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Está no ar o "Português Suave" na Rádio Observador, edição de domingo, sempre com mais tempo. Não é, Marco Neves? Bem-vindo.

Olá. Bem-vindo.

Hoje temos aqui um convidado, vamos dizer assim, Miguel Cordeiro. Olá, bem-vindo.

Muito obrigado. É sempre um gosto estar aqui.

Eu sei que tu gostas muito destas coisas.

É verdade.

Mas tens dúvidas para pôr?

"Tem dias", nós vamos falar disso hoje. Ótimo. Já fica uma piada para aparecer.

Não sei se tens dúvidas e se quiseres pôr, estamos ao dispor.

É uma pessoa muito curiosa, digamos assim. Também é jornalista, tem que ter isso assim muito apurado.

Vocês não acham que jornalistas todos têm de ser curiosos?

É uma condição.

Mas conhecem alguém, off the record, não, nós estamos a gravar. Mas conhecem algum jornalista, sem dizer quem é, que não seja curioso?

Não propriamente. Acho que há pessoas que podem demonstrar ou verbalizar mais essa curiosidade.

Uma coisa curiosa sobre a palavra curioso é que é uma daquelas palavras como orgulhoso. Nós podemos usar como insulto ou como elogio, porque uma pessoa pode ser orgulhosa de ser arrogante ou estamos orgulhosos de alguma coisa. E curioso, nós também às vezes usamos: "Não sejas assim tão curioso", no sentido de tão bisbilhoteiro.

Queres saber tudo.

Acho que frontal é talvez a palavra que consiga ter mais essa qualidade.

Mas frontal eu diria-

Cai mais vezes para a parte negativa.

Sim, lá por trás. Eu acho que é daqueles elogios, como também quando a pessoa pergunta: "Qual é o teu maior defeito?" As pessoas vão sempre responder uma coisa que não é assim tão má. E no frontal é um elogio que tem sempre uma picadinha lá atrás. Digo eu, não sei, posso estar enganado.

Escolhemos a pessoa certa para estar aqui, já percebemos. Marco, o que é que temos no menu para esta semana?

Há um tema inevitável na língua das notícias que é o acidente que ocorreu no Elevador da Glória. Vamos só falar um pouco sobre isso, nada de muito profundo, não há muito a dizer. E depois vamos avançar para o Mapa da Língua, em que vamos falar de "tem dias", como o Vinda agora disse, e ainda vamos responder a duas provocações que nos fizeram e vamos falar sobre isso também. Já lá chegaremos.

Vamos a isso, vamos arrancar e começamos, como é habitual, com a língua nas notícias. A língua nas notícias, Marco, e é inevitável, vamos falar sobre aquilo que aconteceu no Elevador da Glória.

Sim, eu vou só dizer duas coisas. Primeiro, não vou estar aqui a dizer qual é a origem da palavra. Seria fútil perante aquilo que aconteceu, perante o acidente. Tenho aquela sensação de que isto vai ser um pouco como o incêndio no Chiado. Nós vamos lembrar-nos deste dia durante décadas e então as pessoas que sofreram ali, ou que morreram, ou que ficaram feridas, as famílias ou as pessoas vão ficar marcadas para sempre. Mas eu gostava aqui de sublinhar duas coisas. Primeiro, os nomes dos sítios, dos lugares e dos monumentos fazem também parte do património de uma cidade. Não é só o próprio sítio, até porque o Elevador da Glória já foram vários equipamentos. É o nome que no fundo é o monumento, é o nome, a ideia, aquela imagem. E isto também foi uma ferida nessa imagem, neste monumento que nós temos na cabeça, que é o Elevador da Glória, que tem uma música conhecida, que tem as nossas memórias. Há, de facto, uma ferida que dificilmente sarará na memória da cidade. E o segundo ponto é que nós todos temos grupos de WhatsApp. E eu só queria salientar que em vários grupos, e estou-me a rir neste contexto, por quê? Porque além de tudo o que foi dito sobre o acidente, eu reparei que em muitos grupos em que eu participo, às vezes de forma mais profunda ou menos profunda, as pessoas começaram a fazer perguntas também de português, o que é curioso. Por exemplo: "Então, mas aquilo é um elevador, é um funicular, é um ascensor?" Oficialmente, é Ascensor da Glória.

