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Início de mais um "Pop Up". Sejam bem-vindos ao programa da Rádio Observador, cujo nome é feito de duas palavras em estrangeiro, mas em que as pessoas que falam estão entre os mais brilhantes portugueses que nós poderíamos juntar aqui. Maria Ramos Silva, olá.

Olá, tudo bem.

Estás bem?

Tudo bem.

Tudo bem. Bruno Vieira Amaral.

Olá.

E Pedro Buchinho Mendes.

Viva.

Peço desculpa derivado do meu nariz entupido, mas acho que vai correr bem.

Isso é rinite alérgica, não é?

Eu acho que é uma coisa que acaba em "ite".

Fico sempre com vontade de perguntar às pessoas: "Chama rinite não alérgica?" Desculpem, era só um aparte.

Mas é apropriadíssimo teres uma questão envolvendo o nariz para este programa.

Gênio. Esta semana vamos falar de Terry Jones, ilustre humorista, argumentista, diretor de teatro, escritor, etc. E também, já agora, fundador dos Monty Python, que morreu esta quarta-feira aos 77 anos. Mas antes, começamos pelo Sr. Televisão na Bódica. Ora, Sr. Televisão, Júlio Isidro, que fez 75 anos de idade e 60 de carreira, tudo em janeiro. Há uns dias foi entrevistado no programa "Cinco para a Meia-Noite" da RTP e dizia: "É a primeira vez em 59 anos que digo um palavrão em televisão". Portanto, o Júlio Isidro deve ter dito um palavrão. Eu não vi, não sei qual foi. Vamos imaginar, que é muito mais bonito. Pedro, vamos falar aqui do Júlio Isidro. Como é que se explica esta longevidade? A pergunta surge porque não me parece que haja outro caso na televisão portuguesa de um percurso tão longo.

Nós durante muitos anos tivemos o Fernando Pessa, não sei se vocês tiveram.

Claro.

Que era sempre de três em três meses, havia uma reportagem com o Fernando Pessa, que era o mais velho repórter no activo, ou o mais velho jornalista no activo. E era francamente bom, mesmo com aquela idade. Tinha um ponto de vista nas reportagens que fazia e tinha bastante graça. A longevidade do Júlio Isidro não é de facto comum em Portugal. Noutros países é mais. E eu acho que é assinalável. Envido aqui um abraço ao Júlio Isidro, gosto bastante dele.

Um abraço, Júlio.

Sobretudo como espetador, e acho que é o melhor elogio que se pode fazer. Eu acho que ele soube sempre cumprir um papel fundamental naquilo que é um apresentador de televisão, que é servir como um go-betweener, uma ponte, alguém que liga o público, a pessoa que está em casa, ao artista. Eu acho que o Júlio Isidro, ainda hoje, é dos que melhor faz essa ligação entre o espetador e o artista, e aquilo que pode ser visto em televisão.

Seria possível esta longevidade com uma mulher ou a questão não se coloca?

Acho a questão um pouco absurda. Portanto, a resposta é sim, acho que seria possível com uma mulher, seria possível com qualquer figura que fosse perseverante, como o Júlio Isidro sempre foi e ainda é. Ele agora vive o ocaso da sua carreira, mas pode ser um ocaso longo, esperemos que sim. Mas ele sempre foi perseverante. Eu lembro-me de ser criança e o ver no "Passeios Alegres" e essas coisas. Eu lembro-me de ser criança e o ouvir na rádio.

Essencialmente lembras-te de ser criança.

Sim, e muita da minha memória de ser criança tem a ver com o Júlio Isidro. Ele encheu o Estádio Alvalade com um programa de rádio, o antigo Estádio José Alvalade com um programa de rádio. Ele sempre foi muito inventivo. Esta ideia de que as pessoas, os miúdos adoravam ir jogar à bola e andar a brincar com paus na rua, era mentira ou seria ainda mais mentira se houvesse mais programas como aqueles que ele fez, como o "Passeios Alegres", por exemplo, ou o "Festa é Festa" e outros formatos que ele fazia ao domingo à tarde. Eram tempos verdadeiramente bem passados, esses tempos de infância, a ver os programas do Júlio Isidro. Só lhe posso estar grato por isso. Eu até escrevi um texto sobre o "Passeios Alegres" há pouco tempo e falei com ele por causa disso. Voltando aqui, centrando um pouco a minha análise, ele é um apresentador à antiga, clássico, no que de bom existe nesta formulação. No fundo, é um mestre de cerimónias, é alguém que faz a ponte, como eu disse, e alguém que traduz lá para casa aquilo que vai acontecer daqui a instantes, quando o artista subir ao palco e fizer isto, isto, isto ou aquilo. Uma escola muito americana, até mais do que inglesa, em que o apresentador tem alguma carga dentro do programa, não se esconde. Não é alguém que faz parte da mobília, mas sim alguém que contribui com valor, adiciona valor ao programa. Acho que mesmo agora as coisas que ele faz na RTP Memória e que fez durante muito tempo na RTP, diria que ele nunca terá feito um mau programa de televisão, o que eu acho que talvez seja o melhor dos elogios que lhe possamos fazer.

