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Em que mesmo pessoas que não liam, eu tinha amigos que acho que nunca leram um livro na vida, falavam: "Já ouviste falar daquele gajo do Pedro Paixão?" E eu: "Como é que este gajo ouviu falar do Pedro Paixão?"
Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso salva-vidas no meio da tormenta que pode ser a cultura popular. Esta semana vamos falar sobre literatura e tudo à conta desta pergunta: leram estes livros ou só ouviram falar? Vamos pôr aqui as culpas já em alguém. Esta semana a culpa é do Pedro Mexer Mendes, que certo dia, nas nossas vastas e profícuas conversas, lançou esta questão a propósito de livros sobre os quais, em diferentes momentos, eventualmente se terá falado muito. Livros que sinalizavam uma certa virtude literária, cada um ao seu jeito. E a questão é: leram estes livros? Fizeram parte da moda? E que moda foi essa? É mais ou menos isto que temos aqui esta semana em cima da mesa. Esta apresentação foi muito profissional, foi do melhor que fizeste esta semana.
Eu acho que foi a propósito do "Adeus Princesa", da Clara Pinto Correia.
Exatamente. Tu és o primeiro a falar esta semana, precisamente, eu espero uma espécie de mini explicação, mini introdução. Foi precisamente isso que estávamos a falar.
Como nós não temos tido temas a serem sugeridos por e-mail.
Não, mas contamos com
Mas vamos ter em breve.
Vamos ter em breve.
Nós tivemos o e-mail e no segundo programa tivemos logo.
Ora bem, exatamente.
Depois tu deixaste disso, não sei porquê. Qual é o e-mail?
popup@observador.pt, escrevam.
Pronto. Ocorreu-me, porque eu já tinha ido a este tema, aliás, já tinha estado neste tema quando escrevi o livro dos anos 80.
Por acaso de ninguém saber, está aqui, "Livro dos Anos 80".
Existe uma constelação de livros e de discos. Os discos são um pouquinho mais fácil, porque eram muito, no meu tempo, pelo menos, os Polistar e os Jacpots havia no Natal, aquela coisa de comprar o disco do ano. E os livros é um pouquinho mais difícil definir, porque existe a colheita de livros de Círculo de Leitores e o Clube do Livro, eram umas coisas que haviam, então tinhas uma coisa encadernada.
Pré-selecionada.
Era engraçado, porque depois na primeira novela portuguesa, que é o "Vila Faia" de 82, os tipos tinham no escritório os mesmos livros que eu tinha em casa, que era tipo o "Ivanhoe" e o "Ilha do Tesouro", são esses clássicos da juventude portuguesa, os textos mosqueteiros e não sei o quê. Mas depois quando tu começas a ter consciência das coisas, há uma série de livros que circulam. E que é ou suposto teres lido, ou suposto ires ler, ou é suposto quereres ler.
Sim, isso é uma espécie de obrigatórios ou inescapáveis, em certa altura.
Sim, mas é um pouco como aquela discoteca que ouves falar e tens que ir. No nosso tempo e com a nossa idade não eram restaurantes, mas aquela mota que tens que ver, porque o não sei quantos já tem uma que é dourada ou não sei o quê. E o "Adeus Princesa" é um desses livros, isto é de tempos pré-internet.
Claro.
E pré-TV cabo. Quando se verifica, as vendas foram extraordinárias, o "Adeus Princesa" da Clara Pinto Correia. Na minha idade eram mais o chamado Christian F., que na verdade se chama "Os Filhos da Droga". Outro livro que era o "Viagem ao Mundo da Droga". "O Perfumo" do Patrick Süskind, não é assim?
Sim.
Que toda a juventude portuguesa deve ter lido, não sei. Eu li, por acaso gostei.
Eu também li.
Eu também li.
Eu não li.
Mas eu gostei. Li recomendado por uma professora na altura.
Bom, e estes livros.
Obrigado à professora.
Estes livros eram como se fosse, vou aqui usar uma imagem que não é muito boa, mas uma espécie de degraus que tu tinhas que saltar, ir subindo para chegar sabe Deus onde, não sei. Não havia a questão na literatura, não era: "Este livro vai mudar a tua vida" ou o que for. Havia uma espécie de shock value que tu terias se aderisses.
Mas agora diz-me só, leste "Os Filhos da Droga"?