Miguel esteve na emissão especial, estava no ar nessa altura, quando se deu a notícia e possivelmente confrontaste-te com isso, não foi?

Sim, houve ali dúvidas. Principalmente ali a dúvida se tratamos isto como uma carruagem ou não, um elevador ou não.

Eu percebi que o veículo foi uma palavra que muitos jornalistas optaram por usar, porque são dois veículos num sistema que, tecnicamente, pelo que eu percebi, é funicular. Nós podemos falar do português, mas obviamente eu não sei os termos técnicos de todas as áreas, isso cada área que tem a sua língua. Mas o que eu achei curioso foi: nós mesmo no meio de uma tragédia, temos curiosidade sobre palavras. Faz parte da nossa necessidade de conversar sobre isto. E tecnicamente aquilo é um funicular, tem o tal cabo que se partiu, isso pelo que eu percebi, leva a que seja um funicular, mas não quero entrar numa área que não é minha. O nome oficial é Ascensor da Glória e o nome que todas as pessoas usam é Elevador da Glória. Tal como o nome oficial do Terreiro do Paço é Praça do Comércio e todos nós usamos Terreiro do Paço, o que não deixa de ser uma espécie de brincadeira que os falantes fazem com os próprios termos oficiais. As pessoas podem dizer: "Vai se chamar X", e os falantes vão fazer o que lhes apetece. Às vezes até parece que é quase de propósito. As pessoas querem usar aquilo que está na sua cabeça, que é o tal monumento que eu estava a falar, mais do que o termo oficial. E eu não tenho muito mais a dizer. Acho que todos nós sabemos que aquilo foi algo muito grave.

Sim. Vamos então seguir para o Mapa da Língua. Vamos falar de ter e haver.

Ter e haver. Parece contabilidade. Não é contabilidade.

Sim, mas o que há aqui para explicar?

Há muita coisa pra explicar. O verbo ter dava pra um podcast inteiro. O verbo haver, aliás, dava pra um podcast inteiro.

Tu viste o que eu coloquei no episódio "Dúvidas"?

Qual é que foi agora? Desculpa.

Acho que foi: "O verbo haver não dá descanso". Algo desse gênero.

Podíamos ter aqui episódios e episódios sobre o verbo haver, sobre as discussões sobre o verbo haver e ter. Eu antes disso, gostava de dizer: recebemos uma provocação da Marta, que disse que ficou pessoalmente ofendida, porque eu disse que ninguém usa o verbo haver como auxiliar. E aqui, eu vou me defender dizendo que é uma hipérbole. Só que não deixa de ser um uso. Imaginem aí, em vez de tinha dito, havia dito. Nós sabemos que isto existe, percebemos o que quer dizer, mas é claro que é muito mais formal. O que aconteceu foi: o verbo haver e o verbo ter podem ser usados os dois como verbo auxiliar pra criar verbos compostos, formas compostas do verbo, mas nós já perdemos, mais uma vez estou a cair aqui numa hipérbole. No dia a dia, ninguém usa o verbo haver, é muito raro. Se usa, usa de forma consciente, porque quer salvar aquela forma. Na escrita, numa escrita mais formal, nós ainda vamos recuperar o verbo haver como auxiliar, mas é muito mais raro. Há até certos usos em que nós, se usarmos o verbo haver, já nem sequer percebemos bem o que está ali. Por exemplo, eu digo: "Eu tenho falado com o João". O que isto quer dizer? Quer dizer que eu tenho falado. Agora, tentem pôr o verbo haver nesta forma.

Sim.