Bruno, tu que és um bocadinho antigo, mas não és muito antigo. Quais são os teus momentos preferidos, ou que tu te lembras melhor com o Júlio Isidro na TV?

Bem, o momento que me lembro melhor nem foi num programa dele. Foi um programa em que ele participou. Creio que era um programa destinado ao público infantil e ele participou nesse programa para falar de uma das grandes paixões dele, que é o aeromodelismo.

Exato.

E eu, durante algum tempo, para aí duas semanas, quis dedicar-me seriamente ao aeromodelismo.

Podias ter escolhido isso antes, porque íamos mudar este tema.

Depois desisti da ideia e quis ser duplo de cinema.

Ok.

Também não durou muito esse plano.

Nessa cronologia, em que lugar aparece a vontade de ser escritor?

Um bocadinho mais tarde.

Pronto.

Quando aprendi a escrever.

Ok.

Mas lembro-me, tenho essas memórias e de outros programas dele, provavelmente uma vaga memória desses programas de que o Pedro falava, mas houve outros. O Júlio Isidro foi uma presença constante nas nossas casas ao longo dos anos, mesmo depois, mais tarde na TV. Lembro-me dos programas do turno da noite, do entretenimento total, que eu acho que ainda é na RTP. E o Clube dos Amigos Disney, se calhar pra nossa geração de miúdos, foi a presença do Júlio Isidro que mais nos marcou na altura. Mas eu queria reforçar aqui as palavras do Pedro. O Pedro disse praticamente tudo e eu concordo com tudo aquilo que ele disse. O Júlio Isidro é uma estrela que não é estrela, que aceita fazer o papel de servidor, de ponte, como dizia o Pedro. E isso é muito difícil de fazer em televisão. A prova de que isso é difícil é que tu não consegues pensar em muitos mais apresentadores que tenham essa capacidade de pôr o foco nos seus convidados, tornando-se assim também uma estrela, mas não uma estrela que está constantemente a chamar a atenção pra si mesma. E isso é um mérito do Júlio Isidro. Nós estamos a falar da longevidade, mas há este pormenor: o Júlio Isidro teve o seu auge nos anos 80, mas depois também teve ali uma fase de menor fulgor, digamos assim. E agora, há aquela velha frase no Chinatown, proferida pela personagem do John Huston: "Politicians, ugly buildings and whores, they all become respectable if they last long enough". Os políticos, os prédios e as prostitutas, os prédios feios, tornam-se respeitáveis se durarem o tempo suficiente. Não estou a dizer que o Júlio Isidro é político, nem é um prédio feio.

Ou uma prostituta.

Ou uma prostituta, muito menos. Mas neste momento, o que temos é uma espécie de reabilitação que tem a ver com isso, com essa longevidade, ainda que uma longevidade que não esteve sempre no mesmo plano. O Júlio Isidro foi muito mais popular ali no início dos anos 80, até os anos 90, e creio que depois, sobretudo com o aparecimento das televisões privadas em Portugal, o tipo de televisão e o tipo de apresentação que o Júlio Isidro fazia não-

Não encaixava tão bem

...está um pouco dessintonizado da televisão que se começou a fazer nessa altura. Talvez isso explique o apagamento do Júlio Isidro nos anos 2000.

Lembramos que em 95 começa, por exemplo, o Big Show Sik, não é? Foi há 25 anos, foi mais ou menos nessa altura, um bocadinho depois.

Seria interessante um dia haver um debate sério, no sentido lúdico. O Big Show Sik é uma espécie de ascensão da televisão latino-americana, por substituição de uma televisão um bocadinho mais calma, que é uma televisão europeia e até americana. O problema do Júlio Isidro, digamos assim, se é que é um problema, é ter sido o Júlio Isidro sempre. Mas no fim da história, que é agora em 2020 em que estamos, é ele que terá estado certo, porque todos os outros foram caindo aos bocados.

É caso pra dizer: ainda bem que o Júlio Isidro foi sempre o Júlio Isidro.

