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"Quente e Frio", todas as tardes na Rádio Observador, com a Filomena Martins. Olá, Filomena. Boa sexta-feira.

Boa sexta-feira, Nelson.

Quase bom fim de semana. O calor ainda pode ultrapassar os 30 graus até este domingo, mas não em todo o país, não é?

Não, e depois disso, má notícia pra quem gosta de calor, é que não se vislumbra um regresso dessas temperaturas em Portugal, pelo menos até ao outro fim de semana, ao primeiro fim de semana de outubro, o fim de semana prolongado de 3 e 4 de outubro, que inclui o feriado do dia 5. Ou pelo menos esta é a tendência das previsões, embora ainda possa haver alterações, ainda estamos distantes. E a mudança, como já temos dito, não fica pelas temperaturas. A chuva de que temos vindo a falar vai chegar este domingo, primeiro lá em cima, ao extremo norte, e depois vai estender-se às outras regiões do continente na segunda-feira. Pelo meio, vamos ter mais nuvens, regresso do nevoeiro a algumas zonas do litoral e depois na segunda-feira, com o vento a rodar pra sul, vamos ter vento sul, vai transportar mais umidade e podemos tornar as noites mais amenas, mas isso não significa que o calor regresse. O aumento da nebulosidade e a chegada da chuva deverão limitar a subida das temperaturas durante o dia e é provável que venha chuva ao longo da semana.

Essa chuva está mais programada para o início da semana. Por exemplo, aqui na região de Lisboa, só talvez a partir de segunda-feira, nalgumas zonas do norte, talvez já no domingo isso possa acontecer, no litoral norte e centro. Como é que isto vai ser? Há mais nuvens até nas próximas horas, mas ainda sem chuva.

Ainda sem chuva. Domingo, sim, a chuva, como eu estava a dizer, no extremo norte, depois sábado mais nuvens, mas ainda sem chuva. As temperaturas é que começam a cair. A chuva domingo chegará talvez à noite, ao final do dia, acompanhada de trovoadas. É preciso ter atenção às trovoadas. Segunda-feira, sim, chuva mais frequente e o tal vento sul, com aguaceiros a partir da tarde, podendo também vir com trovoada. E terça e quarta-feira, aí, sim, a chuva deve continuar. Depende da evolução do trajeto das depressões atlânticas e da posição das frentes que elas trazem, e pode ser forte a partir daí. O norte e o centro estão mais expostos a esta chuva e ao vento, mas vai depender muito de como estas depressões vão evoluir. Ainda não é possível avançar com valores e com o local da precipitação ou com as rajadas de vento. Atenção, só uma pequena nota à Madeira, que enquanto o continente se prepara pra chuva, no arquipélago está com avisos de calor amarelos e laranjas, que é pra esta sexta-feira, que é pra sábado.

É verdade, laranja no litoral, amarelo no interior, temperaturas acima dos 30 graus ou a rondar os 30 graus. O problema é que as noites na ilha da Madeira estão nos 24.

É muito ótimo.

É muito calor. Mas olha, para a próxima semana, que os dados, se calhar, ainda não são assim muito concretos, não é?

Não são, porque tu nunca sabes bem qual é a rota de uma depressão, mas existe, e isso é uma possibilidade grande neste momento, de interação entre as duas depressões previstas. Isto poderá provocar um aprofundamento muito rápido, a tal ciclogênese explosiva de que ontem falámos, e esta trajetória será determinante. O sistema poderá ir pelo Atlântico Norte até à Irlanda, com as frontes a atingirem o noroeste da península, a Galiza e o Cantábrico podem ter ondas grandes. Em Portugal, está tudo concentrado na zona do norte e centro pra chuva e vento. Depois, a segunda depressão, aquela que está mais próxima da península e que poderá, de fato, intensificar-se muito, essa determinará a intensidade da chuva de terça e quarta-feira, que dissemos que vai ser a mais forte.

Estas depressões ou tempestades já têm nome, ou não?

Pode chamar-se Adam, será a primeira a ser nomeada.

Começa por A, não é?

Começa por A. Já estão nomeadas todas e se vier a ter nome, será Adam. Mas a eventual ciclogênese explosiva, a tal ciclone bomba também, para quem quer chamar outra coisa, e a nomeação de uma depressão são duas coisas diferentes, nada está garantido. E há ainda um contraste também a destacar até lá, que estas grandes diferenças de temperaturas que vamos ter de manhã e de noite, em algumas localidades do interior podemos ter mínimas de 10 e máximas perto dos 30. Portanto, estamos a falar de 20 graus de diferença num único dia. Depois, com a chegada da chuva, isto vai diminuir.

Temos então uma grande amplitude térmica. É disso que falamos no fenômeno de hoje. Como é que é possível sair de casa de casaco de manhã e depois precisar de roupa de verão poucas horas depois, ou o contrário?

