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Bem-vindo ao podcast da PLMJ. Damos voz ao que interessa, ao que faz mover o país para lá da espuma dos dias. Os negócios, a comunidade, o empreendedorismo, a sustentabilidade, a arte. Partilhamos saber que é feito de experiência e que serve a todos. Move-nos a coragem para imaginar o amanhã e a vontade de criá-lo hoje. Juntos, a comunidade, os clientes, a PLMJ, a Fundação PLMJ, geramos impacto. Fique desse lado. Boa tarde, bem-vindos ao auditório da PLMJ e da Fundação PLMJ. Estes dias das afinidades eletivas são super especiais, porque não é sobre trabalho, não é sobre direito, não é sobre clientes, não é sobre dever, é sobre ser. E pessoalmente continuo a achar incrível que a PLMJ e a fundação façam isto só porque gostamos e que não temos regras para isto. Nenhum objetivo, além de eventualmente tirarmos todos alguma coisa de novo e de enriquecedor destas conversas. Hoje o tema é sucesso e insucesso, felicidade e infelicidade, pelo menos como ponto de partida, porque como dizia, não há regras e dificilmente vamos cumprir com o que definimos lá atrás. O que tem tudo para nos sair muito melhor do que encomenda. José Maria Pimentel faz as honras da conversa com o extraordinário Joaquim de Almeida. Muito obrigada por terem vindo.

Boa noite. Olá a todos. Temos uma hora, não é? Estava aqui a falar com o Joaquim do nosso orçamento de conversa. Este é um tema. Isto é um sofá.

É um sofázinho.

É, isto é um sofá. Ficar aqui muito recostado. Este é um tema engraçado, e aliás, acho que esse é o ponto de partida da conversa. É um tema que nos toca a todos. Porque toda a gente procura de alguma forma sucesso. Nós achamos, e com alguma razão para isso, que com o sucesso tende a vir felicidade, mas obviamente não há uma garantia. E obviamente que parte do sucesso não vai provocar felicidade e em muitos casos até pode acontecer justamente o contrário. Nós à procura de sucesso, não ficarmos mais felizes, mas pelo contrário, acabarmos infelizes, frustrados, etc. Eu acho que isso é o que é interessante falar aqui hoje, pegando em ti, que és um ator de sucesso, reconhecidamente, e portanto, é interessante perceber como é que tu olhas para esse sucesso e que relação é que ele tem com a felicidade. Tu agora estás ainda por cima de regresso a Portugal, és um ator interessante para falar sobre isto. Olhando para a tua carreira de mais de 150 filmes, certo?

Certo.

Como é que tu vês o teu sucesso em relação com a felicidade, ao longo da tua vida?

A felicidade é relativa e o sucesso também é relativo. A pessoa no início de uma carreira começa a ter sucesso, é evidente que aquilo traz felicidade. E a felicidade traduz-se em muitas coisas. Eu lembro que eu cada vez que via o aeroporto, estava feliz, porque queria dizer que era trabalho. Era mais um filme. As pessoas reconhecem, começas a ser reconhecido, depois começas a ganhar prêmios, depois começas a fazer mais filmes, depois deixas de fazer audições, depois oferecem-te filmes. Depois, o sucesso também leva a que tenhas escolhas boas, tenhas escolhas más. As escolhas más às vezes trazem-te infelicidade, as escolhas boas, outras trazem-te felicidade. Eu fiz durante muitos anos três, quatro filmes por ano.

Que é uma brutalidade.

Parece que é uma felicidade. Eu fazia filmes em línguas diferentes, em países diferentes. Vi o mundo a fazer filmes. E de certa maneira, isso foi uma felicidade. Também me trouxe muita infelicidade, porque nunca vês a família, não estás com a família. Perdeste a família. A minha própria manager dizia-me: "Eu tenho imenso respeito por vocês atores, porque vocês, no fim, é uma vida muito solitária. Vocês passam meses e meses sozinhos, num quarto de hotel". Enquanto os meus filhos eram miúdos, até aos seis anos, eles não iam para a escola, portanto, vinham ter comigo no filme. O meu filho mais velho, sobretudo, achava fantástico. O pai vive em relotes, o pai anda em carros enormes, o que falta é casa de banho. O meu filho perguntava: "Onde é que é a casa de banho, pai?" E era fantástico, o meu filho vivia aquilo comigo e é por eu acho que quis ser ator e lá está ele em Nova Iorque a tentar a sua sorte.

Ficou infetado com o vírus também.

Foi infetado pelo vírus. Ainda bem. Formou-se em Economia primeiro e assim tem uma noção do dinheiro que é muito bom.

Exatamente.

Que a minha filha mais nova não tem. "Ó pai, ó pai". Como é voltar para Portugal. Voltar para Portugal aos 68 anos é uma felicidade, porque voltaste depois de já ter sucesso. Se tivesse voltado para Portugal aos 40 anos, se calhar não achava que--

Sim, agora estás a voltar de motu próprio.

Mas agora, também, por exemplo, os atores, pessoas com sucesso, atores em Portugal, hoje em dia não precisam viver nos Estados Unidos. Na minha altura era completamente diferente. Nós tínhamos que ir para os Estados Unidos para ter sucesso. Hoje não é preciso. Tens vários atores portugueses que estão a fazer sucesso, têm filmes lá fora, porque hoje não é preciso, pela mesma razão que eu já não preciso viver na Califórnia. Até porque já não se fazem filmes na Califórnia, fazem-se cada vez menos filmes na Califórnia.

Mas não continua a ser importante estar perto das pessoas? Ou não faz diferença? Tu sendo ator, um ator agora esteja a lançar-se, estar nas festas, ir almoçar com a pessoa X. É uma pergunta.

É que o glamour do cinema só existe nas fotografias. O cinema de glamour não tem nada. O cinema tem que se ganha bom dinheiro, porque se trabalha-se 12 horas por dia, trabalha-se três meses num país que não é o teu, estás longe, ou vens ver a família, fazes viagens de 12 horas para ir ver a família. Mas depois o glamour é o que aparece nas festas, porque glamour não tem nada. Tens que trabalhar incessantemente, mandam-te os guiões, tens que estudar. Chegas depois de 12 horas, ainda vais estudar pro outro dia, porque te mandaram as cenas. Aquilo tem muito pouco glamour.

Tens que sujeitar ao que der, se for uma cena num lago gelado, é uma cena num lago gelado.

Eu acabei de fazer um filme em Malta em que a minha mulher dizia: "Joaquim, eu li aquilo, eu acho que isto não devias fazer, porque tu estás à rasca do ombro". "Epá, mas eu se calhar ainda consigo fazer". Claro, fui pra lá, duas semanas de noite, metido dentro d'água, com imenso frio. Sofri imenso. E só às 16h, quando era pra ir outra vez filmar, eu dizia assim: "Epá, não, não pode ser". Porque já sabes que ia levar outra vez como 12 horas, da mesma coisa. Agora olho pra trás, agora já me sinto melhor outra vez de ombro, se calhar fazia.

Se calhar já ia.

Se calhar já ia, mas não. Para dizer uma coisa, depois o sucesso tem coisas fantásticas, aquela felicidade que te oferecem trabalho. Depois, o sucesso tem um certo limite, a idade também tem importância. Eu lembro-me da primeira vez que me ofereceram o papel pra ser pai, eu disse: "Ai, papel do pai da atriz principal". Pronto.

Já passei pra outra categoria.

Depois quando te pedem pra ser avô, já começa a ser meio chato. Os papéis mudam. A não ser o Harrison Ford, que continua convencido que pode fazer os "Raiders of the Lost Ark".