Sim, do ponto de vista dele, vamos dizer assim. Agora, o que nós queremos da vida? Queremos fazer 60 anos de carreira ou queremos ter uma proeza qualquer, artística ou intelectual, enfim, aos 32 ou aos 44, e depois desaparecer do firmamento? Às vezes, não é uma decisão nossa. O que eu acho é que fazem muita falta às comunidades, partindo do princípio que Portugal é uma comunidade e também que viaja no tempo, fazem muita falta figuras como o Júlio Isidro e que haja uma certa unanimidade, como parece que existe agora, e ainda bem, eu saúdo isso, porque há muita gente que lhe deve muita coisa. Nomeadamente, ele não tinha problema nenhum em apresentar artistas que nunca tinham feito absolutamente nada. Nós temos um outro exemplo mais marginal, que é o Fernando Alvim, mais marginal porque é menos conhecido do grande público. O Fernando Alvim também tem esse tipo de generosidade, que leva ao programa dele quase qualquer um. E ainda bem, porque muitos dos que ele leva aos programas dele também são excelentes e revelam-se, o Gato Fedorento é um exemplo, revelam-se pessoas que fazem falta à nossa cena artística e intelectual.

Maria, um elemento fundamental sobre o Júlio Isidro. Um dos traços mais distintivos dele é o nariz.

Que ele próprio fala disso, não é?

Exato, essa é que é a questão. E por ele próprio falar disso e por todos termos noção disso, ajudou ao sucesso no ecrã? Porque não é caso único, não é?

Sim, há uma série de casos. No início, não terá ajudado nada. Aliás, ele conta numa entrevista há uns anos à Sábado que foi até bastante ingrato, porque quando tentou chegar à televisão-

Disseram que ele não era escolhido porque era-

Porque era feio.

Exato, porque era feio.

Foi rotundamente assim. Era o melhor, mas não és bonito, portanto, não vais ficar. Portanto, ele diz que foi pra casa a chorar, e que foi uma coisa horrível. Isso só se estreia depois no ano seguinte, em 60, num programa de bricolage, portanto, ainda a léguas de imaginar aquilo que viria a ser o seu caminho. O nariz é, de facto, um elemento físico muito marcante na nossa fisionomia. Não só funcionando em termos de análise ou como na balança de equilíbrios, proporções e belezas, mas ao mesmo tempo, como eventual fator de distração, de repulsa, de rejeição e também como uma espécie de medalha extra que acaba por funcionar bem pra uma série de estrelas, desde o Dustin Hoffman. Eu me recordo que o Adrien Brody foi escrito pra fazer, por exemplo, o nariz mais famoso da história. O Adrien Brody foi escrito pra fazer "O Pianista" por causa do seu nariz. Ele, na altura, falou disso. Portanto, há uma série de figuras que conseguiram tirar partido ou transformar em vantagem uma aparente desvantagem. Vantagem, não necessariamente uma vantagem, mas tornar que aquilo não se tornasse um efeito de distração que pudesse, de alguma forma, comprometer o seu trabalho. E no caso do José Isidro, é ainda mais flagrante a forma como ele conseguiu transformar isso numa coisa completamente apaziguada, porque, como o Pedro e o Bruno diziam, e muito bem, ele sempre soube gerir muito bem essa medida de intromissão da própria figura do José Isidro nos programas que apresentava, sendo a tal estrela discreta, que brilha, mas cujo brilho não ofusca aquilo que apresenta. E portanto, nós hoje nos recordamos do José Isidro, como é óbvio, mas essencialmente dos programas que ele conduziu, das figuras que lançou. Ele assume com essa quase modéstia, esse papel tão protagonista, mas ao mesmo tempo tão de figura secundária, que é exatamente aquilo que nós esperamos de uma figura destas. E é provavelmente por isso que também o recordamos hoje com este carinho e com esta reverência. E depois essa reabilitação mais recente do José Isidro em programas como o "Traz Para Frente", em que ele aparece quase como um pouco de memorabilia da televisão, de nostalgia, mas ao mesmo tempo não sendo totalmente datado. Há ali uma consistência que, apesar de tudo, não nos parece uma coisa bafienta, parece se enquadrar perfeitamente nos nossos dias.

Se torna clássico.

Exatamente, é um clássico.

Com o tempo. Tem as qualidades.

Exatamente.

Pelo menos o facto de nunca ter cedido a modas, como dizia o Pedro, de ter sido sempre ele e aquele estilo de apresentação, faz com que hoje, olhando para trás, nós consigamos detectar essa solidez.

Uma consistência.

Essa consistência.

