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"Português Suave" na Rádio Observador, com promessas num episódio anterior em que vamos falar sobre irritações. Olá, Marco Neves, bem-vindo. Estás muito irritado ou nem por isso?
Não, estava a falar por cima de ti pra ver se se irritava.
Por acaso não. Sabes que eu tinha aqui o microfone ligeiramente mais baixo, portanto nem percebi. São técnicas radiofónicas muito antigas.
Não ser irritado pelas pessoas que falam em cima dos apresentadores. Hoje é dia de dúvidas, mas também é dia de irritações, porque nós prometemos falar das nossas irritações. Eu estou um pouco indeciso se devemos ver primeiro a dúvida ou a irritação.
Queres ir primeiro à dúvida?
Não, vamos à irritação.
Pronto, tudo dito.
Vamos tirar já isto do sistema. Então diz-me lá, tu deixaste uma irritação, uma das tuas irritações da língua era dizer "champô".
As pessoas que dizem "champô" em vez de "xampu" é uma coisa que me tira do sério.
Quanto a ti, deveriam ser castigadas não podendo usar xampu.
Sim, usavam gel de banho.
Pronto, é o castigo. E a outra, qual é que era a segunda irritação?
Esta é uma irritação, não está ao mesmo nível, mas são as pessoas que dizem "pizza" em vez de "piza". É uma coisa que mexe com meu sistema nervoso.
Estão a tentar imitar o italiano.
Sim, é isso. A minha irmã, por exemplo, diz "pizza" e é uma coisa que me tira do sério, porque eu penso assim: "Estamos em Portugal, é piza".
O castigo: tiras-lhe a fatia.
Pois, vou começar a fazer isso. Mas esta não me irrita tanto como a do xampu. A do xampu é muito má. Na minha opinião, e agora vamos ter aí uma catrefada de ouvintes a dizer que diz "champô" e que vai continuar a dizer.
Fica aqui o pedido: dizem "champô" ou dizem "xampu"? Está nos dicionários é "xampu". "Xampu" não tem acento nem um "n", mas vamos ouvir o que as pessoas dizem. Eu devo dizer, como eu disse no episódio de domingo, no final, quando estávamos a falar das irritações, as pessoas sabem que tendo a observar, a falar e a dizer como é que as coisas funcionam, não me ponho pra aqui dizer: "Estão todos a dizer mal". Isso não é o meu hábito. Mas todas as pessoas têm irritações, e até eu. Eu aqui também queria dizer as minhas irritações. Por acaso, o xampu não me irrita muito. Eu digo xampu, mas não me irrita particularmente, porque isto cada pessoa tem as suas irritações próprias. Uma que me irrita, e mais uma vez, não é um erro. Esta que eu vou dizer a seguir não é um erro. Eu estava a falar aqui com a minha mulher, com Zélia, a dizer que se eu um dia falasse disto, e estamos a falar, eu tinha de pôr quase dois chapéus. Tinha de fazer Marco irritado e depois logo a seguir tentar acalmar a mim próprio e dizer: "Calma, isso também não é um erro".
Estou a ficar curioso.
É uma expressão, se calhar tu usas, não sei, que é "fazer praia". Quando a pessoa diz que está a fazer praia.
Olha, tenho mais uma, já te digo a seguir.
Por que me irrita "fazer praia"? Atenção, eu até já fiz muitos vídeos a justificar o famoso "fazer a barba", que está perfeitamente correto, e as pessoas tentam mudar para "desfazer a barba". Mas isso é outra história. Aqui o "fazer praia" é só porque eu tenho lá por trás a expressão muito mais simples, que é "ir à praia". Eu gosto de ir à praia. Fazer praia é um pouco estranho. Eu agora vou pôr aquele chapéu de chico-esperto: ninguém faz a praia, a praia já está feita. Isto é o meu cérebro irritado e depois vem o meu cérebro não irritado a dizer: "Está calado, isso é só uma expressão com o verbo fazer que serve pra muitas coisas".
Há uma muito parecida que também surgiu, e eu vi alguns vídeos sobre isso nas redes sociais, que é: "Casamos o André e a Maria". E as pessoas ficam do gênero: "Não foste tu que os casaste. Tu foste ao casamento, não casaste a Maria e o André".
Eu até acho simpático.
Achas essa mais tranquila?
Não, acho simpático porque no fundo está a significar que as pessoas em conjunto estiveram ali a ajudar nessa celebração.
Mas há muitas pessoas que se irritam com essa também.
Eu sei. Aqui o que eu gostava de dizer é que nós temos também de ter noção de que as nossas irritações são muito pessoais, que não há assim um céu da língua.
E às vezes não há grande explicação pra elas.
Por exemplo, eu disse: "A mim irrita-me dizer fazer praia". Há pessoas a quem a construção "a mim irrita-me" irrita. Porque o "a mim irrita-me" pra essas pessoas é uma redundância. Se irrita-me, é a mim, não é a outra pessoa. No entanto, na oralidade, o "a mim" serve de bold, se quisermos. Negrito.
