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Muito bem, nós outra vez. Se calhar não estavam à espera, mas esta é a realidade. Trazemos aqui as sugestões da semana com a rapaziada do PopUp e com a Joana Stickene Villela, que está aqui na vez do Pedro Boucher Mendes, que nesta semana estava demasiado ocupado. Um grande abraço. Joana, vamos lá ver se conseguimos dar conta disso tudo. Temos três propostas. Vamos começar por, é tudo gente nova, Philip Glass e Glass Works.
Nós falámos no último programa sobre o Chuck Norris.
É verdade.
E eu escolhi.
E falámos muito também sobre os anos 80.
E dos anos 80, e eu escolhi três objetos.
Para recordar ou ouvir, ou ver pela primeira vez, para quem não conhece.
As duas coisas, de que eu gosto muito, dos anos 80. Alguns descobertas recentes, outras coisas que vi na altura. Número um: Glass Works do Philip Glass. Descobri isto há relativamente poucos anos.
Estamos sempre a tempo.
Isto foi a tentativa do Philip Glass de fazer uma coisa mais pop para qualquer pessoa descobrir o trabalho dele.
Compositor americano, muito ligado ao minimalismo, etc.
Minimalismo, fez óperas, bandas sonoras, para quem gosta de cinema, a banda sonora do "The Hours" é dele, do "Kum Dun", da "Barreira Invisível", muito conhecido por uma ópera e colaborações com o Robert Wilson, que morreu há uns anos, que é o "Einstein on the Beach". Fez uma ópera para o encerramento da Expo 98. Na verdade, já estava feita, mas era sobre o Vasco da Gama, também com o Robert Wilson, que se chama "White Raven". E ele em 1982, o Philip Glass, que nasceu em 1937, o Chuck Norris era de 40.
Coincidência?
Isto é tudo escolhido, é tudo malta da mesma geração.
Da mesma criação.
Ele fez isto, estava a dizer, para ser, no fundo, uma versão para ser ouvida por mais pessoas e que tem um pormenor muito engraçado e que eu atesto que funciona, porque é assim que eu ouço isto, que é: ele queria fazer uma coisa que fosse walkman suitable. Isto foi lançado em vinil e cassete, eram versões diferentes, vinil para ouvir em casa com outras pessoas. Cassete para ouvir no teu walkman.
E para poderes ir parando e voltando a pôr.
E várias coisas. Eu ouço isto, isto é uma hora e dois minutos. O mundo não está fácil, não é? E às vezes isso afeta-me. E vou dar um passeio com a minha cadela.
E bem.
Ponho os fones, ponho isto a tocar, ainda ontem fiz isso, e de repente...
Fica tudo melhor.
O mundo é outro.
Pronto.
Eu sugiro isso mesmo. A minha sugestão não é só o Glass Works.
É terapia.
É pôr o Glass Works a tocar nuns fones, seja onde for, em que plataforma for, deve estar também no YouTube, nessas coisas. Ouvir e caminhar durante uma hora, caminhar, correr, o que seja, e olhar para as coisas, porque isto é como se fosse uma nova banda sonora para o mundo. Isto são seis movimentos e é uma história, ele está ali a contar uma história. É mesmo fora de série. Outra sugestão, um livro do John le Carré.
Não sei se conhecem.
Não sei se conhecem, mas caso não conheçam, é o autor de livros que fizeram algum sucesso.
E que morreu há pouco tempo.
Que morreu há pouco tempo também e que nasceu em 1931, era o mais velho destes todos. Livros pouco conhecidos, dizia, como "O Espião que Veio do Frio", "A Casa da Rússia", "O Alfaiate do Panamá", etc. Este livro que eu vou sugerir chama-se "Um Espião Perfeito" e é o livro mais autobiográfico do John le Carré. O John le Carré trabalhou nos serviços secretos, no MI5 e no MI6. Saiu quando escreveu "O Espião que Veio do Frio", que teve tanto sucesso que ele conseguiu passar a viver só da escrita. Eu não sou grande leitora de livros de espionagem ou policiais, mas este livro é absolutamente extraordinário e são 600 e tal páginas. Eu estou a guardar as últimas 40. Está me a custar despedir-me destas pessoas. Mas o cérebro de um e a massa bruta de outro, isso era uma sanduíche perfeita.