Muito bem, consistência. Não se esqueçam dessa palavra. Estamos a caminho do final da primeira parte. Antes, vamos saber quais são as sugestões desta semana no Post-it. Pedro, tu queres falar de cinema, é isso?

Sim, esperando que falemos mais na semana que vem.

Então havemos de falar, claro que sim.

Queria promover amplamente o filme do Bruno Aleixo.

Amplamente.

Amplamente. Queria convidar todas as pessoas a irem ao cinema ver o filme do Bruno Aleixo. Inclusive aqui o Bruno Vieira do Amaral, que não conhece o universo do Bruno Aleixo.

Não conheço o Bruno Aleixo.

São raros os casos de séries de televisão que passam pro grande ecrã, usando uma expressão irritante. Lembro-me dos Morangos com Açúcar e agora é a vez do filme do Bruno Aleixo. O que eu posso garantir é que foi a anteestreia esta semana no cinema. Eu nunca tinha ido a uma anteestreia onde também se pode comprar bilhete. Não percebi bem como é que funcionava, mas algumas das pessoas eram convidadas e depois, a partir de determinada hora, a bilheteira era aberta. E estava cheio de gente que gosta daquele universo e bateram palmas no fim. E eu gostava muito que nós pudéssemos contribuir mais pra que haja um dia uma indústria portuguesa de audiovisual, vamos usar esta expressão. E isso passa também por ir ao cinema e ver cinema português e, neste caso, ver o filme do Bruno Aleixo.

Maria, queres trazer uma espécie de herói do rock, que, na verdade, não é muito herói.

Não é uma espécie também.

Não é uma estrela de todo.

Não é uma estrela. Não chega a ser citado pelo John Lennon pra de repente ser uma grande estrela. Trago o Harry Nilsson, que tem um álbum póstumo, foi lançado agora, o "Lost and Found", mas no fundo é só uma desculpa pra falar do Harry Nilsson, um herói dos anos 70. Um cantor e compositor norte-americano, e que provavelmente é mais conhecido por músicas como "Everybody's Talking" do "O Cowboy da Meia-Noite", faz parte da banda sonora, e também é uma daquelas faixas recorrentes, e uma série de outros hinos. Vale a pena descobrir, sobretudo a discografia. E o novo, se quiserem reencontrar, apesar de tudo, com estas canções novas.

Já agora. Bruno, queres falar de um livro chamado "Não, pai". É isto?

O "Não, pai" é um pequeno, pequeno mesmo, pequeníssimo livro do Daniel Blaufuks, e é um livro sobre a relação dele com o pai, ou a ausência dessa relação, a ausência do pai, que pra mim é um tema que me é muito caro e o livro é muito sóbrio. A forma como ele trata a relação e explora essa ausência é muito sóbria. O livro é pontuado por algumas fotografias, nem todas tiradas pelo Daniel Blaufuks, que é fotógrafo. E tem ali uns ecos sebaldianos. E curiosamente, o Daniel Blaufuks doutorou-se com uma tese também sobre a obra do Sebald. É um livro, como eu disse, pequeno, mas em que se sente a cada página, a cada palavra, o peso dessa ausência do pai em todos os momentos da vida, até da vida criativa, porque é algo tão forte Por muito que se queira desvalorizar muitas vezes as relações que nós temos com os nossos progenitores, é algo tão forte que acaba por ter efeitos em todas as esferas da nossa vida e em particular também na esfera criativa. Isto é uma conclusão minha depois de ler o livro, provavelmente o Daniel Blaufuks não seria o mesmo artista se a relação com o pai tivesse sido diferente.

Muito bem, fazemos agora um rápido intervalo, voltamos já a seguir. Segunda parte do "PopUp". Foi um bom intervalo. Não podemos revelar nada do que se passou entretanto, mas imaginem coisas incríveis. Foi isso que aconteceu. Já agora, esta semana tínhamos um plano bonito, bem traçado e preparado para os dois temas deste programa, mas entretanto morreu o Terry Jones, um dos fundadores do Monty Python e por isso tudo mudou. Vamos então falar de Terry Jones agora no Pop de Arroz. Pedro, vamos a isto. Isto é mau ao nível dos Beatles, por exemplo, em que primeiro morreu John Lennon, acabou. Mas depois morreu George Harrison e de repente ficámos só com metade. E é como se, de facto, tivesse acabado mesmo. Agora, Graham Chapman não temos há muito tempo, Terry Jones morreu, ou seja, não há hipótese, nunca mais se vão reunir.

Sim, mas o Terry Jones estava doente há uns anos.

Sim.

