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Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de brincar no recreio. Estaremos a proteger demasiado as crianças? Olá, Eduardo. Isto é a propósito de um e-mail de um ouvinte que diz que as crianças precisam de escorregar, sujar-se e ficar molhadas, que isso faz parte de ser criança. O que perde uma criança que passa o dia a ser poupada a estas experiências?
Olá, Judite. Perde capacidade cognitiva. Deixe-me começar pelo menos óbvio, mas que ainda assim imagino que seja um dos aspectos que também naturalmente preocupa os pais. Perde capacidade cognitiva. As crianças que não brincam com o corpo, de alguma forma não conhecem ele e, portanto, é como se, no fundo, estivessem a crescer um bocadinho contra o corpo, o que, feitas as contas, não lhes traz mais-valias nenhumas, pelo contrário, parece que o corpo acaba por ser um adereço de segunda necessidade, menos relevante, e isso não é verdade. Perdem capacidade para resolver problemas e antes formulá-los. Perdem capacidade para estar uns com os outros e perceberem que quando pensam em conjunto, pensam de forma diferente e não precisam de ser egocêntricas, porque é evidente que sempre que fazem uma equipa, aquilo que são capazes de conquistar é significativamente mais do que tudo aquilo que fazem quando estão sozinhas. Perdem, no fundo, uma espécie de arejamento da alma, Judite. E nessas circunstâncias, nós acabamos por fazer com que elas fiquem um bocadinho mais sombrias. E depois não vale a pena termos a ideia de que, porque não brincam tanto como precisam, em boa verdade, que cheguem às aulas e estejam mais atentas, sejam capazes de aprender quase em piloto automático, tenham mais perguntas para fazer e tudo mais. Portanto, a escola, se quer ter uma relação séria com o conhecimento, ganhava muito se tivesse uma relação mais séria com os recreios.
Isto vem a propósito de um dia de alguns chuviscos em que as crianças não puderam ir pro recreio e este pai, de um menino de seis anos, ficou muito espantado. É verdade que também do lado da escola há alguma hiperproteção, porque há pais que se queixam, porque depois a roupa fica molhada.
Judite, mais ou menos. Haverá nalgumas circunstâncias, Judite, mas eu acho que às vezes também há um lado batoteiro. Porque esta ideia de que as crianças quando andam ali numa correria, chegam à sala de aula esbaforidas, a transpirar e precisam de desacelerar um bocadinho, é verdade, isso acontece. Não vale a pena termos a ideia que as crianças são feitas de interruptores. Claro que acontece, mas no final de contas, começa a ser uma tendência cada vez mais frequente, uma relação estranhíssima, Judite, das escolas com o brincar, porque neste momento, uma das questões que as escolas mais levantam, com a ideia de que com isso estão a proteger as raparigas em relação aos rapazes, que as raparigas também não pudessem andar atrás de uma bola, e as escolas deixaram de permitir que as crianças joguem a bola, Judite. Joguem a bola, levem uma bola, porque podem partir vidros. Há bolas de esponja e de uma borracha fofa, porque de alguma forma se podem aleijar. Claro que se podem aleijar, mas meu Deus, queremos o quê? Peças de porcelana que de alguma forma não saem do lugar. E, portanto, há uma tendência das escolas, às vezes, para cederem a alguns pais, e há alguns pais que são pessoas muito difíceis, Judite, muito difíceis mesmo, mas em muitas circunstâncias não é para ceder a alguns pais, é para criar ali uma certa comodidade da comunidade escolar, que depois, feitas as contas, não beneficia em nada as crianças, mas em rigorosamente nada, como se, afinal de contas, elas devessem estar ao entrar na escola, quietas, caladas e atentas. Ora, crianças sempre quietas e caladas não são crianças, pura e simplesmente, são uns híbridos que, feitas as contas, não crescem tão saudáveis como poderiam crescer.
O recreio é muitas vezes o único tempo livre, não estruturado, que uma criança de seis anos tem durante o dia. Tirar-lhe isso, o que é que pode significar?
Que andamos todos distraídos, com uma distração verdadeiramente perigosa, Judite, porque começo a ver cada vez mais as escolas que querem que ao chegarem ao recreio, por muito pequenininhos que sejam os recreios, e são inacreditavelmente pequenos, começam a ser cada vez mais as escolas Que querem brincadeiras estruturadas, tudo muito concertadinho, tudo muito vigiado, como se o tempo livre fizesse mal às crianças. Ora, valha-me Deus, o tempo livre é a vitamina do crescimento para os nossos filhos. E as escolas têm que perceber que a sala de aulas não é o mais importante do mundo. É muito importante, sem dúvida, mas a escola de vida é muito mais importante e, de facto, ter escola de vida numa dimensão lúdica, nomeadamente através do recreio, é uma coisa tão preciosa, tão insubstituível, tão indispensável, que eu tenho muita esperança. Um dia, quem sabe se o Observador não quererá fazer isso, nós ganhávamos muito, já que estamos numa de rankings, não é, Edite? Ganhávamos imenso se fizéssemos um ranking de recreios, porque eu acredito sinceramente, Edite, que um dia, quando os pais escolherem uma escola, vão ver todos os rankings e mais algum, e o ranking dos recreios, e vão passar a escolher as escolas também pelo ranking dos recreios. E acreditem ou não, as escolas, muitos pais vão escolher o ranking dos recreios à frente dos outros rankings e como eles estão certos, porque isso ajuda-os a crescer mais do que muitas vezes aqueles rankings feitos um bocadinho à pressão, sabe Deus como, para dourar a pílula, para fazer de conta que de facto aquelas são as melhores escolas do mundo, quando muitas vezes não são.
Uma criança superprotegida desta forma dá que tipo de adolescente?
Edite, vamos transformar isso numa fórmula, se me dá licença. Uma criança superprotegida é uma criança frágil. Uma criança superprotegida é uma criança frágil. Quem quer ter crianças frágeis? Ninguém. Crianças frágeis não são, por inerência, crianças felizes, não são, por inerência, crianças tão saudáveis como podiam ser. E, portanto, devia ser proibido fazermos os possíveis e os impossíveis por criarmos crianças frágeis, porque nós não ganhamos e elas muitíssimo menos.
Para os pais que nos ouvem e que querem que o colégio e a escola deem essa importância ao recreio, o que é que os aconselha a fazer?
Edite, benditas são as associações de pais. Eu tenho a ideia que muitas associações de pais são formas de um pai ou outro ganhar protagonismo por isto ou por aquilo, mas a esmagadora maioria das associações estão lá para ajudar a que a escola corra bem. E, portanto, as associações de pais podem ser persuasivas o suficiente, no sentido de chamar a atenção da escola para coisas que ela pode fazer melhor. E com isso tudo, os pais ganham filhos mais saudáveis, as escolas, crianças capazes de pensar melhor, saímos todos a ganhar.
Fica aqui dado o recado. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
O abraço é seu, Edite. Até amanhã.