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Não queres sentir aquele desconforto.
Não, eu tenho uma natureza previdente. E, portanto, não quero ser assustado.
Exato.
É um pouco isso.
Percebo. É válido.
E muito menos quero ser assustado por um tipo que pega numa motosserra e corta o braço a alguém.
Sejam muito bem-vindos a mais um "Pop-Up", o programa que não mete medo a ninguém, acho eu, pelo menos. O único pânico, meus amigos, é perder um episódio que seja. Bem bonito este arranque. Mais uma vez aqui reunidos. Não se riam. Este programa é para meter medo, não é para rir. Aqui estão Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes, bruxos ou quase bruxos das coisas da cultura popular, desta vez para uma conversa sobre terror. Para quem não reparou, esta é a semana de Halloween, ou Dia das Bruxas, ou véspera de Todos os Santos, ou como quiserem chamar, fica por vossa conta. Por aqui decidimos falar daquilo que de mais fantasmagórico há na pop: o terror, sobretudo no cinema, mas não só. Vocês vão ver. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti, tu que és uma pessoa adulta.
E culta.
Já me está a meter medo.
Quase sou tentado a chamar-te RTP2.
Uma questão que não estava no guião: os adultos têm medo do terror. Não é uma coisa que é só para as crianças.
Até com as crianças é muito engraçado.
Quando diz crianças, vá, mais novos.
Nós agora temos esta nova, quer dizer, temos há algum tempo, mas cada vez de uma forma mais consistente, a moda do Halloween. Nas escolas, os miúdos vão-se mascarar como iam no Carnaval.
Ou mais, às vezes.
E é muito interessante porque parece quase o cara e coroa. Tu tens uma versão do Carnaval, que é muitas vezes fofinha, e depois no Halloween os miúdos acabam por se mascarar daquilo que muitas vezes também os atormenta.
Dos seus próprios pesadelos.
Dos seus próprios pesadelos, sim. Os meus filhos gostam muito, acho que se entretêm muito com a coisa, não sei. Depois, se calhar, têm alguns sonhos menos agradáveis à noite, mas eles lá sabem.
Eu perguntava-te isto porque, em princípio, quando somos adultos, a partir de certa idade, sabemos que, por exemplo, nos filmes é tudo a fingir.
Não, mas temos outros medos. Eu acho que, se calhar, até temos mais medos. Se há coisa que o terror tem de extraordinário, sobretudo para quem não é fã do género.
Como tu.
Como eu.
Vamos assumir aqui as coisas.
Sim, mas do ponto de vista sociológico, antropológico, se quiseres, se calhar a via mais interessante quando analisamos o terror é imaginar que desde os finais do século XIX até hoje, acompanhando, obviamente, desde os primórdios dos filmes antes dos talkies, ou seja, antes do próprio som. E o som é absolutamente decisivo na construção do cinema, em boa parte daquilo que são as fitas de terror.
E muito para os filmes de terror.
Sim, mas a verdade é que se tu reparares bem, aquilo que nos mete medo enquanto coletivo foi evoluindo ao longo dos tempos e, portanto, também aí o cinema de terror, mais ou menos sofisticado, mas em termos de conteúdo e em termos de objeto de tratamento, é um belo espelho daquilo que é o medo mais seminal da humanidade, pelo menos no último século. Que é aquilo que nós temos uma referência existindo e mais próxima também de nós nestas últimas décadas. É curioso que o próprio arranque do cinema, de forma estrondosa e mitológica, é com um susto. Aquela imagem do comboio entrar pela sala adentro, que eu calculo que na altura tenha tido esse impacto para o espetador: "Que medo, isto é Halloween antes do tempo."
Aquilo era pior que o IMAX, na altura.
Completamente. E depois tiveste uma série de adventos tecnológicos, que toda a gente se lembra certamente aqui da moda dos óculos 3D. Nós íamos ao cinema, isso foi também uma febre e também ajudava muito a este tipo de espetáculo.
Nunca fui fã.
E nós hoje, se calhar, temos o quê? Temos cataclismos climáticos, temos distopias sociais, políticas. Portanto, eu acho sobretudo muito interessante quando olhamos para trás. É que dá um friso muito interessante e até muito correto, muito harmonioso daquilo que são as nossas desarmonias interiores, digamos assim, aquilo que nos tem inquietado ao longo dos tempos.
