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Começa agora mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de pais à beira de um ataque de nervos por causa dos filhos adolescentes. Eduardo, olá, boa tarde. É um tema recorrente aqui no "Porque Sim Não é Resposta", mas de facto há alturas em que os pais não sabem como hão de reagir às alterações que os filhos vão apresentando todos os dias. É difícil lidar com um adolescente em mudança?
Olá, Judite. É muito difícil, mas também é muito difícil pra um adolescente não saber muito bem o que há de fazer com tantas mudanças ao mesmo tempo. Porque é estar apaixonado pela vida, mas ela ter um ritmo tão diabolicamente vertiginoso, que quando uma pessoa dá por isso e imaginava já ter aprendido alguma coisinha para a tratar por tu, ela dá uma guinada e de repente surpreende. Portanto, é difícil, e é muito difícil também, Judite, porque o corpo cresce a uma velocidade imensa. Às vezes, uma pessoa olha pro espelho e pensa: "Eu acho que conheço esta pessoa de algum lado". Tais são as diferenças. E depois o diabo das borbulhas por centímetro quadrado às vezes intrometem-se a torto e direito e, portanto, é muito difícil. É natural que os adolescentes façam um esforço tremendo para estar de bem com os amigos, na escola, de preferência, e guardem o melhor do seu mau feitio pros pais, sobretudo porque às vezes estão ali a contar até 10 pra não dizerem tudo aquilo que sentem, às vezes embaraçados, tímidos, tudo aquilo que faz parte da adolescência. E depois, finalmente, quando chegam à casa e a mãe diz: "Olha, o lugar desse iogurte é aí no chão", ou outra coisa do gênero, é um pretexto magnífico para eles explodirem e dar uma cena à italiana lá em casa. E as mães respondem tão bem a essas cenas, Judite, que a determinada altura é quase irresistível pra um adolescente dar ali mais uma fintadela na mãe pra ver até onde é que ela é capaz de ir.
Eduardo, neste caso que estamos a falar hoje, que nos trouxe uma ouvinte, há uma ligeira diferença que por vezes pode complicar a situação. Esta ouvinte vive com um companheiro há seis anos. Este companheiro já tinha três filhos. Os dois mais velhos já estão um pouquinho mais crescidos. O terceiro tem 14 anos e a relação está a ser muito difícil com a madrasta. Isto é um agravante ou se fosse a mãe, haveria também dificuldades diferentes? Por que parece ser mais complicado quando as dificuldades são num contexto destes?
Olá, Bruno. Desculpe, porque eu há bocado não lhe disse olá. Bruno, eu acho que as madrastas, com todo o respeito de todo mundo pelas madrastas e pelas sogras, às vezes parecem associar-se um pouquinho ao estatuto de utilidade pública que uma sogra acaba sempre por ter. Porque quando ela faz um comentário sem importância nenhuma, mas que nos fere a sensibilidade, nós entendemos logo que a nossa mãe tem ali uma cotação a fazer uma reviravolta em alta que nunca mais acaba. Portanto, uma madrasta é ainda mais difícil num contexto destes, por uma razão simples: porque, no limite, um adolescente que se preza tem sempre debaixo da língua qualquer coisa como: "Atenção, que tu não és minha mãe". Mas aquilo que me preocupa mais nem é tanto que a minha madrasta faça aquilo que deve fazer, porque eu entendo que deve ser quase mãe. E quase mãe é fazer tudo aquilo que ela acha que não é negociável nalgumas circunstâncias e obrigar a apanhar o tal copo do iogurte do chão e outras coisas do gênero. Mas a mim preocupa-me que as madrastas e os padrastos, nestas circunstâncias, fiquem no meio da ponte, às vezes muito embaraçados. "Eu por mim dizia, mas acho que ele vai reagir mal", ou dizem depois de estarem ali a contar até não poderem mais para finalmente depois exigirem aquilo que é razoável que exijam, aliás. Ou às vezes ainda fazem pior, e todos nós que passamos por essas situações já o teremos feito, que é em vez de se zangarem, chegarem a um pai e dizerem: "Olha, vê lá o que é que o teu filho está a fazer". E quando fazem isso é como se, no fundo, contra a vontade delas, aliás, estivessem a lembrar ao pai que aquele adolescente de 14 anos não é bem filho dela. E se fosse filho dela, se calhar teria sido tudo muito diferente. Portanto, de facto, depois isto dá um coquetel muito difícil de gerir. Mas a mim preocupa-me, sobretudo, quando se entra nesta vertigem, porque depois fica um pouquinho imparável, porque depois há sempre um comentário mais ou menos parvo que se tem E que magoa e que depois fica ali a arder um poucadinho na pele e faz com que, a seguir, uma pessoa amu muito mais do que em condições normais seria capaz de amuar. E quando se dá conta, é um efeito dominó que torna a parvoíce saudável da adolescência num quebra-cabeças dos grandes numa família.
