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Fui a guiar até à faculdade e quando estaciono, quando chego à faculdade, vou a sair do carro e estou descalça. E assim foi.
Descalça? Não sentiste sequer a guiar?
Não. Estava o texto na minha cabeça e cheguei e estava descalça, não tinha os meus sapatos. Parece aqueles sonhos, aqueles pesadelos de quando somos miúdos e vamos nus para a escola, não é?
Sim, é caso para dizer o rei vai nu e são mesmo, tipo a Madalena vai descalça.
Sim.
E estão todos a ver, e assumiste. Pessoas incríveis. Muito bem-vinda, Madalena Sá Fernandes, a mais um episódio de "Pequenas Reivindicações de Liberdade", um podcast Observador. Bem-vinda, Madalena.
Muito obrigada.
Estás bem?
Estou ótima. Estou cheia de calor, mas estou bem.
Mas como já comentámos, tens um vestido muito leve e fresco.
É verdade. E também, como estava a dizer, talvez um bocadinho shanti shanti.
Pode ficar no ar. "Ai, é a escritora? Mas de que tipo de livros?"
Exato. Parece que vai puxar para outros campos.
Porque tens esse cabelo loiro assim wild, não é? Tens um lado wild.
Tenho um lado wild.
Tens, eu acho que sim.
Sim.
O vestido não corresponde bem, a esse lado wild. É uma coisa nova, é um ponto novo que se acrescenta. Eu acho que é uma pessoa wild que quer ser pacífica. Mais hippie? Wild hippie, será? Sim.
Alguém descreve o que é que aconteceu, por favor.
Madalena, eu pensava que foste tu a descrever.
Eu acho que isso já sou eu com as minhas energias a puxar aqui.
Podes descrever? Acabou de cair um bocado de espuma em cima de ti.
Eu senti umas movimentações atrás e ainda hesitei olhar, mas depois não olhei.
Eu acho que é isso. Eu acho que eu já estou com essa energia. Porque a Titi ficou assim com o equilíbrio na espécie de chapéu de espuma.
Vês bem.
Daquelas de estúdio para o barulho não passar.
Sim.
Muito bem-vinda, Madalena, neste dia que já sabemos, é um dos mais quentes da história de Portugal. Informaste-me tu.
Sim. Eu, como sou um pouco exagerada, vinha a caminhar e apenas por causa do sol na minha pele, proclamei que era um dos dias mais quentes.
Tu tens a certeza absoluta?
Sim, porque eu sou muito exagerada. Eu como uma coisa boa e digo: "Isto é o melhor peixe que eu já comi na minha vida." Sou sempre assim. É sempre tudo o melhor ou o mais quente.
E isso irrita-te ou vives bem?
Irrita um bocado as outras pessoas, porque depois não percebem bem o meu critério. Eu acho que eu sou um bocado hiperbólica.
Tu fazes isso com as tuas amigas. Tu és a melhor amiga que eu já tive e fazes isso com todas.
Sim, eu tenho o conceito da melhor amiga.
O conceito da melhor amiga é ter uma melhor amiga?
Sim, porque dizem que isso é muito da primária.
Infantil?
Sim.
Mas quer dizer, ela é mesmo a tua melhor amiga?
Sim, elas são.
O conceito da melhor amiga que são plural.
Sim. Tenho tipo sete melhores amigas. Se me casasse ia ser aquela com 10 madrinhas.
Mas isso não é conceito de primária, porque isso é vida adulta, ter várias melhores amigas ou não?
Eu já tive esta discussão, já me chamaram a atenção de que é ridículo dizer que tenho uma melhor amiga. "Tu não tens 10 anos para estares a dizer isso." Mas eu gosto.
Eu discordo. Nós se calhar ainda temos na idade válida, mas nós dizemos isso.
Sim, é o best friend.
Acho que em inglês não tem mal. Em inglês é pior. A Titi que responda.
Somos.
Ok.
Vocês também são as minhas melhores amigas, aquelas loucas.
Madalena.
Imagina. Conhecemos há cinco minutos.
Esquece, Madalena, nós não te conhecemos assim tão bem. Já percebemos o teu conceito de melhores amigas, por isso é que te disseram que é infantil. Até foi constrangedor, por isso é que tu te riste, sentiste-te um bocado estranha.
Não, é o tal lado hiperbólico de ser o dia mais quente do ano.
Tu chamas de carente hiperbólica ou carente?
Sim, eu tenho um lado carente está muito vivo.
Como é que sacias essa carência?
Olha, há bocado recebi uma mensagem da FNAC que dizia: "Temos saudades", com reticências.
Ok.
E eu achei, a FNAC também está um bocado carente, não sou só eu. Acho que as grandes empresas também estão um pouco carentes.
Pois. Mas isso quer dizer que não andas a comprar lá livros.
Pode querer dizer isso, sim.
Isso quer dizer que não andas a ler ou que só não gostas da FNAC?
Não, eu gosto da FNAC.
Até porque também põe lá os teus livros nos tops.
A FNAC também tem imensas saudades. Mas por acaso não tenho ultimamente ido muito à FNAC.
Claro, tu preferes ir às livrarias mais pequenas.
É verdade.
Ou vais à Bertrand?
