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The building's exploding right now. You got people running up the street.

Another passenger plane hitting the World Trade Center. The Twin Towers of the World Trade Center, both of them being damaged by impacts from planes. We saw one happen.

It is a very hard thing to watch.

Manhã de 11 de setembro de 2001, em Nova York, 09h59. A torre sul do World Trade Center colapsa com milhões de pessoas a assistir em direto, um pouco por todo o mundo. Meia hora depois, às 10h28, colapsou a torre norte. Luiz Mendes era o comissário assistente para os projetos especiais no departamento de design e construção de Nova York e foi chamado de urgência para o Ground Zero. Luiz Mendes nasceu no final da década de 50, em Lisboa, um alfacinha de gema. Nasceu nas encostas do Castelo de São Jorge. Com 15 anos emigrou para Nova York e está já há quase 50 anos em território norte-americano. A 11 de setembro de 2001 trabalhava como comissário assistente para os projetos especiais no departamento de design e construção de Nova York. Foi nesse mesmo dia chamado ao Ground Zero para começar a preparar o futuro. Antes dessa chamada, Luiz, onde é que estava e como é que soube do 11 de setembro?

Ia a caminho do trabalho quando as notícias começam a girar, que via-se. Ia cedo. Depois chega a um ponto que realmente as notícias começam a dizer que é um ataque terrorista. Já eu ia a caminho do trabalho, chego ao trabalho, em Queens, que é de fora da zona de Manhattan, mas ainda se vê o fumo das torres. E daí começo a preparar uma equipa para ir comigo para baixo. Nós recebemos um telefonema do City Hall para nos dizer que iam mandar uns carros da polícia para nos irem buscar. E assim foi, os carros da polícia foram nos buscar, vamos para Manhattan. Quando entramos em Manhattan, à frente dos nossos olhos, parecia que o mundo estava a acabar. Eram milhares e milhares de pessoas a correr. Foi uma cena surreal, que não dava para acreditar, parecia um filme. E eu chego à zona do Ground Zero, começamos a ver se conseguimos meter os nossos times no lugar para ajudar nas buscas de salvamento, para não acontecer mais desastres. E quando eu entro no Ground Zero, ainda envolvido em pó e em fumo e as centenas de pessoas já lá a trabalhar, e os escombros de dois prédios daquela dimensão e pedaços humanos espalhados. Foi uma cena horrível, uma cena que realmente nunca passei por uma coisa daquelas e foi realmente triste e horrível. E na parte humana foi uma coisa parva, como é que pode haver pessoas que possam fazer coisas dessas? E depois há a parte da construção que nós também tivemos que ligar. Tivemos que ligar a parte para ajudar. E a parte da construção realmente foi um trabalho extraordinário. Foi um dos maiores trabalhos que eu já tive envolvido, e tive a sorte de estar lá e não só fiquei envolvido, como fiquei a tomar conta de todas as operações no terreno. E foi realmente uma coisa, na parte logística e coordenação, foi uma coisa excepcional, foi um trabalho que realmente poucos aparecem para trabalhos desta dimensão e há poucas vezes que estes trabalhos aparecem para que pessoas se possam envolver como deu.

Luiz, eu quero olhar um bocadinho mais pormenorizadamente para cada uma dessas fases. Ainda no dia 11, escrevia que recebeu essa chamada para se dirigir ao local, ao Ground Zero, depois da queda da segunda torre e que chegou lá e viu toda essa destruição. Qual é que foi a primeira coisa que teve de fazer? Porque nessa altura ainda estavam a decorrer e decorreram durante bastante tempo as operações de resgate.