Mas Joana, tenho uma novidade pra ti. Quando acabares esse, podes ler outro do John le Carré.
É verdade.
Há mais.
Já estou a pensar nisso.
Há apenas mais três.
Não é com estas personagens só para si. E isto tem uma coisa muito particular que é: não há nenhuma cena de pancadaria, isto é sobre a formação moral, o crescimento, a relação com o pai de um espião e todas as relações com a mulher, e depois é contado, vai pra frente, vai pra trás, estás sempre a mudar de cena, de personagens. É um espião perfeito, Leão. Finalmente, aquele que possivelmente será o meu filme de ação preferido.
É o meu filme de Natal favorito.
"Die Hard: Assalto à Torre Cesar", 1988.
Que nós falamos neste programa de três em três semanas, mas nunca ninguém trouxe as sugestões da Sara.
Quem não viu, veja. Vejam com os vossos filhos.
Sabes que eu continuamente descubro pessoas que nunca viram.
Eu já vi com o meu filho mais velho, há uns anos, mas quase todos os anos revejo.
Procurei em quatro plataformas de streaming, só estava em uma e a pagar.
Pois é. É o clube de vídeo da modernidade.
Num clube de vídeo estaria seguramente. Como curiosidade, há uma série da Netflix que se chama "The Movies That Made Us" e que tem um episódio sobre este filme, e eu fiquei a saber que o "Die Hard" foi reescrito à medida que era filmado. Ou seja, aquilo teve um argumento inicial, depois o realizador queria que tivesse mais humor. E o Bruce Willis foi a 50ª escolha. Eles convidaram não sei quantos atores.
Os de ação, muitos de ação.
E não só. Queriam toda a gente, menos o Bruce Willis, que achavam que ele era só um romântico, um tipo com piada, por causa do "Medalha de Detetive", que tem aquela música maravilhosa no genérico e que passou de ser a série da Cybill Shepherd para ser a série do Bruce Willis.
Realizou John McTiernan, não é? Que fez "O Predador" no mesmo ano.
Ele hesitou muito em realizar isto. "Não sei se isto funciona."
Oh John, anda lá.
Estão a ver? O Bruce Willis não conseguiu chegar a esta plataforma de culto do Norris.
Mas ele contribui muito para os melhores.
Não, é isso. De maneira diferente. E com outra sensibilidade.
Mas ele contribuiu para aquilo que eu dizia na semana passada, um pouco para a reconfiguração do modelo do herói de ação.
Exatamente.
Sim, é noutros campeonatos.
É, ele está ali, mas ele não queria estar ali, mas lá tem de ser. E ao mesmo tempo tem humor.
Tem imenso humor. Eu adoro.
É verdade. Eu acho que há semelhanças, ainda que num outro registo, mas há semelhanças com outro herói de ação que é o Mel Gibson, nos filmes do "Arma Mortífera".
Para mim, o Bruce Willis está numa categoria à parte. Ia só dizer, enfim, isto depois já é uma evolução, mas depois temos o "Pulp Fiction" em 94, com o Bruce Willis também, e que já é um passe disto tudo, e é uma linguagem super meta sobre isso tudo, mas que eu revi também há pouco tempo. Lá está, Maria, estou a rever alguns filmes.
Estás a rebobinar.
Estou a tornar-me essa pessoa que diz que revê coisas.
Pois é. Pessoas lá por baixo.
E que é um filme que com a idade só melhora.
Bruno, uma coisa, já agora. No outro dia apanhei, fiquei a ver pela 27ª vez, "A Fúria do Último Escoteiro".
É muito bom. Realizado pelo grande Tony Scott.
É verdade.
Nugaram-me completamente.
