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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de um e-mail de uma ouvinte que se descreve como feliz na vida pessoal, mas esgotada por uma relação obsessiva com o trabalho. Acorda de madrugada, por exemplo, a rever as tarefas que fez durante o dia e sente que isso está, de alguma forma, a sabotar a vida em família. Olá, Eduardo. Onde é que está a fronteira entre levar o trabalho a sério e deixar que o trabalho tome conta de nós?
Olá, Judite. Que pergunta tão difícil! Eu acho que tem, sobretudo, a ver com a forma como nós percebemos que o trabalho não pode ser o mais importante da nossa vida. Por mais que ele ocupe muitas horas, na verdade, ocupa a maior parte das horas dos nossos dias. A nossa ouvinte falava da pandemia e da maneira como isso mudou a vida dela em relação ao trabalho. Por mais que tenhamos passado por sustos grandes e tenhamos percebido que aquilo que, nalgumas circunstâncias, dávamos como adquirido, de repente, se pode tornar frágil e às vezes muito periclitante. Agora, é muito importante também darmos conta que as pessoas quando são um bocadinho inseguras, têm tendência a ser um tudo ou nada obsessivas e, portanto, a querer tudo tão meticulosamente no lugar, que depois há ali uma fronteira entre o brio e o perfeccionismo que não se pode passar. Portanto, quando pergunta qual é a fronteira, eu acho que é esta. Uma coisa é o brio, que tem a ver com a maneira como nós colocamos orgulho naquilo que fazemos e tentamos ver as nossas impressões digitais em cada um dos nossos atos, nomeadamente no nosso trabalho. Outra coisa é o perfeccionismo, que faz com que em muitos momentos, por melhores coisas que sejamos capazes de fazer, haja sempre uma voz dentro de nós a exigir mais e mais. E aí, a culpa se calhar não é do trabalho, é desta exigência um bocadinho glutona, que em muitos momentos temos a mandar na nossa vida.
Quando alguém só descansa se sente que fez tudo perfeito, isso não é propriamente um problema relacionado com o emprego ou com o trabalho. Está relacionado com a forma como a pessoa percepciona o seu próprio valor.
Dito assim, e que faz com que muitas vezes as pessoas do nosso trabalho, inteligentes, astutas, às vezes, percebendo isto, façam com que nós estejamos sempre ali à disposição e sejamos tão empenhados e tão sérios na forma como aceitamos as tarefas, que em muitas circunstâncias temos até dificuldade em impor algum comedimento, em dizer que não, simplesmente. E, portanto, nessas circunstâncias, é claro que nós nos desculpamos com o trabalho, mas como se compreende, uma pessoa como a nossa ouvinte, ela não irá ficar zangada conosco, será assim tendencialmente no trabalho e fora dele. E é bom que as pessoas queiram ter a vida arrumadinha, mas a vida meticulosamente no lugar, se calhar, é qualquer coisa que cria obstáculos à própria vida e, portanto, à própria vivacidade, se preferirem. E portanto, nessas circunstâncias, não é tão razoável como pode parecer.
Diz que acorda muitas vezes de madrugada a rever mentalmente tudo o que fez. Isto diz-nos algo sobre ansiedade?
Não, Judite, diz-nos algo sobre insegurança. Ou seja, as pessoas inseguras, muitas vezes tornam-se inseguras por muitos acidentes de percurso, como é óbvio. Mas é como se depois tivessem uma espécie de perceptor alemão dentro delas, com uma checklist por ali abaixo. E são de uma exigência tão grande que 99,8% de empenhamento, de criatividade, de dádiva, de tudo aquilo que, de alguma forma, torna uma pessoa singular naquilo que faz, nunca chega, porque se não for 100% é quase uma porcaria. E, portanto, nestas circunstâncias, é claro que nós estamos a falar de ansiedade, como não podia deixar de ser. Não, Judite, porque uma pessoa está sempre, em boa verdade, num sobressalto primeiro, a seguir numa aflição, porque é como se, no fundo, tivesse uma vozinha dentro dela a repreendê-la, de certa forma a censurá-la e a exigir sempre mais um bocadinho. Claro que depois quando essa voz é da pessoa que dirige uma equipa ou às vezes é até da pessoa que vive conosco, ou às vezes até dos nossos filhos, de repente já são muitas vozes a exigir as mesmas coisas e, portanto, eu tenho medo que a prazo Esta nossa ouvinte acorda a meio da noite não só a pensar no trabalho, mas em muitas outras coisas em que, de alguma forma, por causa da sua exigência, se sinta a falhar demais.
Há uma frase muito forte no e-mail que nos enviou que diz: "Não consigo viver realmente os momentos felizes que tenho a sorte de ter com a minha família." Isto é o trabalho a roubar o espaço à alegria que se tem em casa?
Não, Judite. Eu acho que às vezes há pessoas que sofrem por antecipação, às vezes há pessoas que vivem por antecipação. E portanto, nestas circunstâncias, é como se cada coisa que esta pessoa fizesse bem feita nunca chegasse e ela, enquanto os outros fazem uma festa e se regozijam das metas a que chegaram, ela, nessas circunstâncias, depois de cumprir uma tarefa, corre o risco de já estar a pensar na tarefa de depois de amanhã e depois de depois de amanhã. E portanto, ela, no fundo, acaba por não estar a viver a vida, acaba por estar a cumprir um caderno de encargos, sendo que esse caderno de encargos não para de crescer. E portanto, se nós pudermos fazer uma sugestão, primeiro a vida, por favor, que é o encargo mais importante que se pode ter. E depois, o trabalho, se vier em terceiro ou quarto lugar, não é por isso que ela deixa de ser briosa, mas se for por aqui por onde tem ido, eu receio que ela trabalhe, e trabalhe, e dê, e se esforce e se canse, porque é nestas circunstâncias que a vida se torna cansativa, e depois chegue sempre à conclusão que a vida nunca tem bem a sua cara. E portanto, é como se ela estivesse a viver uma vida e feitas as contas, a vida não fosse sua.
É possível chegar uma altura e dizer: "Já não abro este e-mail." Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Muito prazer, Judite. E até amanhã.
Até amanhã.