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Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de tempo de ecrã e quanto tempo é demasiado para uma criança. Olá, Eduardo. Existe um número certo ou estamos a fazer a pergunta errada quando andamos a contar minutos?
Olá, Judite. Existe o número certo, Judite. E o número certo tem um bocadinho a ver com as idades também.
Claro.
Ora bem, vamos ver. As crianças muito pequenas. Deixe-me só fazer um parêntesis, Judite, que eu acho que é um parêntesis importante. Eu gostava que ficasse claro que não há nenhuma cruzada da nossa parte em relação aos ecrãs, que fique claro, porque senão, de repente, parece ficar subentendido que andamos aqui à procura de um purismo qualquer, como se, no fundo, os nossos filhos devessem viver desintoxicados de ecrãs, e eu não quero que isso passe. Ou seja, os ecrãs estimulam, desafiam, educam, distraem, tudo isso, todo aquele pacote de coisas magníficas que eles representam. E, portanto, não vale a pena estarmos a fazer daí um problema de qualquer maneira. É um bocado como os videojogos. Os videojogos são muito importantes para o desenvolvimento cognitivo das crianças, mesmo. Só que uma coisa é quando eles jogam 20 minutinhos, outra coisa é quando jogam sexta toda a tarde, sábado durante o dia e domingo o dia inteiro. E, portanto, há aqui um limite. Tudo que seja para além de 20 minutos, a mim me parece escorregadio. E parece-me escorregadio, por quê, Judite? Porque, evidentemente, a linguagem dos ecrãs é muito sedutora, agarra, prende, de alguma forma cria uma dependência. E, portanto, numa circunstância dessas, é normal, é compreensível, que as crianças vão ficando engolidas. "Só mais 10 minutos" e a determinada altura, se nos distraímos, vamos a dar conta: e onde é que vão os 10 minutos? Bom, vamos na onda e eles vão para ali diante. E, portanto, eu acho sensato, sobretudo sensato, que nós, sem fazermos disto uma reação de um fundamentalismo sem fim, coloquemos regras que, no final de contas, pretendem o quê, Judite? Que nós possamos ir aos ecrãs e àquilo que eles trazem aos nossos filhos, possamos ir buscar aquilo que eles têm de melhor, evidentemente, sem que, todavia, isto escorregue. Claro que não faz muito sentido que estas coisas venham acompanhadas, como acontece com as bebidas alcoólicas, mas a ideia não é muito diferente, Judite. É: consuma, por favor, mas com moderação.
Mas, por exemplo, um desenho animado visto com os pais e um tablet entregue a uma criança para ela estar sossegada são a mesma coisa?
Judite, no final de contas, não andam muito longe uma coisa da outra, não é? Evidentemente que se for um desenho animado, que tenha um bocadinho do episódio mais acalorado, mais intenso, mais assustador, compreende-se que uma criança fique num certo "Jesus, extremo deste filme, o que é que eu vou fazer com isto?" Compreende-se que ela faça isto. E se estiver ali a mãe e o pai, o coração continua a palpitar, porque isto é piloto automático, mas, todavia, uma criança sente-se um bocadinho mais aconchegada, porque o raciocínio é mais ou menos simples. Se isto fosse muito mau, alínea A, a minha mãe e o meu pai nem me permitiam que visse. Alínea B, claro que isto não faz mal nenhum, porque quem é que é o parvalhão que sai de um desenho animado para fazer mal a uma criança que ainda por cima está equipada com a mãe e com o pai? Claro que o fato de estarem ali pode ajudar. Todavia, aquilo é tão apelativo que, de facto, agarra. E eu acho que isto é importante também num outro pormenor. Agora, se me permites, Judite, que é este: nós todos passamos a vida a ouvir falar de défices de atenção. E que são aquelas situações que, em contexto escolar, seja um professor simpático ou seja um bocadinho chato, porque infelizmente também existem. Faz com que as crianças, às vezes, não tenham paciência para estar a ouvir, até porque se compreende, não é, Judite? Às vezes, as aulas são muito longas, os recreios são muito pequenininhos e, portanto, não se consegue estar ali focado durante 90 minutos com cinco ou 10 minutos de intervalo. O que eu gostava que percebessem, todos, é que isto é um bocadinho o teste do algodão. Uma criança que seja, de facto, completamente desatenta, é completamente desatenta em todas as circunstâncias. Não é atentíssima quando se trata de ver desenhos animados e completamente desatenta na sala de aula.
Muitos pais usam o telemóvel no restaurante, no carro, na sala de espera, e isso vê-se cada vez mais. Está a tornar-se grave?
Está a tornar-se preocupante, Judite, vamos dizer assim. Judite, voltamos ao mesmo. Todos nós somos pais, ou a grande parte de nós somos pais Todos nós, às vezes, suplicamos por 10 minutinhos de silêncio, porque estamos cansados, porque estamos agitados, porque foi um dia longo. Não vamos fazer de 10 minutinhos um drama, porque, na verdade, não é um drama. Agora, o que é mesmo muito importante é que não se caia no outro extremo. E o outro extremo é chegarmos ao Algarve, para não irmos mais longe, e termos duas ou três famílias com muitas crianças à mistura, vem a ementa para os pais e vem tablets e headphones para as crianças. E o almoço prolonga-se por três horas e está ali toda a gente completamente agarrada ao tablet e os pais a falarem muito descansadamente. Se me perguntar: "E aí, é perigoso?" Eu digo: "Claro que é perigoso, porque depois de fazermos isso uma vez, duas ou três, as crianças vão lutar por direitos adquiridos e de repente cria-se um Deus nos acuda, porque parece que elas estarem num jantar normal com a mãe ou com o pai, ou com os amigos dos pais e com elas de vez em quando a sair andar, a sentar em cima da mesa, enfim, segundo as regras de cada família, parece que é um drama. O que é importante é que nós não transformemos qualquer coisa que até pode ser um bom alimento para o crescimento cognitivo, numa dependência que feitas as contas, não traz tantos ganhos assim. Ou seja, os ganhos que poderia trazer ficam muitíssimo comprometidos pelos custos que acarretam. E aí é que nós temos que ter o cuidado indispensável e a atenção que é exigida a todos os pais, no final de contas.
E muito bom senso também. Eduardo.
Muito bom senso.
Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Judite.