Com alguma ajuda do trabalho que eles fazem no computador.

E pode, porque filmes com aqueles milhões têm exatamente essas ajudas todas, que não era o filme que eu estava a fazer, não tinha essas ajudas. Portanto, Joaquim, toma a capa dentro d'água. Eu não é um gajo que dava pulos e coisas, mas eu, depois de dentro d'água, era eu.

Exato.

Isso não havia nada a fazer.

O duplo só vai até certo ponto.

Exatamente. Depois essa felicidade. O sucesso também, temos medo de que o sucesso é assim: tu só és tão bom como o último filme. Cada filme que fazes, há uns que não correm tão bem como outros. Aliás, tu também notas, há filmes que te diz fazer, porque a atriz principal era fantástica, mas depois, estou a pensar num certo filme, o realizador era namorado da atriz principal, que era fantástica, e aquilo afinal não correu tão bem, como tu pensavas, e tu dizes: "Epá". Depois no dia a seguir, e cada vez que sai o filme, quando há um filme que não sai bem, ficas preocupado.

É como se estivesses sempre a ser medido.

Estás sempre a ser julgado.

Como se fosse um atleta que vale pela última época, de certa forma.

Eu diria que a felicidade é um pouco mais curta que a infelicidade. Porque é assim, tu se fizeres um: "Olhas pra trás na vida, fui feliz? Pá, tive momentos muitos felizes, e tive outros que não foram tão felizes". A pessoa olha e diz: "Se calhar, tive meses muito infelizes de não ter a família comigo, não ter os filhos comigo". Hoje os filhos cresceram. Encontraste outra companheira na vida. Portanto, as coisas a pessoa-

Por acaso isso liga bem uma pergunta que eu te ia fazer, que é sempre uma pergunta traiçoeira pra fazer a alguém. Olhando pra trás, precisamente à luz disso que nós estamos a falar, mudarias alguma coisa no percurso? Eu digo que é difícil fazer, porque quando tu olhas pra trás, tu olhas a partir do resultado das escolhas que fizeste. E, portanto, qualquer alteração que fizesse implicaria, se calhar, não ter o lado bom também dessas escolhas. Mas pegando aquilo que falavas da família, de não estar tanto com a família. No fundo, esta vida de ator, que é uma vida tramada, porque como tu dizias, um tipo tem que ir, de repente, se filmar três meses, e não é como um trabalho que a pessoa entra de manhã e sai ao fim da tarde.

Se eu mudava alguma coisa? Talvez não. É assim, eu também escolhi uma estrada um bocadinho difícil. Eu fui viver pros Estados Unidos, fazer carreira nos Estados Unidos. Depois do meu terceiro filme, o "Good Morning, Babylonia", dos irmãos Taviani, abriu o Festival de Cannes. Nesse ano eu fiz entrevistas ao filme e, portanto, de repente, no ano a seguir, fiz quatro filmes em quatro línguas diferentes. Houve aí uma carreira internacional. Quando tinha 32 anos, Nova York era fantástico. Eu fui pra lá com 19 anos, fui pro Studio 54. Isso aquilo era felicidade. Studio 54, com 20 anos, todas as noites. Aquela vida, uma pessoa sentia. Depois o meu primeiro filme com 23 anos, depois o outro com 25, depois tive um hiato, depois aos 27, o terceiro filme, que abre Cannes. E aí começa uma carreira mais estável. Mas eu resolvi, aos 32, vem a Sida, o grande terror, e eu achei que se calhar é tempo para estabilizar. Eu conheci a Cecília, que tinha menos 10 anos que eu, e começámos a namorar e aos 35 fui pai pela primeira vez. Mas eu queria ter filhos em Portugal. A minha filha é também de uma outra relação e também é portuguesa.

Por quê?

Eu sabia que queria voltar para Portugal. Mais tarde ou mais cedo, eu queria voltar. Ou queria fazer uma vida laica. Não fiz mais fase, se calhar se tivesse casado nos Estados Unidos e tivesse filhos nos Estados Unidos. Mas eu vi os imigrantes portugueses nos Estados Unidos e eles chegavam, os putos tinham 10 anos: "Pira-te, senão nunca mais sais daqui". Queriam voltar para Portugal porque achavam que nunca mais saíam dali. Tinha uma amiga minha, eu lembro-me perfeitamente, neozelandesa que casou-se com um argentino, viveu em Nova Iorque. Separaram-se, ela depois foi para a Nova Zelândia e ele vivia na Argentina, tinha que viver os filhos. Resolveram juntar-se outra vez, foram viver para Espanha. Os filhos cresceram, foram viver para Nova Iorque. Para te dar uma ideia.

Sim. Isso é um à parte, mas estavas a falar dos portugueses, conheceste os imigrantes portugueses nos Estados Unidos. Eu tive uma história, nunca me hei de esquecer, foi uma história inerrável nos Estados Unidos, em que, por algum motivo, é qualquer coisa no meu nome que está lá nos ficheiros deles, eu tenho sempre imensos problemas. Ainda agora estive lá para pedir o ESTA, aquela espécie de visto de curto prazo, e tenho imensos problemas. E já por duas vezes fiquei retido lá no Customs Office, na alfândega. E estava lá na sala, aquilo é tudo meio aterrador, depois a pessoa vai ser entrevistada. Eu estava sentado a ler um livro e ouço a pessoa que estava lá atrás do balcão chamar um nome meio português. Dois nomes, aliás. Não ouvi ninguém. Chamou, levantou-se um casal. Dessas coisas que percebes imediatamente que eles são portugueses. O homem baixinho e tal, percebes imediatamente. E de repente a senhora pergunta: "Há aqui alguém que fale português?" E eu levantei o braço e tal, fui lá fazer de intérprete. Até aqui a história não tem nada de especial. O que é interessante? Era um caso que tinha vivido nos Estados Unidos, há uns 30 anos, em New York, depois tinha voltado para Portugal, agora ia visitar amigos, tinham-se esquecido do green card em Portugal, e eles não falavam inglês. Isso é extraordinário. Eles tinham vivido lá 30 anos, mas como tinham sempre trabalhado, aquela coisa de circuito fechado a trabalhar para Portugal.

Sei, há muitos.

Extraordinário. Nem uma conversa daquelas, que é uma conversa rotineira. "Então o green card ficou em Portugal?" É incrível.

Esquecemos o green card.

Desculpa, fomos off-topic da nossa conversa. Mas diz.

Não, mas estávamos onde na conversa antes disso?

Da tua família, filhos, e que quiseste que crescessem em Portugal.

Eu não ajudei àquilo. Mas depois expliquei por que eu queria.

Sim, no fundo estavas a planear o futuro, de certa forma, não é?

Porque eu sabia que eu queria vir muito a Portugal. Depois eu também fazia filmes em Portugal. Nessa altura, fiz muitos filmes com o Joaquim Leitão e com outros, António Pedro Vasconcelos. Fazia filmes em França, depois tive uma época de filmes em Espanha. Fiz para aí uns 20 filmes em Espanha, que tiveram bastante sucesso. Era legal lá, não me importo eles. Sucesso e felicidade. Pois o sucesso é outra coisa. Eu vivia em Lisboa, vivia na Lapa, tinha um apartamento fantástico. Quando estava cá. E tu diz, o sucesso traz felicidade? Na Lapa trouxe-me imensa infelicidade. Toda a gente sabia quem é que ia estar na minha casa. No dia a seguir ia ao café: "Então, como é que estava o senhor Vilas Boas, estava bem? O Paulo Gonzo, não sei o quê". Toda a gente sabia. E eu disse: "Epá, não, tenho que sair daqui". Por isso eu fui viver para Sintra, para a casa onde tenho agora, que renovei, agora que resolvi vir para cá. Não tenho vizinhos, ninguém me vê chegar a casa. Mesmo assim, se me perguntarem onde é casa do Joaquim de Almeida, eles indicam. Aquela coisa do bairro, que tornou-se muito... E hoje em dia, ligo-me bem com isso, as pessoas que estás a almoçar, até ao mais, são os estrangeiros que pedem para tirar uma fotografia, não sei o quê.

