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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos da história de um menino de seis anos. A tia escreve-nos preocupada, porque o sobrinho vive com ela e com o pai. A mãe abandonou a família. A criança, com esta idade, ainda tem de usar fraldas e há dias achou que viu a mãe passar num carro e desde então só adormece depois das duas da manhã. Olá, Eduardo. Um menino de seis anos que ainda usa fraldas, isto é uma consequência do trauma de perder a mãe?
Olá, Judite. Eu se calhar começava antes pelo fim, se me permite. Evidentemente, que é muito impactante que uma criança tenha essa ilusão e, ao mesmo tempo, essa necessidade de reencontrar a mãe nalguma pessoa que veja e que de perto ou de longe tenha alguns traços mais ou menos semelhantes. Diz bem do quanto esta falta lhe faz. E isso é, de facto, muito comovente, para dizer a verdade. O facto de ainda usar fraldas pode não ter diretamente a ver com isto, Judite. Enfim, há crianças que não são tão rápidas neste tipo de aquisições. A verdade é que quando os pais acabam por ir alimentando este modo de fazer e deixá-las, que tenham fraldas até muito tarde, estão, sem querer, a trazer um problema muito grande, porque, em boa verdade, quando as crianças se movimentam e andam, têm todas as capacidades para terem controle dos esfíncteres. E, portanto, regra geral, não há nada que justifique, quando se tem uma maturação nervosa no lugar, que isto não aconteça. É uma aprendizagem como outra qualquer, sendo certo que muitas vezes este tipo de comportamento, esta enurese primária, vamos lhe chamar assim, possa ser um sintoma de outros quadros, porventura mais complexos. E, portanto, numa circunstância como esta, acima de tudo, eu acho que é importante pormos as coisas no lugar. Não estou a dizer que as duas, de vez em quando, não se possam entrelaçar. É de ficar de coração apertado à ansia deste menino reencontrar a mãe. Mas, acima de tudo, esta aquisição tem que ser feita e, não estando a acontecer, tem que ser avaliada com muito rigor, porque de repente podemos estar a associar as duas coisas, quase a justificar esta enurese com esta exposição traumática, que é um traumatismo, é uma dor que por mais que uma pessoa tente entender, não consegue, sem dúvida nenhuma. Mas podemos estar perigosamente a escorregar por aí, Judite, quando no fundo a questão fundamental acaba por não ser essa. Por que ele não tem este controle? E já agora, de que maneira é que nós vamos ter que avaliar isso, de forma a que o possamos proteger, simplesmente.
Esta questão do facto de, desde que julga ter visto a mãe, ter de alguma forma descompensado, porque deixou de ter uma rotina de sono como tinha. Aqui é mais fácil fazer o link entre as duas coisas.
Claro que sim, Judite. E é natural que a expectativa vá no sentido de a vir a encontrar e, portanto, de ficar acordado de uma forma que aperta o coração, à espera que ela regresse e espere, até não poder mais. E, portanto, dessas circunstâncias, sim, sem dúvida. Mas esta tia e este pai têm um trabalho muito grande em mãos, que é o de lhe darem um suporte nesta perda que ele manifestamente não está a entender, se é que alguma vez se pode entender. E, ao mesmo tempo, terem o cuidado de reunir todos os requisitos indispensáveis para que ele não se sinta limitado junto dos outros meninos. E já agora, para que isto não traga outros tipos de custos, como às vezes a dor psicológica pode trazer com outros tipos de sintomas, que se manifestam às vezes numa pontinha do iceberg, pode ser este xixi, mas que pode ter atrás dela outros tipos de preocupações mais graves.
Se esta criança perguntar pela mãe, o que a tia e o pai lhe devem dizer?
Judite, a verdade. A verdade é muitas vezes "não sei"Evidentemente que aquilo que acontece nestas circunstâncias é que se encontra sempre uma desculpa verosímil, no sentido de fazer com que esta dor não seja tão intensa e que, portanto, não corroa toda a bondade dos pais, este sofrimento pungente. Mas às vezes dizer "não sei" é a verdade mais séria, porventura menos conveniente, mas a verdade mais séria, mais compreensível. E por mais que uma criança deposite muitas expectativas na dimensão mágica de um pai, ele é tão poderoso que com um jeito faz com que ela apareça. A verdade é que as coisas não são assim, não têm que ser assim e, portanto, "não sei, eu também gostava muito de perceber, mas acima de tudo é importante que tu percebas que o pai não vai sair daqui e a tia também não", pode ser uma forma de, nas entrelinhas, estarmos a ajudá-lo a suportar uma dor que manifestamente está a doer muito mais do que devia.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, escrevam-nos para eduardosa@observador.pt e ouçam-nos, claro, em podcast. Todos os episódios estão nas plataformas habituais e este também vai para lá já a seguir. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
O outro para si, Judite. Até amanhã.