Era uma morte mais ou menos esperada, digamos assim, se é que a questão pode ser formulada assim. Também não me parece que eles alguma vez se fossem juntar. Uma das coisas interessantes sobre os Monty Python, há várias coisas interessantes sobre os Monty Python, é o facto de eles próprios nunca terem entendido bem porque é que se transformaram numa espécie de referência imortal. É como se nós passássemos de geração em geração para os nossos filhos a receita da feijoada da nossa avó, e uma das referências que passamos são os Monty Python.

Mas achas que quando eles dizem isso estão a ser honestos ou apenas modestos?

Acho que estão a ser honestos. Acho que sim. Ou estavam, neste caso, já morreu o Jones. Acho que sim, acho claramente que sim. Nota que o Monty Python está disponível no Netflix.pt, em Portugal. E eu, pelo menos, nunca sei nenhuma referência nas redes sociais a alguém que tenha dito: "Olha, ontem estive a ver Monty Python" e fartando de rir. É uma daquelas coisas, um pouco como o "Crime e Castigo", muito importante para a história da literatura, e de facto é, mas não quer dizer que as pessoas o tenham lido. É como se nós falássemos tanto dos Monty Python, que é como se tivéssemos também visto aquilo, tomamos um comprimido qualquer e tivemos visto aquilo. Não havia nenhuma intenção, a não ser que fosse reunir os Monty Python, mas seria sempre uma coisa vaga. Ou um ou dois espetáculos, ou três. Tanto que houve há uns anos uma reunião, mas nunca houve naquele sentido de fazer novo material, "vamos arregaçar as mangas e fazer coisas novas".

Aliás, foi nessa reunião que surgiram os primeiros sinais que algo poderia não estar bem com o Terry Jones.

Sim, tinha uma forma de rara demência.

Não conseguia, tinha dificuldade em decorar as suas falas.

Certo.

E acharam aquilo estranho, porque não era habitual.

Pronto, morreu. A sua obra fica, é o que interessa. Era um tipo interessante, além do que fez os Monty Python. E depois, sabendo eu que iríamos falar disto, pus-me a pensar: como é que seria se os Monty Python fossem portugueses e o que nós, portugueses, diríamos? Será que seria possível um português que fosse uma trupe de humor, depois ter uma carreira como teve a do Terry Jones? Ele escreveu livros para crianças e depois tornou-se especialista na Idade Média, na Era Medieval, e até era um daqueles defensores, que eu concordo, que dizia que a Idade das Trevas não tinha sido nada das trevas, tinha sido uma idade bastante rica do ponto de vista das ideias e das descobertas, até científicas, uma espécie de reabilitação da Idade Média. E até que ponto pus-me a pensar como é que seria em Portugal se nós-

Estariam a escrever no Observador.

Sim, mas se seria possível ter uma vida a escrever livros para crianças ou reabilitar a Idade Média, não sei. Enfim, fica a interrogação.

Bruno, ao nível de rankings, ranking monty pythoniano, em que lugar é que está o Terry Jones?

No meu deve estar em terceiro.

Terceiro. Sendo que o primeiro é?

É o Eric Idle.

A sério?

É.

Não estava à espera dessa. E em segundo?

Em segundo, o John Cleese.

O Eric Idle por que em primeiro?

Por causa da cara. Eu acho que a cara dele é genial. Há tipos que escrevem muito bem.

Também com um nariz peculiar.

É a cara. Eu acho que um cómico, um humorista, se tiver a cara certa, é como se costumava dizer dos CTT, é logo meio caminho andado. Do código postal. É logo meio caminho andado. E o Eric Idle é daqueles tipos que basta olhar para a cara dele e dá vontade de rir.

A piada já se fez.

E depois também por causa das músicas. Da música sobretudo aquela, acho que é a "Galaxy Song", do "Meaning of Life", que é a minha canção preferida dos Monty Python E pronto, eu não consigo explicar, mas acho que já são razões suficientes.

Ok, Terry Jones em terceiro.

Terry Jones em terceiro.

Não é mau.

Sim, mas aí seria um ex aequo quase com todos os outros. Por acaso, aquele que eu menos ia à bola era o Chapman.

Sim.

Que também já tinha morrido.

Mas esse problema resolvia-se à luz do dia.

E agora foi a vez do Terry Jones. O Terry Jones tem esta peculiaridade, que ele foi o Monty Python que planeou a estrutura da série, dos episódios. Foi ele o cérebro por trás dessa estrutura, que foi inovadora. E quando nós hoje falamos sobre a influência dos Monty Python.

Foi o Paul McCartney dos Monty Python.

