Há conquistas na saúde que não se medem apenas em anos de vida, diagnósticos ou tratamentos realizados. Revelam-se também em gestos aparentemente simples, como voltar a caminhar, conseguir vestir-se sem ajuda, preparar uma refeição ou regressar ao trabalho. Para quem perdeu estas capacidades, recuperá-las pode representar muito mais do que uma melhoria da condição física. Pode significar recuperar a confiança, a independência e a possibilidade de retomar projetos de vida interrompidos pela doença ou pela incapacidade.
Hoej, 18 de outubro, assinala-se o Dia Nacional do Enfermeiro de Reabilitação, uma data que marca o percurso de uma especialidade construída sobre o conhecimento científico, experiência clínica e o compromisso com as pessoas. Celebramos também os enfermeiros de reabilitação que, diariamente, contribuem para preservar capacidades, recuperar funções e apoiar quem enfrenta as consequências da doença, da incapacidade ou da deficiência.
A importância dos cuidados de reabilitação torna-se particularmente evidente quando olhamos para a realidade portuguesa. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2024, cerca de 29% da população com mais de 16 anos referia limitações na realização das atividades de vida diária devido a problemas de saúde, sendo que, entre as pessoas com mais de 65 anos, essa proporção ultrapassava os 55%. Embora estes números não permitam determinar quantas pessoas necessitam de cuidados especializados de reabilitação, evidenciam a dimensão das limitações funcionais na população portuguesa e a importância de respostas de saúde orientadas para a preservação da funcionalidade e da autonomia.
A Enfermagem de Reabilitação intervém ao longo do ciclo vital, em diferentes situações clínicas e contextos de vida. A sua intervenção abrange a prevenção de complicações, a recuperação e manutenção da funcionalidade, a reeducação e a readaptação funcionais, promovendo a capacidade para o autocuidado, a autonomia e a participação social. Exige conhecimento científico, avaliação especializada e raciocínio clínico, mas também a compreensão das necessidades e expectativas de cada pessoa. Recuperar a capacidade de caminhar, por exemplo, pode significar regressar ao trabalho, voltar a sair de casa ou conseguir deslocar-se com segurança no próprio domicílio.
O valor da Enfermagem de Reabilitação revela-se nos resultados alcançados e no que estes representam para a vida das pessoas. A recuperação de capacidade, a prevenção de complicações ou a adaptação a uma limitação permanente são benefícios que não podem ser avaliados apenas pelo número de intervenções realizadas. Conhecer e avaliar estes resultados permite orientar a investigação científica, identificar as abordagens mais eficazes e evoluir as intervenções especializadas, criando valor em saúde através de cuidados cada vez mais efetivos e ajustados às necessidades das pessoas.
A Enfermagem de Reabilitação pode também contribuir para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, ao promover a recuperação funcional, preservar capacidades e reduzir situações de dependência evitável, diminuindo potencialmente a necessidade de cuidados adicionais e favorecendo uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis. Avaliar este impacto é fundamental para compreender melhor o valor da intervenção especializada, tanto para as pessoas como para o sistema de saúde.
Para que estes benefícios cheguem a quem deles necessita, importa enfrentar as desigualdades no acesso aos cuidados especializados. A região onde se vive, a instituição onde se recebem cuidados ou a disponibilidade de profissionais podem condicionar as oportunidades de recuperação.
Esta realidade torna-se particularmente preocupante quando, após a alta hospitalar, as pessoas continuam a necessitar de cuidados de reabilitação que nem sempre encontram resposta atempada na comunidade. Os dados da Entidade Reguladora da Saúde revelam algumas destas dificuldades: em 2024, o número de utentes a aguardar vaga nas Equipas de Cuidados Continuados Integrados aumentou 43,3% face ao ano anterior, sendo que uma percentagem significativas destas pessoas requer cuidados de reabilitação.
O acesso aos produtos de apoio é outro exemplo de como a organização dos cuidados pode facilitar ou dificultar a autonomia das pessoas. Uma cadeira de rodas adequada, um dispositivo de apoio à marcha ou um equipamento que facilite o autocuidado pode fazer uma diferença decisiva no quotidiano. Os enfermeiros de reabilitação possuem competências reconhecidas na avaliação, seleção, prescrição e treino de utilização destes produtos. Persistem, contudo, constrangimentos nos circuitos formais de prescrição e atribuição destes equipamentos que importa ultrapassar, para que as pessoas possam beneficiar atempadamente dos recursos de que necessitam.
Melhorar o acesso e assegurar a continuidade dos cuidados implica também mobilizar plenamente as competências enfermeiros de reabilitação. A integração efetiva nas equipas de saúde permite articular intervenções, participar nas decisões clínicas e acompanhar a evolução das necessidades das pessoas. O trabalho interprofissional é essencial, mas pressupõe que cada profissional tenha condições para exercer as suas competências. A presença de especialistas nos serviços não é suficiente quando a organização do trabalho limita a intervenção diferenciada que estão preparados para desenvolver.
Não basta reconhecer a importância da Enfermagem de Reabilitação nos discursos de circunstância. É necessário que esse reconhecimento se reflita na forma como os cuidados de saúde estão organizados e nas oportunidades que as pessoas têm de recuperar ou preservar a sua autonomia. A reabilitação tem de deixar de ser uma preocupação secundária da política de saúde e passar a ser uma prioridade efetiva do Serviço Nacional de Saúde. Isso exige garantir o acesso atempado aos cuidados, assegurar a sua continuidade e reconhecer a funcionalidade como um resultado fundamental em saúde.
Neste Dia Nacional do Enfermeiro de Reabilitação, celebramos o percurso de uma especialidade que tem sabido evoluir e responder a necessidades de saúde cada vez mais exigentes. Celebramos, sobretudo, os enfermeiros de reabilitação que diariamente colocam as suas competências ao serviço das pessoas. O desafio é assegurar que este contributo encontra, nas políticas de saúde e na organização dos cuidados, as condições necessárias para chegar a todos os que dele precisam.