Os nossos desarranjos.
Sim.
Falando em desarranjos, Pedro Buchinho Mendes, eu queria saber o que achas sobre isto: o terror será um dos trunfos do streaming? É onde ele se dá melhor ou ainda será uma coisa muito de cinema?
Pois é, não é fácil. Cada vez menos de cinema, porque cada vez menos as pessoas vão ao cinema.
Em valor absoluto, claro.
Mas antes do streamer, nós tínhamos o direct to video.
Sim.
Os filmes que iam diretamente.
Que não passavam pela casa.
Re-Animator. Que não iam para o grande ecrã.
Eu lembro-me muito dos clubes de vídeo com imensos cartazes de filmes de terror que não passavam no cinema.
Os streamers reagem àquilo que tem sido mais visto. Então vamos fazer mais, porque a malta quer. Tem este lado. Claro que há um delay, eles não conseguem fazer de um momento para o outro 40 filmes novos de terror, mas podem comprá-los, porque existe um mercado muito dinâmico nos Estados Unidos, em que alguém está a produzir coisas e depois compra direitos para outras coisas e, portanto, é possível reunires com alguém que tem 50, 60 títulos de terror à mão.
Para comprar.
Exato, que tu podes depois pôr no teu streamer. São filmes relativamente fáceis de fazer. Basta teres um ambiente normal, um liceu, uns vizinhos, uma coisa qualquer, e depois introduzir um elemento normalmente sobrenatural.
Ou sanguinário.
Sim. Ou seja, um filme de serial killers não é um filme de terror. Tem que ser um tipo que é um fantasma, um espectro, um extraterrestre.
É interessante, porque, por exemplo, aquelas séries que vemos de true crime, às vezes não parece que se aproximam de uma coisa de terror?
Alguma linguagem gráfica e de som pisca o olho aos filmes de terror. Mas nos filmes de terror existe, tanto quanto eu me apercebo, digamos assim, um elemento que transcende o que é verídico.
Até de enigma, não é?
Exato.
Porque imagina, tu podes saber que há um serial killer à solta. Aquilo mete medo, mas tu sabes que ele existe e que te pode atacar. E há ali, depois, de facto, essa componente mais enigmática.
E tem umas máscaras ou é um impostor qualquer, e afasta-se um pouco dos chamados policiais. Depois passou a haver uma palavra, que é a palavra thriller. Como o filme "Se7en", por exemplo.
Aliás, antes de começarmos o programa, discutíamos se filmes como "O Silêncio dos Inocentes" é um filme de terror ou não.
Que é um thriller, na verdade, mas depois o Bruno lembrou, e bem, que em algumas listas aparece como filme de terror. Eu, que adorei o filme "O Silêncio dos Inocentes" e que revi recentemente, jamais me passaria pela cabeça dizer que aquilo é um filme de terror. Mas depois de ouvir o Bruno há 10 minutos, penso: "De facto, ele tem um ponto".
Até porque tu não vês filmes de terror.
Não. Nunca vi nenhum, acho eu. Nenhum desses tipo "Saw" e não sei o quê.
Mas é porque tens medo?
Não.
Não queres sentir aquele desconforto.
Não, eu tenho uma natureza previdente. E, portanto, não quero ser assustado.
Exato.
É um pouco isso.
Percebo. É válido.
E muito menos quero ser assustado por um tipo que pega numa motosserra e corta o braço a alguém.
Mas o interessante é como é que chegas à parte em que o tipo-
Isso eu gosto.
A antecipação.
Eu veria filmes de terror higienizados dessas cenas.
Claro.
E alguns, na verdade, nem te mostram.
Eu lembro-me do filme "Misery".
São os piores, ó Bruno. Às vezes são os piores.
Vocês lembram-se do filme "Misery", com a Kathy Bates e o James Caan?
Sim.
Que ela é uma fã, que prende um escritor à cama. E depois há uma cena horrível em que ela com um martelo lhe parte os tornozelos.
E que no livro a cena é diferente, que ela amputa-lhe mesmo o pé.
Ingénuo como eu era, agora digo que sou menos, eu não estava à espera de uma cena desse tipo. Nunca mais revi o filme, nem vou rever, não quero passar pela experiência desagradável. Não tem a ver com medo, tem mais a ver com repugnância, repulsa. Também não quero ver vomitado no chão. A emoção é mais parecida com isso do que com o medo. Não tenho medo nenhum, porque eu distingo.