Também vou à Bertrand. Eu vou a todas, mas ultimamente tenho ido mais às mais pequenas.
Isto é um perigo, uma autora, uma escritora não podia estar aqui a dizer: "Ah, sim, eu não gosto da FNAC" e depois a FNAC parava de te promover e de te pôr nos tops, isso podia acontecer? Tu tens que ter cuidado com o que dizes nesse sentido.
Nunca pensei nisso, porque acho que nunca falei da FNAC nem da Bertrand, mas eu acho que podia acontecer, se calhar, sim. Como são empresas.
Eu vou a todas, eu adoro igualmente todas.
Eu adoro todas as livrarias que podem expor os meus livros. Acho que poderia acontecer, talvez. A Zé cuida dos Madalena com o que se diz.
Eu compro mais na Fnac do que na Bertrand, mas não me orgulho, porque não é muito bom para as editoras.
Sim, eu nem sequer entro na Metopé, nessas grandes. Não contem comigo.
Mas as grandes têm mais descontos.
Não. Mas as livrarias independentes...
Fuck capitalism.
Eu acho que é importante darmos uma força às livrarias independentes também. É onde eu costumo ir mais. Eu gosto muito.
Fazes muito bem. Madalena, a partir de agora temos um cronômetro a contar e quando tocar o nosso episódio acabou. E na temporada anterior dos Rapazes Giros, quem dava sempre as boas-vindas a todos os rapazes era a avó Glória, que agora não está aqui neste estúdio, mas que tem ainda assim uma mensagem de boas-vindas para te dar.
Ok.
Bem-vinda, Madalena. Que prazer. Espero que o caminho para aqui tenha sido tranquilo, que não se tenha esquecido de nada, que tenha trancado a porta de casa e fechado as janelas do carro. Espero também que não tenha aceitado este convite por engano, porque estas meninas estão muito contentes que esteja aqui. Enjoy!
Tão querida. Obrigada. A avó Glória.
A avó Glória.
A avó Glória, muito querida e certeira. A falar das minhas distrações.
Pois é. A avó Glória faz um bom trabalho de casa.
Sim. Madalena, por que tu és incrível? As pessoas que me dizem que eu sou incrível, são as minhas filhas. Portanto, aos olhos delas, eu considero-me incrível. No resto, confesso que não me considero muito. Mas a visão delas mesmo de filhas, da mãe. No outro dia, a minha filha fez um desenho que era a mãe luz, uma coisa assim. E para elas eu sou incrível a fazer desenhos de unicórnios, do Stitch, da Vaiana. Sou incrível a fazer puzzles, sou incrível a fazer festas de anos. E elas dizem isto naquelas coisas do dia da mãe, este gênero de coisas que elas enumeram, e eu de facto sinto-me incrível nessa função.
E se calhar para elas também sabes tudo o que há para saber no mundo.
Sim, elas já me perguntaram isso. Eu já disse que não, mas eu acho que elas não acreditam.
Claro. Até hoje ainda não aconteceu elas fazerem-te uma pergunta e tu não teres resposta.
Sim, no outro dia perguntavam-me se Deus ressonava e eu disse que sim. Portanto, estou a mentir às minhas filhas. Mas têm assim umas perguntas às vezes muito metafísicas. A minha filha já me perguntou o que é que eu faria se eu não tivesse a minha sombra. Mas ela estava a falar mesmo da minha sombra, estávamos a andar e eu fiquei: "Uau!"
Viram o "Peter Pan" há pouco tempo.
Não, ela estava mesmo a olhar para-- já viram o "Peter Pan" muitas vezes, mas estava a olhar para a minha sombra e sai isto. São às vezes coisas muito concretas, mas que eu extravaso para um campo mais...
Não, claro. Nós somos o nosso lado sombra e o nosso lado luz.
Exato, eu vou logo para aí. O que eu faria sem a minha sombra? Quem é que eu era?
Como é que tu sabes que eu tenho um lado sombra, filha?
Não, eu fiquei fascinada. Que génio, tipo aqueles pais que os filhos: "O filho já tem a noção do infinito," essas coisas assim. Eu até anoto, porque no outro dia também era se os polícias dormiam. "Mãe, os polícias dormem?"
Porque eles estão sempre de manhã à noite.
A lei não dorme. Eu vou logo para esse campo.
Sim, não há uma hora fora da lei, filha, se é essa a pergunta, não existe.
Mas eu adoro as perguntas delas. Talvez um dia ponha tudo em livro. Ou observações, às vezes cômicas também. Lá à porta da escola delas há um sinal de proibido buzinar. Sabem qual é esse sinal? E a minha filha, estávamos a entrar na escola e ela: "Mãe, aqui é proibido tocar trompete." E eu: "Mas que genial!" Imagina um sítio onde é proibido só tocar trompete.
Aqui não se pode trazer harpa.
Aqui não. Aqui trompete, não.
Filha, não tires o trompete do carro.
Sim, exatamente.
Não aqui.
Mas ela estava meio desiludida. Afinal é qualquer barulho que não se pode fazer aqui.
Madalena, nós vamos dizer-te por que és incrível, embora agora nada vá bater isso. Nada vai bater o olhar das tuas filhas.