Eles criaram um formato para os humoristas que se seguiram. Isso é quase como se nós não sabemos quem é que foi o inventor do talk show, talvez o Pedro saiba, mas é a invenção de um formato novo para o humor e a partir daí, todos os humoristas, todos os cômicos em televisão, tiveram que se confrontar com aquele formato. E das duas, uma: ou tentavam superar o original, ou então tentavam ir por um outro caminho completamente diferente. Mas ele foi o pensador dessa estrutura revolucionária para o humor em televisão. E também foi ele o realizador dos três filmes dos Monty Python, sendo que os últimos dois, o "Meaning of Life" e "A Vida de Brian", foi sozinho.

Sozinho, sim.

O primeiro foi com o Terry Gilliam.

Exato.

Supostamente, complementando aqui o que o Bruno diz, supostamente foi o Terry Jones que disse que não era preciso que os sketches acabassem em punchline.

Exatamente.

Portanto, uma certa lógica absurda que alguns dos sketches têm, que acabam com coisas que não têm a ver com o contexto, terá sido uma inovação do Terry Jones, e que também facilitou, digamos assim, a vida aos argumentistas. Porque, como sabemos, na construção do humor, tudo depende, ou dependia, pelos vistos, da chamada punchline, portanto, da gargalhada final.

Maria, eu ia perguntar-te, agora não sei se posso, enfim, mas vamos a isto, porque eu não tenho mais. Eu ia perguntar-te, sendo honesto: até que ponto, sem Terry Jones, teriam existido os Monty Python? Ou seja, comparando com outros Monty Python.

Que estarias a citar?

Por exemplo, Eric Idle.

E agora isso perdeu totalmente o sentido.

Agora eu fiquei aqui um bocado desarmado.

Ou Michael Palin. Falta zero.

Mas o Michael Palin, enfim, não sei.

Acho que eventualmente terias, mas seria com todo um resultado.

Michael Palin foi o cara que fez aquele sketch do Biggest Dickus.

E é outro que tem uma cara genial.

Mas todos eles têm, sim, qualquer coisa que a fisionomia... O Cleese tem.

O Chapman tinha aquele lado de palhaço sério.

Sim.

Mas acho que terias. É evidente que há aqui uma série de bases de trabalho que são absolutamente fundadoras. Esta espécie de pré-guião, que depois serve de forma para tudo que vem a seguir. Ao mesmo tempo, libertares-te daquele grilhão, de estares ali presa àquela punchline final. Há uma série de coisas que são absolutamente decisivas e que marcam os Monty Python e depois tudo que segue. Agora, sem ele, provavelmente terias, mas terias com um resultado totalmente diferente. O Terry Jones dizia que a partir de certa altura não lhe chegava ser ator e precisava de dirigir. E essa marca está, inevitavelmente, no trabalho dos Monty Python. Da mesma maneira que também dizia uma coisa engraçadíssima, e que é verdade: nós temos muitas vezes a noção, nós, modernos, de que os antigos não se riam. Como se o humor fosse uma espécie de invenção do nosso tempo, que não é. Agora, é preciso é tu trabalhares essa noção. A capacidade de fazer rir é que já não é inata. E é aí que tu precisas do tal ponto de vista e de uma espécie de chefe de orquestra que consegue coser esse talento todo que havia ali e imprimir esse ponto de vista e essa visão, que é muito servida pelo trabalho do Terry Jones. Portanto, eu não faço ideia o que seriam os Monty Python.

Imagina os Monty Python sem o Terry Jones e com o Benny Hill.

É, pá.

Puxa, seria uma coisa totalmente distinta. Não sei o que estaríamos a falar aqui neste momento.

Sendo que o Benny Hill teve uma carreira incrível.

Sim, verdade.

Incrível. Mas era um pouco irritante aquela coisa de ele estar sempre a bater na cabecinha do anão e do velhinho.

Tudo é irritante, mas é fantástico.

Sim, vamos falar um dia do Benny Hill. Há muito a dizer sobre o Benny Hill.

E depois o Terry Jones, só para contextualizar, aqui uma coisa interessante, mesmo este lado do envolvimento em redes infantis, a história medieval, eu acho que também traz um detalhe interessante para o humor, que nós também temos muito a ideia de que é muito fácil fazer piadas. Então qualquer um pode fazer piadas e tem imensa graça.

E de repente vem este homem do Renascimento, que fazia tudo.