A realidade da ficção.
Até haver.
Tu também não podes sair à noite, não é? Não queres ver vomitado no chão.
Exato, em determinadas zonas não convém. Bruno Vieira Amaral, talvez sejas o maior fã, pelo menos aqui neste estúdio, de filmes de terror.
Parece que sim.
Mesmo assim não gosta muito.
Mas por compromissos familiares tens que ver mais que os outros.
Sim, agora sim. Mas gosto. Não gosto de todos os filmes, como é óbvio. O valor dos filmes de terror também é muito desigual.
Claro.
Não gosto de todos da mesma forma, mas gosto muito de filmes de terror.
Mas já lá vamos aos filmes propriamente ditos. A questão é: tu, e bem, como és um tipo informado, enviaste uns links pra rapaziada de imprensa especializada sobre abordagens atuais ao que se passa no cinema de terror. E aparece muito a expressão "novo cinema de terror" e novos realizadores. E eu pergunto: o terror não é daquelas coisas mais clássicas e que pode ser mais tradicional e conservador? Porque aquilo que mete medo, mete sempre medo. O que é este novo cinema de terror?
Mete medo de maneiras diferentes. Há medos novos. Por exemplo, o medo da destruição nuclear.
Ok.
São medos coletivos, o medo de um colapso econômico, o medo de uma pandemia.
Exatamente.
São medos novos.
Anda muita gente agora com medo de um novo apagão, por exemplo.
E já há filmes sobre apagões.
Séries também.
O serial killer enquanto elemento determinante da cultura pop, no sentido lato, é um fenômeno relativamente recente. Começa no cinema e se começa de forma mais vincada a partir dos anos 80, depois tem uma explosão após "O Silêncio dos Inocentes", em que surgem uma série de filmes que vão buscar muito à realidade. Ou seja, tens o auge dos serial killers na sociedade norte-americana nos anos 60, 70 e 80, e depois tens esse auge reproduzido e esse medo amplificado no cinema. E esses medos vão mudando. Depois, há medos primordiais, que são de qualquer época: o medo do escuro, o medo do desconhecido.
Cobras.
O medo dos monstros, certos medos, certas fobias.
O sobrenatural, em parte, também.
O sobrenatural. E é isso que me agrada mais. E agora ainda, só para responder à tua questão Isso vai sendo trabalhado de formas diferentes. E agora pode-se dizer que há uma nova geração de realizadores, como por exemplo o Jordan Peele ou o Ari Aster, que têm feito uma nova abordagem ao cinema de terror. Mas o cinema de terror existe praticamente desde o início do cinema.
O Méliès fazia isso. Tem uma coisa de três minutos que é supostamente o considerado o primeiro filme de terror, que é uma coisa com o Diabo.
E depois tinhas no sistema de estúdios norte-americano, e antes disso, no expressionismo alemão, o "Nosferatu", mas tens no sistema de estúdios norte-americano os filmes dos monstros, dos lobisomens, dos Dráculas. E isso é logo desde o início. E depois tens momentos em que o cinema de terror parece florescer e parece prosperar num determinado ambiente, até social, coletivo, e depois tens momentos em que parece que a fórmula se esgota e depois recupera-se novamente. Tiveste os slasher movies.
Nos anos 90 estava muito na moda.
No final dos anos 70, e depois com o "Scream", para a nova geração já é meio meta.
Humanos a assustarem humanos é relativamente recente, como o Bruno dizia. Tu tens aí todo um historial, dos monstros.
Monstros, seres vindos do espaço, e depois, claro, há aqui um grande potencial alegórico e metafórico nos filmes de terror. Os extraterrestres podem ser os comunistas.
Tiveste agora um exemplo, aquele filme com o Michael B. Jordan, cujo nome eu não me lembro.
"Sinners?" "Weapons?"
"Sinners".
Não é "Weapons"?
Não, é o "Sinners". É uma alegoria ao racismo.
Não, e por exemplo, o "Get Out"-
Também é o lado ideológico, que se calhar hoje se introduziu.
O "Get Out" também.