Li, até tinha uma edição do Círculo de Leitores. O livro foi editado cá pela Perspectivas e Realidades, que era uma editora ligada ao PS, creio eu, do João Soares, acho eu, no início da década de 80, e depois rapidamente houve uma edição do Círculo de Leitores, cuja revista circulava nas nossas casas, nas casas das pessoas portuguesas. O Círculo de Leitores chegou a ter meio milhão de sócios, e onde estavam os sucessos das outras editoras. Eu naquela altura, com 12, 13, 14 anos, não percebia como é que este livro está aqui, como é que este livro também está aqui. Claramente chegavam a acordo. E li. E havia outros, que era a "Crónica dos Bons Malandros" do Mário Zambujal, o "Coca-Cola Killer" do Vítor Dino Almeida. Também me fazia confusão quando eu era garoto, como é que um tipo que era músico depois escrevia um livro. Aquilo não tinha lógica.
A vida nessa altura estava mais compartimentada.
Não estava a fazer sentido. Maria Ramos Silva, eu depois pedi-vos que pensassem em livros que coubessem nesta categorização do Pedro. Eu juntei aqui um primeiro par sugerido por ti, que razoavelmente são livros muito diferentes entre si, mas que não sei se eventualmente têm aqui alguma ligação, que é: tu primeiro falaste dos livros do Harry Potter.
Sim.
E também falaste do "Memorial do Convento".
E tu resolveste juntar, coisa que eu não fiz.
O Harry Potter já estava próximo da reforma.
Pronto. Bom, eu acho que alguns dos livros que nos trazem aqui são um pouco como uma outra moda, que era a da pulseirinha energética. Vocês recordam-se?
Aquelas bolinhas do António Sala.
Sim, mas depois teve ali muitos desdobramentos, porque a coisa foi ficando mais sofisticada e tinhas depois já era power não sei das quantas.
Já não me lembrava disso.
A moda das pulseiras do Senhor do Bonfim também foram-
A pulseira tua que são do Sala e ele dá-te cabo da carreira.
Pois foi.
Também está no meu livro dos anos 80.
Pois foi, é verdade.
Pronto, mas vocês lembram-se disso?
Sim.
Aquilo era uma coisa também, havia uma linha que separava as pessoas que usavam das pessoas que não usavam, que acreditavam naquilo, sobretudo. Mas, de facto, o Harry Potter sai o primeiro livro em 97. Eu acho que é um daqueles casos típicos em que o Pedro já estava na idade da reforma, eu não estava tão perto disso, mas já estava numa fase da vida em que andava encantada com outro tipo de feitiçarias e, portanto, aquilo para mim já era uma coisa um pouco juvenil. Reconhecia, obviamente, o impacto. Acho que aquilo ganhou uma dimensão absolutamente inesperada, também muito por esse conteúdo. Porque de repente, parece-te uma fórmula que não tem nada de novo, mas que se calhar havia ali um vazio naquela altura que veio ocupar naquele segmento. Não sei, nós que crescemos com outras coleções infantis, infantojuvenis. E aquilo, de facto, naquela altura não se falava nada e foi um boom absolutamente extraordinário.
Mas lembra-me que não foi só juvenil.
Não, mas aí é que está, que conseguiu conquistar depois as gerações, não só os pais, mas uma geração posterior.
Mas não te conquistou a ti.
Mas eu acho que foi mesmo uma questão de timing. Ou seja, eu acho que se me têm apanhado uns anos antes, eu teria apanhado o barco. Naquela altura, estás a entrar na fase adulta, tens mais que fazer, honestamente.
O Harry Potter, eu tenho uma edição, porque me enviaram para o jornal que eu escrevia. Eu tenho a primeira edição da presença do Harry Potter e que tem um bonequinho na capa, tem um rapazinho. Aquela era claramente para os miúdos naquela altura.
Mas cria, de facto, o universo acaba por gerar ali um hype.
Até porque depois na narrativa os protagonistas crescem, vão ficando mais velhos.
Eu acho que se quiseres, comparando em termos de gerações, eu acho que foi um pouco o fenómeno Stranger Things daquela geração, ou seja, nos livros. Mas em termos de saga-
Se calhar, se fosse hoje, tinham feito uma série e não um filme.
Eventualmente. E eu acho que é provavelmente dos últimos fenómenos antes de tu teres esse-
Estão a fazer uma série do Harry Potter.
Não, sim, mas não teriam começado por aí.
É de raiz. A adaptação teria sido feita-
Eu acho que se tu tivesses plataformas naquela altura, provavelmente aquilo seria um fenómeno pensado-
Temos que dedicar o programa ao Harry Potter.
Porque não?
Pronto.
Porque o Harry Potter na altura, desculpa, então estava a meter.
Ora essa!
O Harry Potter quando aparece e explode: "Ah, afinal as crianças gostam de ler. Há um arco-íris que muda o mundo inteiro com estas letras."