Curioso. Sim, mas um tipo conhecido numa cidade de bairros relativamente pequenos, como é toda a Lisboa, é tramado. Por outro lado, consegues andar na rua à vontade sem ter qualquer receio.

Mas olha, eu acho engraçado, porque quando estou a filmar nos Estados Unidos, se estou a filmar em New Orleans, já não é tão engraçado. Nas cidades pequenas, param-te na rua, querem tirar fotografias, muito mais. Em Los Angeles ninguém liga. Depois, no bairro onde vives, ali em Sintra, as pessoas não ligam muito. No restaurante, sim, porque depois as pessoas querem tirar, os estrangeiros. Mas não ligo. Os portugueses são muito bons nisso. Mas o português é muito bom nisso, mas depois se são os estrangeiros, tu tiras a fotografia com os estrangeiros, está mesmo bem.

Fico lixado na claque.

Estamos a falar de um sucesso relativo. Eu tenho atores com quem eu trabalhei que se torna impossível mesmo sair à rua, que começa a ser... Mas depois achei piada. Noutro dia, o Fernando Harrison Ford, não sei se vocês viram, foi para o metrô de Nova Iorque e falou com as pessoas e tirava fotografias com as pessoas. Eu digo: "Está bem, isto é uma experiência, este gajo resolveu ir para o metrô de Nova Iorque porque Com certeza. Ia ser fantástico. Passou ali pelo meio de Nova Iorque e as pessoas meteram-se com ele e tirou fotografias. Mas isso, para muita gente, torna uma certa infelicidade, porque a pessoa deixa de ter aquela liberdade de poder andar onde quer.

No teu caso, isso não se aplica, porque tens uma carreira internacional, mas uma pessoa que seja muito conhecida em Portugal tem uma vantagem, que é passar a fronteira e a partir desse momento ninguém a conhece, a não ser que apanhe uns portugueses na rua. E quanto mais longe for, menos reconhecido é na rua. Ou seja, é uma coisa quase binária, de uma pessoa ser imediatamente reconhecida na rua, passa a fronteira e de repente a língua muda e não é reconhecido. Mas contigo já não é bem assim. E uma figura, imagina o Ronaldo, por exemplo, vou usar o exemplo óbvio. Não há sítio no mundo em que ele vá, que não seja reconhecido.

O Ronaldo tem a vantagem de ter dinheiro suficiente para andar de avião privado.

Mas tu gostarias disso, não é? Percebes o que eu quero dizer? Também é um bocado um isolamento.

Eu digo-te uma coisa, as poucas vezes que andei de avião privado, gostei muito.

Não era um avião privado.

Podia me habituar. Agora, não tenho dinheiro. Aquilo é caríssimo, cada vez está mais caro. Porque agora tenho uma amiga que já me deu umas boleias de avião privado, que acabou de me dizer. O nosso amigo Tendinha, era para vir de carro com ela, mas depois os franceses meteram que quem vai de avião privado, para chegar lá não paga nada, mas para sair do país tem que pagar €400. Ela assim já saía-lhe mais barato vir de avião de carreira. Vamos lá, outra vez. As infelicidades e as felicidades. Eu acho que no fundo, todos queremos ter sucesso e o sucesso é sempre mais feliz do que o insucesso. O insucesso é muito triste. Eu estudei no Lee Strasberg Institute, depois estudei no Stella Adler, estudei com pessoas grandes. E daquela classe das pessoas com quem eu estudei, pode-se contar com os dedos da mão aqueles que tiveram sucesso, que hoje as pessoas reconhecem e fizeram muitos filmes. Lembro-me de estar a apanhar um táxi em Nova Iorque e o gajo dizer: "Lembras-te de mim? Andámos na escola". E depois começar a dizer mal do filme que eu tinha acabado de fazer. E tu dizes: "Isto é que é infelicidade". Porque o gajo sentiu-se feliz de me estar a dizer mal do filme que eu tinha feito. Eu disse: "Mas olha lá, eu trabalho como ator, tu andas a guiar um táxi". E o gajo: "Pois está bem", mas de qualquer maneira. Eu achei triste, percebes?

É uma frustração. Agora tocaste numa questão interessante, que é: nós olhamos para o sucesso como se fosse uma única coisa, mas na verdade, depende de como ele é definido. Acho que o que pode ser perigoso é tu definires o teu sucesso externamente, ou seja, por uma espécie de validação externa que não é o que tu queres realmente. Na verdade, sucesso é o que está em linha com as tuas ambições iniciais. Há um tipo que é o Nassim Taleb, que é um matemático e estatístico. Alguém aqui conhece? Boa, duas. Ah, três pessoas. É um tipo que tem uma série de livros escritos e ele tem uma definição de sucesso muito engraçada, não sei se vocês já apanharam, que é: "Sucesso é até que ponto é que tu deixarias o teu eu de 18 anos orgulhoso". Eu acho esta uma definição engraçada. Saíste de Portugal com que idade?

Eu saí de Portugal com 18 anos.

Pronto, aí está.

Cheguei a Nova Iorque, fui para Viena, Áustria, estive lá um ano. Onde me diverti imenso. Vivi seis meses em casa de um homem, o Vitorino de Almeida, que na altura era um génio, fazia um programa de televisão, "As Histórias da Música", que eu ajudei a fazer durante um tempo. Que me deu a conhecer aos 18 anos a loucura da alegria de ser louco. Eu tinha 18, ele tinha 30 e tal. Eu ia nas loucuras do Vitorino de Almeida, nós divertíamo-nos muito ali em Viena. E depois casei com a Andrea, uma húngara pianista clássica, que ele me apresentou, que eu disse que casava para lhe ajudar a sair do país comunista e ir para os Estados Unidos, que ela tinha uma bolsa de estudos, e eu aproveitei e fomos os dois. E acabamos por viver dois anos juntos.

E deixarias o teu eu de 18 anos orgulhoso?

Isto para dizer que aos 19 anos eu cheguei aos Estados Unidos e fui estudar inglês, porque eu falava muito já bem francês, italiano, espanhol, mas o meu inglês não era grande coisa. Há quem diga que ainda não é. Fui estudar para a Columbia University, fiz seis meses de seis horas por dia e depois fui estudar. E estes gajos da minha aula, aqueles que nunca fizeram nada depois. Mas os gajos riam-se um bocado quando me perguntavam: "Então, mas tu queres ser ator onde? Em Portugal?" "Não, quero ser ator nos Estados Unidos." Estes gajos não falam inglês, falam inglês como o Mata Ruão. Tu com 19 anos acreditas em tudo. A dúvida de ti mesmo é que tu não duvidas. Eu estava pronto para tudo e fazia tudo para chegar lá. Eu não duvidava nada. Trabalhava num bar até às 06:00. Eu lembro que o segundo filme com o Richard Gere e o Michael Caine, eu tive que audicionar quatro vezes numa semana. Eu deitei-me às 06:00, porque eu tinha que fechar o bar às 05:00, ia para a rua às 06:00, dormia duas horas e meia, levantava-me e ia fazer uma audição, que tinha que fazer audição às 09:00, 10:00. E depois ia dormir para abrir o bar outra vez às 15h, porque nessa semana, por azar, o chefe dos bartenders tinha ido de férias e eu estava a trabalhar todos os dias. Ao fim de uma semana disseram que eu tinha o trabalho. Eu disse assim: "Como é que eu consegui?" E depois cheguei à conclusão também que eu estava tão cansado que não podia estar nervoso.

