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Começa agora o "Porque Senão É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar do caso de uma ouvinte cujo filho foi trabalhar para fora do país e tem sido muito difícil aguentar a saudade. Olá, Eduardo. Quando um filho já tinha a sua casa e a sua vida, por que a partida pro estrangeiro pesa tanto, quando ele já era muito independente?
Olá, Edite. Porque eles podem não estar conosco todos os dias, podem às vezes até nem almoçar conosco todas as semanas, mas só o fato de nós sabermos que estão ali e que se reclamarmos a sua presença, eles vêm até nós. Ou às vezes, basta que eles digam: "Posso ir jantar?" E de repente nós ficamos numa alegria muito grande. Isso é tão precioso, que estar a mil, dois mil, às vezes até mais quilômetros de distância, evidentemente que nos faz perceber que eles estão vivos, que até podemos comunicar com videochamada e tudo mais, mas não podemos tocá-los, não podemos cheirá-los, não podemos abraçá-los. E é por causa disso que as saudades doem e que quando nós sentimos, a nossa vontade, veja bem o que nós dizemos, Edite, é matar as saudades. E portanto, como não perceber esse sofrimento desta mãe?
Esta ouvinte pergunta como evitar chorar dia e noite. É uma situação em que está a ultrapassar a saudade normal?
Edite, os nossos filhos quando crescem, são tecnicamente adultos. E são pessoas sensatas e tudo mais, que no final das contas nós esperamos de um filho. Mas às vezes eles são muito mais pequeninos do que pode parecer. E quando eles são adolescentes, têm sempre aquelas habilidades que são de manual: "Tinha o telefone no silêncio" ou "Não tenho saldo" ou "Fiquei sem bateria". E nós percebemos que é uma habilidadezinha pra eles vincarem a sua autonomia e às vezes pra nos pôr um bocadinho à distância. Enfim, porque lhes dá jeito. Mas quando eles são crescidos, Edite, às vezes eles não são tão cuidadosos como era suposto. Às vezes, estar com a mãe ou com o pai ao telefone demora o quê? Dez minutos, se for uma grande conversa. Mas quantas grandes conversas é que os nossos filhos que estão longe acabam por ter conosco, sobretudo, e este pormenor é que faz a diferença, Edite, por iniciativa deles. Às vezes eles fazem isso quando estão um bocadinho embaixo, no resto do tempo esquecem-se de nós. Quer dizer, não esquecem, nós estamos cá, mas é como se no fundo eles fossem crescidos em muitas coisas e fossem pequeninos noutras. É quase como se dissessem: "Mas se a minha mãe e o meu pai sabem que eu estou bem, qual é o problema? Por que havemos de fazer disso um drama?" E aqui, já conversamos algumas vezes sobre isso, não é, Edite? Eu acho que nós devemos ser um bocadinho exigentes em relação aos nossos filhos, porque de repente eles vão entrando nesta atmosfera, nós vamos ficando magoados em suaves prestações e vamos nos afastando devagarinho. Não deixamos de gostar deles, claro. Nunca nos esquecemos deles, obviamente, etc. Mas vamos nos afastando devagarinho e isto devia ser proibido, porque de facto, às vezes ficamos completamente embrulhados em saudades. Edite, e há saudades que doem, doem mesmo. E portanto, quando os nossos filhos estão à distância de uma mensagem, de um telefonema, e pode dizer assim: "Eduardo, completamente ridículo." Edite, também, mas convenciona-se que às sextas-feiras, às 8:00 da noite, até pra alinharmos coordenadas geográficas, porque de facto, às vezes eles estão no outro lado do mundo e nós não sabemos muito bem o que havemos de fazer, nem que seja definindo meia dúzia de coordenadas que, enfim, obrigatoriamente, ponha com aspas, nos permitam fugir das saudades que doem muito. Porque se nós vamos guardando e vamos varrendo pra baixo do tapete e não falamos delas e não nos zangamos, às vezes, por causa delas: "Olha lá, o que tu estás a fazer? Não estou a achar graça." Seja o que for, isso depois dá um nó no coração e faz mal, faz mesmo mal. E portanto, dói. São saudades que a certa altura não são um arranhão, são um sopro no coração.
