A escolha da Lufthansa para adquirir uma participação na TAP aproxima duas companhias, dois países e diferentes formas de trabalhar. Para além das decisões empresariais, esta aproximação coloca uma questão humana que me acompanha há muito: o que acontece quando pessoas com referências culturais diferentes procuram compreender-se?

O alemão entrou na minha vida aos quatro anos, quando comecei a frequentar o Colégio Alemão do Porto, onde estudei durante 14 anos e concluí o Abitur, o exame que marca a conclusão do ensino secundário na Alemanha. Apesar desse percurso, decidi fazer os meus estudos universitários em Portugal. Queria conhecer melhor o meu próprio país, compreender a cultura em que também me reconhecia e descobrir o lugar que ocupava entre estas duas referências.

Mais tarde, vivi e trabalhei na Alemanha, na Universidade de Freiburg, e escrevi a minha tese de doutoramento em alemão. Na defesa, perante um júri composto apenas por suíços e alemães, ouvi uma observação que nunca esqueci: estava a defender o meu trabalho como uma alemã, não como uma estrangeira.

A frase ficou comigo. Durante muito tempo, eu própria me tinha sentido estrangeira no meu país. E, naquele momento, pessoas de outra cultura reconheciam em mim uma forma de pensar e de argumentar que identificavam como sua.

Talvez tenha sido aí que percebi, com particular clareza, que a identidade cultural nem sempre coincide com a nacionalidade. Podemos pertencer a um país e, simultaneamente, transportar dentro de nós referências que nos aproximam de outro.

Sempre gostei da frontalidade alemã. Aprecio a clareza de dizer o que se pensa, a possibilidade de discordar sem que isso tenha necessariamente de ser interpretado como um conflito pessoal e a ideia de que uma conversa difícil pode ser, precisamente, uma forma de respeito.

Mas nem sempre aquilo que consideramos natural é entendido da mesma maneira pelos outros.

Ao longo da minha prática clínica, tenho ouvido relatos que ilustram este desencontro. Uma comunicação direta, que para alguém representa objetividade e eficiência, pode ser recebida por outra pessoa como frieza ou dureza. Uma pessoa acredita ter sido perfeitamente clara; a outra fica a pensar na forma como foi tratada.

O que uma interpreta como frontalidade, a outra pode interpretar como falta de consideração.

Isto não significa que os alemães sejam todos frontais ou que os portugueses evitem dizer o que pensam. As culturas não determinam as personalidades, mas influenciam as nossas expectativas e a forma como atribuímos significado aos comportamentos dos outros.

Quantas vezes julgamos a intenção de alguém sem termos verdadeiramente compreendido a sua maneira de comunicar?

Talvez a experiência de me sentir diferente no meu próprio país me tenha tornado particularmente atenta a estas situações. Crescer entre referências culturais distintas nem sempre é simples, mas ensina-nos que aquilo que parece evidente para nós pode não o ser para outra pessoa. E que a diferença não tem necessariamente de ser eliminada: por vezes, precisa apenas de ser compreendida.

Esta questão interessa-me especialmente no trabalho com líderes. São pessoas a quem se pede constantemente que decidam, orientem, esclareçam e assumam responsabilidades. Mas também são pessoas cujas palavras podem ser interpretadas de formas que nunca imaginaram e que nem sempre encontram espaço para refletir sobre aquilo que acontece nas suas relações.

Compreender alguém não significa concordar com tudo o que faz. Significa ter curiosidade suficiente para não reduzir uma pessoa à primeira impressão que nos causa.

A aproximação entre a TAP e a Lufthansa torna esta reflexão particularmente atual. Quando duas organizações de países diferentes passam a trabalhar mais estreitamente, não são apenas estratégias, estruturas e processos que precisam de se articular. São também pessoas, equipas e formas de comunicar que têm de encontrar um terreno comum.

Não é necessário que duas culturas se tornem iguais. É necessário que consigam reconhecer as suas diferenças sem as transformar automaticamente em defeitos.

Hoje, vejo a minha relação com a Alemanha não apenas como uma parte do meu percurso académico e profissional, mas como uma das experiências que mais influenciaram a forma como compreendo as pessoas.

Talvez seja essa a aprendizagem que retiro de ter crescido entre culturas: não precisamos de sentir, pensar ou comunicar da mesma maneira para nos compreendermos. Mas precisamos de estar dispostos a questionar aquilo que julgamos evidente.

Por vezes, compreender o outro começa precisamente quando percebemos que a nossa maneira de ver o mundo não é a única possível.