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Este som não engana, porque "Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de autoridade e gestão da sala de aula. Não basta que o professor se apresente aos alunos como a pessoa responsável por ensinar, é preciso que a sua presença inspire respeito, confiança, tranquilidade. Olá, Eduardo. Como é que se exerce a autoridade sem autoritarismo?

Olá, Judite. Com sabedoria, com bondade e com sentido de justiça, Judite.

Ok. Está dada a receita, podemos ficar por aqui.

Judite, é suposto que um professor tenha sabedoria sobre aquilo que está a ensinar. Sabedoria não significa, por inerência, cumprir meticulosamente o programa e as metas curriculares. Significa ter uma leitura de síntese suficientemente dinâmica e muito simples de perceber. Porque se for assim, os alunos, mesmo aqueles que não amam aquela disciplina, vão passar a adorá-la, simplesmente, passam a encantar-se com ela e, portanto, se tinham dificuldades em Português, Geografia ou Matemática, passam da última fila da atenção deles pra primeira e de repente tornam-se apaixonados por isso. Bondade, porque obviamente, os alunos costumam dizer, quando nós perguntamos: "Mas gostas do teu professor?" Eles têm sempre um comentário que eu acho uma delícia. Mesmo quando o professor não lhes traz tantos ganhos em termos de aprendizagem, a primeira coisa que o aluno diz é: "Ele é muito simpático", que é uma maneira de dizer, por outras palavras, que ele os considera, que os leva a sério, que os escuta e que fala com eles. Isso é uma coisa muito importante. E depois sentido de justiça. Sentido de justiça é uma coisa que eu acho que é razoavelmente simples. Ou seja, se um professor é um professor, por maioria de razão, a autoridade é a ele, está por inerência conferida. E isso não significa que um professor tenha que ser discricionário, prepotente, nada disso. Significa que pode ser uma força tranquila, sendo certo que quando define regras para um, define para todos, e quando define regras, por maioria de razão, sabe que as regras são muito mais simples de perceber quando ele dá o exemplo e, portanto, está a explicar-lhes de outra forma: "Olhem, meus amigos, não olhem pro que eu digo, olhem, sobretudo, pro que eu faço". E se for assim, a autoridade de um professor está lá. E mais, é invariavelmente respeitada pelos miúdos. Portanto, não vale a pena estarmos a fazer um drama. Agora, sem esta legitimação, o professor fica ali numa terra de ninguém e pode ser tudo, mas arrisca-se a não ser professor.

É fácil confundir autoridade com dureza ou rigidez ou firmeza.

É, Judite. Eu acho que é nas escolas, como no Estado. Quando o Estado não é um Estado de direito decente, põe-se a fazer leis patetas só pra mostrar quem manda. Ok, vejam lá. Não, eu acho que quando um professor é muito inseguro, é sempre muito rígido. Quando é muito inseguro, é sempre muito autoritário. E depois corre mal, porque aparentemente até fala mais alto e exige este mundo e o outro, se for preciso. E os miúdos percebem que ali por baixo está só um professor assustado, que se calhar ainda não tem as competências indispensáveis para ter a mão numa turma, porque muitas vezes também não o ensinaram como era devido. E portanto, quando eles sentem que o professor está ali a surfar na maionese, os miúdos, percebendo que ele está assustado, ficam assustados, ficando assustados, fogem pra frente, e depois dá uns cocktails absolutamente terríveis, onde tem que vir o diretor de turma ou o diretor da escola, porque na prática, ainda o vem desautorizar mais. Portanto, gera ali uma escalada que às vezes é dramática e que não se faz. E de facto, há muitos professores muito pouco experientes, muito generosos, que querem muito ser professores, que gostam de ser professores, mas também é verdade que às vezes lhes dão turmas quase ingovernáveis. Todo o exemplo, a escola passa a vida a dizer: "Não, nós somos a favor da escola inclusiva". Eu fico sempre com pele de galinha quando ouço isto, porque quando a escola propala uma coisa destas, nós já sabemos que é tudo, menos uma escola onde todos são tratados por igual. E eu já perdi as contas, Judite, em que há professores, por exemplo, do primeiro ciclo, que têm 20 meninos, mas têm dois com diagnósticos que coincidem com aquilo que se passa de facto, que são duas crianças muito perturbadas, que gritam, que viram a sala de cabeça, etc. E portanto, expliquem, por favor, depois como é que se pode esperar que estes professores tenham autoridade quando lhes dão presentes envenenados, que são escolas que, à boleia da inclusão, põem estas crianças na mão de um professor e dizem: "Amanha-te". Portanto, autoridade é também isto, é uma maneira de nós não andarmos aqui num discurso demagógico, mas balizarmos aquilo que exigimos pelos nossos exemplos. É tão mais simples, afinal.