A questão, por que eu também referi aqui o Saramago, especificamente-
Não, mas fizeste bem
O Memorial do Convento.
Porque é nesta altura, eu não estou a ler também o Harry Potter por quê?
Era suposto tu leres.
Porque eu estava ocupada a ler, estava a ser obrigada a ler o Memorial do Convento.
E como é que te sentiste?
E a questão é precisamente essa.
Como é que te sentiste nessa pele?
Senti-me mal, porque eu não gosto de ser obrigada a nada, muito menos a ler livros que não quero. E eu acho que um dos grandes problemas para muitos miúdos, ou pelo menos naquela fase, tens ali, sei lá, 15, 16, 17 anos. Eu não sei se ainda faz parte do programa obrigatório de leituras no secundário, mas na altura fazia e eu penso que até tinha sido introduzida há muito pouco tempo. E de repente tu, lá está, não chegas ao livro porque queres, porque encontraste na casa de alguém ou na livraria. Dizem-te: "Olha, tenho que ler isto, isto vai sair no exame." E é a última coisa que tu queres que te digam quando tens, de facto, 15 ou 16 anos. Pelo menos para mim foi muito difícil e acaba por ser contraproducente, julgo eu, porque não só não é das obras mais fáceis, julgo eu, para entrares em Saramago. Acho que é um mau cartão de visita para quem quer expor miúdos àquela leitura. E estás, de facto, a correr aqui o risco, mas bom, é sempre um risco que se corre, faz parte da vida, de facto, afastar as pessoas.
Mas não leste, então.
Eu confesso que na altura aldrabei um pouco a leitura, portanto, li o essencial para conseguir ter uma boa nota.
E bem.
E depois recordo que tive-
Confessa que aldrabei, aquele receio.
Não, é verdade. Não tive tempo. Mas atenção, isto não foi só por culpa minha, eu lembro-me que os livros também naquela fase eram muito, vocês lembram-se certamente que havia ali um conjunto de coisas que era suposto usar até o final do ano, que nunca eram dadas a tempo.
Sim.
E depois eram dadas a correr com os próprios professores e, portanto, tinhas que enfiar o rabo na pesca e enfim.
E não corria bem.
E não corria muito bem. Pronto. Mas eu recordo-me que à conta disso, estive muitos anos sem voltar a Saramago e só voltei muito mais tarde e por outras portas, por outros títulos, porque às tantas pensei: "Epá, temos que começar por outro lado de novo, porque senão a coisa pode correr mal." Portanto, sim, sem querer havia aqui uma ligação, Tiago Pereira.
Muito bem. Bruno Vieira Amaral, O Mundo de Sofia. Isto foi um grande sucesso.
Foi um grande sucesso e nós estamos aqui a falar de diferentes livros.
Sim.
E que marcaram de formas diferentes a cultura. Porque estamos aqui a falar uns livros de alta literatura, como por exemplo, o Saramago, e eu não identificaria nenhum livro do Saramago em particular, mas é o próprio nome do Saramago, que era quase sinónimo de literatura e literatura séria.
Claro.
E se espalhou, nós respirávamos o nome Saramago como sinónimo de literatura. E havia muitos livros, ou havia alguns livros, que eram o ar do tempo. E eu acho que é importante fazer essa distinção entre autores que tiveram muito sucesso ou livros que foram best-sellers e coisas que faziam parte do ar do tempo. Eu acho que o Adeus, Princesa, é um desses livros, mas por exemplo, Os Filhos da Droga também. Mesmo que tu não tivesses lido, falava-se dos Filhos da Droga, mesmo pessoas que nunca tinham lido ou que não haviam ler.
E que nunca viram o livro, sequer.
Estava na cultura, como O Perfume. Sendo que, e o Pedro há pouco dizia: "Os livros não era para mudar a vida." Havia alguns que eram uma espécie de alertas. Os Filhos da Droga era, tens de ler aquilo para veres os perigos da droga.
Sobretudo naquela altura.
O que provocava também um interesse Do proibido, do que está ali. Eu até falo das possibilidades eróticas deste tipo de livros. Independentemente dos temas, o fato de haver ali marginalidade, coisas proibidas, coisas que tu com 15, 16 anos devias estar alerta, mas não deverias conhecer exatamente os pormenores daquilo, eu acho que isso aumentava as possibilidades eróticas desses livros. Eu li "Os Filhos da Droga", tinha entre 16 ou 17 anos, e lembro de ficar não alarmado, mas fascinado com aquele universo de sexo, prostituição. Tudo aquilo era um mundo ao qual eu não tinha acesso, mas já tinha ouvido falar muito dos "Filhos da Droga". "Aquele livro os adolescentes devem ler, porque aquilo é um alerta." E há muitos livros que estão nessa categoria, livros que entraram na cultura, tornaram-se o ar que respirávamos, e "O Mundo de Sofia" foi um desses. Que era: este livro vai mudar a tua vida, vai te despertar para problemas filosóficos e é adequado a esta idade. Eu lembro que me ofereceram no meu aniversário dos 17 anos ou dos 18. E de fato havia aquela expectativa de que aquele livro era transformador.
