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"Tudo é possível na América". A pergunta foi colocada pelo politólogo Jaime Nogueira Pinto, um dia antes de Joe Biden ter anunciado a desistência da corrida à Casa Branca. Foi colocada num artigo assinado no site do Observador. Vaticinava já o nosso colunista do dia que entre os democratas esperava-se que o atual presidente ouvisse as muitas vozes e nós da razão. Bem-vindo, Jaime Nogueira Pinto.

Olá, boa tarde. Sim, vamos lá ver. Eu estava a pensar numa coisa muito mais genérica, estava a pensar nesta conjuntura americana.

Acontece que agora, depois de muita pressão, Joe Biden acaba mesmo por se retirar.

Acabou mesmo por retirar ou empurraram também, ou fizeram-no retirar, porque o que não fazia sentido era ele, por um lado, estar a dizer que queria ficar e, por outro lado, estar a haver uma pressão crescente de dentro a dizerem para ele sair. Portanto, ou uma coisa ou outra. Ou ele saía ou então paravam essas pressões. E pronto, ele acabou por sair.

Sendo que é hoje notícia que hesitou em tomar essa decisão por duvidar da capacidade de Kamala Harris para vencer Donald Trump, embora apoie a vice-presidente. Também antecipa aqui, Jaime Nogueira Pinto, um combate difícil?

Faz todo o sentido que ele duvidasse, porque ele sabe perfeitamente, e sabe melhor que todos nós, que algumas posições dela, do ponto de vista ideológico, é-lhe complicado ir apanhar exatamente o centro. Mesmo os democratas mais moderados, com quem Biden estava relativamente à vontade, e os chamados independentes. Portanto, naqueles estados onde se costuma normalmente decidir a eleição, porque é evidente que havia essa preocupação. Eu julgo que Biden, nesse aspecto e tendo a consciência da sua posição, também tinha consciência de que ele sair também lhe deixava a ela uma missão relativamente difícil, que é com certeza.

Diga-me uma coisa, acha que podem aparecer outros nomes até à convenção de agosto?

Não sei, não me parece. Porque ontem houve ainda umas certas hesitações, mas hoje de manhã houve uma leva enorme de políticos, nomeadamente governadores de vários estados, políticos influentes da área do Partido Democrata, a dizerem que a apoiavam. Portanto, eu acho que agora pode aparecer um ou outro candidato, mas penso que mais ou menos marginal.

No caso do vice-presidente de Kamala Harris, fala-se no Rust Belt.

Sim, alguém a buscar.

Ser um homem branco.

Pois, ela precisava de ir buscar para contrabalançar, até porque, de certo modo, e não é só por isso, mas de certo modo o Trump foi buscar alguém daí e que tornou conhecido o J.D. Vance, que tornou conhecido o Rust Belt e os problemas todos num livro famosíssimo, que aliás está traduzido também em Portugal. E esses estados foram, em 2016, os swing states que deram por margens relativamente curtas, mas deram a vitória a Trump em 2016 e que, à exceção penso que do Havaí, passaram outra vez todos pro Biden em 2020. Quer dizer, atenção que o Vance é um homem com pensamento político e nesse aspecto até é curioso, porque exatamente aquilo que de certo modo falta a Trump, que é um recém-vindo à política. É um homem que apareceu na política há 10, 11 ou 12 anos. E apareceu inesperadamente e tomando conta de uma área que até tradicionalmente nem seria aquela a que ele parecia muito afeto. Mas Vance, ao contrário, é alguém que tem pensamento político, tem ideias políticas, tem valores políticos e, portanto, é sério. É uma personalidade bastante séria nesse aspecto.

Há aqui um nome que começa a aparecer como vice-presidente ideal, que seria Josh Shapiro. Porque é o governador da Pensilvânia, é altamente popular, mais até do que os outros protocandidatos. E hoje inaugurou-se uma polêmica que é a polêmica de: "Mas é judeu". E o Partido Democrata pode ter algum problema com isso. Vai ser um ponto interessante a acompanhar nestes próximos meses.

Pois, é claro que há um ponto na área democrata que é complicado. É que exatamente têm algumas agendas contraditórias. Porque a ala esquerda do partido, além do Partido Democrata, mas que viu-se com estas manifestações todas nas universidades, que há ali uma fortíssima área, sobretudo nos jovens e também exatamente Os americanos muçulmanos, que são bastantes também, que até tradicionalmente costumavam ter posições bastante conservadoras, mas que agora nesta questão podem desertar. Aqui também há uma coisa importante: os pró-palestinianos não irão com certeza votar no Trump/Vance, mas podem abster-se. Aqui o problema, muitas vezes, neste tipo de eleição muito polarizada, é que é preciso mobilizar toda a gente e às vezes há causas contraditórias e nesse aspecto não vai ser fácil. É exatamente por isso. É Josh Shapiro?

Shapiro.

É Josh, não é? Porque há um jornalista que é Ben Shapiro, se não estou em erro.

E há o embaixador israelita em Portugal, que é Dor Shapiro.

