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"Um optimista no jardim" é o título do artigo assinado hoje no site do Observador pelo Alexandre Borges, escritor e argumentista. É o nosso colunista do dia. Bem-vindo, Alexandre.
Olá.
O teu artigo é de facto otimista, como o título indica, começa por agarrar-se ao que de melhor aconteceu nestas eleições, à redução da abstenção. Estavas à espera que seis milhões de pessoas tivessem ido votar ou foi uma agradável surpresa?
Foi uma agradável surpresa, mesmo. Sempre antevejo as eleições quando tenho a sensação de que isso está a acontecer, mas cada um de nós tem essa impressão apenas na rua, no seu bairro, na sua freguesia. E eu pergunto sempre, por acaso, sempre que vou votar, pergunto aos senhores da mesa como é que está a ser a afluência. Várias vezes nos últimos anos até tive a sensação de que perante a ameaça ou a expectativa de que as participações fossem em baixas, elas eram razoáveis, mas no fim confrontavam-se sempre com números bastante assustadores, até porque enfim, também tem a ver com a atualização de cadernetas eleitorais, etc. Mas este ano em particular tive a perceção de que havia muita gente. A reação das pessoas na mesa quando perguntei foi indiscutível, foi dizer: "Não, a participação foi muito boa." E depois de repente descobrimos os números. Um bocadinho antes das 20h já havia esse primeiro dado acerca dos valores baixos da abstenção. E esse é um triunfo, pois nunca pensei que de facto chegasse a este nível. Nunca tivemos tanta gente a votar em Portugal, embora naturalmente de forma percentual seja bastante menor do que em 76. Mas é extraordinário e acho que é um sinal de vitalidade enorme e de facto agarrei-me a esse lado mais otimista, digamos assim, para ver aí um argumento indiscutível acerca da saúde da nossa democracia. Acho que por aí podemos e devemos estar orgulhosos.
Mas também consideras positivo que o resultado destas eleições tenha sido diferente das anteriores. E eu pergunto por quê?
Pronto, então eu dou um passo atrás para dizer outra coisa, que é: de facto, o otimista, como vocês estavam a perguntar há pouco, se seria mesmo um otimista, naturalmente o texto é bastante irônico. Eu confesso-vos que nessa noite fiquei tão preocupado como muita outra gente. Isto é, preocupa-me ver um partido que eu pessoalmente vejo como populista, um partido que me parece de facto dizer apenas coisas para agradar, aquilo que acha que vai agradar às pessoas, onde eu não observo a consistência de uma opção política fiável. Preocupou-me que tanta gente tivesse deixado a confiança em partidos mais tradicionais para votar ali. Portanto, a minha primeira reação foi preocupado e foi pessimista, até porque eu sou naturalmente um pessimista. Mas ao longo dos dias e à medida que vamos digerindo a situação e ouvindo os comentários de toda a gente, eu próprio precisava de algo otimista, eu próprio precisava porque de facto o pessimismo raramente nos guia a grandes lados. E, portanto, a minha crônica de hoje é muito baseada, para quem conhece vai reconhecer facilmente os traços, é uma brincadeira com o "Cândido" do Voltaire, que é um livro escrito no século XVIII, até muito relacionado com o terramoto de Lisboa, e em que o otimismo dele, chama-se aliás "Cândido ou O Otimismo", é um texto completamente irônico acerca das correntes filosóficas que viam o mundo à época como um lugar bom e bem pensado, e onde mesmo as pequenas coisas más, quando se olhava para o todo, se compreendia a sua razão de ser e enfim, eram boas. É uma pequena novela, é muito irônica. E aqui eu também fui um bocadinho a isso, procurando as razões para um otimismo que é um pouco amargo. Mas apesar de tudo, se eu quiser procurar as coisas boas que aconteceram nesta eleição, eu acho que nós podemos ver aqui algo de bom no sentido de que, sabendo que as coisas não estão bem, que há nomeadamente tantos setores assumidamente descontentes com o que tem acontecido em Portugal, acho importante que então as eleições tenham produzido um resultado diferente do que vinham produzindo quase ao longo da última década.
E que tenham esse reforço da participação. Obrigado, Alexandre Borges.
Muito obrigado.
Foi o colunista do dia de hoje aqui no Observador.