Exato. Processos cognitivos.

Já dizia assim: "Como é que é possível? Eu dormia tão pouco." E aí uma felicidade enorme. Mas depois do filme voltei a trabalhar no bar. Eu só deixei de trabalhar no bar praticamente com o filme do Staviani, porque aí já ganhei o dinheiro que disse: "Pronto, já não".

Já dá.

Mas eu continuei, porque aquela coisa, eu nunca gostei de viver mal, nunca gostei de comer mal. Qualquer idade, quem é que não gostava de sair à noite? Portanto, eu disse: "Não". Inclusive, com o dinheiro do primeiro filme, que era o "The Soldier", que era um filme daqueles em que eu praticamente não falava, mas dava muitos tiros. Com esse dinheiro investi e comprei o lease do loft, que eu depois vendi em 2004. Para os dois amigos que estudavam comigo, um deles, o Christoph, que é muito conhecido, um austríaco que ganhou dois Oscars.

Valls?

Christoph Valls, que viveu na minha casa comigo dois anos, nesse loft que eu tinha comprado o lease. E o Christoph e outro alemão viveram lá durante dois anos. E eu casei uma americana, que era bailarina, eu casei a Anne, e o Christoph Valls casou a melhor amiga dela, de quem teve dois filhos. E a última vez que o vi, há tanto tempo. Engraçado que encontramos quando ele ganhou o Festival de Cannes, o melhor ator, e depois viu em Hollywood, no Hollywood Film Festival, e ele virou-se para mim. Primeiro não reconheceu, disse: " Joaquim, !" E falou-me em alemão, porque nós falávamos em alemão na altura e eu esqueci-me completamente que falava alemão com ele. Ao fim de não sei quantos anos. E é impressionante, porque o Christoph Valls teve para desistir de ser ator, porque ele esteve anos e anos a tentar entrar no sistema do cinema americano. Aí ficou farto. E ele vinha de uma família também de teatro. O pai era diretor de ópera, a mãe também era diretora de teatro. E ele tinha decidido, quando audicionou pro filme do Tarantino e ganhou o primeiro Oscar. E vês como a vida muda.

Sim.

A vida muda tudo. Se eu tivesse ficado nos Estados Unidos, se calhar feito só uma carreira americana, se calhar tinha tido uma carreira completamente diferente. Mas eu gostei muito da minha carreira, porque fiz filmes em português, fiz filmes em espanhol, fiz filmes em italiano, em francês.

Tens partido falar várias línguas.

"Amor de Inspetor", eu filmei chinês durante duas semanas, que aprendi foneticamente. Um outro filme francês que fizemos na Roménia, que ultimamente o realizador disse-me: "Não há problema nenhum, tens que fazer um romeno, mas depois dubramos o romeno". Cheguei lá: "Olha a tua professora de romeno". Mandei filmar na segunda-feira, isto era uma sexta, e lá fui eu aprender romeno. Isto dá-me felicidade, pensar nisso.

Tu aprendeste a falar chinês foneticamente para um papel? Eu ouvi bem?

Duas semanas.

A sério?

Nunca viste o filme "Amor de Vinho e de Inspetor"? Eu estou na comunidade chinesa e falo chinês. Sei lá, aprendi aquilo tudo foneticamente.

Como é que cora uma coisa dessas?

Foneticamente, eu escrevi. Tinha um professor, portanto eu escrevia aquilo foneticamente, aprendia o que é que estava a dizer na tradução e aprendi foneticamente. Trabalhei com uns atores chineses que eram de Hong Kong, que falavam muito mal inglês, a maioria deles, mas disseram que no fim, 85% do que tu dizias, nós percebíamos. Não é mau.

Com os chineses não era mau, até porque era nas tons.

Não era um filme pra China. E o romeno também não.

É meio latim.

Não, mas latim é pior, porque se parecem coisas, era pior. Mas mandei fazer umas coisas. Quanto mais ao longe está, estou a olhar para aquele senhor da última fila. Se eu puser por trás dele um cartaz escrito lá em romeno, você não me vê tanto a olhar. Portanto, quanto mais longe estiver o cartaz e maior for as letras, menos se nota que eu estou a ler aquilo. E era a única maneira. Depois algumas tive que aprender mesmo, que era descer umas escadas, etc.

Não dava para estar a olhar.

Não, não dava. Mas isto traz-me imensa felicidade quando tu pensas e tens estas memórias. Depois há outras que não são tão-- vamos falar dessa outra parte da infelicidade. Às vezes, dentro do teu sucesso, tu aceitas fazer certas coisas e depois dás-te conta que aquilo não é nada do que tu querias. E depois tens que acabar o teu contrato. Estás a filmar com pessoas de quem não gostas, com um realizador que não te dás bem. E são coisas que não são fáceis também. Imagina aqui também, as pessoas são aqui. Um advogado, uma coisa de advogado este também. Os advogados que eu sei, que eu conheço, que são novos, quando vão trabalhar como advogados, são todos menos felizes. Quantos eu já vi querem desistir de ser advogados, porque há muitos que dizem: "Estou a fazer tudo menos a advocacia. Praticamente sou um secretário". Não é uma coisa.

Noutros sítios, aqui não, claro. Só noutros sítios.

Outra coisa que nós também sabemos que é muito infeliz é quando levas a conta do advogado. Que cada vez são maiores, cada vez são mais difíceis. Depois há outra coisa que eu diria que dentro do sucesso é a insegurança. Ainda há pouco tempo, uma pessoa com quem eu aprendi muito foi Michael Caine. Vê-lo trabalhar quando trabalhei com ele. E há pouco tempo estavam-lhe a dizer: "O senhor ao fim de 60 anos de carreira ainda fica nervoso?" "Se não ficar é porque não estou a querer fazer o trabalho da maneira que eu quero". Porque é importante. O sucesso traz inseguranças. Nós queremos ter a certeza de que aquilo que vamos fazer é o melhor que nós estamos a dar. E muitas vezes as produtoras, a produção não é aquela que nós queríamos. E não nos dão. Então tu tens que garantir e tens que te esforçar. E eu acho que uma coisa que eu sempre senti que é mau, que é antifelicidade, é essa insegurança de quereres ter a certeza que aquilo vai funcionar e não teres a ajuda possível. E muitas produções é assim.

Sim, e estás na mão.

Não sei se me estou a fazer entender.

Sim. Isto que estavas a falar, aliás, esse exemplo do Michael Caine é interessante, porque o sucesso liga muito à motivação. Ou seja, acho que as duas coisas estão alinhadas quando nós estamos a fazer algo que nos motiva e não algo definido externamente. Por exemplo, nesse caso, o filme se calhar até pode ser ótimo, mas não te identificas com o filme, não gostas da produção, não gostas das pessoas, quer dizer, no fundo aquilo não está alinhado. Tu olhando para trás, ao longo da tua carreira, o que é que te motivou? Se tiveste de ter uma coisa desde que saíste aos 18 anos até hoje, isto é um bocado clichê, isso que eu vou dizer agora, mas o que é que te faz levantar de manhã? Profissionalmente, o que é que te motiva? É o desafio, é a arte? É o dinheiro? Pode ser o dinheiro também. É sempre até certo ponto.