Que tinha um lado pedagógico, eventualmente.
Que explicava os filósofos em três linhas.
Mas Bruno, diz-me uma coisa, e antes de acabarmos a primeira parte, que é: outro livro que eu acho que também foi muito o ar dos tempos, mas que não tinha esse aspecto, se calhar tinha pedagógico nesse sentido, foi "O Código Da Vinci".
"O Código Da Vinci", lá está. Daí eu achar importante fazermos esta distinção dos livros de que estamos a falar.
Esse já é do século XXI.
Este já é deste século.
2004, acho eu.
E até vou dar outro exemplo, que foi o "2666", do Bolaño, em que muita gente que lia livros, mas não ia exatamente ler o Roberto Bolaño, que na altura foi comprar o livro porque se criou um hype à volta do livro, mesmo à volta do título do livro, e o livro entrou de fato nesse ar que toda a gente estava a respirar. Muitas pessoas ficaram desiludidas depois de ler o livro.
Primeiro quando viram o tamanho do livro.
"O Código Da Vinci" é diferente, é um best-seller, mas de fato também a certa altura era inescapável.
Exatamente.
Tinhas que ter uma opinião sobre "O Código Da Vinci". Portanto, estamos aqui a falar de patamares diferentes de influência e de importância. E só mesmo para concluir, e depois podemos falar disso na segunda parte, há outros livros, literários ou não, até podem ser de ensaio, que estão naquilo que os ingleses dizem que é o middlebrow. Ou seja, não é coisas eruditas, alta cultura, mas também não é "Código Da Vinci". Estão ali no meio e interessam àquele público que está no meio, a classe média dos leitores. Mas depois podemos falar disso na segunda parte.
Muito bem, final aqui da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e o Pedro Buchinho Mendes. Esta semana estamos à volta de livros que foram marcantes em determinada época, para perceber que tipo de relação tivemos com eles. Pedro Buchinho Mendes, deixa-me olhar aqui para a tua lista. Há aqui uma dupla que tu referiste. Atenção, não referiste como dupla, eu é que juntei. Livros de Isabel Allende e Paulo Coelho.
Sim, deixa-me só acrescentar um livro essencial no meu tempo, que é "A Causa das Coisas", do Esteves Cardoso. Que é aquilo que o Bruno diz, o middlebrow, na outra parte. Ou seja, o middlebrow, os livros dão para ler. Qualquer pessoa podia agarrar e ler. Nós, na altura, não tínhamos essas categorizações. O "Causa das Coisas", quando eu era adolescente, é um dos livros a ter, como é o Christianef, no limite, poderiam estar arrumados um ao lado do outro.
Exato.
Nós vínhamos de um tempo de livros de aventuras. Havia uma coleção da Verbo, que era 15 histórias, 15 westerns.
O meu tio tinha um desses livros que era sobre templários.
Qual é o nome do teu tio?
O nome do meu tio é Joaquim.
Um abraço para o Joaquim.
Um abraço, tio Joaquim. Tio Quim?
Quinjó.
A dada altura, nos anos 80 e 90, com a melhoria das condições econômicas em geral, passa a haver editoras novas também em geral. Não sei se vou cometer algum erro, mas a Teorema, a Quetzal. Todos os livros de uma Quetzal ou de uma Teorema eram bons. Eu preferia os do Irvine Welsh, como o "Trainspotting" ou o "Lixo".
Vão mais com a tua personalidade, de facto.
Mas havia uma corrente, sobretudo de leitoras, que tudo que a Isabel Allende escrevesse, incluindo, se fosse o livro das instruções de um aspirador, era venerado, eram livros de que os mídia gostavam muito, sobretudo as televisões e as rádios Os media mais pop.
Também havia um autor que eu acho que chegava também a um público masculino, que é o Luís Sepúlveda.