Não, vem este homem que de alguma forma também te faz ter uma noção permanente, pelo menos para quem gosta do humor inteligente, de que o saber não atrapalha e de que o humor mais refinado vive de uma forma muito intimamente ligada a toda essa bagagem cultural, que vai desde a história da humanidade, dedais ou agulhas ou o que quer que seja. Portanto, há ali todo um patrimônio, também de bagagem, de cultura, de saber, que eu acho que também faz muito parte e está muito ligado aos Monty Python. Que é um humor muito inteligente e com uma série de referências históricas. É um humor muito adulto nesse sentido.

Tens mais por onde pegar, por assim dizer. Quanto mais tu sabes, quanto maior é a tua bagagem cultural, a tua erudição, mais tu consegues explorar, mais tens por onde pegar. Claro que isso também depende de um público que acompanhe, em parte, essas referências. A popularidade dos Monty Python Também tem que ver com isso. Eles são muito influentes, porque se estão a dirigir a pessoas, como aquela velha história do disco dos Velvet Underground, que quem ouviu, depois fez uma banda. Aqui é um pouco isso. Estás a dirigir-te a pessoas que muitas delas provavelmente acabaram também por seguir essa-

Ou aquele concerto dos Sex Pistols.

Sim, isto sem dúvida.

Foi visto por 60 pessoas, mas cada uma fez uma banda.

Exatamente.

Isto tem a ver aquele lado também absurdo. Aquela piada mais básica de espeteares alguém, que é uma coisa muito básica, muito instintiva, portanto, há ali uma conjugação.

Para terminar, aqui para o Bruno e para o Pedro. E pensando nisso que gostavas de dizer, Maria, da quantidade de coisas diferentes que ele fez. Eu estava a reparar nos muitos obituários que foram surgindo e obviamente no título aparecia sempre alguma coisa como: "Morreu Terry Jones, fundador dos Monty Python" ou "membro dos Monty Python". Mas até que ponto este formato do obituário não é ingrato? Porque precisa de ter um título. No título, obviamente, que vamos escolher se calhar o que é mais óbvio, o que é mais imediato para as pessoas. E partindo do princípio que há uma enorme percentagem que nem sequer vai abrir o artigo, é ingrato ou não?

Eu duvido que algum dos Gato Fedorento safe de uma referência aos Gato Fedorento no título do seu obituário.

Claro, naturalmente.

Não sei se é ingrato, é a vida.

É a morte, neste caso.

Não me parece nada mal que no título do obituário-

Tu gostavas, não é?

E não me importava.

Sim, será curioso saber o exercício ao contrário, o que é que estará no obituário de cada um de nós que estamos aqui nesta sala. Às vezes nós ficamos presos, de facto, a coisas que fizemos, mas creio que neste caso, embora perceba a tua pergunta, creio que nenhum deles se importaria ou se importará, onde quer que esteja, acreditando que ele está em algum lado, eu não acredito, mas há quem acredite, que lá no além, o tipo lê os obituários e pensa: "Pronto, ok, se calhar não tinha dado este título, mas pronto".

Isso é inevitável, porque nós não estaríamos a falar do Terry Jones se não fosse a presença dele nos Monty Python, o papel que ele desempenhou. O que não invalida que depois haja uma série de coisas que ele fez durante a vida, que muitas pessoas talvez até nem conheçam e só venham a conhecer agora. O que pode ser ingrato é em vida. Depois da morte, em vida, é quando tu fazes alguma coisa e tudo aquilo que tu fazes está constantemente a ser comparado com os Monty Python. Por exemplo, escreves um livro e as pessoas estão à espera que aquilo seja tão engraçado como os episódios dos Monty Python ou estão sempre à espera que se juntem todos para fazer alguma coisa sobre os Monty Python. Em vida é que pode ser um pouco ingrato. Agora, num obituário, aquilo que o tornou conhecido e aquilo que fez do Terry Jones o Terry Jones foram os Monty Python. Portanto, isso é normal. Mesmo para as novas gerações, continua a ser. Ele não fez nada depois disso com tanto impacto como os Monty Python. Eu lembro-me que há uns anos morreu uma atriz, a Elizabeth Peña, que eu lembrava-me dela de um papel que ela desempenhou no La Bamba, era a mãe do Ritchie Valens. E quando ela morreu, a maioria dos obituários referia o papel que ela desempenhou numa série recente, mas de que eu nunca tinha ouvido falar, e ela para mim era a mãe do Ritchie Valens no La Bamba. No caso do Terry Jones, não há nada que tenha suplantado o que ele fez com os Monty Python. Portanto, é normal, é até justo, não é injusto, é justo que essa referência esteja lá.

