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Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador, que está conosco. Miguel, diria que a ideia forte deste discurso de Luís Montenegro, que acabamos de ouvir, passou por afirmar o PSD como o partido que tomou a iniciativa de anunciar medidas para apoiar famílias e empresas a lidar com esta crise do aumento dos preços ainda em maio, há três meses, como frisou Montenegro, por contraponto ao governo que o líder do PSD acusa de passividade.

Sim, precisamente. Há aqui um ponto em que o PSD está numa situação de fragilidade: quem vai dar o dinheiro é António Costa, e contra isso há pouco a fazer. Além disso, António Costa tem o controle da máquina, por assim dizer. E, portanto, o PSD começou por apresentar um pacote de ajudas que chegava aos mil milhões de euros. Isso aconteceu quando foi do Pontal, mais ou menos por essa altura. Agora, esta sexta-feira, já passou esse pacote de ajudas para 1,5 mil milhões de euros e já se percebeu que o governo deve estar a apontar para os 2 mil milhões de euros naquilo que vai anunciar na segunda-feira. Isso é um problema para o PSD, porque, na verdade, o PS vai sempre poder dizer: "Olhem, nós demos mais dinheiro do que aquilo que o PSD queria dar, porque o PSD é o partido da austeridade e que não quer ajudar as pessoas." Esta vai ser a conversa do PS. Luís Montenegro refugiou-se naquilo que é uma das fragilidades do Partido Socialista neste ponto. De facto, com toda a razão, ele lembrou, e bem, que primeiro o governo andou a dizer que a inflação era passageira, que havia aqui uma precipitação e que possivelmente a inflação ia durar pouco tempo, quando já toda a gente tinha explicado que não era passageira, e António Costa e os seus ministros insistiam que possivelmente era passageira e, portanto, era preciso esperar. Depois, no discurso do Estado da Nação, António Costa reconheceu que ia ser preciso fazer alguma coisa, mas disse que era só em setembro, era preciso preparar isso com calma e que só em setembro é que haveria novidades. E de lá para cá, à medida que vários governos da União Europeia iam apresentando os seus pacotes de ajuda, António Costa insistia que tínhamos que esperar pela luz verde de Bruxelas, quando a prática mostrava que vários governos estavam a avançar sem essa luz verde e que haveria até uma espécie de luz verde informal. Por isso, o PS demorou muito tempo, António Costa demorou muito tempo a reagir, sem nenhum argumento lógico para isso, e essa é uma fragilidade que o PSD vai explorar. E quando agora chega esta Universidade de Verão do PSD, Luís Montenegro faz as contas e diz: "Bem, noutros países a ajuda vai durar seis meses deste ano e em Portugal vai durar três meses." E para isso António Costa não tem uma boa resposta.

Miguel, além desta escalada de preços, outro tema forte deste discurso foi a saúde. Luís Montenegro também apresentou aqui o PSD numa luz em contraponto ao que diz ser o PS e a esquerda, que acusa de depauperarem o Serviço Nacional de Saúde, e diz também que a saída de Marta Temido não vai resolver nada nos problemas da saúde.

A questão da saúde, ao contrário do que acontece com este pacote de combate aos efeitos da inflação, em que, como o próprio Luís Montenegro reconhece, a solução de PS e de PSD basicamente é a mesma. Eles têm as mesmas soluções para este problema. Quando muito, haverá uma diferença de valores, se é mais um pouquinho ou menos um pouquinho, se é mais um pouquinho num lado ou noutro, mas a receita basicamente é igual. Na questão da saúde, não. A questão da saúde é um daqueles pontos em que, de facto, existem diferenças enormes entre o PS e o PSD. E por isso é um daqueles pontos em que Luís Montenegro deve aproveitar os próximos tempos e os próximos anos até às eleições para explicar claramente às pessoas o que o PSD faria de diferente. E esse é um ponto em que o PSD vai ter que se atravessar um pouquinho, se calhar agora ainda é cedo e vai ter que esperar para estar mais perto das eleições, mas o PSD vai ter que explicar claramente e até eventualmente usando exemplos lá de fora, outros países da União Europeia onde existem outras soluções com melhores resultados, e isso é sempre um ponto que resulta. Uma das coisas que, por exemplo, a Iniciativa Liberal faz bem é mostrar os exemplos lá de fora e a melhor forma de Luís Montenegro se defender de ataques que virão dizer que as propostas do PSD vão destruir o Serviço Nacional de Saúde, a melhor forma de se defender disso é dizendo: "Não, olhem pra Alemanha, olhem para outros países e vejam como lá as coisas funcionam de maneira diferente." Aí Luís Montenegro vai ter que mostrar que é possível fazer diferente. E tem um ponto quando diz que António Costa está aqui num beco sem saída, porque se a atual política nos conduziu a estes problemas, e se António Costa insiste que a política não vai mudar, mesmo mudando de ministro, então presumimos todos, antecipamos todos que os resultados continuarão a ser os mesmos, que os problemas ficarão por resolver. E, portanto, aqui Luís Montenegro costuma falar muito e ter discursos muito longos, fez um bom discurso curto e em que se focou, lá está, SNS, onde além de ser o tema da semana passada, existem diferenças enormes estruturais entre os dois partidos, e tentar antecipar já e começar a combater a forma como António Costa vai apresentar o pacote de apoio às pessoas que estão a sofrer com a inflação, que vai ser a notícia da próxima semana. Acho que ele, que às vezes fala demais e sem grande foco, aqui conseguiu fazer um bom discurso.