O "Get Out", mas eu acho que o "Get Out" é o melhor filme do Jordan Peele, porque aquilo é uma reflexão sobre o racismo, mas vai tocar em medos muito primordiais e não está excessivamente intelectualizado. Tu falavas da questão do que nos mete medo, mete-nos sempre medo. Há aqui uma série de medos que são transversais a quase toda a sociedade. Por exemplo, o medo que tu tens que, afinal, a tua família não seja aquilo que parece ser, ou que os teus próximos, as pessoas que te oferecem segurança, sejam más. Os teus vizinhos, estou a lembrar-me da "Semente do Diabo", que de repente os teus vizinhos, aquele núcleo à tua volta, podem ser-
Que pânico esse filme
...adoradores de Satanás. E o teu marido pode estar envolvido nisso. Esses medos são primordiais. O medo de, e isto até podes recuar aos contos dos irmãos Grimm.
Precisamente, eu estava a pensar nos miúdos, mas as outras gerações vêm incubada no medo.
Que às vezes é tão simples quanto isso. Tu escolheres o caminho e ires pelo caminho errado. Onde é que isso te vai dar? Esse medo, o medo de te perderes. O medo que um refúgio se venha a revelar uma armadilha. Portanto, há uma série de medos primordiais, mas que depois vão sendo atualizados e vão sendo revistos e vão sendo trabalhados de novas formas, até porque a tecnologia também vai evoluindo. As formas de narrar também são diferentes.
Muito bem, meus amigos. Chegamos aqui ao final da primeira parte do "Pop Up". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Chiminos. Esta semana estamos aqui a falar de terror, entre o cinema, a TV, vamos ver até onde é que vamos, nesta que é a semana que supostamente mete mais medo. Vamos ver se mete ou não. Maria Ramos Silva, então e o terror em português? Estava eu a pensar, temos para aí tanta lenda.
É verdade.
Personagens e sítios e assombrações. Não teríamos imenso.
Temos indústria, não é?
Falta-nos a indústria para pôr isto a trabalhar como deve ser.
Falta-nos um pouco, porque de facto, nós também falámos disso, de certa forma, na primeira parte. Quando temos uma casa, e toda a gente sabe que os problemas normalmente começam em casa, e os acidentes, é verdade.
A maior parte dos acidentes ocorre em casa.
Mas fazer um filme de terror também sai mais barato.
O que eu gostei foi da risada sincronizada destes quando disseste que os problemas começam em casa.
Isto também, de facto, nós reconhecemo-nos nestes dilemas.
Pois é.
E até no terror temos isso, podemos nem sair da mesma suajada.
Sim.
É uma coisa que sai mais baratinho. Mas bom, eu acho que nós temos imensos enredos. Temos, de facto, sobretudo aqui outro segmento, a categoria dos casos de polícia, nós também já falámos sobre isso.
Além desse.
Se calhar alguns são demasiado recentes e, portanto, iriam criar aqui algumas questões mais agressivas. Ia ser mais difícil. Mas a nossa história tem episódios absolutamente deliciosos. Imagina, tens um grupo vasto numa sala.
Já estou a gostar, ainda não sei o que é, já estou a gostar.
E depois, de repente, as pessoas sabem que vão ser escolhidas, mais tarde ou mais cedo, para fazerem o quê? Ou seja, vão saindo, vão conseguindo libertar-se, mas depois há um que vai ficar para o fim, se só sobram dois, mas um sabe que vai ter a missão de ficar entalado numa porta.
Isso é uma espécie de Squid Game à portuguesa.
Entalado numa porta de um castelo qualquer, enquanto todos passam por cima e ele acaba morto.
É o Martim Moniz no Squid Game.
Imagina.
Está mesmo a pedi-las.
Está mesmo a pedi-las. Olha, o próprio processo do Stavra, para quem tiver a oportunidade de ler ao detalhe aquilo, é um filme de terror autêntico.
Ao nível de sanguinários.
Não, e tem ricos, porque é uma coisa ótima para a Netflix. Eles já têm ricos antigos, ricos na altura, ricos e maus.
Não, esse é um pleonasmo.
Pronto. Se a Europa na altura ficou chocada, porque de facto estas pessoas não eram provavelmente uns pobrezinhos que se andava a catar no meio da rua e a dar umas pauladas num beco qualquer. Partiram-lhes os ossinhos, portanto eu acho que isto é capaz de não faltar para enredo.
Maria está lá com um olhar...