No primeiro mês as operações de salvamento continuaram. O nosso trabalho foi ajudar na parte de engenharia, de máquinas, tudo para que os bombeiros, a polícia e as outras equipas de salvamento pudessem trabalhar numa situação de segurança, numa situação em que não houvesse mais acidentes e nós tivemos que ajudá-los e trabalhar com eles. Havia um plano, o plano era para trabalhar 24 horas ao dia e o plano era para não andar uns em cima dos outros. A comunicação passou a ser uma grande fonte de coordenação, não só por causa de tudo o que estava a acontecer, que mudava de hora a hora, mas também a posição de máquinas, a posição de pessoas, para que as pessoas a trabalharem não tivessem um acidente.

E houve algum acidente?

Não, nós tínhamos um bom departamento de safety e nós realmente fizemos um bom trabalho para que isso não tivesse acontecido, mas não houve nada. Quer dizer, pequenas coisas.

Sim.

E depois começamos a planear a parte de engenharia de escombros, entrar em buracos e trazer. A primeira coisa que nós começamos a fazer foi abrir vias de comunicação para que a caminhonagem pudesse entrar e sair e começar a limpar para que pudéssemos começar a entrar dentro da zona do Ground Zero. Tivemos que abrir vias de comunicação para que a caminhonagem pudesse levar escombros para uns batelões que tínhamos no Hudson River. Esses batelões iam para uma lixeira que nós abríamos No que estava fechado e nós abríamos, que era em Staten Island, abríamos só para receber os escombros e também para inspecionar todos os escombros que saíam, tudo o que saía do Ground Zero ia para aí, que era inspecionado por um time do NYPD e pelos bombeiros. Era tudo inspecionado para objetos pessoais e tudo o que fosse pedaços humanos que podiam ir dentro dos caminhões que nós mandamos o debris para Staten Island. Aí também se montou um grande dispositivo. Mas na parte do Ground Zero, montou-se um dispositivo, montou-se uma pequena cidade em que trabalhávamos 24 horas ao dia. Tinha por cima de 3 mil pessoas.

Era isso que eu ia perguntar, como era o seu horário de trabalho nessa altura? Era todo o dia?

O meu horário era se eu pudesse trabalhar 24 horas ao dia, dois dias seguidos, que era impossível, porque eu andava cansadíssimo e uma pessoa chega às 14, 15, 16 horas, os olhos começam a fechar. Eu dormia numa cadeira, eu levantava e íamos outra vez e tínhamos mais quatro, cinco horas enquanto não começávamos a ficar cansados outra vez. E ora lá, eu dormia lá. Eu só vim a casa, passado duas semanas. Tínhamos lá tudo. Nós queríamos roupa, tínhamos roupa, queríamos botas, tínhamos botas. Nós tínhamos tudo o que nós pudéssemos precisar. Montou-se a Cruz Vermelha e tudo à volta.

Um grande dispositivo para apoiar todos esses trabalhos.

Não só restaurantes abertos lá embaixo para nos apoiar, como a Cruz Vermelha, como todos os outros, a Salvation Army que ajudava em tudo, desde médicos, massagens, para que nós pudéssemos ter um conforto lá embaixo.

Ou seja, a logística vinha desde a alimentação à roupa, toda essa logística para poderem estar o máximo de tempo possível no local, foi disponibilizado. E houve solidariedade por parte dos nova-iorquinos em disponibilizar tudo isso também.

Grande solidariedade. Foi a combinação de forças como o National Guard, com a polícia, com os bombeiros. Tudo se deu e tudo se entendeu às mil maravilhas, quer dizer, havia sempre conflitos aqui e acolá, mas nada de extraordinário. E depois da parte da construção, a parte da engenharia, a parte das máquinas. Agora já viu que vem desde esta coordenação, não é só a construção, é o tráfego, é de caminhões a entrar e a sair, é a lavagem de caminhões, as partes para as pessoas comerem, é o tal apoio da Cruz Vermelha. Montou-se uma pequena cidade em que, na minha parte, que foi a parte principal, nós tivemos também que fazer isto de uma maneira que nós pudéssemos ser sensíveis às pessoas que faleceram e às famílias das pessoas que faleceram, porque realmente foi a realidade e a razão porque nós estávamos ali, foi para ver se conseguíamos salvar e depois o resto, para ver se conseguíamos tirar os corpos e tudo o que nós vimos de uma maneira que fosse sensível e de respeito.