"Eu hei falado com o João." Já não quer dizer nada. Portanto, há certos casos em que nós já não usamos mesmo o verbo haver como auxiliar, e este é um deles. Já que estamos no mapa da língua, há uma diferença grande entre Portugal e o Brasil, e a língua divide-se em vários países. Aqui nós recaímos sempre na discussão entre Portugal e Brasil e esquecemos que há os outros países todos de língua portuguesa, que estão a criar certas normas da língua, que já são um pouco diferentes da portuguesa, mas continuam a estar muito próximos do português de Portugal e menos do Brasil na sua norma. Mas uma das diferenças que nós identificamos é: eles usam o ter, não como verbo auxiliar, mas como verbo principal, o ter em substituição também do haver. Por exemplo: "Tem uma mesa nesta sala." Que é uma coisa que nós vamos identificar como brasileira. Não sei se concordam. Mas o curioso também é que parece ser uma tendência da língua que simplesmente os brasileiros levaram até a um extremo, porque, por exemplo, em Garrett, nós apanhamos a frase: "Hoje não tem perigo." Isto escrito por Almeida Garrett.

Sim, se alguém escrevesse isso.

Seria considerado um brasileirismo. Hoje não tem perigo. E nós temos estas expressões fixas como tem dias. O tem dias, também é, no fundo, nós usarmos o verbo ter pra querer dizer existir. É uma expressão fixa que não tem origem no Brasil, atenção, é uma expressão fixa portuguesa. O que quer dizer que nós, de vez em quando, também deslizamos pra este uso do verbo ter, de forma muito mais rara do que no Brasil, mas lá por trás, é como se a língua estivesse a empurrar o verbo haver pra deslizar para o ter. E nós, às vezes, caímos. Os brasileiros simplesmente já fizeram esta transformação que nós estamos a fazer de vez em quando.

E no meio disto ainda recebes provocações.

Exato. É bom, eu gosto.

Marco Neves, vamos avançar pra nossa última rubrica e seguimos para os mitos e origens da língua, que temos dúvidas esta semana. Dúvidas que vêm do episódio anterior, não é?

Sim, e o Carlos Neves enviou-nos uma mensagem a dizer que palaver, que eu disse, e logo na altura corrigimos, porque eu percebi que tinha posto os pés pelas mãos.

Mas safaste-te muito bem.

Pronto, a verdade é que palaver é uma palavra inglesa que vem do português, tal como eu disse, mas o significado não é exatamente aquele que na minha cabeça houve ali um pequeno curto-circuito. Quando dois inimigos comunicam, é o parley. O palaver quer dizer, no fundo, palavreado. Palaver é uma expressão inglesa, é uma palavra inglesa rara, muito rara. Não é uma palavra que os ingleses usam todo dia. Mas é uma palavra que quer dizer quando a pessoa diz muita coisa sem significado, ela está pra ali a palavrear. Eu não sei se isto é alguma crítica implícita aos portugueses, o fato de terem buscado ao português esta palavra, mas a palavra quer dizer isso. Estou aqui a corrigir algo que tinha dito na semana passada. Depois temos outras dúvidas que vão ficar pra quarta-feira. Mas tenho aqui um mito. O que vocês acham das redundâncias? Digam lá.

É uma boa pergunta que se faça todos os dias.

O meu suspiro já disse tudo.

Isto parece: "O que vocês acham da política externa chinesa?"

Sim, redundâncias. É só porque, normalmente, é muito comum considerar-se que a redundância é sempre um erro de português. E as pessoas procuram evitar aquilo que se chama também os pleonasmos viciosos, como subir pra cima, descer pra baixo.

Há cinco anos atrás, já falamos sobre isso.

Já falamos sobre este tipo de redundâncias, que são consideradas como quase uma regra de etiqueta tentar evitá-las. Mas às vezes as pessoas dão o passo a seguir e de repente começam a procurar redundâncias em todo lado, como se fosse um pecado da língua geral, que não é. Aliás, por causa do acidente que tivemos no Elevador da Glória, alguns técnicos falavam de como aquele sistema é um sistema que tinha redundâncias e que falharam Todas. Havia várias redundâncias para evitar o acidente. Estou a dizer isto por quê? Porque todos os sistemas bem feitos têm redundâncias, sistemas naturais ou não. Na natureza, as redundâncias são muito comuns. Nós temos vários órgãos a duplicar no nosso corpo, porque o sistema é mais robusto se tiver redundâncias. E os sistemas artificiais também reproduzem isto criando redundâncias artificiais. A língua é a mesma coisa. Nós temos muitas redundâncias na língua que são parte essencial.