Mas há menos tolerância de parte a parte? Pode haver menos tolerância de parte a parte. Ou seja, os adolescentes serem mais rápidos a puxar o gatilho e, do outro lado, também menos tolerância para certas situações que são normais na adolescência.
Sim, mas depois depende também um bocadinho dos créditos que se foram acumulando. Seis anos já implica muitos créditos e, portanto, seis anos implica que aquele adolescente passou a conviver com aquela madrasta desde os oito, era pequenino. E, portanto, às vezes eu tenho medo que, sobretudo as madrastas e os padrastos, nestas circunstâncias, se esqueçam dos créditos que acumularam nas mais diversas circunstâncias. Às vezes é lisonjeante, devo lhe dizer, que um adolescente diga: "Tu não és minha mãe", porque é puxá-la pro conflito, é dizer assim: "Pronto, agora se tu tiveres um jogo de cintura, acho que o da velha, tu vais ser capaz de pegar nesta canelada que te estou a dar e vais ser capaz de rematar pra gol de uma forma que só os grandes génios da bola são capazes de ter."
Mas é difícil não ver isso como um ataque pessoal. É difícil ter distanciamento para dizer: "Ok, a intenção dele é chamar-me a jogo."
Sim, por isso é que eu acho magnífico que os nossos ouvintes ponham estas questões e que isto se converse na rádio tranquilamente. Sim, porque depois uma pessoa não é de ferro. E mais, e deu tanto àquele miúdo, mas tanto, e dá continuadamente. Depois quando leva uma canelada daquelas, reage de coração quente e, portanto, reage mostrando os pitons, se for preciso. E aí falta um pai, muitas vezes falta um pai, porque depois o pai fica tipo barata tonta no meio dos dois, quase como quem diz: "Eu gostava tanto que vocês gostassem muito um do outro". Quando a legenda correta não é essa, que é: "Olha, fica claro que se tu magoas a tua madrasta, estás a magoar a mim e aí eu fico muito zangado, porque eu não admito que tu faças isso à tua madrasta, como não admito que faças a mim, à tua mãe ou eventualmente até ao teu padrasto". E, portanto, um adolescente depois precisa de ter algum músculo que o ajude a reagir. É bom que reaja, explodir pra dentro é que não. É bom que reaja, mas tem que aprender a ser parvo em cotas razoáveis, é como em tudo, mas de preferência, não magoando quem gosta tanto dele, claro.
A situação foi se complicando a ponto de esta madrasta ter tido ataques de ansiedade. Portanto, foi uma situação bastante complexa, que a fez mudar de comportamento e basicamente começou a ignorar este adolescente. E basicamente o adolescente faz o que quer, sem ser repreendido, mas também não conta para os momentos de união da família. Esta madrasta não tem a certeza se está a fazer bem ou se está a fazer mal, mas basicamente tomou uma atitude também para se preservar. A questão é: onde é que isto pode ir dar?