Do Shane Black, que é o argumentista do "Arma Mortífera" e também do "Last Action Hero", que também é do John McTiernan, e que chega àquele ponto em que-
Olha, por falar em meta, como estava a dizer a Joana.
Já não dá para ir mais longe no herói de ação, então vamos desconstruir o herói de ação com o Arnold Schwarzenegger. Aliás, o Arnold Schwarzenegger teve essa grande virtude.
Era os bíceps.
Também, mas rapidamente ele começou a ir para outros papéis onde brincava com esse próprio modelo do herói de ação, o polícia no jardim de escola.
Tem aquele filme giro com a Jamie Lee Curtis, não me lembro do nome.
O "True Lies", é. Da verdade e da mentira.
E brinca sempre com isso. Eu acho que o "Last Action Hero" foi um flop.
Pois foi.
Porque eu acho que levou longe demais o meta. Mas de qualquer das formas, era uma tentativa também de reinventar ou repensar.
Muito bem, por falar em ação. Bruno, tu queres falar de livros.
Eu quero falar de livros. É a "Tradição do Mundo", de Juan Gabriel Vázquez, que é um escritor colombiano, mais conhecido como romancista. Este livro foi publicado em 2024. Desculpem, não é uma novidade absoluta.
Ora essa.
Mas só me chegou às mãos há-
Ao contrário de tudo o que eu trouxe
...relativamente pouco tempo. Obrigado a quem mo fez chegar às mãos. Eu gosto muito de livros, de escritores a refletir sobre o seu próprio ofício.
Humbiggistas, no fundo.
Não é humbiggistas, pelo contrário, até há muita generosidade. E aliás, quando tu estás a analisar e estás a desmontar um bocadinho aquilo que tu fazes, também estás a assumir que aquilo é uma tarefa humana. Não é como uma coisa que te caiu, estás ali: "Isto não se consegue explicar, meu amigo, isto é impossível".
É inspiração.
E vem a pombinha do Espírito Santo que cai sobre mim. Não. Aqui há, de facto, uma tentativa de explicar de onde é que vem aquilo que eu faço, como é que eu faço aquilo que eu faço, onde é que eu fui buscar, também quais são as minhas referências. Isto é uma série de conferências que ele proferiu em Oxford, foi convidado, foram adiadas na altura por causa da pandemia, acabou por fazer, creio que em 2022. São quatro conferências. Já outros grandes escritores no passado tinham feito esse tipo de conferências e depois publicam. E não só há muitas leituras em comum, coisas que eu já tinha lido, por exemplo, do Milan Kundera, que ele traz e sobre as quais fala neste livro, ou Vargas Llosa, mas também outras coisas novas que eu nunca tinha lido. Por exemplo, uns ensaios que ele refere da Zadie Smith, tudo sobre ficção, sobre o ofício da ficção, mas depois também vai buscar os clássicos, não estes ensaios, mas clássicos da ficção que muitas vezes devem funcionar para os escritores como uma espécie de curso de escrita criativa. Ele dá o exemplo do "Lazarillo de Tormes", que teve uma edição recentemente, eu já aqui falei, tem uma edição recente pela Quetzal. A forma como o Roy Gabriel Vázquez olha para o livro, pode fazer ver quem nunca pensou no livro através daquele ângulo, pode nos fazer ler o livro de uma maneira diferente. O que ele faz é: olha para esse livro e diz: "Temos ali um livro sobre uma personagem que até aí era considerada indigna de ser representada nos livros, mas não é vista à distância de um narrador na terceira pessoa, aquilo é narrado na primeira pessoa." E muitas pessoas, na altura, muitos leitores do livro achavam que aquilo era real, era um documento, porque aquilo é escrito no estilo epistolar, uma carta que o tal Lazarillo está a escrever. E muitas pessoas acreditavam. E ele usa um pouco essa referência para dizer como aquilo também contribuiu para a modernidade ou para a era moderna, para o romance tal como nós o entendemos. Depois dá muitos outros exemplos. É um livro não só para quem escreve e gosta de pensar também aquilo que faz, mas também para os leitores que podem aprender um pouco mais sobre o processo de escrita. E de como é que, neste caso em particular, este autor sintetiza todas essas influências e referências. Tenho um outro livro.
