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Bem-vindo ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos a um e-mail de uma ouvinte que escreve indignada: a escola mudou a formação das turmas e separou um grupo de amigos que estava junto há muitos anos. Foram deslocados cinco alunos, quatro raparigas e um rapaz, e o caso do rapaz, segundo esta mãe, parece ainda mais grave porque ficou sozinho, sem nenhum amigo na nova turma. Olá, Eduardo. As escolas costumam ter critérios pra estas remodelações de turmas. Do ponto de vista do desenvolvimento da criança, esses critérios devem sobrepor-se aos laços de amizade já criados?
Olá, Judite. Às vezes têm critérios, às vezes assumem os critérios e depois vai saber, eles não são tão cumpridos assim. E as mães são muito atentas a estas arestas, e ainda bem, porque obrigam que as escolas sejam claras nos critérios que usam. Eu devo lhe dizer que gosto, até tenho medo de dizer isto, que chegados a esta altura, as turmas se baralhem um bocadinho. E por uma razão simples, Judite, porque pensando no custo e no benefício dos nossos filhos estarem durante muitos anos numa turma onde conhecem toda a gente, à primeira vista, estão mais ou menos em casa, mas depois, vendo bem, pode não ser bem assim, porque as turmas funcionam como as famílias alargadas. Um é oficialmente o espertalhão, outro é aquele que é capaz de ser mais brilhante, o outro é o distraído oficial. E isto às vezes parece uma teia dramática, onde cada um tem o seu papel ou pelo menos lhe atribuem um papel, e depois de estarmos a repetir o mesmo papel durante um ou dois anos, parece que aquilo que caracteriza cada miúdo é quase um defeito de fabrico, e as coisas não são assim. Portanto, eu não vejo que seja tão mau que as escolas partam os grupos. Claro que eu acho que tem que haver algum critério, e claro que eu não vejo mal nenhum que haja uma ideia do critério. Muitas vezes diz: "Pronto, vamos escolher aqueles que têm relações mais fortes e, portanto, vamos para ali". Mas depois quando se vai ver, o critério não é esse. Às vezes escolhe-se passar para outra turma, porque na turma anterior fica alguém com quem a relação com o nosso filho não é uma relação tão boa. Ou seja, às vezes é como se o nosso filho estivesse a ser penalizado por ser vítima de uma relação que anda nas vizinhanças do bullying. E, portanto, eu não vejo mal que se mude. Claro que tem que haver critérios e evidentemente que não é trágico, muito pelo contrário. Até porque não há tantas turmas em cada ano numa escola, que haja meia dúzia deles que vão pra turma A, meia dúzia deles pra turma B, e assim sucessivamente, pra que se chegue a um espaço de entendimento que possa ser, de facto, útil pra todos. Se for claro, eu acho que é útil, Judite, sem dúvida. Mas admito que muitas vezes não é claro e às vezes só é claro no papel. E ser só claro no papel não pode ser, é proibido, porque é uma maneira muito torta de começar o ano letivo, porque tem demasiadas reticências no ar e com isso não se vai a lado nenhum.
Mas não há uma tentativa de equilíbrio de gênero, desempenho, comportamento?
Judite, se formos lá pelo desempenho, eu fico um bocadinho preocupado. E fico preocupado por quê? Porque às vezes há a tentação de algumas escolas de juntarem aquilo que parece ser o englobável numa designação de bons alunos, todos para um lado, e de repente estamos a criar escolas de classe A e de classe B. Não acho graça nenhuma, até porque o rendimento é o que é, Judite. Às vezes há miúdos que têm um rendimento magnífico no Português e na Matemática e são quase toscos na Educação Física. E, portanto, eu acho ótimo que eles confrontem uns com as dificuldades dos outros, sempre naquela ideia de que uma escola tem que os ajudar a amar o conhecimento, mas já agora também tem que descobrir as necessidades educativas especiais de cada criança e ajudá-las a superar. Por outro lado, o comportamento mais ou menos, Judite. Eu percebo isso.
Mas eu falo no equilíbrio, não é?