E o Paulo Auster. Que são livros muito fáceis de ler. Que fácil não é no sentido de serem piores ou melhores, mas eram livros acessíveis. Este do Jostein Gaarder, "O Mundo de Sofia", e essa grande praga que foi "Vai Onde Te Leva o Coração", da italiana Susanna Tamaro. Não sei, teve 80 milhões de edições, acho eu, em Portugal. Acho que cada português tinha seis exemplares. Mas voltando ao Paulo Coelho. Paulo Coelho eu nunca li. Nunca li sequer a capa de um livro do Paulo Coelho, obviamente por preconceito.
Porque te fazias em cinzas se o fizesses.
Preconceito, e acho que não perdi nada. Aquilo era aquilo que hoje em dia nós chamamos de autoajuda, só que na altura não havia seção de autoajuda nas livrarias.
Mas era autoajuda ficcionada ou ficção de autoajuda.
Não sei, nunca li. Ou qualquer Verónica morre.
"Verónica Decide Morrer".
Eu nunca li.
Era "O Alquimista" e "O Mundo Cinco".
São escritores que depois pulam para as revistas, para a Caras. A Caras aparece a meio da década e passa a ter algumas entrevistas com algum tipo de escritores. Portanto, no fundo, eu conheço o Paulo Coelho da Caras.
Era a ligação que eu não estabelecia.
Não havia quem não folheasse. A Isabel Allende, a Caras, o Paulo Coelho e outros que agora não me lembro, pulavam com facilidade.
Porque eram celebridades, no fundo.
Sim, ou os seus publicistas conseguiam fazer bem o seu trabalho. Aparece "O Segredo" também, que é uma coisa, não sei se se lembram, que também foi outra praga. Acho que ainda vendeu mais do que a Susanna Tamaro. Mas só recuando um pouco e para ver se esgoto aqui.
Mas não esgotes já.
"A Insustentável Leveza do Ser", a Iris Murdoch e a Marie Thérèse também, o Alberoni, eu acho que o Bruno também vai falar, e o Umberto Eco, que a dada altura passou a ser venerado. Não sei se tu apanhaste "Como Escrever uma Tese". Na universidade, todos tínhamos que ler esse livro, não sei se vocês leram esse livro ou não.
Eu não li, mas eu não li nada.
Mas ouviste falar.
"É preciso ler." Está bem. Estou ocupado. Maria Ramos Silva: "Juntei dois nórdicos, porque à sua maneira, cada um deles..."
Está bem, Tiago, pode ser.
O que é que tu achas?
Acho que pode ser. Eu junto aqui e faço um pequeno...
Por quê? Porque tu referiste, e muito bem.
É que são coisas diferentes.
São coisas totalmente diferentes. O Stieg Larsson e o Karl Ove Knausgård, que também teve o seu momentum extraordinário.
Sim. Sabes que o Bruno há pouco falava do Bolano e eu também tinha trazido aqui o Bolano para juntar um pouco ao Larsson. Por quê? Porque há de fato aqui um momento no início do novo milénio, nos anos 2000, que de fato há ali alguns acontecimentos literários por tudo por cá, que têm muito a ver com a morte dos autores. O Bolano morre em 2003, portanto, de repente as pessoas descobrem uma série de títulos. Também há publicações novas, evidentemente. O Larsson também tem essa marca. Coitado, o elevador estava avariado, ele decidiu subir sete lances de escada, morreu em 2004, salvo erro, e depois toda a sua obra...
Ele fumava imenso.
É verdade. Evidentemente. Tinha uma vida movida a café e cigarro.
Ele foi culpado.
Não foi um exercício físico.
O problema não é a escada. Foi culpado.
Muito bem observado, Pedro. Mas depois lança o primeiro livro póstumo, penso que sai em 2008, também cá. E de repente aqueles títulos eu acho que têm um pouco o efeito que nós hoje vemos quando pensamos, sei lá, por exemplo, no "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas". Ele tem de repente "Os Homens que Odeiam as Mulheres". E eu acho que aqueles títulos criaram ali uma onda.
Mas acho que estou só a dizer isto antes que me esqueça, que acho que é importante. Desculpa, Maria. Estas coisas coincidem mais ou menos com uma das grandes revoluções que houve no livro em Portugal, que foi a abertura da FNAC. Foi em 98 e vocês devem se lembrar da frase: "Eu não sou capaz de ir à FNAC e de não sair de lá com quatro ou cinco livros." Porque há uma dessacralização.
Talvez um.
Mas há uma dessacralização do folhear e do comprar livro, porque as livrarias clássicas portuguesas, e também nos outros países, eram sítios de silêncio, eram sítios calmos, eram quase igrejas. E a FNAC, podes ouvir o disco.
Sim, tinhas sofás, sentavas, lias o livro.
É uma grande superfície com livros.