Não, porque é de facto perturbador. Nós às vezes pensamos que somos uns tipos porreiros, mas quando queremos fazer umas coisas diabólicas, também conseguimos. Acho que poderíamos ter muito material para a coisa.
Pedro Boucherie Mendes, no início referimos aqui a questão do Halloween em Portugal. Eu ia dizer quando eu era garoto, mas quando tu eras garoto, enfim, vai algum tempo antes. Isto era coisa que não se celebrava, certo?
Não existia, mas deixa-me só dizer uma coisa. Estamos com menos tempo na primeira parte, não é?
Não, vamos embora.
Que esta nova vaga de filmes de terror pode estar ligada a fenómenos como o Tinder e outras aplicações de encontros. Porque aparentemente é um tópico de conversa entre as pessoas quando se estão a conhecer por mensagem. E é melhor eu tentar discutir filmes de terror com um interesse romântico do que Fórmula 1 ou do que a Beyoncé. E porque permite a proximidade no cinema. Ou seja, nós estamos a ver o filme juntos e o meu interesse romântico hipotético sente medo e agarra-se a mim achando que eu sou um cavaleiro.
Neste caso serias tu.
A ver se não és tu que agarras ao teu interesse romântico com medo.
Eu não vou ver filmes de terror. Ou seja, eu diria: "Olha, eu vou ficar aqui a ver relógios, vai ver o filme."
"Tu vai lá ver o filme de terror que eu fico aqui à tua espera."
Exato. Bom, só para dizer isso. Sim, o Halloween não existia. A ficção americana estava cheia de mistérios para nós. Em primeiro lugar, os cacifos nas escolas, nós não tínhamos cacifos na escola. Não sei se tu tiveste cacifos na escola.
Eu não tive, mas as escolas agora têm cacifos.
Pois têm.
Mas eu nunca tive cacifos na escola.
Não, eu também não.
Mas havia o pão-por-Deus, ainda apanhaste essa fase.
Sim, o beisebol, nós nunca conseguimos aprender as regras. Os fundos universitários. "Ah, foste mexer no trust fund do teu filho", que é uma coisa que havia muito na ficção americana, não sei se se lembram disso, e que nós em casa, nos anos 80, ficávamos: "O que aquilo quer dizer?" Não percebíamos o que aquilo quer dizer. Bem como carros sem mudanças, porque os carros eram todos automáticos nas séries americanas e os nossos tinham sempre mudanças. O Halloween, sobretudo aquela iconografia da abóbora. Recortavam sempre abóboras redondas, não as abóboras que eram feitas de uma forma...
Achetada.
Não se percebia bem o que era aquilo. E era um tema muito recorrente em desenhos animados. Nos desenhos animados do Scooby-Doo, havia sempre um episódio do Halloween. Sim, não havia, mas havia isto do pão-por-Deus, como a Maria disse e bem, que era um bocadinho loser.
É a nossa versão da Wish.
É isso, ficamos com os restos. Mas hoje isto está transformado num fenómeno...
É que depois também é essa matriz judaica o que está. A casamata surge ali.
Há aqui um gol fácil para falar mal do capitalismo. Se quiseres meter esse gol.
Não, não vamos por aí.
Mas eu dou um pouco das tintas para o Halloween. Ou seja, eu até me mascarar. Eu já me masquei.
Eu nunca duvidei que tu estivesses nas tintas.
Pedro, mas mascaravas-te de quê?
Tocam à porta e tal, mas eu não abro a porta.
Mas mascaravas-te de quê, se pudesse ter assim uma máscara?
Não sei. Agora não sei.
Eu digo depois do programa acabar: "Não digas isso ao microfone."
Não sei mesmo. Mas são elaborados alguns.
Elaboradíssimos, são elaborados.
Eu gostava de ser mais novo, obviamente, e aí tive a oportunidade de me mascarar.
O que querias enganar?
Tu não ias mascarado no Halloween.
Tu podias te mascarar de jovem Boucherie.
Exato. Devia ser de pulôver.
Mascarar de quê? Diz lá.
Cirurgião assassino e de Joker.
O que é que é cirurgião assassino? Vestes uma bata de hospital e uma charada?
Não, compras. E depois com uma faca enfiada na cabeça.
Estás a ver, capitalismo. Ele comprou.
Claro, óbvio. O que é que eu vou fazer?
Mas o Bruno não é contra o capitalismo.