Esta mãe não fala disto com ninguém e portanto há aqui sinal de isolamento, precisamente na altura em que as outras pessoas podiam ajudar.
Também. É uma grande responsabilidade pra nós, Edite França. De acordo? Não fala com ninguém, mas teve a gentileza enorme de falar conosco. E eu acho que ela devia falar, porque não é nenhuma parvíssice de mãe. Aliás, até parece que há assim tantas parvíssices de mãe. Mas talvez, Edite, aos olhos de um filho, se a mãe não fala, se as pessoas ali ao lado sentem que ela não fala, se as pessoas às vezes perguntam: "Como é que ele está?" E a mãe, com a ideia de que consegue iludir isso tudo, dá a entender que está tudo bem, mas toda mundo percebe que há alguma coisinha no ar, que nos leva a entender que talvez haja aqui uma reticência ou outra que esteja fora do lugar. O que essa mãe consegue? Ficar mais sozinha, sentir-se um bocadinho cercada de mal-entendidos, sentir-se muito desamparada. Isto não. Portanto, a partir do dia 20 de outubro, por recomendação do melhor podcast do mundo, a Edite França recomenda-
Eu não recomendo nada. Isso é o Eduardo que recomenda.
Está proibida de não falar disto, porque é um assunto tão importante, que é como se estivesse a fazer cerimônia com as pessoas de quem gosta, de falar de coisas que, no final de contas, são coisas tão importantes, tão verdadeiras nela, que não faz sentido. É como se estivesse a pôr um bocadinho as pessoas à distância e, ao mesmo tempo, à espera que elas sejam capazes de vir atrás de si, sem ser preciso falar. E na vida as coisas não são assim, não é, Edite?
Há rotinas que se podem trabalhar. Há pouco falava no telefonema às 8:00 da noite, mas falo, por exemplo, de rotinas de contato, de visitas.
Também.
Isso pode se organizar.
Também, claro que pode. Independentemente do preço das viagens aéreas, se forem planeadas com algum tempo e se forem planeadas naqueles horários ou naqueles voos, que de alguma forma acabam por ser mais acessíveis, é possível. Se eu tiver a noção que daqui a dois meses vou visitá-lo e há ali um fim de semana que ele é só o meu ponto final, que é daqui a dois meses, Edite, mas ainda assim já me acalenta e já me anima. Quantas mensagens é que a mãe lhe manda? Bom, a resposta pode ser: "De acordo, eu mando, mas ele não responde." Paciência, manda. E há sempre um PS a dizer: "Olha, não é admissível que não respondas." E a mãe há de ser tão chata, um bocadinho, que de repente vai forçar que este impasse se ultrapasse. Mas isto entra num pacote de rotinas que é importante que ela possa ter para mandar numa relação que é preciosa pra ela e que não faz sentido que esteja envolvida num silêncio muito grande. Cada um dos dois, nomeadamente, a fazer os seus filmes, mas que obviamente não serão os filmes nas suas melhores versões e, portanto, por favor, a partir do dia 20.
Só pra terminar, é importante não passar essa tristeza para o filho quando se fala com ele?
Não, é fundamental passá-la. Edite, valha-me Deus. Mas será que as pessoas de quem nós gostamos não são crescidinhas e bondosas o suficiente para acolher a nossa tristeza? Voltamos ao mesmo, mas faz sentido nós fazermos cerimônia com as pessoas que nós mais amamos? É evidente que essa mãe pode dizer assim: "Mas eu não o quero preocupar." Eu percebo isso, mas quando não divide isto com o filho, está, de alguma forma, a dizer nas entrelinhas: "Bom, se tu fosses um filho capaz de interpretar estas coisas, eu até diria, como eu tenho medo que tu não percebas, eu guardo só pra mim." A mãe faz isto com a melhor das intenções, mas cria um mal-entendido pra ela e, de certa maneira, cria um mal-entendido na relação dos dois. E, portanto, dia 20 de outubro, de preferência às 16:57, que é o melhor dia e a melhor hora pra mandar uma mensagem ao filho.
Está combinado com esta mãe. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Muito obrigado, Edite. Até amanhã.
Até amanhã.