Ah, tens um outro livro?
Calma, ainda tenho um filme, eu disse-te.
Tens um filme, não sabia que tinhas outro livro.
Pois não, eu não tinha dito.
Ah, eu vi logo.
Também é de 2021, ou seja, não é muito recente. Olha, tenho aqui isto.
Esperem até ouvir o filme, que é de 73.
Recente.
Exato.
É recente. É um livro da Simone Veil, foi presidente do Parlamento Europeu, foi fundamental na aprovação.
Há um filme sobre ela na Filmind.
Que deve ser do autor deste livro, que é o David Teboul.
Não te sei dizer.
Eu acho que deve ser. Este livro é dele e é uma recolha de testemunhos da Simone Veil. Ele diz que ela já não queria muito falar sobre ela quando ele fez a abordagem, mas acabou por depois ter conversas muito longas e muito íntimas também, sobre a experiência que ela teve, não só a experiência na política, mas em particular a experiência como deputada. Ela esteve em Birkenau e sobreviveu. Foi uma das sobreviventes, ela era judia.
Sim, em campo de concentração.
E nós já lemos tantas coisas, já vimos tantos documentários e tantos filmes, mas é sempre impressionante voltar novamente aos relatos, aos testemunhos na primeira pessoa, porque o livro está escrito na primeira pessoa, de quem passou por essa experiência e de como, e ela diz isso várias vezes no livro, de como, de facto, houve a sensação de que se passou para um outro lado do humano, que é dificilmente capturável por palavras. E até, mais uma vez, como já tantos fizeram antes, se põe a questão até que ponto é que se pode representar através da arte esta experiência. É um daqueles livros que muitas vezes nós dizemos: "Ah, tanta coisa para ler que temos lá em casa" e depois vão ficando. De vez em quando eu posso seguir este meu conselho, que é de olhar para aquilo que tem lá e descobrir, e às vezes livros que eu já nem sei que tenho lá. Por último, um filme, 1973, o primeiro de Terrence Malick, o "Badlands - Noivos Sangrentos", com o Martin Sheen e a Sissy Spacek. Nunca tinha visto este filme. E por que vi este filme? Ora, e aqui voltamos à época dos DVD. Não foi numa plataforma de streaming, foi um DVD emprestado pela nossa diretora de marketing, Patrícia Oliveira. É assim, nós trocamos cromos.
Mas tu tens um leitor aqui, isso depois também é importante. Já é difícil.
Eu tenho um leitor.
Eu também tenho, mas só funciona de vez em quando.
Eu tive o cuidado de açambarcar.
Eu não melhoro o meu há muito tempo e eu nunca mais me preocupei com isso.
Abastecei de dizer: "Não, eu vou precisar disto, espero que nunca avarie."
Vai avariar.
Vai?
Claro que vai.
E aí, pronto.
O DVD está a voltar. Como o CD, acho.
O CD está a voltar?
O CD está a voltar.
Para mim nunca foi embora.
Sou muito cético em relação a esse regresso. Mas vou esperar para ver.
No outro dia fui a uma zona da cidade, que é o Chiado, e descobri uma loja de vinis. Desculpa, agora meti-me.
Não.
É do Crucifix, não é?
Exatamente.
Que também tem imensos CDs, pasmem.
Vinis, CDs e cassetes.
Muito bem, até houve aqui um silêncio dramático.
Pronto, o filme é Terrence Malick. Eu gosto mais do filme seguinte, o "Days of Heaven", "Os Dias de Paraíso". Eu troquei com a Patrícia, eu emprestei-lhe o "Days of Heaven" e ela emprestou-me o "Days of Heaven".
Isso é muito analógico.
É uma coisa antiga.