Mas quando os alunos parecem testar cada limite, como é que se conquista a autoridade?

Ó Judite França, agora nós não estamos em direto.

Não, fomos abaixo.

Dando um puxão de orelhas à turma. "Puxão de orelhas" com aspas, fique claro. Calma. Judite, quando um professor é fixe e os miúdos ainda por cima gostam dele, porque estas coisas não acontecem por acaso, muitas vezes precisam de perceber até que ponto é que ele pode passar de fixe à categoria de professor especial. E passa-se de fixe à categoria de professor especial quando um deles se arma em parvo. E depois atrás de um vêm dois ou três, porque às vezes eles têm 12, 13 ou 14 anos, e aquilo fervilha um bocadinho. E quando um professor fixe é capaz de levantar a voz e é capaz de lhes dizer que até está dececionado com eles, e é capaz de lhes dizer: "Olha, eu vou ter que castigar de alguma maneira", seja o que for, pode ter a certeza que às vezes um episódio desses faz com que o professor suba muito na consideração de uma turma. Eu gosto muito que os alunos testem os professores, porque é como se lhes estivessem a dizer: "Olha, já chegámos aqui a este patamar, é como nos videojogos. Agora mostra que és capaz de ser ainda melhor do que já és". E quando eles fazem isso e os professores conseguem dar esse salto, os miúdos passam a adorar o professor. E o professor baba-se, porque os professores parecem umas crianças numa loja de doces quando são adorados pelos alunos, desmancham-se todos, ficam felicíssimos, é muito bonito de ver.

E que papel têm os pais nesta equação? É que podem reforçar ou podem fragilizar a autoridade do professor.

Os pais, às vezes, são as crianças mais problemáticas de uma escola. Evidentemente que os pais são invariavelmente pessoas sensatas, mas há pais que são muito pouco razoáveis, Judite. Primeiro, porque fazem comentários que eu não acho muito corretos em relação a um professor, porque é como se estivessem a dizer aos filhos: "Tu tens que respeitar aquela pessoa", quando os pais, nos comentários que fazem, são as primeiras pessoas a não respeitar. Que é uma coisa que a mim me inquieta particularmente. E depois, eu não estou a dizer que não haja professores que se enganem. Há. Não estou a dizer que não haja professores que às vezes são injustos. Também há. Mas há pais que partem invariavelmente do pressuposto que quando um professor chama a atenção de uma coisa-- claro que há professores que exageram, mas a maior parte dos professores não são assim. E quando há um professor que chama a atenção de qualquer coisa que não correu bem, criem ali uma parceria que faça sentido em benefício do desenvolvimento daquela criança. Há pais que reagem de uma forma mal-educada, insolente, desafiadora. Nessas circunstâncias, eu não quero que se passe a vida a complicar a vida a ninguém, mas às vezes devia haver uma leitura mais sensata do que pode ser uma Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. Ninguém quer tirar as crianças a ninguém, mas por favor, há pais que precisam de perceber que algumas atitudes, não sendo um mau trato explícito, são negligência, e eles não podem ter esse tipo de comportamentos para bem da escola, que é um bem comum, mas para bem do desenvolvimento daquelas crianças, que por coincidência são filhos deles.

Fica aqui a receita dada. Eduardo, um grande abraço. Obrigada.

Agradeço a si.

Encontramo-nos amanhã. Até amanhã.

Até amanhã.