O dinheiro também ajuda. O dinheiro ajuda bastante até. Eu adorava que eu, quando fazia três, quatro filmes por ano e fiz disso durante muitos anos, senão não tinha chegado, eu acho que tenho 163 entre filmes e séries de televisão, não tinha chegado aí. Eu ouvia até as pessoas dizerem: "Mas como é que tu estás a trabalhar, a fazer um filme em inglês e estás a estudar e a meio já estás a estudar um filme que vais fazer em português ou em francês?" Eu preferia até, porque separava completamente. Aqui alguns na minha cabeça, eu estava a fazer isto em inglês e aquilo estava a preparar outra coisa que era noutra língua, portanto ajudava. E eu adorei isso durante muito tempo. E depois já estava a acabar um outro, já sabia que daqui a um mês e meio tinha outro, portanto acabava e começava a preparar. Porque é uma coisa que as pessoas não entendem, mas que deve existir também nas outras profissões, é que nós vivemos intensamente um filme, estamos três meses a trabalhar com uma equipe, que nós, como atores, às tantas, a câmera está aqui, tem estas pessoas todas que são da equipe, eletricistas, guarda-roupa, maquiadoras, eu às tantas não os vejo. Mas basta uma pessoa entrar, que não pertença a esta gente que eu vejo todos os dias, que eu digo: "Desculpem, quem é esta pessoa?" Porque distraiu-me, porque vi uma cara nova. E é sempre importante que nos digam aos atores: "Olha, hoje vai estar alguém", e nos apresentem, que é para nós depois acharmos já não estar nada a ver. Portanto, já agora perdi-me na meio desta coisa toda.

O que é que te motiva?

O que é que me motiva?

O que é que te motivou?

Não, mas motivava-me imenso. Eu sempre gostei de me levantar de manhã, antes de ir trabalhar, levantava-se muito mais cedo, porque gostava de estudar aquilo tudo, rever tudo antes de ir trabalhar. O que é que me motiva? O que me motivava e o que me motiva agora são duas coisas diferentes.

Sim.

Agora não motiva tanto ir fazer um filme em que tenho que fazer 12 horas por dia, já não motiva tanto. Já prefiro que me deem um papel em que não tenha que trabalhar tantas horas por dia. Eu lembro-me, fiz um filme com o Ben Gazzara, não sei se lembram do Ben Gazzara, que era um ator ítalo-americano, que fez os filmes do John Cassavetes, e que eu fiz dois filmes com ele em Itália. E o Ben Gazzara só trabalhava de manhã. Também já tinha uma certa idade. Uma certa idade, mais velho que eu. Já estava com 70 e muitos. E ele dizia: "Eu faço o filme se vocês me deixarem só trabalhar de manhã ou de noite. Mais de quatro horas já não quero". E era ótimo, o gajo vinha, fazia: "Meus senhores, amanhã. Hoje já não dou mais".

É o turno.

Isso para mim era ótimo. Agora, se chegar a uma certa altura...

Não, faz sentido, na verdade.

Não, está bem. Mas já não motiva, a não ser que fosse um filme fantástico, com um papel fantástico. Já não motiva trabalhar 12 horas por dia, durante dias e dias seguidos, ao frio, à chuva.

Desculpa, o que é que na altura te motivava? Porque essa mudança também é interessante ver em retrospectiva.

O que é que me motivava a atirar-me de um cavalo 20 vezes seguidas? Que hoje em dia, fui operado duas vezes à cervical, perguntaram-me: "Por que o senhor fez com a sua cervical? Se calhar, atirar-me 20 vezes do cavalo". Isso faria.

É conhecido.

O que é que me motivava? Tinha 30 anos.

Era o desafio?

O gajo, depois, ia dizer: "O realizador Miguel Littin estava a ver o Sandino na Nicarágua". Ainda por cima na Nicarágua, que se um gajo se magoasse, naquela altura, nós estávamos a filmar aqui, estava a guerra ali. Nós ouvimos a guerra. E o gajo, depois, a falar com o jornalista à minha frente, sabendo que eu estava atrás a ver o stunt ensaiar aquilo. "Estás a ver? Como é que aquele gajo vai parecer o ator? Não parece". Pois é, já não há os Alain Delon, Jean-Paul Belmondo, que faziam os stunts. E eu a ouvir aquilo e dizer: "Mas o que é que tu queres? Queres que eu me atire do cavalo?" "É pá, ó Joaquim, por amor de Deus, aquilo não custa nada". Então, o que não custa nada era que eu ia a cavalo, cavalo mexe com a mão esquerda. Atrás de mim vinham outros 20 cavalos, depois vinham os aviões daqueles da Guerra Mundial, porque aquilo era 1927, por trás. Eu nesta mão tinha aqui uma coisa que era pra explodir o sangue. Portanto, eu vinha por ali, vinham os aviões, explodia uma bomba, eu fazia assim com esta mão, explodia a coisa, achavam que eu caí do cavalo. Os gajos quase me passavam por cima, agarravam em mim, punham-me em cima de outro cavalo e íamos embora. Só vim 20 vezes. Fiquei três dias sem andar, sem mexer o braço. Claro que o Sandino andava assim, portanto, tinha essa vantagem. E eu dizia: "Joaquim, não precisa de estar sempre". "É que eu não consigo mexer o braço, não dá".

Foi um pin character.

Não, mas pronto, o que é que te motiva? Não sei. As motivações hoje já não são aquelas que eram. Eu adorava ir de um filme pro outro e fazer papéis diferentes e ir vestindo. Eu fazia isso quando era miúdo, os meus amigos de infância ainda me dizem: "Nós sabíamos que só tu podias ser ator", porque eu via um personagem, depois ia comprar umas roupas velhas. Eu lembro de ver o Adriano Celentano no filme que ele fazia, "Lorendin", que era "Sei Que é de Mim", era uma coisa assim. O Celentano estava muito mal vestido, andava e coisa. E eu fui comprar umas roupas assim, ia pro Cinema Roma e subia a escada, as pessoas ajudavam. E eu adorava aquela merda. Depois eu encontrava a vizinha da minha mãe: "Ó Joaquim, o que é que te aconteceu?" "Desculpe". Depois iam dizer à minha mãe: "O Joaquim andava parecido a um maltrapalho". A cocear as coisas. Minha mãe passava vergonhas.

Essa história é muito boa.

Mas eu acho que o que me motivava, não sei, era isso.

Não é fácil responder, atenção.

Não, porque depois perdemos essa motivação.

E acho que nunca sabemos verdadeiramente, porque é uma coisa que está tão no nosso inconsciente, que não é fácil. Talvez fosse útil o psicanalista que esteve aqui no episódio anterior, porque não é fácil a pessoa desenterrar o que te motiva.

Não, mas eu sei o que me motivava. Adorava entrar nos outros papéis, fazer as coisas. E depois aqueles filmes de ação, era engraçado, porque tu ias sempre pra países. Estás fazendo o mau da fita, é muito mais divertido fazer o bom da fita, pra dizer a verdade. Eu adorava fazer aqueles maus da fita, sempre me davam prazer. Os maus da fita eram mais engraçados. Porque tu quando és o mau da fita, fazes aquilo que tu não podes fazer na realidade.

Exato.

Portanto, tinha sempre aquelas. Agora, voltemos à felicidade e à infelicidade. Olha, infelicidade, eu sei, é o trânsito às 18h em Lisboa. Isso é definitivamente infelicidade.

Nos dois sentidos da palavra.

