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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Olá, Eduardo. Vamos já começar com a pergunta: por que o romance parece ter um prazo de validade?

Olá, Judite. Porque somos mais parvos do que devíamos.

Pronto.

Porque somos mais parvos do que devíamos. Porque todos nós, no fundo, reconhecemos que as nossas relações amorosas são o que temos de mais precioso, todos nós reconhecemos que é aquilo que nos dá vida. Ou quer dizer, também quando não nos dá vida, vai nos matando devagarinho e, portanto, são verdadeiramente preciosas pra nós. Eu, se pudesse, declarava a proibição absoluta desta ideia de que primeiro as pessoas namoram, depois casam e depois logo se vê, porque eu acho que nós temos que assumir que precisamos de namorar a vida toda pra nos casarmos uma vez, duas, milhares de vezes ao longo de uma semana. Porque se não fizermos isso, estragamo-nos. E, portanto, o romance é isto de nós sermos cuidadosos, atenciosos, amáveis. A palavra amável é uma palavra lindíssima, não é, senhora? Amáveis. Que faz com que muitas vezes seja associado uma forma depreciativa ao romântico, como se aquelas pessoas que são românticas fossem produtos um bocadinho fora de prazo. E não é verdade. É tão indispensável, é tão precioso, que eu acho que todos nós temos vidas difíceis, porque toda gente nos exige este mundo e outro e temos responsabilidades e compromissos, mas facilitamos no romance. E isto é uma coisa má, porque o romance é aquilo que nos permite transformar a vida em histórias, Judite. E nós, se calhar, temos já todos muitos anos de vida e se calhar não temos tantos quilômetros de histórias quanto devíamos e não precisamos de ir encontrar histórias no Nepal. Quer dizer, se formos, tanto melhor. Mas as histórias estão ao nosso alcance e nós desperdiçamo-las mais do que devíamos.

Mas o romance morre com o tempo ou apenas muda de forma?

Epa, eu gosto mesmo de si. Judite, eu acho que muda de forma. E acho que muda de forma por uma razão simples, porque nós ficamos mais velhos. Ao contrário de uma tendência pateta, que parece que só as novidades de catálogo é que são importantes, mais velhos significa mais sábios. Mais sábios significa muitíssimo mais atentos aos pormenores. Somos menos grosseiros nos gestos, mas também toleramos menos a grosseria, mesmo que seja desajeitada e desatenta das pessoas de quem nós gostamos e, portanto, muda de forma, sim, é suposto que cresça conosco. E por isso é que eu acho de imensíssimo mau gosto quando eu vejo aquelas pessoas mais novas falarem das relações amorosas das pessoas mais velhas, como se as pessoas mais velhas fossem todas coitadinhas, habitantes de um território vizinho do Alzheimer, quando não é. As pessoas à medida que ficam mais velhas, os casais aprendem a ser mais cuidadosos uns com os outros. Ficam mais senis ou ficam mais sábios? Eu acho que ficam muitíssimo mais sábios. Muitíssimo mais.

Mas a verdade é que a rotina tem tendência para asfixiar o romance.

Tem. Tem por quê? Porque a Judite e eu temos a noção de quando é que temos que entrar na rádio. Temos noção até que horas é que temos que ir buscar as crianças à escola, a que horas é que eu tenho uma aula ou a Judite tem que fazer uma entrevista. E somos todos hiper cuidadosos em relação a esse tipo de compromissos, e muito bem. E depois, em relação às pessoas mais importantes da nossa vida, que não têm de ser os nossos filhos, pode ser só o nosso grande amor. Nós moldamo-nos tanto, Judite.

Esse é o problema, não é?

Eu acho que é, porque nós temos sempre aquela ideia batuteira, faz lembrar a lábia dos adolescentes, que quando adiam tudo pra última da hora, saem sempre airosamente a dizer: "Não, eu gosto é de estudar sob pressão" e outras coisas do gênero. E nós com as relações amorosas fazemos o mesmo, dizemos: "Não, mas pra que precisamos ter numa agenda isto ou aquilo em relação à pessoa de quem eu gosto muito? Por que precisamos?" Ora essa, porque se não for um lembrete, às vezes nós nos desmazelamos. A verdade é que depois de meia dúzia de lembretes, já não precisamos de lembrete nenhum Porque, entretanto, já estamos a recolher as mais-valias desse tipo de cuidados. E isso é uma coisa tão fantástica pra nós, que percebemos que o mundo não acaba e os compromissos profissionais não ficam todos emaranhados. Se nós à sexta-feira decidirmos ir almoçar e gastarmos duas horas no almoço, nem que entremos uma hora mais cedo ou precisemos sair uma hora mais tarde, ou seja lá o que for. Desculpe, mas nós malitamos muito.

Mas o romantismo precisa dessa novidade constante pra sobreviver.

Não sei se é novidade. Eu acho que não é tanta novidade assim. Eu acho é que nós precisamos, todos os dias, quem nos ajude a ser mais bonitos e quem nos ajude a ser mais simples. Isso falta-nos porque, evidentemente, quando nós olhamos para o sorriso, para não ir mais longe, Dite, o sorriso de uma mãe em relação a um filho, quando vai buscar à escola, o sorriso de uma mãe é um sorriso do outro mundo. Porque é um sorriso, como se diz nas escrituras, cheio de graça. É um sorriso com a graça de Deus, é um sorriso lindíssimo. Quantas vezes nós damos um sorriso desse à pessoa que é a mãe ou pai do nosso filho, que por coincidência, até pode ser, de facto, a pessoa da nossa vida. E, portanto, nós não sei se precisamos da novidade. Às vezes precisamos é de nos assegurar, muitas vezes, não que tenhamos dúvidas, mas que aquela pessoa, de cada vez que nós andamos com nós na cabeça, torna-nos mais simples, de cada vez que nós andamos numa zaragata interior sem fim, nos torna mais bonitos. E, portanto, nós precisamos de colo e de mimo. E precisamos de brincar, se quer uma opinião. E não sei quem é que convencionou que o colo e o mimo são pras crianças pequeninas, o brincar pras crianças maiorzinhas, e o colo, o mimo e o brincar é uma santíssima trindade que faz parte da natureza humana e que nós tratamos às vezes muito mal, sobretudo em relação às pessoas que precisariam que nós transformássemos isso em gestos românticos, amorosos, para darem cor, brilho à nossa vida.

Esta ideia de que o romance tem que ser espontâneo, então, não é verdade. Ele pode ter intenção.

Oxê, Dite, é meio verdade, não é? Mas isto é um bocado como a escrita. Nós não nos sentamos a olhar pro ar à espera de uma iluminação. Nós temos que trabalhar pra isso. Quando nós trabalhamos pra isso, a inspiração vem logo a seguir. E nós invertemos a ordem dos fatores. Achamos que anda alguém com uma seta acertando o nosso coração ou se não acerta, paciência. É porque o mundo acordou de pés pro ar. E não é verdade. Nós temos que trabalhar pra aquilo que é muito importante na nossa vida. E se aquela pessoa é a pessoa mais importante na nossa vida, desculpe, se trabalharmos pra isso, a seguir, o olhar cheio de graças chega num instantinho. Se não trabalharmos pra isso, estamos todos à espera de uma viagem romântica ou das férias pra pormos uma relação. Não, é um desperdício.

Bom, com estes lembretes todos, não há razão pra nos esquecermos. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Boas pra si, Dite. Até amanhã.