Não é do it yourself. Quer dizer, há limites.
Bruno.
Eu.
E os livros de terror? Metem medo?
Não metem.
Eu vi logo.
Não metem. Eu também não li tantos.
Mas já leste Stephen King?
Já li do Stephen King também. Não mete medo. É diferente.
Que livro é que leste do Stephen King?
Li o "Misery" e o "Shining".
O "Shining" não assusta?
"The Dead Zone". Não assusta.
Mas viste depois de ler?
O filme também não assusta, acho eu. Há uma ou outra cena. É mais perturbante.
Às vezes há livros que assustam, até não sentes existir.
Há alguns livros que-
E ali: "Não!"
Depois já vi que eles são...
Eu lembro-me de ler um livro há muitos anos de um Arthur Machen, que é um livro que se chamava "O Terror", precisamente, que eram os animais que de repente começavam a atacar os humanos. Não saltas, não estás a ler: "Eitas, que susto! Espera aí agora, o cavalo esmagou."
Faz-te lembrar aquele filme, o "Pet Sematary", lembras-te?
Sim, e faz lembrar também o "Birds". Também li o conto da Daphne du Maurier, que não é a mesma coisa. Aliás, isso que eu estava a dizer. O terror é altamente cinematográfico.
Estava mesmo a pedi-las.
É, porque implica, para já, o escuro, e a experiência do cinema. Por isso é que ultimamente se tem feito essa análise ao mercado. Os filmes que têm tido melhores resultados de bilheteira, para além de super-heróis, de sequelas e não sei o quê, são os filmes de terror.
Até é um movimento de fugir, que é uma coisa instintiva.
A experiência de estar no cinema, no escuro
E o filme de terror parece que nasceram um para o outro. E aquilo que o Pedro dizia é verdade. Mais do que ires ver uma comédia romântica, se calhar levavas a tua namorada ou teu namorado para ver um filme de terror, lá está, porque a certa altura alguém ia ter de se agarrar.
Vais-te a aturar.
Alguém. "Chega-te aqui para não teres medo." E claro, há essa simbiose quase perfeita entre o terror, porque é muito visual, e o som também entra aqui. Um dos primeiros filmes em que o protagonista é um serial killer, que mata criancinhas, é o "M", do Fritz Lang, que eu vi há muitos anos. Deve ter sido na Cinemateca, em que ele é identificado pelo assobio, o assassino, que só podias fazer quando já havia som. E isso é tremendamente perturbador.
Sempre que se ouve um assobio.
Sempre que ouves aquele assobio, sabes que o assassino está por perto. Então vês umas crianças a brincar na rua, inocentemente, e essa é outra das questões de que ainda posso falar, que é: as coisas terríveis que a inocência esconde e o medo de que por trás de uma fachada inocente haja algo terrível. Seja uma criança que afinal é o anticristo ou que é possuída pelo demônio.
Tu fazes-te rir, mas isto não tem graça nenhuma, Pedro.
Ou a mãe ou o pai, o perigo, aquilo de que eu já tinha falado, mas no "M", "Matou" na versão portuguesa, há essa particularidade de, de repente, estares a ver ali um ambiente quase idílico, as crianças a brincar, e ouves o assobio e sabes que o mal está perto.
Ora bem.
E como é que tu contas isto num livro?
Fica difícil.
No audiolivro, não sei se assobio. Imagina o Steven King a assobiar.
Eu agora tenho aqui duas perguntas que vou fazer a cada um de vocês. Talvez o Pedro tenha alguma dificuldade em responder, mas vamos em frente. Eu primeiro quero saber qual é o género de terror que mais vos apoquenta. Ou seja, se têm mesmo medo é do slasher, do tipo com um facalhão e que vai esventrar toda a gente. Se têm medo é do Diabo no Exorcista, o que é que vos assusta mais? Maria Ramos Silva. A Maria agora parecia aquela aluna na aula de Matemática.
Deixa pensar rapidamente.
Em que a gente pergunta qual é o limite da função, e ela: "Qual função?"
Que ela estava a falar com o colega de lado.
Ela estava a falar com o colega de lado.
Não, é um pouco de tudo. Eu estava a ouvir o Bruno.
E estavas a gostar.
Estava a gostar, como sempre, mas acho que é muito esta questão de: não é bem se tem mais sangue ou menos sangue.
Gosto dos termos.