E tem toda a razão, Judite, porque muitas vezes os professores do ensino básico, do primeiro ciclo do ensino básico, são os primeiros a dizer assim: "Na minha turma há um grupinho de três ou de quatro Que quando estão juntos, qualquer estratégia pedagógica que eu tenha pega fogo e não há forma de ter mão nela. E, portanto, se for assim, claro que eu acho que faz sentido diluir esse grupo para o bem de todos, para o bem das turmas e de cada um desses miúdos em particular, porque é óbvio que saem a ganhar se não estiverem sempre numa certa instabilidade. E, portanto, eu acho muito bem que haja critérios, não acho mal nenhum, Judite. E volto a dizer, fazer estes arranjos nesta altura do ano é só sensato. Pode-me dizer assim: "Tá bem, Eduardo, mas depois há umas mães e uns pais muito difíceis". É verdade, Judite, às vezes são mais do que difíceis. Às vezes tratam os professores de uma forma que eu acho quase inqualificável e não pode ser. Mas se os professores fazem isto embolando critérios que deviam ser claros, numa certa estratégia de: "Pronto, fazemos assim, depois logo se vê", aí não, porque é como se estivessem com medo a fazer aquilo que, de uma forma sensata, não precisa de ter medo, porque no final da linha é suposto que seja para o benefício dos nossos filhos. Agora, ter medo por causa disto, por favor.
Como é que os pais podem ajudar esta criança a lidar com esta mudança, sem passar a mensagem de que a mudança é uma coisa má?
"Olha, meu filho, a mãe e o pai não estão a perceber nada dos critérios desta mudança. Portanto, antes de tudo, a mãe e o pai vão à escola calmamente tentar perceber, porque se nos explicarem a nós, nós somos capazes de te explicar a ti". Às vezes é só começarmos por princípios. Porque às vezes os pais não percebem e tentam criar ali um clima almofadado para que tudo pareça natural, como se o filho estivesse distraído. E é verdade que quando percebem e se sentem esclarecidos e as coisas têm, de facto, um sentido, os pais são tão claros na maneira como ajudam que se tornam imbatíveis, mas têm que se sentir esclarecidos. E aquilo que me parece nesta pergunta é: "Ajudem-me, porque eu não estou a perceber nada destes critérios e se eu não estou a perceber nada, como é que eu hei de ajudar o meu filho a aceitá-los, quando eu, a mãe, tenho a maior das dificuldades em entendê-los?"
Este tipo de ruptura forçada pode ter um lado positivo.
É, Judite, tem um lado tão positivo. Eu conheço muitas pessoas que começaram no jardim de infância e acabaram no último ano de gestão o mesmo grupo. E se me perguntar se isto é um enorme benefício, não é. Eu acho muito importante que os nossos filhos façam laços e os laços não tenham necessariamente a ver só com as pessoas da turma. Às vezes, fazer parte da turma ajuda a criá-los, mas nós sabemos na pele que muitas vezes, pelo contrário, não ajuda nada. Mas é muito importante que haja estes laços e verdade seja, isso tudo muito bem gerido por uma escola, cria laços que em muitas circunstâncias se prolongam para toda a vida. Agora, eu acho fundamental que se perceba que, de facto, isto faz com que, pegando nos jargões do momento, os nossos filhos saiam da zona de conforto, seja lá o que isso for, e tenham que ganhar espaço na atenção de outros colegas. E o mesmo com os professores, Judite, porque a matemática do nosso professor do segundo ano pode não ser a mesma matemática do professor do segundo ano da turma ali ao lado. E, portanto, às vezes mudar de professores ao fim de um ano letivo ajuda a ver as mesmas áreas por outros olhos. Tudo isto, se for bem gerido, traz versatilidade. Eles ficam mais capazes de crescer, porque a vida é feita de mudanças. Eles não estão sempre almofadados numa bolha. Eles precisam destas mudanças. Às vezes dói um bocadinho, mas é verdade que depois quando aprendem a viver com elas, os ganhos compensam de tal forma os custos, que eu não vejo que nós devamos fazer um "ai Jesus" por causa delas.
Ficamos por aqui. Vamos de fim de semana, Eduardo. Voltemos a encontrar na segunda-feira. Um grande abraço. Obrigada e bom fim de semana.
Prazer. Um bom fim de semana também, Judite.