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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de dar sempre razão, elogiar sem exigir, deixar crescer a ideia de que os filhos merecem tudo sem esforço. Olá, Eduardo. O Eduardo escreveu um texto em que fala de pais que são arrebatados pela inteligência dos filhos e deixam de os corrigir ou de os desafiar. O deslumbramento dos pais pode ser, afinal, mau para a criança?

Pode. Pode fazer-lhes muito mal, aliás. E eu sorrio, mas com constrangimento, porque é bem a prova de que nós damos o melhor de nós, com a melhor das intenções, e depois há sempre um pormenor, um ingrediente secreto, que nos estraga tudo e nos leva quase à casa da partida, mas pode. Os nossos filhos têm de perceber, e eu não tenho dúvidas nenhumas que percebem, que são o melhor do mundo para nós, mas também têm que perceber que não são tão fantásticos, tão bons, tão perfeitos, tão melhores que todos os outros, como às vezes eles imaginam quando estão deslumbrados. E portanto, uma dose de humildade faz-lhes muito bem e ajuda-os a crescer com alguma ponderação. Ajuda-os a perceber que para crescer tem que se cair. Tem mesmo que se cair. E que não vale a pena nós termos a ideia de que a vida é fácil, porque eu acho que às vezes nos encolhemos todos quando dizemos essas coisas, como se o contrário de a vida ser fácil significasse: "Ui, é muito difícil." Não, é um bocadinho difícil, é verdade que é, às vezes é. E depois é o nosso engenho que torna as coisas fáceis, a sabedoria com que nós vamos crescendo e aprendendo com os erros. E eu acho que é ótimo que eles percebam isso, porque de repente podemos nos confrontar com uma realidade de escorregadia. Nós os levarmos ao colo e os protegermos para tudo e para mais alguma coisa, de eles terem a ideia que são melhores do que de facto são, terem a ideia de que tudo é razoavelmente fácil, porque eles são muito competentes e não precisam, às vezes, de muito para mostrarem o quanto valem. E depois há sempre ali uma esquina qualquer na vida que os ajuda a perceber o óbvio. E quando é assim, eles não estão preparados. Em vez de esfolarem o joelho quando caem e depois encherem o peito de ar e crescerem outra vez, melhor ainda, ficam tipo peças de porcelana um bocadinho partidas, sem saber o que hão de fazer à vida, e isso é que é mau.

Quando um filho cresce a achar que vale muito só por ser quem é, sem precisar de o demonstrar, que tipo de adulto tende a formar-se?

Um adulto mais encolhido do que pode parecer à primeira vista, um adulto que passa a vida a imaginar que tem direito a exigir seja o que for, sem dar antes. Isso eu acho que é o que me preocupa mais, que são aqueles miúdos que às vezes, todos nós, uns mais, outros menos, claro, levamos um bocadinho ao colo. Depois entram na universidade e quando percebem que aquilo é um campeonato nacional, com miúdos cheios de capacidades que vêm de outros sítios, que eles não conhecem de lado nenhum, e quando eles se confrontam com o primeiro erro, às vezes com a primeira negativa, vêm por ali abaixo e imaginam que se tiveram uma negativa, então têm que mudar de curso, porque já não estão ao nível daquilo que esperavam. Ora, nada na vida é assim. E eles precisam de perceber que às vezes são os erros, os enganos, as negativas da vida, que nos fazem confirmar, de facto, o que nós queremos, o que nós merecemos e, já agora, do que nós somos capazes. E eu acho que é muito importante os pais puxarem-nos à Terra muitas vezes, porque são miúdos ótimos, mas às vezes são um bocadinho convencidos. E eles não se tornam convencidos por terem sim a tudo. Às vezes têm sim a muitas coisas, porque, valha a verdade, a mãe faz um trabalhão danado em casa para saber se há trabalhos, preparar os testes, às vezes estudar por eles. E eles não precisam de ser convencidos, só precisam de ser seguros daquilo que eles são, desde que percebam que precisam de errar muitas vezes, porque só errando é que nós aprendemos a acertar. É um bocadinho ao contrário daquilo que nós alimentamos nos nossos filhos, volto-lhe a dizer, movidos pelas melhores das intenções, mas isso sem dúvida, absolutamente nenhuma.