Não, exato, não tem a ver com essa medição. Mas acho que é surtout, voltamos mais uma vez à raiz do terror e esta deceção que nós sofremos em relação às nossas crenças mais básicas. E, por exemplo, uma coisa que me assusta muito, e não é preciso estarmos num filme de terror, é pensar que vai acontecer alguma coisa de mal a uma criança. Que vai morrer, os pais vão fazer alguma coisa. Aquilo é, para mim, uma coisa absolutamente atroz, eu tenho dificuldades em ver. Aliás, até vou sugerir uma série que me está a mexer um bocadinho com o estômago por causa disso.
Talvez por isso haja tantos filmes de terror com crianças.
Pronto, mas depois há aqui um lado muito também interessante que o Bruno falava, que é: num filme de terror, a criança também pode ser a protagonista do mal.
Sim, é pior.
E isso não é melhor, nem pior. Quer dizer, é humano. É profundamente humano.
Tu sabes que as crianças são o inferno, às vezes.
Só às vezes, Pedro?
E que escondam coisas.
Exato.
O medo da transformação, quer dos pais, de figuras de autoridade e de segurança, em algo ameaçador, por um lado, e por outro, aquele momento em que tu deixas de reconhecer os teus filhos. Que mundo é que os teus filhos escondem? O que é que ocultam de ti? São medos irracionais que estão dentro de nós e que são explorados pelos filmes de terror.
Precisamente. E eu acho que para assustar mais, no meu caso, tem que ter um lado menos de artifício.
Quanto mais real.
Sim, esta coisa mais despojada e mais humana e mais corriqueira. Porque quando tu olhas hoje, por exemplo, para um Bela Lugosi, eu não só simpatizo, como acho a imagem quase glamorosa, porque há ali uma estética que fixa-te muito o tempo.
Se ele te convidasse para a bica, tu até ias.
E eu não tinha medo.
Claro, umas belas t-shirts cool.
Verdade.
Que se vendem naqueles bairros com arroios.
Bairros cool.
Deixa-me só dizer uma coisa, que é: um filme de terror é aparentemente um desafio fácil para os argumentistas. E eu sou muito atraído por premissas do tipo: os personagens são visitados por alguém que lhes vai dizer o dia em que vão morrer. Esse tipo de premissas, que quase sempre são muito mal resolvidas no final. Era um sonho, acaba em fade out, ou não acaba. Não sei se viram o filme na Netflix da Kathryn Bigelow.
Ainda não vi.
Sobre um ataque nuclear. Então não vou "spoilar", como dizem os jovens, mas há um ataque nuclear desconhecido aos Estados Unidos, e depois aquilo é sobre as reações das forças, etc. E depois o final é um final fácil, do ponto de vista do argumentista, porque a pretexto de não dar uma resolução definitiva ao espectador, tem um final coiso.
Boa expressão.
A maior parte dos filmes de terror ou de suspense têm finais coisos. Não há uma explicação definitiva. Também porque antigamente havia sempre a expectativa da sequela. Tu nunca sabes se o tipo morreu, se nunca sabes se o assassino foi apanhado.
Normalmente não morreu.
E isso torna os filmes de terror, pelo menos para um tipo como eu, que sou um intelectual, aborrecidos. Ou seja: "Isto é a porcaria, não vai acabar." Se acaba sempre de uma forma ambígua, escuso de me dedicar a ver. Mas para responder à tua pergunta Não tenho medo de nada na ficção, mas como te digo, a minha higiene faz com que eu não veja "slasher movies", pessoas a cortar, a esfaquear e a marretada. Para quê? Qual é a necessidade? Enfim, não quero saber.
Mas tem outro condimento, sobretudo se pensares no cinema, que é aquela coisa que também te ajuda a vender: será que vais aguentar até ao fim?
