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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de traição, mas também de perdão. Olá, Eduardo. Por que depois de uma traição, muitas vezes, os mais implacáveis são os próprios, mais até do que as pessoas que não perdoam o traidor?
Olá, Judite. Tirando aquelas pessoas que são traidores compulsivos e que, portanto, não entram nesta equação. Judite, porque as pessoas têm a noção que magoaram alguém e que, às vezes, magoaram alguém muito importante pra elas, e magoaram de uma forma irrefletida, e não têm aquelas justificações dos gabirus, do gênero: "Ok, aconteceu, mas não foi nada de importante." E, portanto, têm a noção do dano, do rasgão, que de alguma forma representa uma traição. E, portanto, a nossa culpa, aquela que às vezes anda atrás de nós a vida inteira, é um pouquinho também isso. É uma raiva muito grande em relação a nós próprios. Onde eu estava com a cabeça? Como é que foi possível? Que desilusão! Que desilusão não só em relação à outra pessoa, se calhar a outra pessoa não é só uma desilusão, é uma decepção. Mas que desilusão em relação a mim próprio. E isso tudo junto faz com que, de facto, as pessoas sejam muito implacáveis. Não sei se depois retiram todas as aprendizagens que deviam de uma situação como essa, mas deviam, porque ninguém quer relações bacteriologicamente puras. As pessoas podem assumir os seus caminhos da forma como entendem. Mas, se calhar, a lealdade acima de tudo numa relação, em todas as relações, e numa relação amorosa, por maioria de razão, faz toda a diferença. E seres desleal pra quem é muito importante pra nós, pra quem gosta muito de nós, é uma coisa tão violenta. Faz tanto mal, e é um mal que se prolonga tanto, por tanto tempo, Judite, que eu depois percebo que esta culpa que se cola à pele e que uma pessoa nunca esqueça. Uma traição não esquece quem foi traído e quem entrou num clima destes, sabe-se lá por quê, no momento, seja o que for, seguramente que também não esquece.
A autoimagem fica ferida?
Judite, fica, porque nós, às vezes, pomos o nosso Photoshop na maneira como nos vimos. E, portanto, nessas circunstâncias, sim, acabamos por ter a ideia de que somos sempre melhores do que, nalgumas circunstâncias, acabamos por ser. Às vezes, fazemos o resto. Às vezes, não nos gostamos de ver ao espelho, porque temos uma imagem cáustica de nós. Às vezes, não gostamos de ouvir a nossa voz numa gravação, porque às vezes perguntamos: "Mas este sou eu?" Etc. Mas, de facto, nós vamos construindo uma ideia de que somos pessoas decentes, cuidadosas. E às vezes, há ali uma onda que se gera e que desencadeia uma traição, e isto faz com que uma pessoa tenha vergonha. E eu acho que a vergonha, ainda assim, é um sintoma saudável, porque é, no fundo, o reconhecimento que à luz daquilo que nós imaginávamos que devíamos ser ou que somos, acabamos por ficar muito aquém.
Há um autojulgamento, mas esse autojulgamento pode ser uma forma de manter o controle sobre o que aconteceu e o que poderá acontecer.
Às vezes é, Judite. Às vezes, também há muitas batotices no meio de tudo isto, porque eu entendo que numa circunstância como essa, uma pessoa, de alguma forma, peça desculpa. Mas o pedir desculpa não é andar a humilhar-se a vida toda. Não é mesmo. O pedir desculpa é ter a noção, havendo condescendência da outra pessoa, que a partir daí, aquilo que nós valemos como pessoas tem que se multiplicar várias vezes, pra que quem se sentiu traído sinta genuinamente um movimento de reparação. Eu tenho medo das pessoas que às vezes se enganam um pouquinho com a verdade. Que repetem: "Onde eu estava com a cabeça?" E às vezes, aquelas que falam muito da culpa, porque no fundo, acabam por falar da culpa, mas não têm uma verdadeira culpabilidade. Isto é, nunca se põem verdadeiramente em questão, no sentido de dizer: "Como é que eu posso ser melhor? Como é que eu posso sair melhor de tudo isto?" Por mais que seja, às vezes, uma quadratura muito complicada de um círculo. E, portanto, nessas circunstâncias, sim, eu tenho medo que Que às vezes seja um bocadinho batoteiro. O exemplo mais triste, a justificação mais triste, acho eu, é aquela justificação do gênero: "Sim, aconteceu, mas não foi importante." Porque é retirar toda a dor à outra pessoa, como se essa dor fosse uma coisa quase absurda ou quase injustificável.
Como é que se reconstrói a identidade depois de falhar com alguém que se amava?
Às vezes, há muitas pessoas que fogem pra frente ou que colam meia dúzia de ideias feitas àquilo que são, quase como se fosse uma espécie de botox, pó de arroz, base, o que seja, pra fazer de conta que são outras pessoas. Ninguém muda assim do dia pra o outro. E obviamente, eu também não acho que seja pecado assumirmos que quanto mais as pessoas nos respeitam, quanto mais as pessoas gostam de nós, mais nós temos que dar provas, no sentido sério do termo. Não é porque estejamos sempre à prova, é porque temos que merecer a confiança que as pessoas depositam em nós. E eu tenho medo que, às vezes, se parta de um pressuposto muito escorregadio, de que essas coisas acontecem, todos são mais ou menos assim, e nada disso é verdade. E depois é como em tudo, não é, Judite? As relações entre duas pessoas não têm que replicar o modelo A ou B ou C, têm que honrar a lealdade que cada um acaba por ter em relação ao outro.
O que é verdadeiramente necessário para ter o autoperdão, digamos assim?
Ter o quanto basta de humildade, Judite. Às vezes, a humildade faz toda a diferença, não é? Eu acho que às vezes, falar-se de culpa e não ter uma ponta de humildade é bem a prova de que essa culpa é batoteira. Ter a humildade de perceber que se fosse ao contrário, muito provavelmente, a reação de dor seria pelo menos idêntica, senão maior. Mas quando não se tem essa humildade, eu fico muito inquieto, porque é como se, no fundo, não se fosse capaz de retirar as consequências devidas dos nossos erros. Isso não me parece que seja sequer razoável.
Ainda há esperança para o traidor, pelo menos.
Ó Judite, eu até me engasguei. Claro que há. Agora, há coisas que não dependem só dele, mas dependem muito dele, como é evidente. E, portanto, é um esforço tremendo de parte a parte e é um esforço que tem que ser um esforço de coração aberto. Porque se não for de coração aberto, não é por não se falar dessas coisas que deixa de existir um elefante no meio da sala. Pelo contrário, e é facílimo existir um elefante no meio da sala, porque isso está sempre presente, às vezes, de uma forma justificada, às vezes, de uma forma escorregadia, como se eu me sinta mal porque isto aconteceu. De acordo. Eu me sinto mal porque não consigo esquecer o que aconteceu. E as coisas que nos doem muito, não se conseguem esquecer. Funcionam como uma espécie de seguro de vida dentro de nós, pra nos orientar, pra nos balizar, para evitar que nos magoemos outra vez. Agora, não desaparece, mas abate-se. Mas é um trabalho a quatro mãos.
Exatamente. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Só te posso dizer: até amanhã, Judite.