Muito bem. Como disse John Cleese num tweet que fez logo após saber da morte de Terry Jones: "Two down, four to go". Estamos quase a dizer adeus. Antes que desatem a chorar, vamos ao Isso é que era bom. E ainda com humor, ainda com inglês e ainda com um falecido. Isto está a correr muito bem este programa. Esta semana morreu Derek Fowlds, o homem que fazia de secretário pessoal do político que protagonizava as séries Sim, senhor ministro e Sim, senhor primeiro-ministro. Eu não estou certo que a tradução em português tenha sido esta.

É esta.

Não sei se vocês se lembram. De ambas as séries. Bruno, sem procurar desvalorizar o papel do ator britânico, mas mudando aqui o foco, por que não há mais séries de comédia política?

Porque é preciso conhecimento direto do funcionamento dessas máquinas, seja do governo, seja partidária, para se poder fazer comédia. Aquilo que nós estávamos a falar há pouco da erudição, da bagagem cultural, que é necessário para fazer o tipo de humor que os Monty Python faziam. No caso destas séries sobre política ou sobre o ambiente político, só podem ser escritas por alguém que conheceu de perto aquela realidade.

Porque senão não vai funcionar.

Não consegues, por muita imaginação que tenhas.

Claro.

É preciso esse conhecimento direto. Teria que ser ou um assessor, ou um ex-político, ou então um jornalista que esteja por dentro dessas atividades obscuras da política.

Meu Deus. Pedro, mais ou menos a mesma pergunta, com outra dica. Uma série destas em Portugal, feita por portugueses e com argumento sobre a realidade portuguesa, teria sucesso, teria audiência, ia correr bem?

Nós tivemos o "Sim, senhor ministro" ou alguma coisa assim.

Exacto. Tocou na bola.

Eu teria várias coisas a dizer sobre isso e até tenho. Primeiro é que estas séries tiveram muito menos episódios do que a nossa memória guarda. Acho que 21 episódios teve a "Sim, senhor ministro", por exemplo. Em segundo lugar, são filhas de um tempo em que só havia canais públicos. Embora na Inglaterra houvesse já dois privados. Portanto, é outro tempo, no fundo, em que o espectador tem menos escolha e tem que ver aquilo que lhe é apresentado. E depois pergunto: será que alguma vez os "Malucos do Riso" vão ser cool em Portugal? Se vão ser uma coisa que nós vamos ver, como vemos algumas coisas da América ou da Inglaterra ou até da Austrália, do Canadá, que já admitimos que de facto gostamos e nos divertimos. Porque alguns dos quadros, dos sketches dos "Malucos do Riso" são francamente bem feitos. Podemos sempre dizer que é um humor não erudito, e estamos a dizer bem, mas há ali alguma coisa, alguma portugalidade, alguma coisa que um dia voltará à superfície e será aplaudido? É uma pergunta para a qual não tenho resposta, mas que é uma pergunta que eu acho que vale a pena colocar. Este "Sim, senhor ministro" e "Sim, senhor primeiro-ministro" eram uns dos programas favoritos da Thatcher, da primeira-ministra inglesa de então, e isso terá contribuído para dar alguma credibilidade àquela atmosfera, que era, no fundo, aquele nonsense político burocrático. Ele não pode fazer isto, mas também não pode fazer aquilo e, portanto, aquela frase do Lampedusa, que é: "É preciso mudar tudo para que tudo fique na mesma", que é um pouco a arte da política. Em Portugal é difícil. É difícil porque eu acho que a ideia que os portugueses têm da classe política talvez não favoreça que haja ficção a curto prazo de política. Acho que não temos uma ideia muito—

Mas há grandes possibilidades para o humor.

Certo. Mas não sei.

Mas não parece que a classe tenha grande sentido de humor.

Sim.

Tem algum.

Nós que olhamos para ela.

Neste fim de semana, eu diverti-me imenso com algumas coisas.

Foi um grande espectáculo.

Maria, sei que terias muito a dizer. Não vai dar, mas ainda gostas de nós, certo?

Gosto. Só queria destacar, pegando no falecido, o Derek Fowlds, que tinha um papel dificílimo, porque era aquela personagem que tinha que mostrar, durante uma cena praticamente quase toda em silêncio, um grande interesse pela conversa que existia e a quem lhe competia depois dizer aquela frase inteligente que cortava a bitaitada do dia. E portanto, nesse sentido, tiro o chapéu. Acho que era relativamente interessante, sendo um papel aparentemente muito mais pequeno e discreto do que dos outros dois personagens.

Era óptimo actor.

Era óptimo.

Terminamos mais um "Pop Up". Voltamos na próxima semana. Até lá.