Felicidade é uma bela cervejinha à beira-mar. Isso são coisas que hoje em dia eu acho que definem a felicidade. O que era felicidade então e o que é felicidade agora? Se tu agora me disseste assim: "Felicidade nos anos 80?" Nova Iorque era uma loucura, sair à noite, aquela gente toda, aquela quantidade de gente criativa. Adorava isso. Hoje, sair à noite? Não, por amor de Deus. Eu prefiro ficar em casa. Até já sair à noite pra ir ver cinema, eu digo às pessoas: "Vão ao cinema, que é bom, é importante ir ao cinema". Depois adoro ficar em casa. Já temos que assentar que filmes é que vimos, que um gajo esquece, já vi tantos. Vi tantas séries, um gajo já não se lembra. "Então e agora? Aquela, sabes?"

"Como é que se chama?"

"Porra. O ator. Aquele... Parei. Imdb, chega cá ver". Tornou-se essa a coisa. "Dás-me o filme?" Isso é felicidade. O gajo vem pra Portugal, nada mais feliz. Os fins de semana, aqueles almoços, as bacalhoadas, as coisas com os amigos. Coisas que eu nunca fiz durante anos e anos.

Sim.

Estados Unidos, a comida é uma coisa que não... É o barbecue, que eles acham que é ótimo. Não, eu sempre gostei de vir a Portugal. É definitivamente felicidade, isso.

Lá está, tu agora podes escolher essa felicidade Fizeste a outra parte antes. Agora podes escolher essa felicidade sem ter de influí-la.

Eu acho que se mostrares a qualquer pessoa que tenha minimamente vivido alguns anos, não tenha 20 e poucos anos e esteja agora, infelizmente, aqui a trabalhar como um jovem advogado, que não deve ser uma coisa que é como tu trabalhas, mas quem viveu tanto tempo, a felicidade muda. O que é a felicidade hoje com a minha idade, não é o que era com aquela idade.

Sim, o sucesso, de certa forma, permitiu-te fazer as opções na altura certa para seres mais feliz. Agora pudeste voltar a Portugal, pudeste estar lá fora quando isso era o que te motivava.

Dava-me uma certa infelicidade, que já em Espanha, por exemplo, toda a gente me conhecia. Nos Estados Unidos eu já era conhecido e em Portugal, havia um filme em que entrava um cara que era português e ninguém falava disso. Durante anos, ninguém falava disso. Depois, lá veio o "Clear and Present Danger", Harrison Ford, "Desperado". E mesmo assim o "Desperado" em que eu tinha o papel senhor António Banderas principal, António Banderas e George Clooney. E houve um senhor que é realizador de cinema, que era crítico de cinema, que fez uma crítica ao filme não mencionando que havia um ator português. Portanto, eu achei fantástico. Quando é uma das coisas que mais me param na rua e me dizem frases do Butcher. Isso é uma coisa que é engraçada e as pessoas falam.

Essa história é extraordinária, ele não mencionou que havia um ator português.

Um cara que se chama João Grilo. Não mencionou. Fez a crítica, não mencionou que havia um ator português. Várias vezes, durante tanto tempo. Já em Espanha, eu fiz muitos filmes, as pessoas paravam na rua e diziam: "'El Niño' ou 'NH', 'el galán' português". Mas eu fiz um filme, que finalmente um filme espanhol chegou cá, "El rey pasmado", que foi um filme que teve no Cinema King, que era do Paulo Branco. Esteve lá oito meses, sempre em cena. Durante um tempo, deu-me uma certa infelicidade que na minha terra ninguém visse. Porque eu acho que isso é muito português, que tu fizeste a carreira lá fora, tens que ser da terra, Amália Rodrigues, Eusébio.

Deves ter sofrido.

Agora não, agora temos vários outros atores a fazerem carreira lá fora, já se fala, mas era uma coisa que era um pouquinho mesquinha, de tu teres feito carreira lá fora e as pessoas não-

É uma espécie de complexo de inferioridade em muitos casos. O que achas que é por ter feito filmes lá fora?

Não sei. Partiam do princípio, eu lembro uma vez eu estar sentado num almoço com a Simone de Oliveira, que ela ao fim de meia hora diz assim: "Olha, queria dizer que afinal gosto muito de ti, porque pensei que eras um arrogante e não gostava nada de ti".

Com base em quê?

Exatamente. Com base em quê? Nas entrevistas, porque eu às vezes dizia coisas que eu achava que estavam mal em Portugal, como se em Portugal não se podia dizer mal nada. Não sei, a Simone, mas aconteceu com algumas outras pessoas com quem trabalhei, só porque achavam: "Pronto, o cara quer ir para a armadura em star". Eu que nunca fui star nada, nunca. Sou o mais simples do mundo.

Engraçado, as pessoas assumiam.

Não, mas isso enervava-me um bocadinho.

Sim.

Até que há instantes, as pessoas conhecem e veem que não é assim.

Sim. Tu há bocado estavas a falar dos papéis do mauzão, do mau da fita. E eu tenho ideia que tu a certa altura tentaste um pouco lutar contra isso nos Estados Unidos, no cinema americano.

Pois tentei.

Porque o tipo a certa altura fica catalogado como aquela personagem.

Exatamente. E queria fazer outros personagens. E lembro-me de ver que o James Mason, um ator inglês, que a uma certa altura disse que não queria fazer mais maus da fita em Hollywood. E depois acabou por começar a fazer outros papéis. Como dizia o Michael Caine outra vez: "Nós, mesmo ingleses, vocês então pior, porque a vossa língua não é o inglês. Nunca faremos o dinheiro que fazem os atores americanos, porque os caras são americanos". Mas depois enganou-se com o Schwartznegger e outros. Mas eu a uma altura disse ao meu agente: "Não, não quero fazer mais mau da fita". Disse não um, disse não dois, disse não três, depois o filme saiu, foi um sucesso, eu comecei a ver o dinheiro que estava a perder, eu disse: "Não, isso não dá. Vamos fazer maus da fita".

Podias fazer os outros papéis fora dos Estados Unidos.

Fora dos Estados Unidos nunca fiz muitos papéis de mau da fita. Portanto, compreendi que era bom fazer aqueles papéis, divertia-me, ganhava dinheiro e depois vinha fazer para a Europa os outros papéis que me divertiam, em que não se ganhava muito dinheiro.

Sim, exato. Mas o que se passou para não ter sido possível tu mudares o teu tipo? Do outro lado eles já te tinham catalogado.

Não sei. E ao mesmo tempo tinha feito um filme também, "Only You" Com o Robert Downey Jr. e a Marisa Tomei, que era uma história com a Bonnie Hunt, éramos os quatro principais. Era uma história romântica, uma comédia romântica. Aliás, aquele filme teve um sucesso, porque era um cartão postal da Itália, desde Veneza até a Costa Amalfitana. Inclusive, o hotel onde nós filmámos, o Le Sirenuse, passou a ser um hotel conhecidíssimo. Que era uma comédia romântica. Eu sei que isso ia mudar um bocadinho. "Não sei, tu fizeste três, quatro filmes de malha feita, és bom a fazer malha feita, vais ser malha feita". E pronto. Eu acho que também não ajudava a voz que eu tenho. As pessoas não viam muito romanticamente. Uma voz rouca que eu sempre tive. Esta voz rouca. Que isso é uma voz que vem do lado da minha mãe. A minha mãe por acaso não tinha, mas eu tinha primas que tinham a voz assim, que era pistéia. "Estou aqui, dá as boas". Eu tinha umas primas assim, com uma voz. Minhas tias também. Minha mãe era mais nova, era das poucas que não tinha. E garanto que eu tinha muita tia. A minha mãe era mais nova de 16, portanto, havia muita tia.