Somos pessoas antigas, mas aqui fica. É um bom filme. Eu gosto mais, de facto, do "Days of Heaven", acho que vai um bocadinho mais longe, apesar deste também ser bom.
Eu tenho três sugestões, todas atuais, todas novidades, só para vocês me meterem no vosso lugar. Uma nada analógica é: nós estamos a gravar isto, para quem não sabe.
Num gravador de quatro pistas.
Quando nos ouvirem, já está disponível o novo álbum da Robyn, que se chama "Sexy Extention". É assim que se diz, é só uma palavra.
Dizes tu que é assim.
Eu, neste momento em que estamos a gravar, ainda só ouvi quatro ou cinco canções, que são aquelas que estão disponíveis e, meus amigos.
É sempre a Robyn, não é?
É pá, é incrível.
É incrível.
Se isto for tudo assim, é um grandessíssimo disco de eletro espetáculo.
Há muito tempo que tu não inventas uma coisa.
Não, é pop eletrónica, muitas vezes dançável.
Por falar nisso, que idade terá Robyn?
Eu digo-te já. Deixa-me ver.
Desculpem esta pausa, agora temos de estar aqui a falar.
Tem 46, faz 47 este ano.
Pensava que era mais velha.
Ela é de 79. O disco é muito, e ao contrário do que se calhar algumas pessoas podem esperar quando falamos de eletrónica, pop, é para dançar e é isto e é aquilo. Há pelo menos uma canção que acho que deve ser uma referência óbvia a Kraftwerk, não pode ser um acidente, é impossível. Espero eu que não seja. Mas é muita autorreflexão, é o que ela andou a fazer estes anos todos, por que transformações passou, tem muita maternidade por ali e no caso dela há toda uma história em volta. Agora não vale a pena, oiçam e vão saber mais. É o que eu vos digo, se o disco for todo assim, é uma coisa extraordinária. Espero o melhor.
Eu vou ouvir.
Se não for?
Se não for, esta também é a mesma. Outra coisa: vi aquela curta que passou pelos Oscars, o "Todos os Quartos Vazios", que está na Netflix.
Eu também vi.
É pá, é uma coisa extraordinária. Não sei se repararam, eu gostei muito. Apesar de ser muito complexo, porque tem a ver com o depois de crianças que morreram em tiroteios nas escolas. Está muito bem feito, é muito difícil de ver.
É que os quadros são muito perturbadores.
Mas por isso mesmo está muito bem feito. Outra coisa é um livro em estrangeiro, um livro que se chama "Stay Alive Berlin, 1939-45". O autor chama-se Ian Buruma.
No outro dia trouxe cá um livro dele, se bem te lembras, sobre o Spinoza.
É verdade. E como é que se vivia em Berlim entre 39 e 45?
Vivia-se muito bem.
Eu não li, desde já aviso, o livro é novo.
Era tipo que era hoje.
Mas gostava muito de ler, acho que deve ser muito interessante.
Eu também quero ver. Como é que se chama o autor? Ian?
Buruma.
Buruma.
É neerlandês, não é? Não se pode dizer holandês.
País Baixense. E é isto, meus amigos. Hoje podem ler uma história sobre como é que se vivia em Berlim durante a Segunda Guerra Mundial enquanto ouvem a Robyn.
Há muitos livros interessantes sobre a vida dos alemães comuns.
O ano passado foi publicado, entre nós, um livro que era sobre uma aldeia específica, mas não era Berlim. E a guerra e tudo aquilo era uma espécie de mundo paralelo, ao mesmo tempo. Estranhíssimo. Muito bem. Antes de irmos embora, Maria João Silva, vamos lá dar alguma dignidade a isso.
