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Português Suave na Rádio Observador com Marco Neves. Hoje, uma pessoa diferente. Não está cá o João Costa e Silva.
As pessoas penso que notaram logo que a voz é um pouco diferente. O João não está cá, há de voltar em breve, mas hoje estou aqui a conversar contigo, Rita Camarneiro. Portanto, é um Português Suave um pouco diferente do habitual, mas não tão diferente assim, porque vamos continuar a falar.
Claro, vamos descorar as dúvidas dos nossos ouvintes.
E podemos avançar já, Rita, se concordares, para a primeira dúvida, que é da Micaela Sousa, que nos enviou um áudio.
Vamos ouvir.
Bom dia, Marco e João. O meu nome é Micaela Sousa e gostaria de perguntar uma dúvida que se me colocou, porque um colega me disse que estava a fazer mal. Na expressão boa fé ou má fé, deve escrever-se com hífen ou sem hífen? Por ele foi dito que com hífen seria de acordo com o acordo ortográfico atual e que sem hífen seria pré-acordo ortográfico. E eu gostaria de saber se isto é assim e qual a forma correta à luz de ambas as situações. Muito obrigada, bom trabalho.
Obrigada, Micaela, pela pergunta. O que eu posso dizer é que, neste caso, o colega da Micaela, que eu não sei o nome, não tem razão aqui num aspeto, que é a questão do acordo ortográfico. Ou seja, não houve, nesta palavra em particular, nenhuma alteração com o acordo ortográfico. A palavra tinha hífen antes e continua a ter hífen.
Não caiu.
Não caiu. E é uma palavra. O que eu quero dizer com isto é que poderia ser uma expressão, poderia ser boa fé, má fé, mas a convenção ortográfica é considerar isto uma palavra composta com hífen, tanto má fé como boa fé, e por isso tem hífen já há muito tempo, aqui não há grandes dúvidas. Portanto, posso responder com bastante clareza. Mas não deixa de ser uma convenção, ou seja, o que às vezes é difícil de compreender é que há critérios, mas não há uma regra que diga: "Isto é com hífen por isto ou por aquilo". A palavra é vista como uma palavra só, mas poderia ser uma expressão. Por exemplo, no caso de fim de semana, antes do acordo ortográfico, de facto, tinha hífen, e ainda tem, por exemplo, pra mim, que eu uso a ortografia.
Pois, eu também ainda uso. Perdeu os hífen do fim de semana?
Perdeu os hífen. Portanto, fins de semana é sem hífen, depois do acordo. Portanto, quem quiser usar o acordo, tem que tirar os hífen do fim de semana.
Eu não fazia ideia.
Há mais casos destes em que há alguns critérios, mas é uma questão de convenção. Por exemplo, a expressão com certeza, que é tecnicamente uma locução, ou seja, não é uma palavra, não se escreve com N, é com espaço certeza, mas nós lemos tudo de seguida, como lemos tudo. As frases são ditas todas de seguida. Nós não temos pequenas pausas em todas as palavras. Com certeza, já agora, é com certeza, sem hífen e com espaço. Mas é uma convenção, ou seja, o que eu quero dizer com isto é que poderia acontecer que a ortografia, que é sempre muito convencional, tivesse ido por outros lados. Nós poderíamos ter uma língua em que com certeza era tudo junto, mas não é assim que funciona, é separado. Espero não ter atrapalhado mais as pessoas.
Não, é separado. Com certeza é separado, e boa fé e má fé, sempre com hífen.
Sempre com hífen, exatamente. E agora vamos a uma dúvida de um ouvinte muito especial, Rita Camarneiro, que não nos enviou dúvida nenhuma por áudio, mas vai agora em direto dizer uma dúvida.
Sim, há muitas pessoas, especialmente em Lisboa, mas se calhar não é só em Lisboa, que há bocado, Marco, estavas a dizer que não é circunscrita a esta área, que pronunciam, para mim, está mal pronunciado, sofá, como se sofá tivesse um acento no O. Isto está mais ligado a uma elite, uma classe social mais elevada.
