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"Quente e Frio", o podcast da Rádio Observador dedicado à meteorologia, com a Filomena Martins. Bem-vinda, Filomena.

Olá, Ricardo. Judite.

Olá.

E a pergunta que se impõe sempre nesta altura, fim de semana, final de julho, muitas pessoas a irem de férias, outras a passar o fim de semana fora: vai estar sol e calor?

Não.

Odeia.

Ricardo, vai chover.

Odeia.

Vai chover e vai fazer frio. Já percebi que vais de férias, mas nos primeiros dias vai correr mal. Mas depois não te preocupes, porque há cada vez mais sinais de que o calor vai voltar a intensificar-se com a chegada de agosto, portanto a meio da semana, terça ou quarta. Ainda é cedo para confirmar que vem uma nova onda de calor, pelo menos para Portugal, mas os principais modelos meteorológicos estão todos a começar a convergir para que vai registar-se um novo episódio de calor muito intenso em grande parte da Europa. Até lá, a atmosfera vai dar uma volta de 180 graus em apenas três dias. Neste momento há uma depressão instalada a oeste da península Ibérica e esta depressão, que te fará deprimir, funciona como uma porta aberta para o Atlântico, deixa entrar ar mais fresco, aumenta as nuvens e traz aguaceiros ao norte e centro, sobretudo, esta sexta-feira e depois no sábado. Mas essa porta fecha-se rapidamente. À medida que a depressão se desloca para leste, o anticiclone dos Açores, o nosso velho amigo, vai voltar a estender-se sobre a península Ibérica através de uma crista anticiclónica e, ao mesmo tempo, instala-se uma circulação de sudoeste, começa a transportar ar muito mais quente vindo do norte de África, e essa mudança na circulação da atmosfera explica a subida brusca nas temperaturas. Enquanto no sábado o Porto não deverá passar dos 24°, Coimbra dos 27, Lisboa dos 28 e a Guarda dos 23, depois muda tudo.

Assim não é mau.

Não.

Muda tudo como assim?

Na segunda-feira, pra comparação, a Guarda volta para 32, Viseu para 36, Coimbra para 37, Castelo Branco para 38, Évora para 39 e Santarém já volta aos 40.

Então o fim de semana é só mesmo pra estragar o fim de semana.

É isso.

Baixa um bocadinho, depois segunda-feira regressa.

É peak. Em muitas regiões do interior, a temperatura sobe entre 8 a 10, 11 graus em apenas dois dias. E depois desta subida peak, todas as atenções ficam então voltadas pra terça, quarta-feira, início de agosto, porque, como eu estava a dizer, os modelos mostram um cenário cada vez mais consistente de calor persistente sobre grande parte da Europa. Não é possível confirmar ainda a tal nova onda de calor, mas os sinais começam a aumentar e os próximos dias vão ser decisivos.

Mas, entretanto, Filomena, há aqui uma dúvida a pairar. Como é que o Algarve, onde faz mais calor, está com água nesta altura mais fria do que algumas praias do norte, onde quando entramos na água, até os ossos doem?

Pois é. Mas é melhor ires para o Cabidelo neste momento ou lá pra cima, mesmo para o topo do país.

Para Moledo.

Para Moledo. A água está a 20, 21 graus em toda a costa ocidental, mesmo lá na pontinha, no norte, o que pra quem é frequentador deve deixar aquilo um caldo, e está só 18 a 19 graus no Algarve, que é um gelo. A explicação está numa velha conhecida dos portugueses, de que já falamos aqui, a nortada, a velha nortada, porque durante boa parte de junho e julho, esse vento praticamente desapareceu. E sem nortada, a água aquecida pelo sol ficou junto à costa durante vários dias e como não era empurrada para o largo, para o oceano, foi acumulando calor e a temperatura do mar atingiu estes valores pouco habituais, até 24, 25 graus no Algarve e acima dos 20 graus em boa parte da costa ocidental.

Mas entretanto a nortada regressou.

Foi isso mesmo. E quando sopra com força a nortada, acontece uma verdadeira troca de águas. O vento empurra para o largo a camada superficial e quentinha, e ao afastar essa água, abre espaço junto à costa, o espaço é ocupado por água muito mais fria, que vem lá das profundezas. Chama-se a isso afloramento costeiro ou ressurgência, e é um elevador natural. A água quente vai pro largo, a fria sobe à superfície e faz com que a temperatura do mar caia rapidamente para os 17, 18 graus em várias praias algarvias.

Temos ainda 30 segundos pra falar de uma curiosidade, uma imagem que parece saída do inverno, mas é deste mês de julho, geada nos Países Baixos.

É isso. Aconteceu na região de Twente, nos Países Baixos, e foi a primeira vez que se observou geada ao nível do solo durante o mês de julho. Desde que existem registros, não se tinha notado essa geada. Atenção que o ar não estava abaixo de zero, a temperatura oficial medida a metro e meio de altura era positiva. O que aconteceu foi outra coisa. Durante a noite, o céu esteve completamente limpo, quase não havia vento e sem nuvens pra fazer de tampa e devolver parte do calor à superfície, o solo perdeu energia, por radiação, claro, durante a madrugada, e a relva arrefeceu muito mais depressa do que o ar que está acima dela. Chegou um momento em que a sua temperatura desceu abaixo de zero graus e formou uma fina camada de geada.

Geada no hemisfério positivo.

Não. E assim, enquanto o sul da Europa está com calor extremo, uma região a norte do continente acordou com uma paisagem típica de uma manhã de inverno, relva branquinha.

E segunda-feira mais "Quente e Frio", sempre disponível em podcast.