E a abertura da FNAC significa precisamente o início do declínio do círculo de leitores. Sim, aí estás. Desculpa, Maria.
Mas eu acho que houve ali, de fato, um efeito, não só porque o nosso mercado de repente descobria um autor nórdico, isso eu acho que tinha ali alguma relevância.
Eu li o primeiro dessa.
Eu acho que não cheguei a ler, sabes?
Eu li os três. São ótimos.
São muito bons.
Mas de fato houve ali uma grande comoção. Depois o Knausgård vem já numa leva diferente, num registo totalmente diferente, mas também com essa onda.
Eu acho que isso se prolongou. Não sei se ainda existe, peço desculpa se estou a incorrer num erro.
Ainda ontem vi um trabalho sobre ele.
Os escritores nórdicos houve uma altura, durante alguns anos.
Sim, os policiais.
Que eram um êxito.
O primeiro foi o Henning Mankell.
Pois, não sei. Talvez.
Que era da Presença.
E acho que o Knausgård, apesar de ser uma coisa completamente diferente Acabou também porque havia sempre uma espécie de mistério no autor.
Eu penso que comecei a ler, depois desisti. Gostava de voltar, uma outra obra que ele tem, uma série mais recente que ele esteve a fazer. Mas eu na altura pensei: um tipo branco do norte da Europa que vai falar dos seus problemas em oito volumes.
Ele tinha pinta.
Também foi um imenso.
Estás a ver? Mas pensei: "Não, se calhar não quero ouvir isto, se calhar não quero ler isto."
Mas muita gente pensou ao contrário de ti.
Eu sei, claro, isto é um filão. Estás a brincar?
E de repente aquela história da autoficção.
Mas eu nessa altura estava a ler a Skildsent, estava a ler coisas que ninguém queria saber, que eu estava muitíssimo melhor.
Aquela história da autoficção, depois de repente também teve ali um-
Mas no limite tudo é autoficção.
Claro, obviamente. Mas ganha um rótulo.
Pois, eu sei.
E quando existe o rótulo, as coisas ficam facilitadas em termos comerciais.
Eu sei, eu não estou a censurar o fenómeno, acho que foi muito bem trabalhado.
Desculpa, daqui a bocado sais. Não, estou a brincar. Bruno Vieira Amaral. Eu fui juntando.
Junta tudo.
Porque senão não há tempo para tudo. As listas são enormes. Dois portugueses que tu referiste, por razões totalmente diferentes, provavelmente, ou não. Por um lado, Pedro Paixão, por outro, Alçada Baptista.
Sim, houve um período em meados dos anos 90, o Alçada Baptista até talvez antes disso. Mas no caso do Pedro Paixão, foi mesmo ali, pelo menos que eu me lembro, em 94, 95, 96, em que mesmo pessoas que não liam, tinha amigos que acho que nunca leram um livro na vida, falavam: "Já ouviste falar daquele gajo do Pedro Paixão?" E eu: "Como é que este gajo ouviu falar do Pedro Paixão?" Esse amigo nunca me falou do Alçada Baptista, mas o Alçada Baptista eu acho que representa precisamente essa literatura do meio, da classe média, e que era ótimo.
Os laços, não é?
E a Catarina, o Sabor da Maçã, acho que tem uma tia não sei quantas. E que eu acho que era o tipo de livro que devia dar uma série de citações ótimas para engate. Para engate de pessoas, funcionárias públicas, professoras do secundário, sensíveis. Percebes? Pessoas sensíveis.
Está cada vez melhor.
Não, é sério. Era o tipo de coisa. Por exemplo, eu lembro-me de ler o Alberoni, e isto está tudo dentro do mesmo.
A invenção do amor, não é isso?
Era o enamoramento e amor, a amizade. E eu lia aquilo, que eu era miúdo, e dizia: "Isto é tudo verdade. As relações são mesmo assim. É isto que as pessoas sentem."
E são?
Não sei, acho que não. Mas naquela altura, aquilo era um manancial.
Tinhas que idade, diz lá?
Tinha 17, 18 anos. Porque o Alberoni, não era o meu tio, era a minha tia.
Passaste das drogas para o Alberoni.
Qual o nome da tua tia?
A Mimi.
Mimi.
Tia Mimi.
Maria Emília.
Não, Maria de Lourdes. E eu, na altura, lia o Alberoni e dizia: "Isto é tudo verdade. Isto é mesmo assim, as relações são assim." E eu acho que muitos destes autores entraram na cultura com esta coisa: "As relações são mesmo assim." O Milan Kundera, que é um autor de um outro patamar, mas tem imensas citações que tu podes usar em diversas situações.