Duas sugestões. A primeira, não são videoclubes, mas é o mais próximo disso, porque de alguma forma também propõe ver filmes e depois conversar sobre eles. Também é uma forma de discussão mais analógica e interessante, com pessoas, através de pessoas, sobre pessoas. A Fundação de Serralves apresenta a terceira edição de um ciclo, o Modos de Rever. Este ano eles estão a explorar a relação entre o cinema e diferentes correntes pictóricas, então vão buscar ali oito filmes. Eu penso que isto já começou no final de março, mas têm já o próximo dia 18 de abril, sábado, às 17h. São filmes que vão ser exibidos e que estão a ser exibidos no auditório da Casa de Cinema Manuel de Oliveira. E depois vêm acompanhados no final por conversas com nomes como o António Guerreiro, a Maria Filomena Molder, o Daniel Jonas, o Ricardo Pais, o Jorge Sobrado. Para este dia têm o Barroco. Temos aqui desde o Surrealismo, tudo mais. Neste caso, temos o Barroco, a 18 de abril, com "O Contrato", que é uma obra de 82 do Peter Greenway. Portanto, vamos outra vez aos anos 80 e coisas antigas. Eles começaram com o "The Cameron", vão acabar com os canibais.
Era uma coisa muito anos 80, anos 90.
E quem quiser ir para Silves é só ir ao Porto. Vão ter depois também o Tesco, o Kurosawa.
Bom, mas vai haver Robyn?
Tiago.
Estou a brincar.
Mas podes levar a Robyn no teu walkman a caminho do Porto.
Tive.
Para fazer a tua caminhada.
Tive e posso dizer-vos que a dada altura da minha vida, o walkman foi claramente o meu melhor amigo. É só isso que eu tenho a dizer.
Uma confissão pungente.
É verdade.
E agora não ouves muita música com fones?
Não ouço tanto quanto ouvia e não oiço com a mesma necessidade emocional.
Pois, eu também acho que sim.
Essa é que é a grande questão, que eu acho que há ali uma fase da vida em que a música é a tua melhor companhia.
Já criaste uma corácea.
Tu precisas daquela banda sonora para te aguentares.
E não ouves tantas vezes a mesma cassete, não é?
Não, claro. Obviamente que não.
Não se isso era um walkman ou um discman.
Tive os dois, mas não decoravas as letras porque ouvias o mesmo disco 72 vezes.
Sabes a ordem e agora vem esta.
Até sabias quem é que participava na gravação e quem era o produtor e o engenheiro de som.
Eu lembro-me de ouvir repetidamente uma cassete gravada Com o álbum This Is My Truth.
Tell Me Yours.
Tell Me Yours, dos Manic Street Preachers.
Aí tinha disco.
E é indissociável. Quando ouço aquelas músicas, sou imediatamente transportado para aquele jovem. Para os lugares onde estava a ouvi-las.
Eu lembro-me de chegar a requisitar, por causa dos videoclubes, CDs da biblioteca. Fazia cópias e depois arranjava capinhas de plástico, depois comprava não sei quantas capinhas e depois imprimia as capas.
Eu fazia a mesma coisa, não das bibliotecas, mas de amigos. Mas já agora fica aqui a dica, nas bibliotecas municipais ainda há para requisição DVDs e CDs.
Olha, eu fazia uma coisa que era ali no edifício, não sei se era no Monumental.
Havia a Fonoteca.
Era a Fonoteca ou era no Látero Saldanha, já não sei.
Fui lá no outro dia, na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, Lisboa, à procura, para questões de trabalho, de um disco chamado "Pimba Pimba".
E bem.
De Emanuel.
E eu ia muitas vezes à Fonoteca ouvir discos que não tinha.
Eu na Biblioteca do Montade também ouvíamos CD. Lembro-me de ouvir um que já não ouvia. Fui reouvir há pouco tempo, já nem me lembrava bem daquilo e das músicas desse álbum, o "Desertar Song" dos Mercury Rev, 1998, e que ouvi várias vezes com aqueles fones grandes na biblioteca. Experiências do passado, caros ouvintes.
Olha, só para fechar.
Maria Ramos Silva.
Não, muito rápido também. Não é um alemão, mas é um austríaco, o Wittgenstein. Que é um senhor que defendia.
Há alemães e austríacos.
