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Bem-vindos ao "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Olá, Eduardo. Por que os adolescentes de 15 anos mostram défices de atenção?
Olá, Judite. Porque têm 15 anos. E porque ao terem 15 anos, têm a cabeça aos saltos, as hormonas um bocadinho às que tu veladas. Porque têm a ideia de serem multifunções e conseguem estudar enquanto ouvem música, enquanto dão uma olhadela para o telemóvel, um salto ou outro ao correio eletrónico e coisas desse gênero, porque cultivam aquelas ideias que eu acho uma ternura. Eu dou-me bem a funcionar sob pressão, que é próprio de quem guarda tudo para os últimos dias e depois fica ali no embaraço, num "ai, Jesus", que faz com que se faça uma direto à outra e a mãe até elogia uma atitude como essa, quando, no fim de contas, ele esteve ali a procrastinar, como eles, aliás, fazem muito bem. E nessas circunstâncias, claro que nem sempre aprendem a estudar, nem sempre os ensinam a estudar. Os resultados, às vezes, vêm todos constipados e nessas circunstâncias, eles, hábeis como são, deitam imediatamente ao primeiro diagnóstico que se encaixe. Dificuldades de concentração, défices de atenção, outras coisas do gênero, que é para dizerem: "Calma, se tiverem que se zangar comigo, pensem duas vezes, porque isto é um defeito de fabrico e cada um é para o que nasce".
A maturação do cérebro explica esta dificuldade em manter o foco?
Judite, não só. A verdade é que a adolescência é uma coisa muito arrebatadora e nessas circunstâncias, eles tentam correr à esquerda e à direita e corresponder a tudo aquilo que são apelos. Nós não nos podemos iludir com o cérebro que está em crescimento, que em boa verdade estará em crescimento para sempre. E naquela altura, de facto, a uma velocidade mais estonteante, é natural que eles se desequilibrem, porque de repente, quase de um dia para o outro, pareciam ser uns meninos pequeninos e depois querem ter opiniões políticas, alterar o mundo e ter aquelas convicções todas que só eles são capazes de ter. Mas a verdade é que o cérebro tem as costas muito largas e é todo aquele rebuliço psicológico, acima de tudo, da adolescência, que depois faz com que eles não tenham os resultados ao nível do que desejam, fiquem muito assustados, mas ao mesmo tempo que ficam assim, têm depois a habilidade de dar uma voltinha à mãe, uma voltinha ao pai e dizer que de facto o problema deles é um problema de fabrico, quando feitas as contas, não é bem assim.
Mas estes adolescentes têm maior déficit de atenção porque têm um telemóvel na mão?
Não só um telemóvel, porque são mesmo multifunções, Judite. O telemóvel, que é um canivete suíço, que lhes dá informações de todas as formas e feitios. Depois não se esqueça que eles, estando a estudar em casa, vão fazer um curto intervalo e dão só uma olhadela de fugida para uma série, quando dão conta, já passaram três episódios. É típico da adolescência. E o que eu acho que é importante nós apontarmos nestes aspectos é que, de facto, é muito difícil um adolescente vivo que esteja a surfar de forma entusiástica a sua vida, que tenha disciplina e método, precisa muito de ter o lado um bocadinho mais austero, nalgumas circunstâncias da mãe ou do pai, a definirem um conjunto de regras e um método que eles sozinhos muitas vezes não conseguem ter. Depois, há um pormenor. Quando eles começam a ter resultados ao nível do que valem, aí tudo muda, porque eles adoram ter bons resultados e são muito espertos, ainda por cima, e começam a perceber de que maneira é que se lá chega, de que forma é que se estuda. Mas é verdade que ali aos 14, 15, que bate ali no oitavo, nono ano, às vezes já a passar para o décimo. Há muitas mudanças ao mesmo tempo, Judite. E no meio de tantas mudanças, algumas dignas de uma montanha-russa, eles bem querem, coitados, ter o equilíbrio indispensável, mas às vezes a vida pode mais, puxa tanto por eles, que a seguir eles são as pessoas mais atentas do mundo, mas desdobrando-se para tantas coisas que estão apelativas ao mesmo tempo. É natural que queiram, mas não consigam ter toda a atenção que gostariam de ter.
Uma das coisas que os adolescentes fazem é dormir pouco. Isso também não deve ajudar.
Judite, é verdade. É verdade menos quando decidem dormir, porque nessas circunstâncias, nomeadamente ao fim de semana, se for preciso, dormem até às 16:00. Mas a vida é muito entusiástica. Eles comunicam muito através de mensagens ou mesmo nas plataformas onde jogam uns com os outros. Há sempre um que quer fazer de melhor amigo em relação a uma amiga que está com desencontro amoroso e, portanto, eles tentam ir Todas as solicitações que a vida lhes traz e, portanto, nessas circunstâncias, têm este tipo de manifestações. Mas moral da história, cuidado que os pais não fiquem tão embrulhados nestes défices que eles reclamam para si próprio, como de concentração e de atenção, porque por um lado, eles não conseguem estar atentos, mas isso não significa que com jeito, com método, com outro tipo de atitude em relação às tarefas que se propõem a fazer, não cheguem lá e que os pais não passem a vida a fantasiar que os seus filhos vêm com um parafuso qualquer fora de sítio, porque não. Todos os adolescentes saudáveis, sempre que a vida os toma como se fosse uma onda que os leva por ali adiante, precisam de ter estes défices de concentração típicos de quem está permanentemente a olhar pra todos os lados e muitas vezes a não conseguir compatibilizar esses olhares num foco de cada vez.
E como é que se distingue um déficit de atenção normal da adolescência de um problema clínico? É que hoje em dia muita gente se autodiagnostica com problemas de déficit de atenção.
Judite, vamos começar num exemplo muito pequenino, mas provavelmente esclarecedor. Os adolescentes que vivem numa agitação para lá do razoável, para lá do saudável, são aqueles que estão permanentemente a saltitar, quer estejam a fazer problemas de Física ou Química, quer estejam muitas vezes a fazer um videojogo. Os outros, em relação às coisas que não gostam de fazer, reclamam de uma forma veemente que têm défices de atenção. Em relação às coisas que gostam muito de fazer, são pessoas focadíssimas e levam tudo até ao fim.
Então aí já é fácil de notar a diferença.
Judite, eu acho que sim.
Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã.