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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de uma relação que se transformou num campo de batalha enquanto uma criança assiste a tudo. E esse pai, que escreveu ao Eduardo, pergunta se há um limite para continuar a viver debaixo do mesmo teto quando o respeito acabou. Olá, Eduardo. O que é mais prejudicial para uma criança de cinco anos? Conflitos frequentes entre os pais ou a ausência prolongada de um deles? Porque aqui a questão é que se separarem, será para países diferentes.

Olá, Judite. Conflitos permanentes, invariavelmente. Um clima destes, que se assemelha em tudo a uma guerra de guerrilha, aparentemente parece tornar-se tão banal que uma pessoa se adapta a ele, mas as consequências são terríveis, tomando em consideração o longo prazo. E portanto, ter dois pais que de alguma forma se hostilizam, se desconsideram, de alguma forma se agridem verbalmente, ou mesmo que seja só um, com a conivência passiva do outro, desencadeia, na melhor das hipóteses, uma atmosfera verdadeiramente abandónica por parte de uma criança, com a consciência de que no fundo, por mais que cada um deles em particular afirme e repita que a toma em consideração acima de tudo, acaba por, na prática, desencadear toda uma realidade que é em tudo diferente daquilo que se diz, com todas as consequências nocivas e, portanto, faz mal ao desenvolvimento de uma criança, faz mal a todos os níveis. E eu acho que é muito importante que os pais tenham noção que uma coisa são os conflitos episódicos das rotinas normais, outra diferente, muito pior, um clima de guerrilha que se eterniza e que faz com que as consequências sobre o desenvolvimento de um filho, no hoje e no depois de amanhã, tenha custos tão elevados, tão exorbitantes, tão perversos, às vezes, que eu acho que os pais deviam ter isso em consideração para depois se protegerem todos, cada um de si próprio, cada um do outro também, e naturalmente os dois em relação a um filho, com todo o mal que acabam por lhe fazer involuntariamente, é claro.

A criança percebe mais o conflito do que os adultos imaginam?

Uma criança de cinco anos é uma criança sofisticadíssima. Atenta, minuciosa, muito acutilante, muito intuitiva em relação aos pormenores e, portanto, percebe tudo. Aquilo que é dito, aquilo que não é dito. Mais, pior do que isso. Memoriza um olhar, os episódios. E esse tipo de memória não é uma memória que depois, como uma lesiva qualquer, desapareça. Muito pelo contrário, perdura pela vida fora, nas circunstâncias mais diversas e, portanto, tomando em consideração todos os custos que isso tem, aquilo que ela percebe e aquilo que os pais imaginam que passa ao lado, mas que ela percebe ainda melhor do que as coisas que são ditas, tomando em consideração isso tudo, eu acho que os pais têm que ter a ponderação, a sensatez, a bondade também, digo eu, para não levarem isto a limites que são irrespiráveis.

Ou seja, permanecer juntos pelos filhos é uma má frase.

É uma má frase, Judite. Eu percebo isso. Eu compreendo a bondade dos pais quando pensam assim. Mais, eu não acho que o digam de forma volátil. Acho que o dizem de uma forma muito pensada, muito refletida e com a convicção de que com isso protegem um filho. Percebo isso. Mas tomando em consideração depois os custos que isso tem no desenvolvimento de um filho, sobretudo quando isto se banaliza e não é minimamente claro quando um filho rebobina a memória e não se lembra da última vez que a mãe ou o pai entre si tiveram um gesto de ternura, uma atenção, uma manifestação mais cuidadosa, etc. Tomando tudo isso em consideração, não, por favor, prolongar uma situação destas tem tantos custos que é mais do que razoável pensar duas vezes.

Quando um dos pais pondera sair do país com a criança, como é que se protege emocionalmente o filho e a relação com o outro progenitor?

Vamos cá ver. A lei portuguesa é uma lei sensata. Os tribunais portugueses nem sempre são tão sensatos quanto o espírito das leis. E portanto, deslocalizar uma criança merece e exige a concordância de ambos os pais. Não pode ser de outra forma. E percebe-se por quê. Porque há um conjunto de alíneas que a lei define como alíneas muito importantes para o desenvolvimento de um filho, em que a mãe e o pai têm que se colocar, de facto, de acordo, seja a educação, seja a saúde, até a orientação religiosa, por exemplo. E portanto, num contexto destes, não é muito razoável Que um dos pais decida pegar no filho e levá-lo para longe, porque é evidente que as necessidades de uma criança são direitos fundamentais. Uma criança tem direito fundamental a ter uma mãe e a ter um pai e a ter os pais junto de si, dentro do que é possível, de forma a que usufrua desse direito. E portanto, num contexto destes, presume-se que um conflito já foi longe, que leve que um dos pais pondere esta deslocalização, digamos assim, mas isso não é tão linear, porque independentemente das necessidades dos pais, das conjunturas profissionais, familiares e outras que os pais possam ter, os direitos de um filho, nalgumas circunstâncias, em nome do bom senso, devem prevalecer sobre os direitos dos pais.

E que sinais deve um pai ou uma mãe ler numa criança pequena para perceber se o ambiente familiar já está a causar dano?

Que ele seja muito bem comportado, por estranho que lhe possa parecer. Ou seja, quando o conflito dos pais é um conflito aberto, quando é um conflito repetido, quando se eterniza, de certa forma, e ainda assim uma criança é bem comportada e chega à escola e tem boas notas, esse seguramente é o sinal de alarme mais relevante, que curiosamente é aquele que as escolas menos valorizam, porque aos olhos da escola, evidentemente que essas crianças acabam por ser muitas vezes muito adequadas. Mas os pais, eles próprios têm que perceber que num clima destes não há como uma criança ser equilibrada, ponderada e ter um crescimento saudável, porque as cicatrizes mais relevantes não são aquelas que se manifestam no imediato, são aquelas que se manifestam no médio e no longo prazo.

Este pai também pergunta se é possível reconstruir um mínimo de convivência respeitosa apenas para proteger a criança, mesmo quando a relação já acabou.

Pois, Tita, tudo é possível assim os pais queiram. A única coisa que me preocupa é que, como sabemos todos, numa relação, quando as fraturas se vão acumulando, é muito difícil, às vezes, os pais ultrapassarem-nas, por mais que depois dividam entre si o que têm de mais precioso, neste caso, um filho. E portanto, é quase acrobático. Ou seja, terem do outro lado da relação alguém que provavelmente é a pessoa que, não digo que mais odeiem, mas que menos gostam, porventura, e ao pé de si um filho, que é a pessoa de que mais gostam. Portanto, repartirem o melhor de si com a pessoa de quem menos gostam é muito difícil, mas calma, eu acho que é possível. Enquanto coabitam, eu acho que talvez seja dificílimo, mas é possível. Evidentemente, se os pais tiverem a maturidade, o equilíbrio de perceber que vão ter que se entender num conjunto de critérios, tomando em consideração a bondade que isso tudo pode ter e as consequências saudáveis que pode ter para um filho, tudo é possível. Não sei, muitas vezes os pais querem muito ultrapassar as fraturas que entretanto assumiram e emendar muitos erros que entretanto foram acumulando.

Estes pais fizeram terapia de casal e essa terá falhado. Há algum trabalho ao nível da parentalidade que a terapia de casal não tome em consideração?

Com todo o respeito pela terapia de casal, eu muitas vezes sinto que quem recorre a ela já são pessoas que estão numa relação tão fraturada, que é quase como se pedissem uma ajuda circunscrita, quando, no fundo, têm uma relação que está nos cuidados intensivos. E portanto, nessas circunstâncias, eu duvido que isso seja possível. Agora, não acho que caia fora do âmbito de uma terapia de casal, um apoio ao nível da parentalidade e, portanto, obviamente, que se tiverem quem os ajude a ser melhores pais, mesmo em circunstâncias irrespiráveis para um e para outros, tudo é possível. Assim, depois eles tenham também a humildade de escutar, com a seriedade devida, quem se propõe ajudá-los, porque num contexto destes, parece-me que seremos todos de acordo, empiricamente de acordo, que precisarão todos de muita ajuda.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Já sabem, podem escrever-nos para eduardo@oobservador.pt e todos os programas ficam agora e depois em podcast. Um grande abraço, Eduardo. Obrigada e até amanhã.

Eu é que preciso. Até amanhã.