Sim.

São Maria, posso abrir aqui ao auditório as perguntas?

Sim, claro.

Joaquim, tenho duas e depois vou abrir às outras pessoas. A primeira é: como hás de ter sentido imensos momentos, como qualquer pessoa, na verdade, mas com as especificidades de seres o ator com a carreira que tens, de insucesso, quando fizeste mesmo mal aquilo que te cabia, porque o realizador não era bom, porque tu não estavas inspirado, como é que recuperas do insucesso quando a tua prestação não está à altura daquilo que tu achas que devia estar? E a outra pergunta é: contracenaste com o António Banderas e com a Salma Hayek. Conta-nos uma cosquice qualquer desses dois, por favor.

Conta-nos uma quê?

Uma cosquice qualquer do Banderas e da Salma Hayek.

Olha lá, os insucessos não são só os insucessos. Eu quando estou a trabalhar, chego ao hotel e acho que: "Porra, que merda, aquilo podia ter sido muito mais bem feito". E depois começo a rever e começo a fazer aquilo tudo na cabeça outra vez. "Isto era assim que devia ter sido". É claro, os insucessos são todas as ideias. Nós sempre podíamos ter feito mais. Depois há outros insucessos, há outros que tu até achaste que tinhas feito um bom trabalho e quando viste aquilo, aquilo não era tão bem. Eu lembro-me perfeitamente quando fazia teatro, o contra regra, às vezes acabava a coisa, nós íamos despir e dizer: "Epá, Joaquim, tu hoje estavas do caraças". E tu dizes: "A sério? Eu achei que estava um dia que eu estava mal disposto, estava deprimido". Epá, e não sei, parece que puseste aquilo e aquilo passa através do cenário. Depois há aqueles dias em que tu achas que estavas ótimo e dizem: "Ó Joaquim, hoje não estavas desconcentrado?" Porque tem a ver. Eu acho que tem a ver com a concentração. Mas como é que tu recuperas? Recuperas no dia a seguir. Lembro-me logo ao segundo filme, tenho uma cena com o Richard Gere e o realizador chama-me para ver os rushes, as diárias, que vinham ao fim de uma semana. Diz: "Ó Joaquim, ainda quero que tu faças isto. Temos que fazer esta cena outra vez". "Temos que fazer esta cena, por quê?" "Epá, olha, vais ver". E eu começo a ver a cena. Epá, e estava sempre com a cabeça assim de lado. Ele diz: "Então não estás a ver por que temos que fazer a cena? Já viste? Estou com a cabeça assim. Estou a falar com ele, tenho a cabeça de lado". A partir daí comecei sempre, agora metes cabeça direita. E aquilo tinha uma razão de ser. Eu tive um traumatismo craniano com quatro anos. Estive paralisado do meu lado esquerdo durante um mês, que tive problemas. E eu tenho a tendência para deixar a cabeça deste lado. Agora ando sempre assim. Falar com a cabeça direita. Mas para dizer aquilo, a pessoa depois vai sempre. Epá, sei lá, tens que recuperar dessas coisas. Mas é uma cusquice do filme "Desperado". Eu vi uma cena que eu vou à livraria, que a Salma Hayek é a dona da livraria, mas eu sou o dono da livraria e vou lá, eu sou o dono da terra. E o António Bandeira está ferido por trás da máquina registadora, mas eu venho meter-me com ela. Eu não estava para fazer a cena. Havia a primeira parte com o António Bandeira, e eu estou a ver, e estava a ver na câmara e digo assim: "Epá". E fiz um comentário para o realizador. A Salma está com um vestido tão giro, de seda. Epá, e depois tem assim uma coisa nas cuecas, aquilo fica muito mal. E o realizador foi-lhe dizer para tirar as cuecas, que aquilo ficava muito mal. Então, vamos ensaiar a cena, diz-me a Salma assim entre dentes: "Ó filho da puta, foste tu que lhe foste dizer para eu tirar as cuecas?" Eu disse: "Me? Não!" Mas ele tinha razão, ela depois foi-me agradecendo, que ela ficava muito mais engraçada. A Salma Hayek, vocês não têm que perceber, porque a Salma Hayek é assim pequenina, tem 1,54 metro. A altura da minha mãe, que também era assim uma senhora muito pequenina. Mas a Salma Hayek, era o primeiro filme que ela fazia nos Estados Unidos, era lindíssima. Acho que estava toda a gente apaixonada pela Salma Hayek. Mas era muito engraçado.

É boa.

Não.

Não sei se vais casar Salma Hayek.

Não, esse filme é muito engraçado. Eu estava em casa, em Lisboa, quando me telefonaram: "Pode estar em quatro dias em El Rio, Texas, para filmar o "Desperado"?. E eu disse: "O "Desperado"? Mas eu não encontro o realizador há muito tempo". "Pois, é que o Raul Julia entrou em coma e eles querem que tu substituas o Raul Julia". E eu disse: "Está bem, deem-me o guião, que quando eu chegar a Nova Iorque, vou para lá". E eu lembro-me de ter lido o guião, aquilo era tudo muito exagerado. E uma das frases, numa das cenas que eu faço, que as pessoas me param na rua. Eu estou à procura, quero telefonar para os gajos que andam no meu carro, os assassinos, não sei o quê. Dizes: "What's the number to the phone in my car?" Ninguém responde. Eu digo: "What's the number to the fucking phone in my car?" Continuavam a não responder. E o realizador diz: "Joaquim, we got it". Eu estava que aquilo era natural. "No, give me more. What's the number to the fucking phone in my car? What's the number to the fucking phone in my car?" Eles aí reagiam. E foi assim que ficou. Mais, mais, dá mais! E eu quando cheguei, só faltavam duas semanas para acabar de filmar. E eles perguntaram: "Olha, Joaquim, eu vou-te agradecer por teres substituído o Raul Julia, senão estávamos aqui, nós tínhamos que parar de filmar. Agora, eu não vou dizer o que é o personagem, vou-te só mostrar". Mostrou uma cena do bar. E a cena do bar era o Bandeiras matava. Eu olhei: "Ok, I got it. I'm not bad, I'm very bad". E foi assim que ficou o personagem. Very bad. Estás a ver? Dava imenso prazer. Aqueles filmes eram da altura. Mas eu hoje, se tivesse que fazer outro "Desperado" agora mais velho, também fazia.

Não é andar a assaltar pessoas.

Não, eu ainda não tinha que andar muito a assaltar. Tinha que roubar os taxis, mas assaltar, não. Eu, aliás, eu dizia sempre: "Eu faço o mau da fita, mas os maus bem vestidos". Eu nunca fiz maus, mal vestidos. Sempre um gajo muito bem vestido nos maus que eu fiz.

Mais alguém? Mais ninguém? Não sei. Eu posso fazer uma só para aquecer. Não chegámos a falar tanto da tua fase atual. E eu tenho uma grande inveja da profissão de ator, porque é uma profissão da qual tu podes não te reformar. A pessoa vai se reformando gradualmente, como tu dizias há pouco, fazer só quatro horas. No outro dia, como vos disse, fui ver uma peça do Rui de Carvalho. 98 anos.

98?

98 anos.

Eu não sei como é que ele decora o seu texto.