É isso também, exatamente. Pois, é uma família bastante conhecida. Isso é o grande problema sempre das escolhas. As escolhas não custam pelo que se faz, é pelo que fica para trás ou pelo que fica contra. Agora, de qualquer maneira, têm que andar depressa, seja o que for, porque Kamala não é uma política muito conhecida. Criar também a imagem, até porque neste aspecto, aquela ideia de que basta ser contra o Trump que já mobilizam, acho que já acabou.

Vamos olhar para o que já se sabe dessa estratégia de campanha, caso Kamala Harris venha a ser confirmada como a candidata dos democratas, pelo que tem sido noticiado, Jaime Nogueira Pinto. Uma das estratégias é atacar a idade e a condição física de Donald Trump. Não pode ser aqui um tiro no pé, tendo em conta que foi isso mesmo que afastou Joe Biden e é muito recente, está na memória de toda a gente.

Tiro no pé. Vou aproveitar estarmos no ar para dizer que tiro no pé é uma coisa que se usa em Portugal, não está correto, porque quem dava tiros no pé, normalmente no tempo do serviço militar, eram as pessoas que não queriam fazer serviço militar. Era uma coisa desonrosa, mas era útil para o próprio. E aqui a gente usa isso como se fosse uma coisa autopunitiva ou fosse má para o próprio. Normalmente o tiro no pé era dado com essa intenção. Não era o falhar, porque dar um tiro e dar no pé é preciso querer falhar muito.

Mas deve ser por aqui a estratégia dos democratas, atacar a idade e a condição física de Donald Trump.

Não é famosa, porque tiveram o Biden, que eles só descobriram agora. Só as pessoas na direita é que há uns dois ou três anos diziam que o Biden começava a trocar coisas. As pessoas no Partido Democrata defendiam a integridade e a culpa. Não sei se é uma grande estratégia. A outra é demonizá-lo. Ele já está suficientemente demonizado, também já não sei se o podem demonizar mais do que já o demonizaram. Enfim, eles têm que arranjar. Neste momento são eles que têm, de certo modo, partindo do princípio, também não sei até que ponto é real, porque as sondagens valem o que valem. Mas partindo do princípio que tudo indica que neste momento, exatamente por causa dos swing states e até vê-se nos democratas, e viu-se até, foi uma das insistências muito grandes para Biden sair, é que não era só a questão da presidência, é a questão do Congresso, da parte do Congresso que é renovada, ser arrastada e os republicanos ficarem com maioria nos representantes que já têm, mas no próprio Senado. Esse perigo, penso eu, foi o que alertou mais, para além da própria presidência. Nesta altura, parece-me que é o ticket democrata que tem que desconstruir. Pode ter várias coisas, várias táticas, mas eu já não sei se essas táticas vão funcionar muito. Aquelas histórias que foram os russos. Não sei se funcionam muito na América. Acho que já deram o que tinham a dar. Insistir no mesmo, não sei se vai resultar muito. Não vai ser fácil.

Para Donald Trump também não, porque ele também tinha um alvo. A idade, a fragilidade de Joe Biden e agora perde esse alvo.

Sim, mas o Trump, com a idade que tem, não pareceu nenhuma fragilidade. Até talvez o programa do Trump tenha excesso de não fragilidade, que às vezes é bastante excessivo, até para cima, do que devia ser. Agora, por acaso, fez um discurso muito longo e um bocado aborrecido, mas não é pela fragilidade que o vão atacar.

Mas é natural que a campanha republicana se foque muito na desistência de Joe Biden, na renúncia ao cargo também ainda antes das eleições, tendo em conta o estado de saúde.

Vai explorar, com certeza, até porque foi uma coisa que eu ainda não percebi bem, se o Biden desiste da campanha, mas conclui o seu mandato.

Pretende cumpri-lo até o fim, ele disse isso.

Ele pretende cumprir o mandato, ele desiste.

O candidato do partido.

O que também cria aí uma vulnerabilidade, porque então a ideia de dizer: "Não estás pronto para candidato, mas estás para continuar a ser", entre outras coisas, o comandante em chefe dos Estados Unidos. O presidente também é o commander in chief. Com todo este mundo que está neste momento muito tenso. São debilidades grandes. Eu acho que o Partido Democrata já não está com aquela disciplina que costumava ter e que, aliás, em 2020, levou exatamente, num dado momento, a escolherem o Biden por verem que era a pessoa que podia fazer uma ponte entre as várias tendências, embora não fosse um grande orador, havia lá quem fosse melhor, mas houve uma decisão que nós vimos que foi cumprida. E agora, desta vez, não aconteceu isso. Desta vez não aconteceu nada disso, pelo menos houve uma imagem que eu agora acho que vai acabar, mas houve uma imagem de grande divisão nestes dias finais, nestas duas ou três semanas pós-debate. Embora acabasse por ter, de certo modo, sido dominante aquilo que se viu logo no dia seguinte, com aquele conjunto dos editorialistas do New York Times, de certo modo mostrando, mais uma vez, a força do chamado poder cultural. Isso foi muito interessante também. Depois veio o resto.

Sim, veio o resto e agora temos pouco mais de três meses de campanha para essas presidenciais de novembro. Muito obrigada, Jaime Nogueira Pinto, por ter sido o nosso colunista do dia. Obrigada, boa semana.

Sim, senhora. Obrigada.