Sim. Luiz, depois de todos esses dias olhando para todo esse trabalho que foi feito, consegue quantificar quanto tempo é que demorou todo esse trabalho de remoção de material?

Foi desde o 11 de setembro até meados de maio.

Portanto, foi quase meio ano completo a retirar.

E depois é tudo retirado até à parte de baixo desta que nós chamamos a tal banheira do Ground Zero. Essa banheira era como se fosse um buraco por volta dos 30 metros, em que todas as infraestruturas do Ground Zero estavam cá todas embaixo, incluindo linhas férreas. E foi tudo coordenado para que toda essa limpeza fosse não só a limpeza para tirar tudo, mas também para proteger a tal slurry wall, que protegia essa tal banheira da água do Hudson River. Foi uma das primeiras coisas que nós fizemos, foi proteger essa parede, porque senão tinha havido um desastre em Nova Iorque e a parede podia ter caído e a água do Hudson River entrava para dentro e criava um espetáculo pior ainda. As coisas foram feitas, mas foram feitas com uma razão. Tudo o que foi feito, foi feito com uma razão, com planeamento, até que nós íamos de fase um para a fase dois, para a fase três, para a fase quatro. E tudo com a mente, com a proteção não só das pessoas, como o resto das estruturas que estavam ainda a proteger certas condições existentes.

Portanto, havia sempre muita preocupação, havia muitos riscos em toda esta operação.

Todos os dias havia muitos riscos, porque tudo o que nós estávamos lá era, quer dizer, dois prédios daquela dimensão caem e não se vê nada sem ser pó e ferro, e o ferro estava todo entremeado e aquilo a qualquer momento esse ferro podia cair e podia provocar um desabamento debaixo das pessoas e então aí havia mais mortes. Por isso tudo o que nós fazíamos era tudo feito com contrapeso e medida.

Luís, estamos com alguns problemas nesta ligação, resultado ainda daquilo que foi a passagem da tempestade Ida pelo estado de Nova Iorque e, por isso, estas falhas, por vezes, nesta ligação. Tempestade que está também a exigir o seu trabalho. Vamos seguir esta conversa, apesar desses pequenos cortes. Mas Luís, tal como há 20 anos, tinha esse papel de estar de prontidão para responder às emergências como comissário-assistente para os projetos especiais no Departamento de Design e Construção de Nova Iorque. Só que neste caso concreto, relativamente ao 11 de setembro, esteve muito tempo no Ground Zero e há vários relatos, ao longo dos anos, de pessoas com complicações de saúde devido às poeiras que respiraram e devido aos químicos no local.

Houve muitos casos desses, ainda estão a acontecer, mas essas pessoas foram todas registradas num centro federal de saúde em que eles ajudam essas pessoas. E houve muitos que estão doentes, ficaram doentes. Não sei se foram por causa do Ground Zero, mas que houve muitas pessoas que faleceram até às contas do Ground Zero.

O Luís teve alguma complicação a nível de saúde?

Eu tive alguns problemas, mas felizmente tudo se resolveu. Depois do 11 de setembro apareci com um coiso no pescoço, mas era benigno, era tudo bem. Não houve mais problemas e eu continuo esta inspeção médica.

Luís Mendes teve um pequeno problema de saúde, mas ao longo dos anos, muitos foram os trabalhadores que sofreram complicações graves ou que chegaram mesmo a morrer. Depois de terminar a remoção de todos os escombros do Ground Zero, Luís Mendes foi convidado a coordenar toda a logística relativa à execução do memorial e do museu que está agora no exato local onde estavam as Torres Gêmeas em 2001. Limpou os estragos e reconstruiu toda a zona que sofreu com o impacto destes atentados de 11 de setembro, o dia que mudou o mundo.

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