Exato.
Mas que é isto? É verdade sobre as relações entre homens e mulheres. Tudo isto é muito heterossexual.
Ninguém era gay na altura, é verdade.
Tudo isto é muito heterossexual, esta cultura, mesmo os livros do Alberoni.
E são autores que muita gente conhece mais pelas citações, lá está, do que o próprio livro.
A minha péssima memória sempre me prejudicou. Eu li isso tudo e depois nunca apanhei nenhuma citação. Queria ir com as minhas skills.
Não tiveste.
Há uma do Milan Kundera que é: o segredo de um conquistador não são as suas qualidades, mas é as vezes que tenta.
Olha, mas nunca mais te esqueceste.
Nunca mais me esqueci. Há outras.
Nós dizíamos: o não está sempre garantido, não é do Kundera.
É capaz de estar lá no livro dos amores risíveis. Mas eu acho que havia aqui, e por isso é que eu pus nesta categoria da classe média, que é: isto vai-me dar aqui pistas para eu me orientar nas relações. Há aqui segredos que vão ser desvendados.
Olhando para trás, achas que foi frutuoso? Achas que tens a agradecer?
Claro. Ler o Milan Kundera quando tens ali 18, 19, 20 anos, parece que te abre uma espécie de portal, como tu tens alguma, eu pelo menos tinha, alguma dificuldade em conseguir comunicar com o sexo oposto, que era o que me interessava. Tu achas que aqueles instrumentos, de alguma forma, te vão servir.
Vão-te dar ferramentas, vais ter ferramentas.
E a mesma coisa com o Pedro Paixão. Essa citação não posso pôr aqui, mas acho que é uma que abre logo um dos livros dele.
Tem vernáculo?
Tem, claro que tem. Que é: és tão linda que nem dás vontade de...
Coiso.
Coiso. E eu tinha para aí 17 anos.
Olha, classe e elegância.
Não é classe, é verdade.
É honestidade. Nova Genial.
Acho que deve ser. E que tu de repente dizes: naqueles momentos em que tu estás mesmo com aquelas paixões platônicas.
Estás assolapado.
Para já não tens, ou pelo menos não vislumbras no horizonte próximo, a possibilidade de aquilo se concretizar. Então tu dizes: esta paixão corresponde a esta frase que está aqui.
Exato.
Eu acho que funcionava muito na altura o fascínio de alguns destes livros, nessa espécie de revelação ou de chave para as relações amorosas.
Pedro Balseiro Mendes, e atenção, só uma nota, nós temos muito pouco tempo, esta lista seria-
Infindável.
Nunca mais acabava.
Ficar os vampiros, a Agatha Christie, o Conan Doyle.
Pronto.
Daniel Steel.
Mas tu foste-
Robin Cook.
Eu só queria falar daquele também, já agora, que o journalistão, o Pedro lembra-se certamente do Piketty, não é? A gente andava com o Piketty debaixo do braço.
Eu não.
Já me perguntava: já mandaste vir o Piketty?
O Pedro antes que fica a horticar e diz: "Eu não." Pedro, tu também referiste o Kundera e particularmente "A Insustentável Leveza do Ser", mas ainda no campeonato internacional, e já há bocado disseste, o Paul Auster.
Sim, o Paul Auster era the one para uma certa geração, na qual eu me incluo. Até foi uma grande influência para o João Tordo, por exemplo, acho que ele próprio reconheceu isso.
Desculpa, outro nome antes de me esquecer, o Douglas Coupland, também, que é mais ou menos dessa altura, geração X.
Sim. E o Irvine Welsh. O Paul Auster produzia muito. Os livros não tinham demasiadas páginas e tinham sempre umas sinopses estranhas. Era meio literatura fantástica, meio ficção. Eu durante muitos anos gostei muito de Paul Auster e depois, pelos vistos, devo ter crescido. Se calhar fiquei pior, não sei. Hoje já não é para mim. Parece ter passado um pouco de moda. Curiosamente, vai sair este ano, nós falámos disso semana passada, um livro de memórias da mulher dele.
Exatamente.
Da Siri Hustvedt, sobre o tempo que passou com ele. Ele vinha muito a Portugal e eu assisti a um reading dele no antigo Cinema Monumental, em que ele veio ler e estava cheio. Gostei imenso. Na altura não havia fotografias, não havia selfies, portanto não tenho como provar.
Triste.
Volto a esta questão. Havia certas editoras, a Dom Quixote, a Quetzal, cujos livros nós confiávamos.
Para nós era uma marca de qualidade.