É difícil de saber exatamente. Eu já ouvi sofá, eu digo sofá, de facto, o que acontece é que há pessoas que dizem sofá. Eu não consigo identificar, nunca fiz nenhum estudo, exatamente quais é que são as características. Também se associam, como dizes, com aquilo que se diz normalmente, o grupo social mais identificado no que toca à sociolinguística, que são as tias de Cascais, se quisermos. Não estou a ofender ninguém, estou só a dizer que é uma expressão que nós usamos no país todo pra uma certa forma de falar. Mas não são só estas famosas tias que têm formas particulares de falar. Nós temos grupos sociais com formas diferentes de falar em todo o país. É aquilo que nós denominamos socioleto, ou seja, nós temos os dialetos, que são formas de falar particulares de uma região, e todos nós temos um dialeto particular ou vários. Não há uma separação entre as pessoas que falam uma língua e as pessoas que falam um dialeto. Cada pessoa tem a sua forma regional de falar. Depois há também o que se chama socioleto, que são estas formas particulares de acordo com a sociedade, com o grupo social. Aqui também estão incluídas, por exemplo, formas de falar de uma profissão.
Muito curioso, socioleto. Não, nunca tinha ouvido falar.
Há pessoas que dizem sofá.
Há quem diga maple.
Sim, exatamente. Eu devo dizer, há mais casos destes. O que acontece aqui com o sofá é: a regra geral da língua portuguesa é quando uma sílaba é uma sílaba átona, o O desce. Nós dizemos sufá, porque a sílaba tônica é o A final. Mas há exceções. Algumas exceções são gerais, como um exemplo que já dei aqui no Português Suave muitas vezes: padeiro Padeiro deveria ser padeiro, de acordo com esta regra. E nós dizemos padeiro.
Eu também digo padeiro.
Todos dizemos. Camões, também de acordo com esta regra, devia ser Camões. Ou seja, há uma série de palavras em que mesmo a sílaba átona tem uma vogal subida, como Camões, padeiro, magnífico. E depois há casos, como no caso do sofá, em que a maior parte dos falantes diz de acordo com a regra geral, mas há alguns que sobem ali.
E até te digo outra.
Não tenho nenhuma explicação de onde é que aquilo vem. Mas qual é a outra?
O Ronald e Ronaldo, por exemplo, ou Soraia e Soraia. Eu digo Soraia, mas há quem goste muito.
Eu digo mais Soraia.
Pois, toda a gente diz: "É Soraia, não é Soraia".
Como vês, a fronteira de quem lê aquele O é variável, é uma fronteira variável. E também há a famosa guerra da vacina.
Pois é. A vacina.
Exatamente. Mais uma vez, ao contrário do que as pessoas dizem, quando a pessoa diz vacina, não está a mudar a sílaba tónica. A sílaba tónica continua a ser o CI, mas subiu ali a vogal.
No caso sofá, não há dúvidas, porque a sílaba tónica é no fá.
Sim, mas mais uma vez, há um ou outro falante que decide.
Nós perdoamos.
Mas eu queria ainda falar aqui de outra coisa, que é: as vogais são muito variáveis e há casos de tradição de leitura que depois mudam até por influência da escrita. O que eu quero dizer com isto é, quando temos palavras que começam por E, em português, a tradição em grande parte do país era e é ainda ler aquele E como um I. Ou seja, nós dizemos, por exemplo, economia, enfermidades, e antigamente escrevia-se mesmo assim, há épocas em que se escrevia assim. Há também casos em que o I e o E estão a ser muito misturados, em que o I, quando está numa sílaba e depois repete-se o I na outra sílaba a seguir, o primeiro I torna-se um E. E isto é muito antigo, é uma coisa que já vem dos primeiros séculos, porque nós vemos na escrita que as pessoas faziam isto. Por exemplo, nós escrevemos vizinho, mas lemos muitas vezes vizinho. E agora há pessoas que estão lá em casa a dizer: "Eu não, eu não faço isso". E é verdade, principalmente mais para norte, há pessoas que não fazem aquilo que se chama dissimilação, mas esta dissimilação é mesmo muito antiga. Aliás, está preservada na escrita do mirandês, que é outra língua, mas que faz precisamente a mesma coisa, a dissimilação, e até escreve. Nós vamos olhar para a história da língua e vemos vizinho escrito com E em muitas épocas. Portanto, é um fenómeno muito antigo. Nós lemos ministro, mas escrevemos ministro. Vizinho, mas escrevemos vizinho.
