O bastonário da Ordem dos Médicos (OM) considerou esta quinta-feira “inadmissível” a morte de um homem de 87 anos após mais de 10 horas à espera nas urgências do hospital de Portimão e revelou já ter pedido esclarecimentos à ULS do Algarve.
“É absolutamente lamentável, é inadmissível. Alguém que procura precisamente o local adequado para ver a sua vida conservada é precisamente nesse local onde perde a vida”, disse à agência Lusa Carlos Cortes, à margem do encontro “Rumo para a Saúde”, em Lisboa, organizado pela Ordem dos Médicos.
Perante a situação, a Ordem dos Médicos pediu esclarecimentos à Unidade Local de Saúde (ULS) do Algarve para perceber o que aconteceu e para que sejam desenvolvidos “mecanismos em todo o país para uma situação destas não voltar a acontecer”.
“Nós não sabemos exatamente quais foram os motivos, quais foram as causas, daí a Ordem dos Médicos ter imediatamente reagido e ter pedido à ULS esclarecimentos sobre esta situação”, explicou.
Carlos Cortes alertou que são este tipo de situações que “fazem com que as pessoas percam a confiança no Serviço Nacional de Saúde”.
“Quando uma pessoa, para ver a sua vida salva, vai para o hospital, exatamente para o local adequado para ser atendido, que é um serviço de urgência, acaba por perder a vida no seu serviço de urgência, eu lamento muito, mas isto tem que levar a uma enorme reflexão do poder político e da tutela, o que é que se está a passar no Serviço Nacional de Saúde para estas situações, que nunca deveriam acontecer, estarem a acontecer neste momento”, salientou.
Questionado sobre o que poderá ter impedido a observação médica do doente mais cedo, Carlos Cortes disse estar a aguardar os esclarecimentos da ULS do Algarve, recordando que é uma instituição “com enormes dificuldades, com um quadro de profissionais de saúde, um quadro médico, que não é compatível com a pressão e com as necessidades da região”, que tem uma população “muito flutuante”, que chega a triplicar no verão.
Para o bastonário, o Ministério da Saúde e a Direção Executiva do SNS devem ter em conta as necessidades específicas de cada unidade de saúde, em vez de aplicar os mesmos critérios a todo o país.
“Há algumas [unidades] que necessitam de uma discriminação positiva”, sustentou, apontando o Hospital de Portimão, mas também hospitais do interior e serviços de hospitais centrais nas grandes cidades, onde, afirmou, se registam dificuldades crescentes na resposta.
“Alguma coisa tem que se fazer (…) a estagnação só está a destruir o SNS e nós temos que saber reinventá-lo”, acrescentou.
A ULS do Algarve e a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde já anunciaram que vão avançar com um inquérito para apurar as circunstâncias da morte do idoso, triado com pulseira amarela.
ULS do Algarve e IGAS instauram inquéritos à morte de idoso na Urgência depois de 10 horas à espera
Em declarações à Lusa, o presidente do conselho de administração da ULS do Algarve, Tiago Botelho, afirmou que conforme os dados recolhidos pela instituição, o utente terá aguardado “cerca de 10 horas” até ser chamado para observação médica na urgência do Hospital de Portimão, serviço a que recorreu por volta das 17h00 de terça-feira.
O utente foi chamado para atendimento por volta das 04:00 de quarta-feira, não tendo respondido à chamada, sendo encontrado pelos enfermeiros “inconsciente na sala de espera”, explicou, rejeitando ainda informação de que o homem tenha morrido na sala de espera.
O bastonário alertou ainda para o aumento previsível da procura dos serviços de urgência durante o inverno, devido à maior incidência de infeções respiratórias e à descompensação de doenças crónicas, que podem levar a uma maior necessidade de cuidados de saúde.
“O inverno não pode ser uma surpresa (…). Nós temos que estar sempre prevenidos e criar o máximo de condições possíveis” para que o SNS consiga responder adequadamente ao aumento da procura e evitar novas situações trágicas como a que ocorreu no Hospital de Portimão.
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