Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje trazemos a história de uma mãe que lutou para proteger o filho de um pai violento. Durante anos, o álcool, as discussões e as agressões fizeram parte do cotidiano, até o dia em que o filho, quando ainda era uma criança, pediu à mãe que se separasse do pai. Olá, Eduardo, boa tarde. O que acontece a uma criança que cresce com medo do pai?

Boa tarde, Assunção. Cresce com um sentimento de abandono muito grande, agravado por uma vulnerabilidade permanente resultante da violência que reconhece no pai, que eu não canso de chamar a atenção, que é significativamente maior que uma criança e, já agora, é pai, portanto, tem em si uma ligação de dois aspectos que parecem ser absolutamente inconciliáveis. E nessas circunstâncias, insegurança, insegurança, insegurança, medo, medo, medo e, ao mesmo tempo, a maior estranheza e a maior confusão do mundo, porque aquele que seria o personagem da vida dele, porventura, aparentemente mais forte para o proteger, é, sem dúvida, também, quem o expõe de uma forma mais gratuita e mais intimidatória à maior das violências.

E quando um filho pede à mãe para sair de casa, é porque atingiu o limite do sofrimento?

Antes de tudo, quando um filho pede à mãe para que tome uma decisão como essa, é porque está, de facto, à beira do limite e tem a noção que mais um bocadinho de violência pode ser o empurrãozinho que falta para que ele se desmanche e se parta em pequenas peças por dia abaixo. Mas já agora, também nos ajuda a perceber, independentemente de todos nós reconhecermos as contingências em que as pessoas vivem, a maneira como às vezes são pressionadas pelas próprias famílias para não tomarem decisões, etc. Que quando um filho precisa de ser ele a dizer à mãe: "Olha, vamos lá tomar uma atitude", é porque no meio de tudo isto, no meio desta violência toda, acaba por reconhecer também, de forma implícita, que a mãe é uma pessoa preciosa, mas que não está, em consequência de todo o drama tremendo que estão a viver, não está a ser tão mãe quanto era suposto, porque uma mãe, num contexto destes, tal como um pai, se bem que este não conseguisse corresponder àquilo que o filho espera, uma mãe deve proteger e admito que esta mãe assustada, atormentada, violentada nas mais diversas circunstâncias.

Com poucas condições.

Com poucas condições. Que é uma coisa dramática, não é, Assunção? Porque é transversal a tantas famílias, mas a tantas famílias, que ficamos todos de coração muito apertado, porque é como se estas pessoas morressem um bocadinho todos os dias. Agora, a verdade é que os nossos filhos, por mais que reconheçam as limitações que nós temos, depositam em nós tantas expectativas e acham-nos, às vezes, tão mais fortes do que porventura somos capazes de ser, que mesmo quando essas condições escasseiam, os filhos estão sempre à espera que sejamos capazes de tomar a decisão certa no sentido de os protegermos.

O filho, que agora é um jovem, diz que nunca teve pai. O que esta frase significa e que marcas pode deixar no futuro?

Significa, com uma dor imensa, como se compreende, o reconhecimento de uma verdade. Um pai não é, por inerência, um progenitor que, entretanto, se demitiu. Um pai é alguém que, de uma forma sistemática, atenta e delicada, e às vezes até nalgumas circunstâncias quase envergonhada, faz de bloco de granito que está ali para proteger de todos os males, venham eles de onde vierem. E, portanto, de facto, nunca teve pai. É uma maneira de um filho também dizer que não consegue reconhecer essa pessoa como alguém que ele gostaria de ter como referência para o seu crescimento. As sequelas são tremendas, Assunção, porque crescer-se com uma gratidão sem fim em relação a uma mãe, sobretudo quando fez o contraponto a esta maldade toda à solta, que se torna incompreensível. Mas, de facto, é um calcanhar daqueles que fica ali para toda a vida, porque por mais que uma pessoa perceba que aquele pai não tem as qualidades indispensáveis, a verdade é que um pai é um bem de primeira necessidade e, portanto, fica-se sempre ali com o mal-estar, às vezes com uma aragem de culpa, às vezes com a sensação de que, no final de contas, não se teve o privilégio E a sorte que tantas crianças que têm um pai a fazer de pai acabam por ter. E, portanto, há sempre um sentimento de amargura, um sentimento de agrura que leva muito tempo a cicatrizar e que vai ser posto à prova, queiramos ou não.

Como assim?

Este rapaz vai ser pai.

Ah.

Judite, porque nós tentamos dar voltas, todos nós. E identificamos sempre um erro, uma previço qualquer, qualquer coisa que nos magoou no crescimento. Às vezes somos tão mais mimados do que imaginamos. E depois fazemos aquelas profissões de fé: "Quando eu for pai ou mãe, jamais irei replicar este mau exemplo, por pequenino que ele seja". E viver preso a tudo aquilo que não se quer ser como pai, faz com que uma pessoa tende a ser absolutamente compensatória para um filho, mas às vezes faz com que aquele filho tenha uma infância que vale por dois. Vale para o pai, vale para o filho propriamente dito. E às vezes é natural que quem cresceu com esta violência, isto é o mais linear, mas que acontece com todos nós, quem cresceu numa atmosfera de violência, nunca jamais viverá um conflito como qualquer coisa que aproxime as pessoas. Nunca jamais viverá uma manifestaçãozinha de agressividade como qualquer coisa que faz com que nos defendamos ou com que enfrentemos o medo. A agressividade será sempre uma escorregadela perigosa para a violência e portanto vai sempre crescer com muitas sequelas em muitos aspectos, sendo certo que quando se diz: "Esta pessoa não é meu pai", está-se a ter uma atitude de coragem, mas é quase um sentimento de triunfo que se faz em cima de uma perda, de um buraco muito grande no crescimento.

Um tema importante, se calhar mais importante do que a gente pode imaginar à partida.

Sim, mais vulgar, às vezes, do que pensamos.

Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Eu também para si. Até amanhã, Judite.