Extraordinário. Ele leu, como o monólogo do vaqueiro, tem aquilo gravado na memória há décadas. Aquilo dura quase quatro minutos. Noventa e oito anos, é extraordinário. E já agora, pormenor, dir-se-ia, ator de 98 anos, é o ator mais velho do mundo em atividade, os bilhetes são caríssimos e não há lugares. Não, os bilhetes eram baratos e havia lugares no teatro, o que é extraordinário. Mas isto para dizer que tu podes fazer o que quiseres, no fundo. Agora queres abrandar, mas podes ir continuando a representar enquanto apetecer.

Eu digo que quero abrandar, mas depois se aparece uma coisa que eu gosto muito.

Claro. O Rui de Carvalho tem mais o quê? Trinta que tu. Portanto, até lá.

Tem 30 que eu? Pois. Mas eu não sei como é que ele faz, para dizer a verdade. Não, é diferente, quando tu fazes teatro, tu fizeste a mesma peça várias vezes.

Sim, atenção, eu fui ver uma peça dele.

E teatro, fazes a mesma peça.

É uma peça já adaptada mesmo.

E fazem ao longo dos anos. Eu não gosto de teatro por causa disso, eu quando fazia teatro, epá, detestava. Levantava manhã, já tinha os diálogos na cabeça. Passava o dia com os diálogos na cabeça e depois vivia a vida depois de fazer a sessão, então até às 04:00. Os atores de teatro dormem todos muito tarde, porque durante o dia é aquela coisa. E o cinema é diferente. Eu, por exemplo, detesto agora filmar de noite, gosto de filmar de dia. Se tiver que me levantar às 04:00, tudo bem. Se tiver que começar a filmar às 05:00, adoro. Porque gosto de manhã, que eu estou com aquela energia toda, não sei. E depois chegar a casa, chegar ao hotel e jantar e pensar naquilo que se correu bem, percebes? Agora, o teatro é diferente.

Já te ronda, sim.

Pronto, eu não era feliz no teatro, porque aliás, muita tensão. Era tudo antes, depois entrava em palco, pronto, aquilo passava tudo. Mas antes de entrar em palco, epá. E depois não vivia bem os dias com aquilo.

É uma ansiedade até lá.

Não, o cinema é diferente. Eu adoro o cinema. Fizeste este dia, já está feito. Claro, está feito. Na altura, eu fiz um filme, tivemos que repetir uma semana inteira, era uma comédia. Era filme, compraram o filme da Kodak, que estava mau. Lembras-te de antes, tinha riscos. Então, quando havia risco, tinha que se repetir a cena. Claro que havia sempre risco. Quando tu fizeste aquilo, quando aquilo saiu melhor. Mas aquela vez foi a semana inteira. Tivemos que repetir o filme a semana toda. Não há nada pior do que tu já tiraste aquilo da cabeça e agora vais buscar outra vez. A cabeça aparece. Tu tens aquilo tudo na cabeça, depois, de repente, vais tirando. E às tantas tens que ir buscar outra vez.

O esforço de ir buscar de novo.

É, tens que te lembrar daquilo tudo. Porque tu fizeste e agora ufa! E é isso que eu gosto no cinema, porque tu trabalhas as coisas pouco a pouco.

Sim. Temos mais perguntas?

Penso que não. Temos, afinal temos.

Então uma pergunta para fechar.

Muito obrigado. Muito interessante. Uma questão: na medida em que a profissão, seguramente, o sucesso é medido pela perceção que o público tem da prestação, e, portanto, é uma perceção exterior e o sucesso é medido nessa medida. Terá havido algum momento da sua carreira em que se autonomizou um bocado desta avaliação, ou seja, ignorando um pouco aquilo que terá sido a perceção dos outros, considerava que aquilo que faz está certo, porque sim, porque encontrou o seu centro, o seu centro de valores e, portanto, as ponderações que fazia, achava as corretas. Terá havido um momento na sua carreira em que se autonomizou daquilo que era a perceção do público e não quisesse agradar a toda a gente?

Nós não trabalhamos para agradar a toda a gente, nós trabalhamos primeiro para nos agradar nós mesmos, porque senão, se é para agradar os outros. Eu acho que primeiro o nosso sucesso depende daquilo que nós achamos que estamos a fazer. O sucesso é medido, é claro, pela perceção que as pessoas têm. O meu sucesso é, talvez, medido porque fiz tanta coisa. Eu comecei no cinema e os atores de cinema não faziam televisão. Depois começou-se a fazer televisão, depois tem que se viver com a televisão e agora é o streaming. E o durar tantos anos, porque eu fiz o meu primeiro filme em 1980 e estamos em 2025. Portanto, 45 anos, ter feito 160 e tal filmes e séries de televisão, eu digo, mede-se por isso. Evidente que há pessoas que vão dizer: "Eu não gosto daquele gajo como ator". Há outros que mandam mensagens, adoram. O que interessa é que eu acho que o sucesso mede-se por aquilo que nós achamos de nós mesmos. Se eu acho que a minha vida teve sucesso? Eu acho que teve sucesso na medida em que eu tive sempre trabalho durante tantos anos. Podia ter mais sucesso? Podia ter muito mais sucesso. Houve coisas que eu queria fazer e não fiz. Agora, chegado aos 68 anos e estar confortável na vida, estar em paz comigo mesmo, sentir-me bem, ter uma casa porreira. O sucesso mede-se também nessas coisas, é de nós termos chegado a uma certa idade e sentirmos dever cumprido, mas também podemos continuar a trabalhar, não é? Medir o sucesso pelo que os outros acham.

Era precisamente nesse sentido, ou seja, a confusão pode gerar-se eventualmente no início da carreira, porque é o público que avalia e, portanto, pode haver essa confusão e a prioridade é estar-

Não, e é o público que avalia e é importante o que o público avalia, ao contrário do que eu acho que muitos realizadores portugueses diziam na altura, muitos realizadores, que alguns ainda dizem que estão a se ralar para o público, é o filme deles, o filme vai a festivais. Eu não estou de acordo, eu faço as coisas, quero ter público, quero que o público venha ver as minhas coisas. Estar a fazer filmes para não ter público, não faz sentido para mim. Até porque o cinema é caro. Claro que o cinema português vive muito de ajudas do Estado, etc. Mas o cinema nos Estados Unidos, que é uma indústria, tem que fazer dinheiro. Agora, ficamos infelizes quando o filme não tem o sucesso que nós queríamos que tivesse. Mas eu fico muito mais infeliz de olhar para aquilo e dizer: "Ei, pá, Joaquim, fizeste uma merda de um trabalho". Isso fico muito mais infeliz. Agora, a questão, também é verdade que muitas das coisas que fiz nunca vi.

Ah.

E perguntem por quê, não sou o único. Eu não gosto de ver. Vejo partes, porque tens que ver, temos que dobrar, temos que refazer partes.

Ver é doloroso?

Eu se não fui à estreia porque estava a filmar, já é difícil de vá ver. Vou à estreia, porque tenho que ir a festivais para falar do filme, etc. Mas muitas vezes eu tenho séries que vi partes. Vi o meu trabalho todo? Não, não vi. Quero ver? Não. Porque a memória que eu tenho, é o que me gosto mais, é aquilo que eu fiz, o que está aqui dentro, que não coincide com o que está na imagem.

Exato.

É uma coisa estranha, mas o que nós nos lembramos de fazer raramente coincide com aquilo que nós vimos na imagem. Há ali um desfasamento e, portanto, nem sempre me apetece estar a ver.

Obrigado.

Boa, e terminamos. Joaquim, obrigado por mais uma bela conversa.

E já são 20h30. Muito obrigado. Como já viram, eu podia estar aqui a falar até às tantas.

Este podcast é da responsabilidade da PLMJ.