É isso. Vamos ter de vestir às camadas, a roupa às camadas, porque às vezes, à noite, quando se vai buscar as crianças à escola, também é preciso vesti-los com a roupa toda. Eu chamava vestir a pato ou vestir a cebola, pra depois ir tirando as camadas de roupa ao longo do dia ou o contrário. Esta amplitude térmica diária é a diferença entre a temperatura mínima e a máxima ao longo do mesmo dia. Ao contrário do que muitos pensam, isto é preciso ter em conta. A temperatura mais baixa da noite não é às 2:45 da manhã, como geralmente se pensa. É ali normalmente volta das 5, 6 da manhã, um dia poderemos falar nisto por quê. Em Portugal, estas diferenças térmicas são muito acentuadas no interior, em regiões como Trás-os-Montes, a Beira Baixa e o Alentejo. Quando o céu está limpo, o vento é fraco e o ar é relativamente seco, esse arrefecimento noturno é de fato muito acentuado. Nos vales, o ar frio tenta acumular-se junto ao solo, fazendo descer ainda mais as temperaturas mínimas. Junto ao mar, as diferenças são geralmente menores. O oceano aquece e arrefece muito mais lentamente do que a terra, e isso funciona como um regulador natural das temperaturas. Há locais em Portugal onde poderemos acordar com pouco mais de 10 graus e chegar aos 30 durante a tarde. Isso no Alentejo, em Trás-os-Montes, é muito frequente. E o outono é precisamente uma das alturas do ano em que essas diferenças se sentem mais. Podem ser também muito elevadas as amplitudes térmicas no verão, mas o início do outono é especialmente feroz nestas matérias. E temos dois exemplos agora. Os dias ainda não são suficientemente quentes para aquecer bastante o terreno, mas as noites já se tornam progressivamente mais longas e o arrefecimento é mais prolongado. O dia de hoje, por exemplo, Évora tem 34 máxima e 14 mínima, 20 °C, Bragança tem 13 de mínima e 32 de máxima, portanto 19 °C, e Braga tem 17 °C.

Braga costuma ser recordista destas amplitudes térmicas.

E Évora também.

Já vivi em Braga, tem uma serra ali colada. Há uma grande amplitude térmica ali. Olha, estas diferenças vão diminuir depois com a chegada da chuva, que fica tudo mais ameno, não é?

É, porque a explicação é as nuvens e a humidade, porque as nuvens reduzem a quantidade de radiação que chega ao solo e limitam o aquecimento e durante a noite também limitam a perda de calor e impedem que as temperaturas desçam tanto. E o vento também pode contribuir para reduzir estas diferenças ao misturar o ar que está junto ao solo com o ar das camadas superiores. Portanto, a partir de domingo e sobretudo segunda e depois terça ou quarta, com a chegada da chuva, aumento de nuvens, as temperaturas máximas deverão descer e as mínimas podem se manter amenas. Portanto, vamos ver até lá o que vai ficar, mas por isso é fácil neste momento perceber por que está tão quente às vezes de dia e frio à noite.

Olha, vamos à curiosidade de hoje e trazes aqui uma imagem que partilhaste comigo, que eu vou tentar descrever.

Eu agora partilho contigo fotos.

Sim, porque é uma imagem que são muitos pássaros a passar quase à frente do sol e são tantos, que há um radar que parecia detetar chuva. É isto?

É isso mesmo. É só para não dizeres que eu estou a exagerar. Mas se estivesses a olhar para um radar meteorológico neste dia

Ele ia ver os pássaros como se fosse uma mancha de chuva.

Ia ver os pássaros como se fosse uma enorme mancha em movimento e à primeira vista poderia ser uma grande área de precipitação. Só que não eram gotas de chuva, eram mesmo pássaros, eram aves. Aconteceu esta imagem de 9 para 10 de setembro e é uma enorme migração que está a atravessar o estado norte-americano do Wisconsin. As estimativas apontam para que fossem mais de 103 milhões de pássaros numa única noite.

Como é que eles se encontraram todos ao mesmo tempo na última noite, nessa noite em particular?

Não sei como é que eles se encontraram, mas esta é a época das migrações.

Era uma celebração qualquer.

Talvez.

Um casamento.

Os radares meteorológicos não detetam apenas chuva nem neve, também conseguem identificar aves e até insetos em voo. Com recurso a algoritmos, os investigadores conseguem calcular mais ou menos quantas aves atravessam determinada região, a que altitudes que estes pássaros voam e a direção a que se deslocam. Os dados do BirdCast para o condado de Dodge, no Wisconsin, indicam que cerca de 14 milhões de aves atravessaram aquela região na noite de 9 para 10 de setembro.

E têm a preferência pelas noites, não é?

Sim, porque as temperaturas são mais baixas, a atmosfera tende a ser menos turbulenta e muitas espécies conseguem evitar os predadores diurnos. Há, no entanto, um perigo inesperado: as luzes das cidades, porque a iluminação artificial desorienta os pássaros migratórios e aumenta o risco das colisões com edifícios. Há mesmo cidades norte-americanas que têm campanhas para reduzir a iluminação noturna. Só uma última curiosidade, estas migrações noturnas não são a mesma coisa que aqueles bandos de estruendos que nós vemos a desenhar figuras espetaculares no céu ao entardecer.

Sim.

Esses são movimentos sincronizados e chamam-se murmurações. Também são um fenômeno extraordinário do comportamento das aves.

Aves. Tens trazido muitas aves aqui ao "Quente e Frio". Não sei se é por eu ser natural de Vila das Aves que o tens feito, mas agradeço por isso. "Quente e Frio" com a Filomena Martins aqui com o olhar para o tempo durante o fim de semana. Voltamos a falar na segunda-feira. Até lá.

Até lá.