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Bem-vindos a mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e comigo está o Bruno Vieira Amaral e vamos falar hoje de pessoas que adiam uma separação por causa do Natal. São pessoas que existem, não são como o Pai Natal, existem de facto. Eduardo, boa tarde. Qual é a justificação para pensar nisto numa altura tão difícil como é a de uma situação de rutura? E por quê?

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

Judite, porque é muito difícil. E porque a determinada altura, há famílias e há filhos envolvidos em tudo isto e as pessoas não querem, por outra razão que não seja por bondade, que fique claro, querem, de algum modo, tomar uma decisão com o mínimo de dor possível para todos e, portanto, vão tentando levar até onde conseguem a gestão de um processo desses. E às vezes levam tão longe, que tentam fazer ziguezagues. A escolher as alturas em que não há aulas, escolher as alturas em que não há festas, escolher as alturas em que não há aniversários, de maneira a que essa data não fique associada a nada em particular, que de alguma forma magoe pela vida fora as diversas pessoas da família. Isto leva-se a um extremo, que depois faz com que este tipo de comemorações sejam mais protocolares do que propriamente sentidas. E pior que tudo, é um clima de festa com nuvens a pairar e com as pessoas todas muito constrangidas, porque como se imagina, por mais que não se transmita a mais ninguém essa intenção, a verdade é que estes climas não se conseguem iludir de maneira nenhuma.

É um clima que deveria ser de festa e fica um pouco fúnebre, porque mesmo que sejam apenas as duas pessoas, o casal, a perceber que está iminente a rutura, o clima nunca pode ser um clima festivo, nem de celebração do que foi a relação, nem de celebração da família.

Bruno, é verdade. Mas eu acho que nestes dias, se temos que fazer um, ou dois, ou três programas sobre o Natal, porque de facto é uma festa. Eu no outro dia perguntava: "Mas afinal de contas, o que nós estamos a comemorar?" Evidentemente, que eu não estou a pôr sequer em questão a dimensão religiosa, que é preciosíssima para milhares de portugueses. Mas às vezes nós criamos esta explicação, quase inocente, de que o Natal só é importante para as crianças ou é sobretudo importante para as crianças. E eu, tentando ser provocatório, às vezes digo assim: "Cuidado, porque as crianças são pequeninas, mas percebem muito bem que 200 ou 300 quilos de trenó, mais não sei quantas renas, mais cento e não sei quantos quilos de Pai Natal, mais umas toneladas de presentes, não voam assim sem motor de arranque". E, portanto, as crianças não acreditam tão linearmente no Natal. Agora, o que as crianças acreditam é que, de facto, o Natal é realmente a festa da família. É quando as casas ganham um ruído fantástico, as pessoas, de alguma forma, se comungam umas às outras e tudo é uma festa de família. Eu acho que as crianças acreditam mais na família do que nós, e tenho muita pena ao dizer isto, porque depois, o Natal para muitos de nós, acaba por ter esta dimensão mais protocolar. E é uma dimensão muito triste, porque, no fundo, estamos a comemorar a festa da família e depois, de repente, há nuvens e há arestas e coisinhas pequeninas que não foram ditas, mas que ficam ali enquistadas nas diversas pessoas. E às vezes há muita gente a querer passar o Natal muito depressa. Portanto, neste tipo de situações, estas circunstâncias tensas, sombrias, feias, frias, existem levadas até mais para longe. Eu não tenho dúvidas que a maior parte das pessoas faz isto por bondade, por sensatez, mas é tão violento uma pessoa escolher não estar mais com aquela pessoa e de repente estarem a trocar presentes e a fazerem de conta que está tudo bem. E esta encenação é tudo menos Natal, que à conta de não quererem estragar este tipo de festa, vão contaminar a experiência de Natal para toda a vida deles, porque é impossível que pela vida fora, depois não se lembrem daquele Natal em que estavam todos a fazer de conta que eram uma família e, na verdade, já não é.

Mas esta capacidade de chegar a um entendimento quanto ao momento de rutura, pensando em todos os outros, na família, nos filhos, pode ser um bom sinal para o pós-separação?

Pode. Isso pode. Na verdade, pode por uma razão simples: porque eu entendo que um casal quando consegue discutir no sentido nobre do termo, argumentar, trazer todo o contraditório possível quando se trata de preparar uma separação, está a ter um gesto de uma tamanha maturidade que logo aí se vê que o dia depois do amanhã em relação a uma separação ou um divórcio, augura coisas boas, porque aquelas pessoas vão conseguir continuar a conversar em nome dos filhos sem estarem com ódios, ressentimentos, rancores, como infelizmente em grande parte dos divórcios acontece. E, portanto, quando é assim, de facto há aqui um compromisso de duas pessoas adultas em função daquilo que entendem que é um bem comum, que é um bem precioso, nomeadamente a preservação de uma festa de família e particularmente a experiência que querem dar aos filhos em função disso. E, portanto, o gesto é de uma generosidade imensa, mas traz, de facto, muito boas perspectivas pensando o dia depois do amanhã, porque quem no meio de um furacão se consegue sentar a conversar e consegue planear coisas tão difíceis como: "Como é que vamos fazer isto de nos separarmos?" E pensarem não só neles, mas também nos outros todos. Isto significa que estamos a falar de pessoas maduras e quando as pessoas maduras vão a jogo, não precisam de ter os tribunais a definir aquilo que elas sozinhas são capazes de esclarecer e de acordar entre elas.