És incrível pela maneira como tentas transportar um acontecimento duro numa história acessível, com elegância e sentido de humor.
És incrível porque parece-nos que escreves com honestidade sem tentar fazer da tua história algo além daquilo que ela realmente é.
Porque lendo o teu livro "Leme", lendo as crônicas, algumas delas publicadas no teu livro "Deriva", descobrimos tons tão diferentes da própria autora.
És incrível porque é inspirador ouvir-te falar da tua relação com os livros e com a literatura e a maneira como queres sempre continuar a cultivar-te e a saber mais.
Por fim, porque consegues encontrar a profundidade nos assuntos mais pequenos e quotidianos e olhar para os grandes temas da atualidade e descobrir os pormenores que lhes podem trazer leveza. Oh, queridas. Estou habituada normalmente às minhas filhas, mas vocês também fizeram um bom trabalho.
Tu dirias que quando as tuas filhas forem adultas gostavas que fossem como nós?
Sim, eu estava a pensar um bocadinho nisso.
E gostavas de ser nossa mãe?
Gostava. Posso?
Mas eras estranho, não era? Tu se calhar não tinhas idade para ser nossa mãe.
Não, eu acho que era problemático, se calhar.
Podias fazer coisas conosco que não se fazem com as filhas.
Que se fazem mais com amigas e namoradas? Sim, acho que sim.
Ok, então é melhor não. Então não vamos por aí. Ficou estranho.
Isso ficou muito estranho.
Ficou super estranho. Madalena, nós passamos agora para um segmento de perguntas flash, em que tens de responder o mais rápida e honestamente possível.
Ok.
Foste fazer Erasmus no Brasil e descobriste-te. É por isso que és loira?
Sim É só sim ou não? Ou posso desenvolver um bocadinho?
Podes desenvolver um bocadinho.
Ok, mas essa vai sim.
As tuas referências literárias vêm dos teus tempos de It Girl da MTV?
Sobretudo, sim. Foi aí que aprofundei minha relação com a literatura.
Qual é a tua orange flag?
É suposto eu saber o que é isso? Orange flag, tipo red flag. Ok. Orange é uma coisa que não é boa, nem má?
É uma pergunta aberta, como as que as tuas filhas te fazem. Nós também sabemos fazer.
Ok. Eu acho que é ser distraída, que por acaso também é o que eu vou falar a seguir, mas eu acho que é orange flag. Não é muito mau, mas também não é incrível.
O teu cabelo é um traço de personalidade?
Sem dúvida. Acho que é o meu principal.
Fazer sexo ou masturbar em segredo?
Fazer sexo, em segredo.
Clarice Lispector ou Gregório Duvivier?
Posso fazer uma pessoa que junta essas duas?
Não.
Não?
Não.
O pai do Gregório Duvivier fez a estátua da Clarice Lispector no Leme. Podias escolher o pai do Gregório Duvivier, pode ser? Não.
Eu até aceitava, mas a Titi está muito rija hoje.
Não, só porque ele é um pai.
Ok. Aceitas porque é um pai?
Aceito.
Ok. Trívia: a que cheira Durão Barroso?
Lavanda.
Acertaste.
Boa.
Quando pesquisamos o teu nome no Google, as primeiras pesquisas que aparecem são: Madalena Sá Fernandes, padrasto, pai, marido. Quando é que começou esta obsessão pelos homens?
Não, e ainda ex-marido, namorado e tio.
Faço-te a pergunta: quando é que começou a obsessão pelos homens?
Eu acho que foi em Adão.
A tua?
Sim.
Como descreves uma relação erótica com os livros?
Posso citar Roland Barthes?
Of course.
Citar não diria, mas parafrasear. Para Roland Barthes ler um livro, ele tem o prazer do texto. Ele faz o paralelismo com fazer um striptease e até com uma relação erótica mesmo, de poder saltar páginas como quem tira a roupa, saltar linhas como quem salta etapas.
Se tu continuasses.
Sim.
Os nossos ouvintes podem estar a retirar imenso prazer deste episódio.
Mas espera, tu consegues dizer de cabeça mais coisas que ele diga? No prazer do texto?
Uhum.
De cabeça, agora só me está a ocorrer esta parte.
Consegues tu criar então agora uma relação erótica com livros?
Consigo. Quase que conseguira uma citação direta dele nesse livro, que é sobre a fenda que se cria, que tem a ver precisamente com a erotização do texto, mas eu não me lembro da frase exata. Mas acho que as palavras fenda, erotização e texto nos geram aqui uma ambiguidade interessante.
Sem dúvida. Eu gostava que o nosso ouvinte ensaiasse respirações. Os críticos literários não te levam a sério porque publicaste os teus diários?
Talvez, eu diria que sim. Gostava que Roland Barthes fosse vivo para saber se ele me levaria a sério.
Qual de nós as duas tem mais main character personality?
Qual de vocês as duas? Main character.
Não tenhas medo.
Não pode ser uma...?
Nesta não vamos aceitar. Já demos uma bébia há bocado. Esquece.
Ok. Vou ter que escolher uma, mas é só para este filme, depois no próximo trocávamos. Se calhar tu, porque é com quem eu estou a falar mais, mas só por causa disso, só porque estás com mais falas. Não é de energia, de energia são as duas.