Filipa e Filipa.
Exatamente. E há pessoas que consideram isto um grande erro, porque não é o que está escrito, mas na verdade, o que está escrito foi uma decisão a certa altura. Em 1911, decidiu-se pôr lá o I etimológico, mas a leitura já era há muito tempo com o E em grande parte do país, como eu estou a dizer, não é o país todo, e as pessoas podem ler ministro sem qualquer problema. E aproveito, já que estamos a falar de ministro, para revelar, Rita, um ouvinte mistério.
Pois é, porque no episódio passado, tu revelaste que tínhamos um ouvinte conhecido do ramo político.
Nós recebemos uma mensagem que eu li aqui, que nós discutimos, e que na altura eu lembro-me de dizer ao João que não deve ser a pessoa que tem este nome. A mensagem é de Paulo Rangel. Nós falamos de Paulo Rangel, sem pensar, ou melhor, será que é o ministro? Não, não deve ser. Entretanto, na semana passada, estive a participar num evento da CPLP sobre a língua portuguesa, em que estava lá o ministro Paulo Rangel. Ministro, ele se calhar vai dizer ministro. Nós queremos um pouco essa questão.
Eu, por acaso, digo ministro.
E ele veio ter comigo no fim e foi muito simpático e disse que ele é que era o Paulo Rangel que nos tinha enviado a mensagem e por isso fica aqui um cumprimento a este ouvinte. Todos os ouvintes são especiais. Este ouvinte simplesmente eu não estava a identificar quem era.
Surpreendeu-me.
Surpreendeu-me. E portanto, fica aqui um cumprimento e um agradecimento pela mensagem. E ele tinha dito na mensagem que iria enviar mais perguntas e observações e ficamos à espera, porque ele tem algumas reservas em relação a algumas soluções, como ele disse, e por isso estamos aqui para discutir. Muito obrigado ao ministro por nos ouvir. E hoje eu não sei se ainda temos tempo para discutir mais alguma.
Temos um minuto. Ainda dá?
Vou só dizer, se não houver problema, se não se importarem, que eu neste sábado vou estar com o Ricardo Pereira, que esteve aqui no "Português Suave" já há uns meses, e por causa dessa conversa no "Português Suave", acabámos por combinar conversar no Fólio, em Óbidos, no dia 17 de outubro, às 21h, e fica aqui o convite. Foi uma conversa que partiu deste programa e que agora vai passar ao Fólio. Foi um convite do Fólio, eu não tenho a confirmação se foi por causa da conversa aqui, mas tenho quase a certeza que foi por nos terem ouvido a conversar sobre várias palavras aqui no "Português Suave".
Que bom! E pode enviar as suas dúvidas para portuguesSuave@.
Não sei se sabes o número. Eu não sei, nunca sei.
Sei mais ou menos. No que toca a números, mais vale sabê-los bem. portuguessuave@observador.pt, esta é fácil, ou para o número 910 002 24185. Faça como o ministro Paulo Rangel e envie as suas dúvidas.
Espera, tu disseste 91 002?
4185.
Ok, desculpe.
Eu também ouvi mal. Mas eu acho que está certo. 910 002 4185.
É isso. Obrigado.
E foi mais uma edição de "Português Suave", especial dúvidas. Estamos de volta no domingo, é isso mesmo.