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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Viera Amaral. Hoje vamos falar dos avós do novo milênio. Eduardo, boa tarde. Que avós são estes? São muito diferentes dos do milênio anterior?
Palavra. Algumas coisas são muito diferentes, porque muitas vezes são avós mais tarde, porque eles próprios, se calhar, não tiveram filhos tão cedo como algumas gerações atrás acontecia. Os filhos deles continuam a ter filhos ainda mais tarde. São avós que independentemente de todos os constrangimentos sociais, acabam por ter outros recursos e acabam por ser muito mais ativos e por ter uma vida. E portanto, nessas circunstâncias, não são avós reformados que se agarram aos netos como uma forma de redescobrirem o amor, mas são avós que no fundo adoram ser avós, sendo que todavia têm a noção de que quanto mais vida tiverem, melhores avós se tornam.
Eu ia lhe perguntar, Eduardo, se essa menor disponibilidade dos avós, o fato de os avós serem mais ativos, o que também acaba por ser um pouco estranho, porque também se é avô mais tarde, ao contrário da noção que se tem, porque os filhos têm filhos mais tarde e os avós acabam por ser avós mais tarde. Mas queria lhe perguntar se este fato de se manterem ativos durante mais tempo, não terem a mesma disponibilidade para os netos, tem algum efeito na qualidade dos afetos e do vínculo afetivo entre avós e netos ou não?
Não. Eu tenho a ideia que os avós, quando são pessoas que foram muito castigadas pela vida e, portanto, que são avós que têm às vezes sobre eles uma atmosfera muito depressiva, naturalmente que são excelentes pessoas, são ótimos avós, mas no fundo, essa aragem depressiva acaba por os condicionar de forma significativa na maneira como são avós. Agarram-se deliberadamente aos netos como forma de se reconciliarem com a vida. Os avós que estão mais mexidos, que têm os seus programas, que de alguma forma viajam quando podem, que no fundo têm os seus amigos e as suas reuniões e tudo mais, são avós que, afinal de contas, não é por isso que sejam menos avós. São avós que às vezes são mais afirmativos, menos encolhidos e que, por isso mesmo, chocam mais facilmente com os filhos, porque são avós que se calhar são muito mais informados do que algumas gerações atrás e que, portanto, se for preciso, rivalizam nos pontos de vista, nomeadamente nos pontos de vista educativos, o que nem sempre é simples, Bruno, com os filhos, com tudo o que isso pode implicar. Mas não deixam de ser um bem absolutamente precioso, até por isto, porque como desde sempre aconteceu, os avós tentam consertar com os netos as merdas que fizeram com os filhos e, portanto, são tão mais serenos na maneira de educar, tão mais benevolentes e tudo mais, que nessas circunstâncias, inevitavelmente, acabam por trazer um contraditório que nem sempre os filhos entendem e de que nem sempre gostam, mas que é fundamental para o crescimento das crianças.
Essa é a constante dos avós deste milênio com os do milênio anterior, é que tentam sempre ser os pais que não foram?
Mas isso é transversal.
Mas fazem-no de maneira diferente, Eduardo? Hoje são um bocadinho mais impositivos, afirmativos no modo como tentam compensar ou tentam corrigir aquilo que sentem que não fizeram tão bem enquanto pais?
Não. Onde eu acho que há uma diferença muito significativa é que os filhos destes avós são pessoas que têm um perfil muito particular. São aquelas pessoas que, afinal de contas, são muito mais atentos às opiniões técnicas e, portanto, chocam de frente com uma aprendizagem transgeracional. E nessas circunstâncias, os avós do novo milênio andam ali um bocadinho às apalpadelas, porque às vezes encolhem-se quando se trata de gerir birras, regras, boa ou má educação, a forma de adormecer, o modo como se alimenta e tudo mais. E portanto, é nestas circunstâncias que os avós do novo milênio ficam ali quase sem jeito. Por um lado, sendo tão avós quanto os outros foram, por outro, tendo uma informação absolutamente fora do vulgar, tomando em consideração muitas gerações atrás, e depois estarem permanentemente a rivalizar com filhos que têm pontos de vista muito diferentes e que nalgumas circunstâncias são muito exagerados. Dou-lhe dois ou três exemplos.
Sim.
Há às vezes uma tendência, que eu acho absolutamente incompreensível, Bruno, de alguns destes filhos, destes avós, fazerem uma espécie de cerca sanitária à volta de um bebê que nasce, impedindo que os avós às vezes tenham com os netos. Uma relação intensa, envolvida, amorosa.