Mas uma encenação dessas, que não passa de uma encenação. No fundo, é uma tentativa que vai à boleia de um momento bom e agradável e que pode potenciar também em si uma melhoria na relação. Ou é uma questão apenas, é uma ópera em que cada um faz o papel que idealizou para a sua vida que não aconteceu e depois, no fim, em janeiro, arrumam os tarecos e vão-se embora.

É uma encenação para todos os efeitos. É uma encenação, se me perguntar assim. Eu acho que quando estas coisas são pensadas e nunca são pensadas de um dia para o outro. E quem consegue acordar este tipo de solução, digamos assim, entre aspas, teve variadíssimas oportunidades para conversar sobre os mais diversos pontos de vista. Eu acho que é sempre muito mais razoável que se possam separar, nem que seja um mês antes. E nessas circunstâncias, poupem toda a gente a uma experiência de dor e depois aos estragos que vêm daí. Porque por mais que os filhos sejam pequeninos, quando vão rebobinar toda aquela experiência que sentiram no ar como muito desorganizada, não vão achar graça nenhuma a essa ópera, como lhe chamou. E, portanto, é natural que, em vez de ficarem muito reconhecidos, por mais que percebam que a intenção era a melhor, têm toda a legitimidade para ficar muito zangados, até muito decepcionados, porque de algum modo acabaram por ser instrumentalizados num contexto em que não era de todo justo que isso acontecesse.

Deixe-me perguntar-lhe, Eduardo, desviando aqui só um bocadinho do Natal, mas se quiser também ir por aí. Saber se existe uma altura certa para a separação, se existe um momento mais adequado para a separação.

Existe, sim, senhor. Eu acho que a partir do momento em que duas pessoas entendem, de comum acordo ou, de forma unilateral, que entendem que depois de ponderarem tudo aquilo que deviam ponderar, se entendem que a separação é uma decisão inequívoca. E eu não me canso de chamar a atenção que isso tudo se faz com avanços e com recuos. Há dias em que uma pessoa pensa: "É hoje que eu vou falar". E depois passa uma noite e nós encolhemo-nos por qualquer motivo e dizemos: "Bom, talvez não". Mas a partir do momento em que esta decisão está intimamente assumida e tomada, eu devo dizer que não se deve esperar muito tempo, deve ser ali, porque depois tudo o resto é tão violento, é uma convivência tão inquinada, que se dá a partir daí que os estragos são terríveis e as pequenas e as grandes humilhações sucedem-se. E isso é ainda pior do que uma separação propriamente dita.

Mas a verdade é que quando estava agora a dizer ao Bruno que há um momento certo, significa que também há um momento errado e que o Natal é o momento errado para fazer isso?

Não, eu não acho que seja o momento errado É evidente que eu também conheço pessoas que chegam a estas circunstâncias e vão acumulando aquelas poeiras que existem nas relações, que vão estragando uma relação. E às vezes chega-se ao Natal, ainda por cima as famílias de cada um às vezes também têm os seus melindres, os seus caprichos, etc. E às vezes chega-se ao Natal e tem ali a gotinha d'água que faltava para que trase.

É a verdadeira bomba suja, não é?

Não é. E portanto, nessas circunstâncias, eu acho que num contexto destes é errado. Mas eu também percebo num aspecto. Quer dizer, é tão difícil uma decisão destas. E às vezes não é a decisão, é depois comunicar a decisão, falar com os filhos, sobretudo, muito mais do que com os pais. Muitas pessoas só conseguem tomar no impulso. A coisa pegou fogo, seja lá pelo que for, e depois, sim, admito que nessas circunstâncias, no impulso, as coisas tenham contornos não muito bonitos, se diga aquilo que não se devia dizer, haja uma cena ou outra que dificilmente se esquecem e, portanto, claro que há momentos errados, inevitavelmente, nestas circunstâncias também.

Bom, nós não tivemos momentos errados neste cassete. Portanto, vamos agora esperar que comece o jogo de Portugal, que não falta muito. Já com o nosso cassete de hoje, o nosso "Porque Sim, Não é Resposta", perdão, feito. E voltamos amanhã para mais um, com um outro tema. Até lá, estamos disponíveis no site do Observador, nas plataformas habituais de podcast e sempre em eduardosa@oobservador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada. Boa sorte para o jogo e até amanhã.

Boa sorte também. Estamos todos a torcer. E até amanhã. Um grande abraço para vocês.

Até amanhã. Obrigada.