Ok, interessante como as falas estão fazendo uma personagem.
A Madalena escolheu a Nana.
Tu era Nana. Que tipos de psicologia conheces para além de psicologia clínica?
Eu não conheço muita psicologia, eu conheço mais psicanálise. É a área que me interessa mais. E aí conheço, de já ter feito, lacaniana, freudiana e junguiana.
Quantos breakups ainda pensas ter até o fim da vida?
Agora lembrei-me de uma amiga minha que quando era mais pequenina perguntavam se ela ia casar. Ela dizia várias vezes. Portanto, acho que muitas.
Pastilhas de canela ou de azeitão?
Eu odeio canela, eu não gosto nada de canela, portanto de azeitão.
Cotovelo cheio de pelos ou tatuar uma lágrima na cara?
Cotovelo cheio de pelos.
Beth Pimparel ou Ricardo Carriço?
Desculpa?
Desculpa. Beth Pimparel ou Ricardo Carriço?
Ricardo Carriço.
Não sabes quem é o Beth Pimparel?
Não.
Quando escrevemos esta pergunta, pensámos nessa hipótese. É um ex-guarda-redes da Seleção Nacional. Um clássico.
Eu vou de Ricardo Carriço. Estou capaz. Acho que sim.
Se o João Pedro Georges estivesse todo nu à tua frente, o que é que tu fazias?
Porque isso havia de acontecer? Isso era muito estranho.
Este é o conceito.
Ok.
Também era estranho teres pelos no cotovelo e tu não disseste nada sobre isso.
Não, não contava com essa imagem para agora. Eu não fazia nada.
Ficavas só a olhar.
Não, não olhava, sequer.
Mas tu estavas lá.
Tinha de olhar?
Podias fechar os olhos.
Fechava os olhos.
E ficavam os dois em silêncio e tu de olhos fechados.
Sim. Não consideres sair.
Posso sair? Claro.
Eu não dei bem essa oportunidade à Madalena.
Ela não deu. Eu estava a ver se ela chegava aí.
Se desse para sair, saía, claro.
Dostoiévski ou Tolstói?
Tolstói.
Podes dar a maior beauty tip para as girlies?
Gostei de vir a seguir ao Dostoiévski ou Tolstói. O maior beauty tip. Eu sou a pior do mundo nessa matéria. Eu não faço aquelas rotinas.
Mas estás ótima, tens o cabelo arranjado, estás bem maquilhada, estás perfeita.
Então, beauty tip. Isto é uma tragédia, eu não tenho essas rotinas. É mesmo só pôr um creme de manhã. Pode ser isso?
Pode.
Para as girlies.
A Constança Vila Verde Rosado é a melhor artista plástica de sempre?
Sem dúvida.
Muito bem. Passaste com distinção no teste das perguntas flash. E temos agora uma outra pergunta pensamento, mais ampla, que é saber, do teu ponto de vista, se tu achas que é válida a crítica que às vezes se ouve de que a nova forma de promover livros nas redes sociais, que acaba por estar mais ligada ao autor enquanto personalidade também, enquanto pessoa, porque as redes sociais são pessoais. Se é válido dizer-se que então, nesse caso, um autor que não esteja disponível para isso, para a sua vida também ser tão exposta, se calhar, ainda que haja sempre uma forma de medir isso.
Por mais que se tente separar, às vezes não deixa de ser a tua imagem.
Se um autor que não esteja disponível para isso vai vender menos livros e isso é injusto, ou se é um disparate pôr as coisas nestes termos.
Não acho nada disparatado. Acho que essa discussão é interessante e muito pertinente. E penso bastante sobre isso e acho que, de facto, pode talvez criar alguma injustiça sim, em quem eu até diria que é a maioria das pessoas, que não quer confundir as coisas. Essa discussão já é bastante antiga, da morte do autor. Mas hoje em dia é o oposto, é o autor em maior evidência. E eu sou a favor de que o livro, a obra deve ser o principal, embora depois também haja o lado da análise sociológica por trás disso. Mas para mim deveria ser sempre o livro. Portanto, sim, acho que é um tema interessante para pensar e para problematizar, sem dúvida.
Porque depois dá a volta para o outro lado, os autores que decidem fazer essa promoção também não são levados a sério por outros.
Eu acho que pode acontecer, sim. Não me ocorre agora assim nenhum exemplo, mas acho que pode acontecer.
Estranho, a mim também não me ocorre.
A mim também não ocorre nenhum.
Se eu quisesse agora não conseguia dizer três nomes.
Também não.
Tenho a certeza absoluta que não conseguia.
Impossível.
A sério, eu não vou tentar, é impossível. É impossível na minha cabeça. Madalena, qual é que foi o tema que trouxeste para conversar conosco?
Eu tinha pensado na distração, em ser distraída, ser uma pessoa distraída, porque está sempre na ordem dos meus dias e porque todos os dias acontece qualquer coisa relacionada com isso e também porque a avó Glória também foi bater aí. Parte de um episódio muito concreto e muito específico, que foi agora na semana passada, que eu ia para uma aula. Ou seja, é de como é que isto pode influenciar a vida de uma pessoa. E eu estou a fazer mestrado.