Onde vai dar? Dito vai, vão se separar o pai e a madrasta, como não pode deixar de ser. E, portanto, respondendo à questão da nossa ouvinte, não tem como correr bem. Não tem mesmo, porque os ataques de ansiedade até se podem perceber neste contexto, dito, porque significa o quê? Que temos uma mulher de coração grande e de sangue quente a querer reagir, a precisar de reagir, a entender que deve ser ela própria naquelas circunstâncias e, portanto, chamada a jogo, vira a cara à luta e vai até onde for preciso. E depois o outro lado, de quem se sente um bocadinho desamparado, sem proteção e com um silêncio, porventura cúmplice, do pai, que é quase como se desse um aval a estas atitudes feiotas da parte de um adolescente em relação a ela. Portanto, se o adolescente vai tendo este deslumbramento do gênero: "Bom, com jeito eu mando definitivamente no jogo", sem se aperceber que está numa escorregadela quase sem fim. E esta madrasta a sentir que perdeu não só aquela relação ou que está a perdê-la todos os dias, e daí o sofrimento que acaba por ter, mas sobretudo que está a perder a relação com o pai daquele rapaz, com tudo que isso implica. E, portanto, a vir alguém que precise de acordar pra vida, perdendo nesta vulgaridade, esse alguém tem que ser este pai, para que não perca a relação com aquela mulher, para que não perca o papel importante que ela seguramente pode ter na relação com aquele filho e para que não perca o filho, porque quando um adolescente vai se sentindo em autogestão, no fundo, deslumbra-se no primeiro momento, mas depois tem também a noção de não haver pai na história. Onde é que está, entretanto, meu pai? Mas era preciso um árbitro e onde é que ele, entretanto, se meteu? E isto faz com que um pai, na ânsia de não interferir, perca muito perca muito e possa perder, inclusive, a relação privilegiada com o filho, porque se o pai, depois, num assomo de fúria, diz aquilo que às vezes os pais são capazes de dizer, que não vale nada, em valor absoluto, mas que magoa, todavia, e mais tarde ou mais cedo, quando estica o dedo e responsabiliza o filho da relação não ter corrido bem. A culpa disso tudo não é de um adolescente que anda por aí com as hormonas aos trambolhões e com tudo num virote à volta dele, mas é, sobretudo, deste pai que, se calhar, se foi encolhendo demais e que foi deixando a madrasta sozinha fazer um papel que tem que ser feito pelos dois.
Eduardo, há pouco falava da existência de um árbitro. O problema não é que nestas situações, em famílias reconstruídas, há muito a tendência para se formarem equipes que parece que estão uma contra a outra, em vez de se pensar o todo, a família como uma unidade em que pode haver tensões? Estou a ver aqui esta parte da mensagem da ouvinte em que diz que o adolescente passou de um ser carinhoso e mimado a falar mal. Isto acontece frequentemente na adolescência, mas não se formam equipes, continua a pensar-se a família como um todo.
Sim, por isso é que eu tenho sempre muito medo quando, às vezes, os pais com alguma descontração, com alguma naturalidade, falam dos meus, dos teus e dos nossos. Porque sem se darem conta, acabam por dizer que os meus são meus, os nossos são nossos e os teus são teus. Ou seja, são crianças com as quais eu talvez não tenha tanto assim a ver. E o grande desafio que muitos casais, devo dizer, mas muitos, são capazes de levar a sério, é que nestas questões de famílias reconstruídas, sejam adolescentes ou não, os pais têm compromissos notáveis que fazem com que os miúdos que não se conheciam até há uns anos, tenham de ter relações fraternas uns com os outros e haja uma lei para todos e todos sejam agentes da lei, nomeadamente o todos, particularmente a mãe e o pai, o padrasto, madrasta, seja quem for, porque se for assim, há uma regra que nos orienta. Não sendo assim, fica uma areia movediça onde todos se vão magoar. Todos.
Imagino que muitos ouvintes se reconheçam nestas famílias reconstruídas. Obrigada, Eduardo. Nós voltamos amanhã. Até lá, estamos sempre disponíveis em podcast e em eduardosá@observador.pt. Continue a escrever-nos. Um abraço, Eduardo. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Eduardo. Um abraço.
Um grande abraço para os dois. Obrigado eu e até amanhã.