Marco Neves, não vamos mais longe. Às vezes há respirar de pessoas que nos deixa irritados. Mas isso é outra história.
No fundo, nós temos de assumir que todos nos podemos irritar, faz parte da vida. Também temos de saber depois contar até 10 e respirar fundo e perceber que as irritações são parte da nossa individualidade, mais do que do nosso coletivo. Uma outra construção que eu tenho notado, não é uma irritação, mas nós já falamos aqui muitas vezes de como, por vezes, alguns falantes notam uma construção e de repente ficam convencidos de que essa construção apareceu agora, ou é muito recente, ou está a explodir, o que poderá ser verdade, mas também poderá ser simplesmente um fenômeno de atenção. Ou seja, a pessoa está a dar mais atenção àquela expressão e parece-lhe que ela agora está na boca de todas as pessoas. Já disse isso várias vezes, quando compramos um carro novo, de repente parece que o carro está em todo lado, todas as pessoas têm o mesmo carro, porque estamos a dar muita atenção. Quando eu digo um carro, poderia ser outra coisa, mas por acaso ouvi muitas pessoas: "Agora toda gente tem este carro". Foi o que eu comprei. E eu, por acaso, tenho notado muito, e também gostava de deixar aqui às nossas ouvintes a pergunta se também notam ou se é só um fenômeno da minha própria atenção, as pessoas a dizer muitas vezes: "É o que é". Para terminar uma conversa.
Sim. Não sabe o que dizer mais, é o que é.
"É o que é". Já acabou a conversa, estamos a tentar terminar isto e por isso dizemos: "É o que é". E eu não sei porquê, só notei esta construção há pouco tempo. De repente, ouço em todo lado, todas as pessoas a dizer "é o que é", até eu. Estava a conversar muito bem, de repente eu disse: "É o que é", e depois fiquei: "Rais, até eu". Portanto, é o que é. Vamos avançar pra dúvida da pessoa.
Bem, já fizemos aqui o nosso consultório. Esperemos que os nossos ouvintes tragam também mais irritações, que nos escrevam nos comentários do Spotify, por e-mail, através do 91 002 41 85. Mas agora temos uma dúvida, não é, Marco?
Vamos à dúvida.
Boa tarde, Marco. A minha pergunta é a origem do meu nome. O meu nome é César. Já ouvi várias coisas, portanto, gostava de ouvir a tua versão e a tua explicação. Um grande abraço e boa tarde.
A origem de César, pelo menos nós todos pensamos saber, está associada a-- vamos lá ver: por que o nome César existe? Por que é usado? Porque era o nome que se dava aos imperadores romanos. Aí ninguém tem dúvida. Além disso, os imperadores romanos começaram a usar César por ter sido o cognome de Júlio César, a famosa personagem romana. Esse nome de Júlio César deu origem a nomes para imperador em várias línguas, como por exemplo, o Czar, o Czar da Rússia, o imperador da Rússia. O nome de Czar vem de César. Em alemão, o imperador da Alemanha também era chamado o Kaiser. E este nome também vem de César. Portanto, o nome que era associado a uma pessoa em particular, pessoa essa que não foi imperador, para dizer a verdade, Júlio César não foi imperador, acabou por ficar associado aos Césares romanos, aos imperadores romanos, aos Czares russos, aos Kaiser da Alemanha e por aí fora. Mas a pergunta, provavelmente, do César era de onde é que vem o próprio nome. E há uma velha história que diz que César e cesariana estão ligados. Porque cesariana é um nome que nós usamos pra um tipo de nascimento, porque Júlio César teria nascido por cesariana.
Por acaso já ouvi essa relação em relação a isto.
As duas poderão estar ligadas, porque tanto o nome César como cesariana podem ter a mesma origem, mas a verdade é que aqui o cesariana vem de um verbo latino, vem de uma palavra que queria dizer cortado, portanto, não se tem bem a certeza se havia ligação na origem e, provavelmente, Júlio César não nasceu de cesariana. O mais provável é que não tenha nascido de cesariana. Mas é uma história que já vem desde essa época, portanto, já há muito tempo que se ouve falar que cesariana vem de Júlio César. Quanto à origem do próprio nome, há muitas teorias, o próprio César disse-nos isso, não há nenhuma segurança. O nome em si, não se sabe exatamente de onde é que vem. Há muitas teorias, infelizmente, não posso ajudar o César nesta história. Tenho muita pena, mas há teorias desde que vem de uma palavra que queria dizer elefante. Há outras que acham que queria dizer cabeludo. É um nome sem uma origem conhecida. E ficamos aqui um bocadinho: é o que é.
É o que é, Marco Neves. Olha, ficamos por aqui. Já estamos mesmo em cima do nosso tempo. Dúvidas para o e-mail, Marco.
portuguestoava@observador.pt.
Agora tremeste.
Comentários sobre irritações. Não nos podemos esquecer.
Dúvidas também para o 91 002 41 85 ou irritações, como dizia muito bem o Marco Neves. Foi um dos temas que falámos neste episódio de quarta-feira. Estamos de regresso no domingo, Marco. Um grande abraço.
Um abraço e até domingo.