Não vou aguentar, por isso é que não vou começar. Não sou superior a isso. Podendo ser poupado a isso, não quero ver. Certo. Bruno Vieira Amaral, faço-te a mesma pergunta e vou colar já a pergunta seguinte, que é: além do tipo de filme que mais te incomoda neste universo, que filme é que tu viste? Eu acho que isto quando nós somos mais novos, fica-nos sempre marcado. Há ali um filme ou uma cena que durante um bom tempo vais dormir mal por causa daquilo e aquilo marca-te para sempre. Muitos. Muita coisa. Eu gosto de filmes, de géneros dentro do terror muito diferentes, desde aqueles com muito sangue. Mas aqui não é o gosto. Tu vês mais facilmente esses? Vejo. O que mais te incomoda? Posso agora responder a isso dando exemplos de cenas que foram extremamente perturbadoras para mim. Eu vi, e já falei aqui uma vez num dos nossos programas, e devo agradecer a um ouvinte que me enviou o DVD do "O Lobisomem Americano em Londres", que eu não via já há muito. Eu vi isso quando era miúdo e foi horrível. E toda a gente fala, claro, da cena da transformação, mas há uma cena que até hoje me angustia, que é uma cena em que grande parte é vista em câmera subjetiva. Ora estamos na perspectiva do ponto de vista do lobisomem, ora da vítima, e que é uma cena que se passa no metrô em Londres, naqueles túneis do metrô. E aquela pessoa está a ser perseguida, de repente sente que há ali uma presença, não sabe o que é, e começa a fugir, entra em pânico e começa a correr. Eu lembro-me, eu tinha 10 anos e vi essa cena, isso meteu muito mais medo do que a cena da transformação. Por exemplo, "O Exorcista", também que vi com a mesma idade. Não sei se sabem, mas as cenas que levaram as pessoas a sair do cinema, algumas a vomitar, outras quase a desmaiar, não são as cenas da possessão demoníaca, mas são dos exames médicos que são feitos à miúda, nomeadamente depois de enfiarem uma agulha no pescoço para lhe fazerem o exame. Isso é que perturbou mais as pessoas. Mas há uma cena que até hoje me continua a perturbar, que é quando há uma festa, um ambiente muito social da mãe, que é atriz e que está com os amigos, e a miúda aparece no meio da sala e faz xixi no tapete. E de repente, a sensação que aquelas personagens têm, que é uma coisa terrível que está para acontecer, que ainda não aconteceu, mas que é sintoma de algo que está profundamente errado com aquela criança. E isso, às vezes, tem um efeito psicológico muito mais intenso do que uma cena de violência, de sangue. Maria Ramos Silva, para terminar, alguma cena, algum filme que dirias marcante?
Há, e vai surpreender muito. Pedro Albuquerque Mendes, porque tem Jim Hackman.
Olá!
É verdade. Olha, é um filme de 72, originalmente, que eu terei visto mais tarde, calculo eu, ou de certeza que vi mais tarde, porque não era nascida nesta altura, que se chama "A Aventura do Poseidon". E lembras-te, Pedro, isto é daquela era dos filmes desastre.
E tem o remake, não é? Depois de 2005.
Acho que depois também tem um remake. E eu lembro-me de ver isto na televisão e aquilo era uma coisa-
Passava-se num navio, não é?
Exatamente. Um barco, mais ricos, gente a passear de barco, e aquilo, de repente, há um tsunami ou algo que o valha. O barco fica literalmente virado ao contrário e aquela gente depois tem que se safar. E quase ninguém se safa.
Ora bem. Olha, deixa-me contar só uma experiência a propósito desse remake. Muito rápido, porque tenho de ir embora. Do remake de "A Aventura do Poseidon", acho que é 2005, do Wolfgang Petersen. Eu trabalhava nos cinemas nessa altura e estava a ver a imagem da onda gigante e tive que sair da sala, porque aquilo num ecrã gigante é horrível. Tu estás lá para cuidar das pessoas, Pedro. Mas eu não aguentei. As pessoas que se lixem. Cada um por si, meus amigos. Cada um por si vem aí a onda. No meu caso, rapidamente, é a cena do Dustin Hoffman no dentista, no "O Homem da Maratona". É isso, não é? Julgo que sim.
"O Homem da Maratona", sim. Acho que é com a Laurence Olivier, também entra.
E é com o Dustin Hoffman, que ele está a ser torturado na cadeira do dentista. E, portanto, aqueles alicates.
Que horror!
Também não gostei da cena das cobras no salto de "A Arca Perdida". Ficaste com tanto medo como o próprio Indiana Jones. Não gosto de cobras. Enfim, é um medo arcano. É o que é, meu amigo, cada um com o seu. Muito bem, final de mais um "PopUp". Voltamos na segunda-feira em podcast com as sugestões da semana. Sigam-nos e não percam nenhum episódio. Até lá.