Em que é o teu mestrado?
Em Estudos Comparatistas, é Literatura Comparada com outras artes. Mas estava a fazer um texto para um livro e estava muito entusiasmada com o texto, e quando eu estou a escrever, esqueço-me de que sou uma pessoa e que tenho corpo e que tenho que me movimentar e fazer coisas. E então estava muito dentro do texto, muito dentro da minha cabeça, e eu tenho um jardim pequenino onde está o carro. Então entrava na sala, saía, o texto para trás e para a frente. Chegou a hora da aula, entrei no carro ainda o texto a pensar. Fui a guiar até à faculdade e quando estaciono, quando chego à faculdade, vou sair do carro e estou descalça. Pronto, e assim foi.
Descalça?
Não sentiste sequer a guiar? Não. Estava o texto na minha cabeça e cheguei e estava descalça, não tinha os meus sapatos.
Parece aqueles sonhos, aqueles pesadelos de quando somos miúdos e vamos nus para a escola. Tu já? Sim, é caso para dizer: "O rei vai nu." E realmente, a Madalena vai descalça.
Sim.
E estão todos a ver, estão todos mesmo.
E assumiste? Não achas?
Foste à aula, então.
Tive que voltar para trás, porque eu ainda tentei: "Espera aí, como é que eu posso resolver isto?" Quer dizer, eu posso ir a uma loja comprar sapatos, mas vou o quê? Descalça pela rua. Não tinha solução, voltei para casa.
Tu com esse vestido que trazes descalça pela rua.
Descalça. Exato.
O que é que ia acontecer? Ias só a andar em frente e as pessoas: "Aquela maluca."
Afastar as águas.
Ias afastar as águas com o outro. Isso já te aconteceu com outras peças de roupa?
O quê? Afastar as águas?
Ok, Madalena.
Sim, pode ser. Podes afastar os animais com peças de roupa.
Esquecemos muitas vezes.
Não, mesmo de sapatos acho que nunca me tinha acontecido. Não, quer dizer, casaco.
Claro. Mas então tu lidas diariamente com uma distração, que é também esquecimento.
Sim. Diariamente eu tenho muito mais trabalho e um estresse extra por alguma coisa deste gênero, sim.
Prejudica-me um bocado.
E não é ultrafrustrante em muitas situações? Vais apresentar uma coisa importante e de repente chegas atrasada por uma data de coisas que te aconteceram, queres justificar e a pessoa está tipo: "Ah".
Esqueceu-se dos sapatos, ok.
Ok.
Que engraçada, não vai achar aquilo engraçado.
Sim, eu não acho nada engraçado. Agora com uma distância eu conto que é a minha cabeça, se calhar preciso ser medicada ou qualquer coisa assim. Desse género de coisas. Acontece-me muito, o meu carro não tem GPS, então uso o GPS do telemóvel para ir para coisas e fico sem bateria no telemóvel e tenho que parar em bombas de gasolina para pôr a carregar e às vezes o carregador fica não sei onde e tenho que pedir a alguém. É uma gincana e eu sinto mesmo quando chego aos sítios que é uma vitória, num certo sentido.
Tens pena de ti própria? Uma pergunta um pouco mais geral.
Sim. Às vezes tenho um bocadinho.
Nota-se no tom como tu estás a dizer: "As desgraças que me vão acontecendo." Não faz mal, Madalena, também tenho imensos.
Sim.
"Eu sou uma desgraçada, eu não carreguei o telemóvel e agora como é que eu vou conseguir ir daqui até ali?"
Sim.
Que podia ser tão fácil. E médico já foste ou não?
Vou muitas vezes. Médico para esta coisa específica, ainda não, mas no Instagram diagnosticam muito.
Pois, PHDA. É natural que leigos te diagnostiquem, mas se calhar se fores a um médico ele também.
Se calhar também, se ele contar esta.
Se calhar a tua vida pode um bocado mudar com medicação.
Sim, se calhar.
Mas também se calhar não queres. Tu te divertes também com isso?
Não, não me divirto nada. Não é nada divertido. Perdi aula, perco as coisas.
Então por que não queres resolver?
É uma boa questão, agora de repente estamos na psicanálise. Eu quero resolver. Eu tenho um bocado medo de coisas que tirem a criatividade, porque muitas destas coisas, por exemplo, essa do descalça, eu sinto que foi uma consequência de eu estar muito empenhada num texto, na imaginação, na criatividade e a realidade deixa de existir. Deixo de ter uma associação tão direta com a realidade e tenho medo que a medicação me traga mais para a realidade, que é o objetivo, mas que me tire desse outro sítio. Acho que tenho um bocadinho esse medo inconsciente agora aqui.
Mas se calhar há forma de medir, não sei, se calhar se falares com um psiquiatra.
Uou!
Sim.
O quê? O que está a passar comigo?
A Madalena: "Oi, quem és tu?" Madalena que acorda.
Sim. Supercedo tudo.
Sim, não sei. O tema não era este, mas se precisares de uma força para ir.
Sim, vou pensar nisso.
Pensa que é a nossa força. Porque os diagnósticos de Instagram são frustrantes.