Para garantir que a comunicação é bem feita.

Exatamente. Por isso é que as redundâncias na escrita são um pouco mais graves e de fato temos de tentar evitar.

Porque há possibilidade de ler para trás.

Exatamente, ler e a própria forma como a escrita está distribuída permite fazer certo tipo de coisas que nós na oralidade fazemos com redundância. Na oralidade, os sistemas linguísticos evoluíram para ter muitas informações repetidas. Basta pensar que aquilo que nós chamamos concordância verbal é uma redundância. Ou seja, quando nós dizemos que "os filhos mais velhos", nós temos ali o masculino três vezes: os, masculino, filhos, masculino, velhos, também tem lá o masculino. Temos o plural três vezes: os, filhos, velhos. Isto são redundâncias obrigatórias. E depois temos redundâncias que não são obrigatórias e que nós não notamos. Por exemplo, há uns anos vi uma pessoa criticar de forma muito agreste alguém porque tinha dito: "Os meus dois pais." Eu também sei que é uma redundância, mas claro que ali os dois, é claro que são dois. Os dois está a sublinhar que eu fui falar com os dois, não fui falar só com os pais em geral, fui falar com os meus dois pais. Quando eu digo os meus, eu também podia tirar os, os brasileiros fazem isso. Estamos ali com informação a mais. Portanto, só para dizer que não tenham medo, em geral, como fenômeno geral das redundâncias. Agora, se eu estou a escrever um texto e ao final, claro, depois há repetições.

Mas se eu dissesse: "Fui falar com ambos os meus dois pais."

É uma questão de estilo. O que eu estava a dizer é que nós devíamos retirar as redundâncias desnecessárias. Mas não devemos ser tão radicais e pensar que tudo que é redundância faz mal, porque muitas vezes a redundância é mesmo essencial para comunicar. Isto por quê? Vamos imaginar uma situação ao longo do desenvolvimento das línguas, da linguagem humana. Nem sempre tínhamos silêncio, nem sempre estávamos numa situação que pudéssemos falar alto. Se toda a informação só pudesse aparecer uma vez, era muito fácil perder-se a comunicação. Pensem bem, a língua não é só comunicar informação. Nós dizemos muitas expressões que estão só lá para encher, e bem.

Muitas vezes.

Então está tudo bem. Quando a pessoa depois responde a sério, nós até ficamos-

Todos os dias, quando cumprimentamos alguém, às vezes até aqui na rádio, vamos ser sinceros, dizemos: "Olá, tudo bem?" E nunca estamos à espera da resposta da pessoa. E se a pessoa responde, já ficamos atrapalhados.

"Olá, tudo bem?" "Olá, por acaso não." Há esta função também só de presença da língua.

O "tudo bem" agora é quase uma pergunta. Tirando salve raras exceções, agora é quase como pergunta.

É uma interjeição. Tudo bem? Ok. É sim. Então olha, espero que esteja tudo bem com os nossos ouvintes.

Sim, estão, com certeza. Até porque nós estamos de regresso na quarta-feira. O Miguel Cordeiro gostou tanto que está de regresso também.

É verdade.

E vamos ter dúvidas dos nossos ouvintes para enviar. Marco, como é que os nossos ouvintes podem fazer?

portuguesesuave@observador.pt e não pergunte o seu número, eu não consigo abrir bloqueios mentais.

Tu vais decorar o número de telefone. No próximo episódio vais ter o número. Vais escrever com caneta na mão. 910024185. Envie mensagens de voz através do nosso WhatsApp. Nós estamos de regresso na quarta-feira. Um abraço, Marco.

Um abraço.