a Rússia não poderá jogar em casa, mas sim sempre em campo neutro, e que não poderá jogar sob o próprio hino nacional ou a própria bandeira, algo que se assemelha, por exemplo, às sanções aplicadas pelo Comité Olímpico Internacional em relação aos casos de doping, para além de que os jogos também serão sempre à porta fechada. A Polónia mantém a posição, a Suécia também, dizem que não jogam contra a seleção russa, independentemente do nome, independentemente da bandeira. Este será um problema que a FIFA terá de resolver nos próximos dias, sendo que, e é também uma notícia de última hora que está ali a passar nos rodapés das televisões, a imprensa inglesa está a avançar que a FIFA vai mesmo avançar com a exclusão de todas as seleções russas, todas as equipas russas do futebol internacional. É ainda algo que não é obviamente confirmado, que a FIFA ainda não confirmou, mas que a acontecer vai também deixar, e temos de pensar um bocadinho nisso também, vai também deixar muitos atletas russos sem saberem propriamente o que fazer daqui para a frente.
Mariana, este é um assunto que vamos continuar a acompanhar contigo também. Obrigada. A Mariana Fernandes é jornalista do Observador e juntou-se a nós nesta edição especial do Outras Histórias do Desporto. Pode ouvir o Outras Histórias do Desporto no horário normal, nas manhãs 360, de segunda a sexta-feira, depois das 07h45.