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Marco Paulo é um dos mais populares cantores portugueses. Tem vendas superiores a cinco milhões de cópias, recebeu 140 discos de platina, ouro, prata, ainda um de diamante. O Bruno Vieira Amaral está aqui conosco e conhece muito bem a vida e obra de Marco Paulo. Bruno, estamos a falar de um artista muito consensual, pelo menos agora.

Sim, acabou por ser. No final dos anos 70, início dos anos 80, alcança o período de maior sucesso na carreira. Ele tinha sido revelado em meados dos anos 60 num programa televisivo de talentos da cantora Cidália Meireles, na RTP. Na altura ainda se chamava João Simão da Silva, o seu nome, e foi descoberto por Mário Martins, produtor, que era o responsável de artistas e repertório da Valentim de Carvalho. E é ele que tem a ideia de fazer de Marco Paulo um ídolo.

Percebeu lá um potencial.

Por causa da voz, porque ele tinha, de facto, uma voz extraordinária. Eu falei o ano passado com o Mário Martins e ele dizia-me que tinha uma voz com harmônicos, que vivia por si só, uma voz cheia. E depois, a questão era saber que tipo de repertório é que ele deveria cantar. E desde logo começaram a escolher músicas, canções internacionais e fazer as respectivas adaptações. Ele tem algum sucesso com o EP de estreia de 1966. Participa no festival, no Grande Prémio da Canção de 1967, com uma canção escrita por um dos grandes compositores da época, Nóbrega e Sousa, mas depois tem um período de algum apagamento entre o final dos anos 60 e até 1977, quando reaparece também com canções estrangeiras adaptadas, como "Ninguém, Ninguém" ou "Canção Proibida", que são os primeiros grandes sucessos depois dessa primeira fase e que depois têm continuidade com o "Tenho Dois Amores". Tudo canções adaptadas, muitas delas com letra escrita por António José, que acaba por ser também corresponsável pelo grande sucesso de Marco Paulo. Eu diria que há aqui uma tríade que é a de Marco Paulo, o cantor.

A voz.

Mário Martins, o produtor, e quem ia à procura dessas canções, e António José, que fazia as adaptações. E eram adaptações tão perfeitas que muitas pessoas nem sabiam que eram adaptações de canções estrangeiras. E isso marca o grande sucesso de Marco Paulo nos anos 80. Ele depois tem programas televisivos, já nos anos 90, na RTP. Nunca voltou a alcançar o mesmo sucesso que teve no período áureo dos anos 80, mas acabou por se tornar um nome consensual na música portuguesa, muito pelas suas capacidades interpretativas. Era, de facto, um intérprete de exceção. Provavelmente, não teve sempre o repertório à altura da sua voz. Mas só pra contar aqui uma curiosidade, quando o Mário Martins lhe apresentou o original do "Eu Tenho Dois Amores".

Era alemão, Bruno?

Era grego. Era uma canção grega e o Marco Paulo dizia que não queria cantar aquilo. O Mário Martins disse-me que ele até chorou, porque não queria, achava que aquela canção era terrível, que não fazia jus à sua voz. E acaba por ser, se calhar, o maior sucesso de toda a carreira de Marco Paulo, "Eu Tenho Dois Amores". Lá está, uma vez mais, com adaptação de António José.

E acho que nos recordaremos todos dos momentos em que ele passava o microfone de uma mão pra outra, todos à espera do dia em que o microfone iria cair.

Sim, e o "Serafim Saudade" é uma homenagem também dos anos 80, uma homenagem a essa figura e a esse gesto, que acabou por se tornar icônico de Marco Paulo.