Tudo fazendo record de forma inesperada. Está tudo ligado.
Eu estou fascinada. Chuck Norris, Wittgenstein.
Mas há uma relação, porque ele defendia que as coisas realmente importantes não conseguimos pôr em palavras, se calhar, quem sabe, com socos, tudo Chuck Norris.
O Chuck Norris também era de poucas palavras.
Exatamente. Por isso é que eu acho que, estranhamente, quando se lê, há aqui uma coisa interessante.
É um herói wittgensteiniano.
É mesmo. Olha, eu não costumo interessar-me muito por biografias de pessoas que gosto de ler, de ver, que são estudiosos.
Mas por quê? Tens medo de apanhar uma desilusão?
Não me interessa pessoalmente. É um pouco aquela coisa daquelas pessoas que se queixam: "Ah, fui ao concerto não sei quanto e ele interagiu pouco com o público".
É, sim.
Não, eu não quero que venha para algum show. Eu quero ouvir as canções, o resto não me interessa propriamente. Mas neste caso, vale a pena, porque é feito pelo Anthony Gottlieb, que é um historiador das ideias, um senhor que foi editor da Economist, que fez um belíssimo trabalho, porque consegue contar uma bela história cruzando aquilo que é a vida pessoal de um dos maiores pensadores do século XX, ali dos primeiros anos, sobretudo, com o contexto. Ou seja, tu tens coisas absolutamente extraordinárias que formam completamente aquilo que é depois a vida, os traços de alma, o pensamento do Wittgenstein, e mesmo as coisas que parecem mais comezinhas. Por exemplo, há atéis deliciosos que é, porque depois toda aquela teia à volta dele também é retratada. O Bertrand Russell, lá estamos, que é uma das figuras muito próximas do Wittgenstein, dizia: "Ele é um niquento", que é uma palavra que eu adoro. "Ele é um niquento". Até escolher o mobiliário que pôs no seu quarto da universidade, aquilo foi super confuso. E portanto, as próprias origens familiares de alguém que cresceu numa família hiper privilegiada, num palácio, que viu pelo menos três ou quatro irmãos a suicidarem-se. Aliás, a Viena dos Habsburgos naquela altura era considerada a capital europeia dos suicídios. Só o próprio contexto social é super interessante, mesmo, vale a pena ler. E depois a própria relação familiar, as diferentes coisas que ele vai fazendo na vida como socialista, como combate, como esteve em cativeiro, e achava sempre que aquilo que fazia não chegava, que depois é extraordinário. É de facto alguém que só vê publicada uma grande obra em vida, que é o "Tratado Lógico-Filosófico". Quer dizer, não é mais, mas é o suficiente para nós depois termos aqui uma história absolutamente fascinante sobre o Wittgenstein. Portanto, isto é a filosofia na era dos aviões, não é preciso pensar muito o porquê, e é das edições Setenta. E olha, aproveitem. E ainda por cima porque eu acho que nós vivemos tempos em que as pessoas estão muito perdidas, mas depois ao mesmo tempo cheias de determinismos.
Cheias de certezas.
Cheias de certezas. E a filosofia, mais do que nunca, ajuda a tirar o tapete, ou seja, a tornar tudo ainda mais baralhar e voltar a dar, a confundir. E faz-te pensar se, de facto, é um pouquinho como esse exercício que o Nuno trouxe, da pessoa que olha para o seu trabalho de escrita, não de uma forma egocêntrica, mas autoaflexiva, de perceber, para já, que aquilo não é obra de Deus Nosso Senhor, é das suas mãos, do seu talento, do seu pensamento e, sobretudo, desmontar isso tudo e provavelmente para se confundir ainda mais. Mas isso é essencial para nós andarmos para frente.
Muito bem, amigos, com esta densidade filosófica.
De puxar o tapete, voltamos ao Chuck Norris.
Ora bem.
E assim concluímos.
Sugestões entregues, estão todas disponíveis em podcast. Sigam-nos e não percam nenhuma destas doses. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.