Sim, mas este em particular, talvez. Vamos ver. Eu depois anuncio ao mundo.
Depois dizes: "É verdade."
Mas eu percebo que querer resolver uma coisa que faz também muito parte da nossa personalidade, que haja o medo dessas coisas. Ok, mas eu vou resolver isto, mas há coisas sobre isto que eu gosto e que me dão jeito. No meu caso é poder estar mesmo na minha cabeça e na escrita e estar obcecada com o texto a ponto de esquecer de comer.
Não te dá para o contrário? Não te dá com: "Tenho que escrever" e não tens força para dar esse passo ou estás só a procrastinar?
Eu procrastino muito, mas eu acho que é importante para a escrita essa parte. Isso eu não consigo imaginar uma escrita sem procrastinação. Acho que se calhar é por isso que escolhi a escrita, porque é muito importante essa parte de ver muitas coisas, ler muitas coisas, ir ver filmes ou teatro, passear.
Isso é procrastinar.
Procrastinar é o quê? Estar no TikTok?
É estares no sofá parada. Não é contemplar também, não é procrastinar.
A minha forma de procrastinar é estar a ler.
Isso é um nível de procrastinação muito elevado. Isso é alta cultura da procrastinação.
Não, calma. Ou ir para a praia, isso também pode ser procrastinar.
Fazer o quê na praia? Se estás a ler um livro na praia é igual.
Sim, estou a ler, mas também a mergulhar. Isto está a soar horrível. A minha única coisa que eu faço é ler.
Não, mas imagina, estás no computador. Decidiste escrever ou tens uma crônica para escrever.
Tenho uma para escrever hoje, por acaso.
Estás nesse processo e de repente aparece-te uma coisa.
Isso era mais antigamente, para mim agora o telemóvel é que é esse campo.
Mas isso é procrastinação.
Ok, chegamos ao ponto. As redes sociais é procrastinação, sem dúvida. Aí sim.
A Ti ti disse tudo o que foi preciso até tu dizeres que procrastinas. Eu fiquei a ouvir.
Claro que eu procrastino.
Que uma grande escritora.
Eu estava a me esquecer de uma coisa fundamental para todos nós hoje em dia, e onde toda a gente está a procrastinar, de facto, é o Instagram.
Estás a ver os teus diagnósticos de PHDA.
Exatamente, claro, óbvio que sim. Ainda bem que disseste, obrigada.
Percebeste o caminho?
Eu tinha me esquecido do telemóvel, que é bom, é um ótimo sinal.
Tu até foste supercrida a alinhar nesta conversa, foi tipo: "Às vezes estou na praia" e nós: "Mas estás a ler?" "Não, também dou mergulhos." Eu esqueci-me que isto tinha telemóvel.
O desespero assim: "Não, eu não estou só a ler, eu na praia, eu também visto um biquíni e eu vou ao mar. Eu consigo fazer outras coisas." Sim, é impressionante como o telemóvel se elipsou completamente da minha mente.
Mas ficas muito tempo no telemóvel e piora esses teus momentos de distração de que falaste.
Sim. E o telemóvel agora tem essa coisa de se poder escrever. Eu escrevo muito também no telemóvel e por isso estou a escrever e de repente, WhatsApp. Estás a ver? E aquilo é tudo uma mistura muito prejudicial.
Eu fico mais preocupada quando são assim estes temas. Eu quero ajudar.
Sim.
Eu estou tipo: "O que é que eu posso dizer?" Tu pelo menos não tens aquilo que a Titi estava a perguntar.
Eu achei que ias dizer assim: "Que a Titi tem."
Não.
Aquela coisa horrível que a Titi tem.
Não tens aquele defeito.
Aquele defeito.
Não, não tens aquilo que a Titi estava a perguntar, que é de tu poderes ter medo de deixar de ser como és, porque é uma parte também da tua personalidade. Ou seja, o teu único medo é ser menos criativa, mas não pensas: "Eu vou deixar de ser a Madalena que sou e há um lado de que eu gosto e de que as pessoas gostam."
Esse lado não dá para romantizar a desorganização. É isso. Mas da parte da criatividade, sim, esse medo é real, porque é como parte da personalidade.
Até porque as pessoas já não desculpam. Já não aceitam as tuas justificações. Já não te serve de desculpa não teres feito qualquer coisa.
As pessoas, por acaso, são queridas com essas coisas. As pessoas não sentem isso.
Não sei quem é que tu conheces.
Não sei, eu acho que as pessoas são muito amáveis.
Devem ser as suas melhores amigas.
Sim. Por exemplo, a coisa dos atacadores, no outro dia ouvi alguém a dizer isso, que realmente nessas pequenas coisas é que se vê a amabilidade do ser humano. O mundo pode estar todo explodido, coisas horríveis a acontecer, ninguém liga nenhuma. Mas se uma pessoa está com os atacadores desapertados, vão te alertar.
Vão te alertar?
Vão e vão te ajudar.
Desculpe, isso é verdade.
Ou com a mochila aberta ou qualquer coisa.
É verdade. Mas acho que depois é um bocado mais sobre eles, porque eles querem tipo: "Eu disse."