Exatamente. E, de facto, quase sempre acertavam. Se calhar os editores na altura tinham outra importância. Eu hoje já não compro um livro pela editora, mas naquela altura era mais ou menos assim.
Acontecia muito com os discos também.
Os da Circo e Alvin, por exemplo, havia uma coleção, o Boris Vian. Achávamos aquilo incrível.
Curiosidade. Falta curiosidade.
Para terminar, uma frase que eu achei muita piada, frase da Maria Ramos Silva, que foi: "A dada altura, houve, e passo a citar, a obrigação de ter lido J.D. Salinger."
Não era obrigação, mas era mais um sinalizador de estudo.
"The Catcher in the Rye".
Atenção, eu acho que ainda bem que havia.
Quando digo obrigação, era isso.
Eu digo que não gosto de ser obrigada a ler nada, mas de facto ainda bem que há listas recomendáveis e que as pessoas a certa altura também se encontram e reencontram com os clássicos. A questão é que, mais uma vez, o Salinger morre em 2010 e apanha ali também muito o boom de um certo lifestyle e de uma certa sinalização cool e para este lado mais indie.
Primeiro, todo ele era um mistério.
Sim, e tu tinhas que conviver e conhecer bem aquela personagem e se não tivesses lido ou não mostrasses interesse em ler, eras um pouco um proscrito social daquela bolha. Ou seja, foi obviamente mais um fenómeno de bolha. Aliás, o próprio autor continua a ser hoje relativamente restrito, não é um best-seller, julgo eu. Apesar de ter títulos muito conhecidos, mas não é um Garcia Marques. É uma pessoa que continua muito confinada a um certo nicho. Apesar da personagem, o Holden Caulfield, ser até hoje um símbolo de rebeldia. Mas para nós, às tantas, parecia que nós éramos norte-americanos desde pequeninos e que aquilo era nosso, muito próprio, que andávamos todos com o livrinho debaixo do braço. E as pessoas, na verdade, se calhar tinham mais que fazer.
Mas olha, leste?
Não, já li o Salinger. Não fui ler naquela altura.
Eu ofereci o Salinger, o "Catcher in the Rye" e safei-me.
Não, é ótimo.
E mais não digo.
É oferecer.
Isto é muito importante, porque é um ótimo livro, sempre, qualquer um deles, porque tu ficas bem visto. Tem bom gosto.
É um cartão de visita.
É um belo cartão de visita.
Diz: "Eu sou este livro."
"Eu sou de confiança."
E atenção, é muito triste nós perdermos os autores, mas de facto nós sabemos que a morte ajuda a vender. E portanto, ciclicamente, se as editoras estiverem minimamente atentas, faz sentido que reabilitem a obra e que voltem a pôr no mercado.
O menino Bruno quer dizer alguma coisa.
Já falámos do Saramago.
Mas tem que ser rápido.
Sim, muito rápido. Falar de livros polémicos. Também entram na cultura por causa da polémica. Eu lembro-me de ver pessoas com o livro em casa. Acho que até houve uma edição do Círculo de Leitores, dos "Versículos Satânicos" do Salman Rushdie. E na altura, as pessoas não faziam ideia de quem era o Salman Rushdie, tinha um livro. "O Psicopata Americano" também foi muito falado a certa altura. E do Saramago, "Evangelho Segundo Jesus Cristo".
Que foi censurado.
O Sousa Lara não deixou que o livro concorresse a um prémio europeu. E isso despertou muito o interesse das pessoas por esse livro em concreto do Saramago.
Fez com que vendesse muito mais, provavelmente, e que fosse muito mais lido.
Havia também essa questão de alguns livros que vinham já com uma carga de polémica e que levavam pessoas que de outra forma nunca chegariam aos livros.
A chegar até eles.
Houve essa polémica com o "Mein Kampf" várias vezes. Do Hitler. Se pode ser editado ou não.
Não sei porquê.
Tem menos volumes que o do Knausgård.
Pacificou e hoje é possível comprá-lo normalmente.
Sim. Mas, por exemplo, não foi possível exibir um dos filmes da Leni Riefenstahl aqui há uns anos.
Estava indírita a quem fala. E havia um livro proibido, a última coisa. Quando eu era miúdo, que era o livro de São Cipriano. Eu ainda me esqueci o que é.
É bruxaria.
Se tu leres aquilo do princípio ao fim, ficas maluco.
É bruxaria. Final de mais um "PopUp". Já sabem que podem escrever-nos, como disse bem Pedro Mexia Mendes no início deste programa.
Sugeri-te, mas não importa.
Para popup@oobservador. E sigam-nos também nas plataformas de podcast. Voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.