Há uma distinção muito bonita no texto entre ser o maior do mundo e ser o melhor do mundo para os pais. Como é que os pais comunicam essa diferença sem que o filho sinta que está a ser amado com condições?

Fazendo aquilo que os pais fazem muito bem, mas também fazendo com que os nossos filhos não deixem de ver que, ao lado, se eles são bons na matemática, ao lado Alguém que no futebol tem um jeitaço que eles ainda não conseguiram atingir, que na educação visual há alguém que tem um talento que eles ainda estão muito longe de conquistar. E quando nós chamamos a atenção para isto à volta deles, porque não têm todas as certezas do mundo para a clarividência de muitas pessoas, muito diferentes deles, mas que apesar de serem muito diferentes, têm uma cabeça bonita, grande, com que se pode aprender, eu acho que eles ficam mais bonitos, sem dúvidas. Agora, nós ficamos todos tão deslumbrados que então, nesta altura em que saíram as notas, é um clássico dos clássicos os pais andarem com as notas dos filhos distraidamente na carteira, que é para depois mostrarem a um amigo qualquer no meio de um café. E eu percebo essa vaidade, valha-me Deus, quem não tem? O que eu acho que é importante é que nós sintamos que temos o direito a essa vaidade toda. Eu adoro esses miúdos, fico deslumbrado com aquilo que eles são capazes de fazer, mas atenção, a vida não é uma corrida de 110 metros barreiras, é uma maratona e não consta que quem tenha pulmão para os 110 metros, a seguir, consiga chegar aos 42 km na frente do pelotão e as coisas não são assim. E portanto, eu acho que os pais têm que ter noção disso e já agora, não alimentarem aquela ideia um bocadinho pateta, aqui entre nós, Edite, que ele é um líder, que é uma coisa que pressupõe que ele nasceu para mandar, mas para mandar onde? Os miúdos só são líderes natos, como às vezes algumas pessoas dizem, porque mandam mais nos pais do que deviam. E isso é o primeiro sinal de alarme que me preocupa, porque eles serem capazes de muitas coisas, não significa que não tenham pais que saibam mais do que eles, avós muito mais sábios e já agora, tenham quem escolha com eles, muitas vezes quem escolha por eles, porque são pais, ora essa, e não fazer este registo aparentemente muito democrático, que às vezes é muito equívoco, porque de repente põe os miúdos a gerir e a escolher cedo demais em relação às suas vidas. E eles são pequeninos, têm uma opinião, claro, mas são pequeninos e é para isso que existem os pais.

Só mesmo para terminar. Os pais estão sempre preocupados com a autoestima dos filhos, não estão?

Edite, às vezes demais. E eu gostava que tivessem a noção que a autoestima nos filhos é como a autoestima dos treinadores de futebol. E eu não digo isto por ser do Benfica e haver alguns treinadores do Benfica que têm a mania de ter uma autoestima interminável e depois dá no que dá. Não, Edite, eu acho que quando nós somos seguros de nós, não precisamos de estar preocupados com a autoestima, sendo certo, isto vale também para a política e para muitos políticos do nosso país, que a autoestima se manifesta quando uma criança, um treinador de futebol, um político, os pais das crianças, são capazes de reconhecer os erros. Ora, aquilo que nós observamos na vida é que a autoestima parece ser incompatível com os erros, com os enganos, e, portanto, há sempre alguém a projetar sobre terceiros, sobre condições, sobre conjunturas e outras coisas do gênero, a responsabilidade dos seus erros. Não, a responsabilidade é nossa e quando nós temos essa humildade, damos passos enormes em relação à autoestima. Portanto, quanto mais empoderados, como agora se diz, na autoestima, menos seguros. E eu gostava que os pais nunca perdessem isso de vista.

Ficamos por aqui hoje, Eduardo. Voltamos amanhã com mais um tema. Até lá, um grande abraço e obrigada.