Não, é tipo: "Que grande pessoa que eu sou." E normalmente eu sei sempre dos sapatos, se estou de sapato de salto, aconteceu-me agora no fim de semana e estava com a fivela desamarrada. E eu estava a ir até à casa de banho para resolver essa questão, porque não é preciso estar ali a sentar-me no chão e estava mesmo com eu assim e a pessoa: "Olha." E eu já irritada: "Eu sei. Está bem?"
Não fale comigo assim, é uma ótima pessoa, eu já sei disso.
Mas eu ia te perguntar se tu costumas mentir ou dizes sempre a verdade. Por exemplo, um cenário um bocado parvo, mas vais à tua editora apresentar qualquer coisa, uma coisa importante, e chegas atrasada à reunião e aconteceram-te três peripécias impossíveis.
Mas eu preciso só de fazer aqui um parêntesis. É que eu, de coisas de trabalho e de coisas das minhas filhas, normalmente faço mesmo um esforço hercúleo e é raro falhar. Eu acho que nunca falhei uma coisa de trabalho. Pode acontecer, posso ter de sair com cinco horas antes, se for uma coisa em Santarém.
Então tu nunca tens que passar pela coisa: "Desculpa, é que acabou de me acontecer..."
Tenho, mas menos coisas de trabalho. Sim.
Acabou, está a tocar. Estava a ver quando vocês ouviam.
Estava aqui embrenhada no meu texto.
Era trabalho e também não estavas a falhar.
Não.
Eu posso te fazer uma última pergunta que não tem nada a ver com nada? Só me surgiu agora, que é: se tu descobres novas palavras, eu disse que não tem mesmo nada a ver com a conversa que estivemos a ter. Só porque sim, porque lês muito e ficas a saber palavras ou tu procuras, ou há uma procura ativa para descobrir palavras novas?
Não, o que eu tenho é ali no telemóvel uma lista de palavras que eu acho interessantes ou novas, ou que eram até então desconhecidas, e faço essa lista em romances ou livros que estou a ler e tenho ali.
Mas é das coisas que estás a ler agora. Nunca estás a querer dizer alguma coisa e a pensar: "Eu não conheço uma palavra para isto, mas tem de existir, vou procurá-la."
Por acaso, isso especificamente, não. Quando comecei, se calhar havia a coisa dos sinônimos.
É tão o quê?
Não sei.
Estás a criticar pessoas que fazem isso?
Não.
Quem nunca google sinônimos de...
Sim, mas nota-se normalmente quando é para dizer uma coisa muito simples e de repente nem percebes o que está ali. Fica uma coisa superpretensiosa. Normalmente tento fugir um bocado disso.
Tentas não ser pretensiosa, não é?
Sim.
Estás a conseguir não ser pretensiosa?
A citar Roland Barthes.
Não, mas isso foi supersexy, isso não foi pretensioso.
Deu a volta, está tudo bem.
Mas eu estava quase para trazer de tema Nietzsche, porque eu tive ontem uma apresentação sobre Nietzsche, depois pensei: "Isto se calhar vai ser um bocado estranho."
Tu achas que nós íamos saber falar sobre Nietzsche?
Eu acho que toda a gente pode falar.
Aquelas que conhecem bem o mundo. Toda a gente consegue falar.
Sim.
Eu conheço 50 pessoas apenas, são as que estão comigo na faculdade, mas todas falam. É impressionante.
Dava para ter um debate aceso.
E zangam-se e têm opiniões. É impressionante como toda a gente fala. Obrigada por não teres trazido esse tema.
Eu que nem sei quem é.
É aquele jogador de futebol alemão.
Já sei.
Loiro.
Mas com bom bigode.
Não era o que eu estava a pensar.
Sim, porque já é de outros tempos.
É meio hipster Tem bigode hipster?
Sim.
Eu e a Nana estivemos há pouco tempo a falar sobre os hipsters.
Estivemos a descobrir que também houve uma evolução de hipsters e que no início eles eram uma coisa, e mais tarde, ou o imaginário que nós temos agora, já é um bocado outro do que é o hipster.
Então o Nietzsche é o hipster mor.
Sim, sem dúvida.
Ótimo. É aquele goleador. Se tu pensares quem é que é o goleador.
Desculpe, esqueci-me.
Não, mas é jogador de futebol.
Sim, jogador de futebol hipster.
Não tens a achar que os jogadores de futebol são todos como tu estás a achar.
Burros.
Pronto. Não queria dizer.
Não, ele não era nada burro.
Ok. Pronto.
As opiniões dividem-se.
Numa área. Madalena, nós passamos agora ao nosso segmento final deste episódio, que é o clickbait consentido, que é descobrirmos um título para o teu episódio que dê muita vontade às pessoas de carregar. No geral, tu deves dar vontade às pessoas de carregar em vários pontos do teu corpo. Eu às vezes estou a ver-te falar e penso: "Quem me dera poder carregar em vários pontos do corpo dela."
Sim, eu acho que é uma boa síntese.
Tu queres que este seja o título? Madalena Sá Fernandes: abre aspas, "Querem carregar em vários pontos do meu corpo?"
Não. Desculpa. Aquela que fica logo: "Não, não deixa eu mesmo acabar a frase."
Tu foste tipo: "Não, não."
