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Começa mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar do caso de Jérémy Doku, jogador da seleção belga, que ponderou deixar o Mundial para assistir ao nascimento do primeiro filho. A hesitação expôs um conflito que muitos pais conhecem. Olá, Eduardo. Doku disse uma frase reveladora: "Ninguém quer perder um nascimento, mas também sei que há muita coisa envolvida no futebol". Há ali um homem dividido. O que se passa por dentro num pai que sente que vai ter de escolher entre duas coisas que não quer perder?

Olá, Judite. Sente que talvez não deva perder a mais importante de todas. E a mais importante de todas é, obviamente, o nascimento de um filho. E eu sou contra os pais que assistem ao nascimento dos filhos. Eu gostava que ficasse claro.

Já vamos falar sobre isso também.

Pronto, então está bem.

Vamos falar sobre isso, porque também houve uma polêmica à volta desta história. E foi isso, talvez, até que a tenha tornado tão viral. Foi o facto de uma jornalista ter dito que um pai, numa sala de partos, não serve pra nada, a não ser pra tirar uma fotografia. Isso é verdade?

Eu acho que os jornalistas de desporto devem falar de desporto. Noutras circunstâncias, quando se aventuram para fora de pé, não devia ser, mas pelos vistos é, acabam por dizer estas enormidades. Eu sou contra o facto de os pais assistirem a um parto, porque os pais não assistem aos partos, os pais participam no parto. E eu gostava que ficasse claro que um parto não é o período expulsivo. Um parto é um percurso que tem a ver com o início do trabalho de parto, que aliás, não é bem quando se rebentam as águas, como as pessoas costumam dizer, até ao nascimento do bebê, é antes. Mas tomemos isso tudo em consideração, porque eu tenho pra mim que uma experiência de parto é uma experiência muito solitária. Não é uma experiência cirúrgica, que já de si é solitária, é uma experiência muito paradoxal, porque é de uma intensidade emocional próxima de qualquer coisa divino, mas, ao mesmo tempo, quando as contrações começam a vir e se tornam agudas e vêm minuto a minuto a determinada altura, faz toda a diferença um pai estar ali. Aliás, há muitos trabalhos que nos ajudam a perceber que o trabalho de parto é mais pequenino quando o pai está presente, o recurso à analgesia é menor quando o pai está presente e o desenvolvimento no primeiro ano de vida do bebê é maior quando o pai está presente nisso tudo. Só aqui um pormenor, que eu acho ainda mais delicioso de diferença, é que quando o pai está presente em todo o trabalho, os níveis de prolactina do pai triplicam. Ora, a prolactina dá um jeitaço pra que a mãe amamente e o pai passa a ter um conjunto de transformações que fazem com que, por exemplo, a acuidade auditiva, a maneira como ele desperta no primeiro choro do bebê, ainda não emitiu um som, e está ele a despertar com a mãe, acaba por ser em paralelo. Portanto, um bebê ganha não uma, mas ganha duas mães. E eu acho que a primeira função de um ser humano é ser mãe. Portanto, isto que essa jornalista disse é como meter um golo na própria baliza, que parvoíce.

Já veio pedir desculpa, entretanto.

Isso era o mínimo. E obviamente que a escolher entre uma coisa tão importante como o mundial e uma coisa 10 vezes mais importante do que o nascimento de um filho, escuso de dizer o que é mais importante.

Há também aqui uma questão de identidade, porque Doku, aos olhos do mundo, é antes de mais um futebolista. Tornar-se pai é assumir uma identidade nova. Esta escolha também é um confronto entre dois homens que ele é ao mesmo tempo?

É um fator de crescimento, como só um filho nos traz. É reconhecermos que ele não é o nosso menino Jesus. Ele nas nossas mãos, e pela fragilidade que representa, dá-nos a dimensão de como somos um bocadinho Deus com o filho nos braços e dá-nos uma dimensão de humildade como mais nada nos dá. E portanto, ficará muito mais homem, no sentido nobre do termo, depois desta experiência. E olhe, tenho muita pena que ele não tenha estado. Ver em vídeo o período expulsivo não é nada que se pareça com estar ali, a viver todo o trabalho de parto, e ter esta dimensão, que às vezes as mães não percebem, que é da enorme impotência de um pai ver alguém que ama estar ali tão abandonada às suas dores, sem ele poder fazer muito, que não seja estar e dar a mão e estar empaticamente presente. E portanto, ainda assim, contornou-se um bocadinho tudo isto e pôs-se na agenda midiática uma questão que havia de ser levada muito mais a sério por todas as maternidades e que, apesar de estarmos no século XXI, ainda não é levada com a seriedade com que devia ser. Os pais ainda assistem aos partos, não participam na gravidez, não participam no trabalho de parto. Estamos muito longe daquilo que devíamos fazer para que as crianças, as mães e já agora os pais, possam ter esse tipo de privilégio, com tudo o que traz de crescimento pra todos.

Já agora, só uma informação recente é que Doku e a mulher celebraram o nascimento do primeiro filho juntos. O bebê nasceu em Londres na segunda-feira e Doku conseguiu sair temporariamente da base da seleção exatamente para estar presente. Portanto, é uma história com final feliz. Eduardo.

Que coisa tão bonita, não é?

Sim. Um grande abraço. Obrigada. Até amanhã.

Outra pra si, Judite. Até amanhã.