E isso acontece por quê, Eduardo? Isso tem a ver com tendências na sociedade em que se criou aquela ideia que o excesso de mimo ou a deseducação que os avós dão é prejudicial às crianças?
Não, lembra que estamos ontem a falar do mundo que às vezes alimenta muita culpa?
Sim, também.
Às vezes é o mundo que também quer muito que as crianças tenham um crescimento bacteriologicamente puro e entende-se que os avós não podem aparecer na casa dos filhos sem avisarem previamente e sem marcarem uma ida, como se fizessem parte da família, mas não tanto como era suposto. E mesmo quando se trata de ir à maternidade, há muitos pais que vedam literalmente a ida dos avós, como se tudo aquilo tivesse que ser muito celestial entre mãe, pai e bebê, ou mesmo quando se trata de chegarem a eles, obrigam os avós a pôr uma máscara, coisa mais assustadora pra um bebê, devo dizer, ou a calçarem umas luvas, porque no final de contas, tudo tem que ser assético para que o crescimento seja saudável, tudo ao contrário daquilo que estes pais depois procuram quando, contrariando um crescimento muito urbano, procuram escolas onde as crianças se possam sujar com lama da cabeça aos pés.
Então o grande desafio para os avós do novo milênio não é propriamente a relação com os netos ou a forma como os netos vão lidar com eles, é a forma como os filhos vão lidar com eles.
Sim. Às vezes, um neto, na relação entre os avós e os pais do novo milênio, faz lembrar uma crise de adolescência numa versão melhorada. É quase um motivo pra andarem ali numa espécie de braço de ferro. Agora, quem é que tem a opinião mais abalizada, quem é que sabe mais. E, portanto, o grande problema dos avós do novo milênio, por curioso que possa parecer, não são os netos, porque eles continuam a querer ser tão avós como os avós ao longo da história. São os filhos e esta ideia muito tecnocrática da parentalidade que, se eu pudesse, de certa forma proibia.
E concorrência entre os avós? Ou concorrência, também podemos ver de outra forma, a complementaridade entre avós, os avós maternos e os avós paternos.
Aí é um território que ao longo dos séculos sempre foi muito sensível. Começa por um pormenor. Quando uma mãe tem a opinião da sogra e quando tem a opinião da sua própria mãe, as coisas não têm o mesmo patamar de validade. Mais, por mais que a sogra seja uma excelente pessoa, confiar um filho à sogra ou confiar um filho à mãe, acaba por não ser milimetricamente o mesmo. E depois, claro, os avós, por mais que não o assumam, estão sempre a medir a maneira como os filhos confiam nuns avós e porventura não confiam noutros. Reclamam a ajuda de uns avós e não reclamam a dos outros. E, portanto, nestas circunstâncias, claro, que os avós, como sempre, medem-se como se, no fundo, estivessem ali numa espécie de competição pelo amor dos netos, que é uma coisa muito indispensável pra todos os avós e que, devo dizer, nem sempre os filhos percebem da forma mais adequada, porque às vezes são muito descuidados na maneira como lidam com esta ânsia dos avós de serem amados pelos netos.
O que esses avós do novo milênio têm de novo?
Têm uma esperança na vida que é uma esperança muito maior. Portanto, nessas circunstâncias, acabam por ter uma relação que, assim eles possam ter recursos pra isso, pode ser muito mais apelativa em relação aos netos. Não é só fazerem aquilo que todos os avós sabem fazer como mais ninguém, terem a paciência infindável quando se trata de estarem a dar uma colher de sopa e a transformarem num aviãozinho carregadinho de paciência e outras coisas do gênero. Têm o tempo, se calhar têm menos tempo como os avós de antigamente tinham, mas têm uma tal intensidade que quando são reclamados como avós, podem ser uns segundos educadores ainda mais intensos, porque estas pessoas que são vivas, que estão ativas, que têm uma multiplicidade de solicitações à sua volta e pensam nelas, são avós que têm muito mais recursos pra serem sábios e quanto mais sábios, naturalmente melhor as avós.
Avós do novo milênio, eles estão aí para cuidar dos netos, sendo o que sempre foram para os netos, uma referência de consolo, um abrigo, também uma fonte de mimo. E assim chegamos ao fim do "Porque sim, não é resposta" de hoje. Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Pode enviar-nos as suas questões, dúvidas, partilhas, através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.
Obrigado e até amanhã.