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Bem-vindos ao "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de exames, porque quando chegam os exames, muitos alunos não dormem, não comem e a palavra de ordem é sempre: estuda mais, e quase nunca é: aprende melhor. Olá, Eduardo. É como diz no seu texto, andamos a ensiná-los a ter resultados, não a aprender.
Olá, Judite. Às vezes eu tenho medo que sim. Porque chegados a esta altura, a partir de maio, é normal, é quase constrangedor para mim dizer normal, que uma grande maioria dos alunos do secundário, aqueles que vão ter exames, vivam à beira de um ataque de nervos, porque têm a noção de que os exames parecem ser uma espécie de prova de vida. Toda a gente, as escolas à frente de tudo, acabam por lhes dizer ao longo de um ano letivo que eles têm que tirar resultados, que às vezes correm o risco de serem exorbitantes, porque senão, não entram nem nas escolas, nem nos cursos onde gostariam de entrar. Isto faz um caldo de cultura muito difícil de gerir, que faz com que eles andem invariavelmente à beira de um ataque de nervos. E faz inclusive com que, quando nós esperamos que eles tenham o equilíbrio para reagir desta ou daquela forma, eles estejam muito levados ao limite. Entre o cansaço e esta atitude muito assustada pra qual nós acabamos por contribuir, leva a um tal estado de coisas que eles vão conseguir ter resultados, se calhar não têm ao nível daquilo que sabem, porque debaixo destes constrangimentos fica um bocadinho irrespirável e eles ficam um bocadinho sozinhos. Porque os pais estão lá, tentam dar incentivos motivacionais e outras coisas do gênero, mas, na verdade, nem sempre eles se sentem com espaço para dizer: "Tenho medos, estou aflito". E dizem isso através de comportamentos ou de reações mais destemperadas, como acontece tantas vezes.
Como, por exemplo, aquelas que o Eduardo elenca: deixar de dormir, comer mal. Isto é um pedido de ajuda?
Judite, é porque são muito exuberantes. Eles estão num contexto mal e por tudo ou por nada começam a chorar, não conseguem dormir e ficam, sobretudo, muito assustados, porque compreensivelmente, a reação que têm a seguir é porem uma espécie de colete de forças nestas reações de medo, porque é medo de uma forma inflamada e muito avermelhada. Num contexto desses, eles ficam literalmente com a criança nos braços, sem saber muito bem como é que hão de fazer. E quanto mais tentam controlar mais tapam a cabeça e destapam os pés. Isto vai num crescendo que, até à véspera do primeiro exame, tem tendência a ficar mais exuberante com os pais, às vezes, a não ocuparem espaço, a fecharem os olhos a todas as respostas tortas que acabam por ter e, sobretudo, a imaginarem que ocupando pouco espaço, estão a protegê-los e não lhes estão a criar outro tipo de constrangimento sobre aqueles que eles já têm. Eu percebo que os pais fiquem muito angustiados, mas às vezes ganha-se mais quando os pais são uma força tranquila e falam destas coisas com clareza e, sobretudo, não permitem que haja alguns exageros de comportamento, como nalgumas circunstâncias acaba por existir, porque aí zanga-se, choca de frente. Tem um efeito quase detox e a seguir a vida continua com todos os ganhos que vêm a decorrer daí.
Há aqui sempre uma confusão entre aprender e ter resultados. Quem é que faz essa confusão? Somos nós, os adultos, que ensinamos?
Judite França. A escola, sobretudo. Porque as escolas criam muitas vezes esta pressão também. Por quê? Porque muitas delas têm os rankings debaixo do olho. E para uma escola, aquilo que seria um documento importante, uma avaliação importante, uma avaliação macro importante do que se passa num país em relação à disciplina A ou B ou C, a partir da qual era suposto que depois houvesse uma reflexão profunda e as alterações que daí devem decorrer. Por que os estudantes portugueses se engasgam todos com a físico-química, por exemplo, ou se calhar, a altura do exame de matemática é um "ai, Jesus"! Mas não, muitas vezes os rankings são transformadosNum instrumento precioso de marketing que faz com que as escolas depois ganhem muitos alunos novos só porque têm, debaixo do seu nome, enfim, segundo ou primeiro, terceiro lugar do ranking. Isto faz com que os pais, de alguma forma, vão atrás. Portanto, isto tudo faz com que em muitos momentos nós tenhamos a educá-los um bocadinho para tirarem os resultados, como se a vida acabasse aos 18 com a entrada na universidade. E nem sempre, mas nem sempre mesmo, os resultados correspondem à consistência das aprendizagens. Mas numa altura destas entra-se não sabe-se quem puder. E, portanto, ali contornar este cabo de tormentas e para a maior parte deles é um cabo muito difícil.
E há alturas em que os pais sugerem aqueles comprimidos milagrosos.
Pronto, coitadinhos dos pais. Está a ver? Ficam numa aflição, percebem perfeitamente que os filhos têm um pacote de sonhos que, verdade seja, quando eles ousam sonhar, nunca escolhem uma escola mediana ou um curso assim. Escolhem o filé mignon dos cursos e das escolas, e muito bem. E, portanto, quando veem esta espécie de tornado, ficam sem saber o que dizer. E sim, há muitos pais que sugerem, por que não, aqueles comprimidos milagrosos para aumentar a concentração e fazer com que os resultados escalem, sem muitas vezes ponderarem que a seguir a estes exames há outros, e outros, e outros, significativamente mais complexos e que este tipo de soluções, aparentemente fáceis, acabam por ter, no imediato, já a seguir, contornos mais ou menos escorregadios, porque como se compreende, eles vão continuar sob avaliação. As avaliações não fazem mal nenhum, os exames muito menos. Agora, todo este clima e a maneira como muitas vezes nós acabamos a gerir isto não é de todo razoável e cria, enfim, dor de cabeça onde elas podiam não existir. Mas nós insistimos no formato e enquanto for assim, enfim, são as notas que mandam, mais do que outros tipos de competências, que também deviam estar em consideração.
Está na altura, se calhar, de repensar o modelo, então.
Eu acho que devia. Porque, como se compreende, há muitos alunos que têm notas exorbitantes. Eu não estou a dizer que alguns não as mereçam, certamente merecerão. Muitos hipotecam completamente a adolescência, muitos têm equipas de explicadores a trabalhar para eles e isto tudo cria a ilusão de uma competência que manifestamente eles não têm, não têm que ter, nem sequer é trágico que não tenham. Mas cria-lhes uma ilusão tal que mal entram no ensino superior e se confrontam com a primeira engasgadela, que inevitavelmente acabam por ter, às vezes desabam e vêm por ali abaixo. Às vezes há miúdos que entram com notas escandalosas, que a seguir, durante um ano, dois ou três, não fazem mais cadeira nenhuma de tão assustados acabarem por ficar. Portanto, acho que nós devíamos pensar com mais prudência tudo isto e pensar, sobretudo, que a vida não acaba aos 18 e muito menos com a entrada no ensino superior.
Claramente. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Pronto, prazer dito.
Até amanhã.
Até amanhã.