É que por acaso, a crônica que eu vou escrever agora quando sair daqui, é precisamente sobre as frases destacadas nas entrevistas. Que é uma armadilha, é tipo um cavalo com o nosso nome no flanco a correr desgovernado e salve-se quem puder.
Por isso é que nós temos aqui este segmento.
Esse vosso é irônico com isso, mas é engraçado. Mas então, o que nós falámos?
Falámos de como isto podia aliviar a tua vida.
Do prazer do texto.
Falámos do prazer do texto. Esse é o meu preferido. Eu até vou comprar já.
Sim, tens de comprar. Compra tudo do Roland Barthes.
Eu queria a citação exata da fenda.
Mas depois íamos pôr Madalena Sá Fernandes e púnhamos a citação.
Exato.
Isso era super divertido.
Roland Barthes.
Mas isso acontece tanto.
Estás a citar e depois o título é uma citação que tu disseste que não é tua?
Não. Citações que não são da pessoa. Pronto, isso é um clássico. Mas há uma loja de bolos. Isto é uma das minhas causas, uma causa um bocado gorda. Talvez. Sim, é uma causa se calhar. Que diz: nunca passaram por essa loja, é nas Amoreiras, e tem um cartaz gigante a dizer, como é que é a frase? "Tudo o que é bom dura o tempo necessário para ser irresistível." Depois tem embaixo: "Fernando Pessoa."
Nunca vi.
E eu gostava mesmo de fazer um apelo para tirarem de lá o nome do Fernando Pessoa.
Tu tens a certeza absoluta que não é do Fernando Pessoa?
Claro que não. Eu não precisava de ir confirmar.
Bem, não conheço a frase, não sei agora se ficou ofendida.
É tipo aquela de pedras no caminho.
Sim.
Que também dizem que é do Fernando Pessoa.
Sobre o erotismo dos livros, da literatura.
Spir, alguma coisa com o Spir?
Spir?
Striptease?
Striptease.
Como é que ele dizia que o striptease era em relação a quê? Eu não posso estar a fazer isto ao Roland Barthes.
Sim, isto agora é sobre ti, é sobre a tua visão do lado erótico da literatura, já não é sobre o Roland Barthes. Não te preocupes, não estás a fazer falsas
Sim, mas para fazer uma frase. É que eu tenho tanto medo dessas frases que eu nem consigo.
A nuvez da literatura.
Não pode ser o prazer? Não, o prazer do texto, não.
É que isso não tem um pingo de erótico.
Não tem nada.
Nada.
O ler dá-me tanto prazer como, reticências.
Só as reticências?
Sim.
Isso é muito bom, as reticências, vai buscar à FNAC também, temos saudades, reticências. Eu acho que as reticências são importantes.
Não compromete e deixa a desejar.
E as pessoas vão pensar.
Bem, então bom como o quê? Queres dizer como o quê, aqui, para quem ouvir até ao fim?
Para terminarmos com o que é que ler...
É assim, só me ocorre, e isto é triste, isto é um sinal muito triste da minha vida, mas ocorre-me bocado só chocolate. Ficaram tristes?
Eu fiquei.
Eu também.
Eu preferia que não tivesse sido. É por isso que nós não podemos acabar a frase, porque ninguém ia carregar. É mau, não é?
Muito mau, Madalena.
Como chocolate? Eu estava só a pensar se era suficiente prazer ou se devíamos dizer prazer erótico.
Não, eu acho que prazer é bom.
Já não gostas.
Prazer erótico, de repente, calma.
A Madalena está farta de ser associada a coisas sexuais.
Por acaso, sim. Podia ser erotismo. Porque o erotismo não é só sexual, o erotismo é energia vital.
Eu adoro a tua relação com o erotismo.
Devemos terminar este episódio?
Sim, que a Madalena tem imensas coisas para me ensinar. Já teve imensa experiência e conhecimento na vida e com este vestido e descalça pelas ruas. Lá vai ela no seu erotismo.
Sais daqui: "Ai, Nana, há tantos prazeres, há tanto erotismo que tu não conheces ainda. Vem para mim."
Pois é. Não é? A mim dá-me esse...
Sim.
Ok, se quiseres depois mandar uma mensagem, dar uns conselhos.
Vou mandar. Eu vou-me exigir aqui.
Tenho saudades, sim.
Prazer sexual mais básico, que sei que eu estou bem.
Eu quero mesmo descobrir esse, Madalena. Muito bem, muito obrigada a Broa, que nos acolhe neste estúdio tão maravilhoso, com uma poltrona amarela onde a Madalena está sentada.
Muito obrigada ao Observador. Como sabem, queridos ouvintes e queridas ouvintes, podem ouvir todos os podcasts, tantos que existem no Observador, podem ouvir no site, em todas as plataformas, YouTube, Spotify, Apple. Vocês sabem, procurem, desfrutem, erotizem-se. Vou tomar a liberdade de fazer a minha reivindicação.
Para fazeres o nosso jingle.
Pequenas reivindicações de liberdade.
Pronto, acho que pode ser.
E nunca mais também voltaram a ver. Agora está aqui. Pequenas reivindicações.
Bem-vindos ao Pequenas Reivindicações de Liberdade.
De liberdade. Pessoas incríveis.