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É isso que nos vai contar a Filomena Martins. Já a tenho aqui comigo para mais uma edição do "Quente e Frio". Olá, Filomena, muito boa tarde.
Olá, Nelson. Boa tarde.
Hoje fazemos aqui uma previsão alargada, porque segunda-feira ainda por cima é feriado. Oh, que chatice! Vamos olhar para o tempo de hoje até terça. É isto?
É isso mesmo, mas é mesmo uma chatice termos de nos preparar para quatro dias de trovoadas, porque a partir de amanhã, sábado, e pelo menos até terça-feira, Portugal vai entrar num período de grande instabilidade. Temos aguaceiros, temos trovoadas e elas podem ser localmente muito fortes, acompanhadas de chuva intensa, em muito pouco tempo, daquela chuva que cai muita em muito pouco tempo, rajadas de vento e até granizo. É óbvio que quatro dias de trovoadas não significam quatro dias seguidos de chuva. Este é um tipo de precipitação que é muito irregular e muito difícil de prever onde é que vai cair. Pode cair uma carga de água aqui em Alvalade e ali na Avenida da Igreja, se calhar, já não chover. A zona com maior probabilidade de trovoadas vai mudando de dia para dia. Isto é preciso ir vendo mesmo.
Mas é amanhã, sábado, que começa a estragar-se este fim de semana prolongado. Há aqui até noite, mas há alguns avisos amarelos mais para o interior do país.
Sim, amanhã ao fim da tarde e, sim, sobretudo no interior.
Sim, o aviso é a partir do meio-dia.
Sim. Chegam aguaceiros e trovoadas e a maior atenção exatamente inicial para esta instabilidade toda está no interior norte e centro e em algumas zonas do sul. Aqui parece até um contraste importante, enquanto no interior há localidades com probabilidades muito elevadas de chuva, o litoral norte pode passar grande parte do dia de amanhã praticamente sem chuva nenhuma. Porque isto não é uma frente a atravessar Portugal de uma ponta a outra ou pelo meio, são células que nascem, crescem e desaparecem, mas entretanto despejam a chuva toda num certo sítio. E isto é muito difícil de dizer exatamente onde vai cair a trovoada e se é mais forte e onde é que pode ou não pode aparecer.
E vai ser assim depois também no domingo e segunda-feira, que é feriado?
Exatamente. No domingo mantém-se esta instabilidade. Os mapas mostram um bocadinho mais definida já a oeste da península, a tal depressão isolada em altitude, a chamada DANA ou gota fria, falávamos disso ontem. Vamos continuar com aguaceiros, com possibilidade de trovoada, sobretudo também durante a tarde. A novidade mais importante é esta: o episódio não acaba no fim de semana. Segunda-feira continua muito instável e terça-feira é outro dia a acompanhar com muita atenção, sobretudo no norte e centro, embora as outras regiões também possam ter aguaceiros e trovoadas. Portanto, são estes quatro dias potenciais de trovoadas entre sábado e terça e com possibilidade de existirem fenômenos localmente bastante fortes.
Olha, há pouco fui lá fora e está quente, está abafado esta sexta-feira. Com esta mudança no tempo, chega o frio ou ainda não?
Não, esse ainda não vai. Não vai estar tanto calor como está esta sexta-feira. Eu tinha dito que esta sexta ainda chegávamos aos 30 °C, e está uns 30 °C, mas depois as temperaturas descem progressivamente em várias regiões durante estes dias. Não vamos estar perante uma entrada de ar, uma massa de ar verdadeiramente fria, só que também já não vamos falar do calor desta sexta-feira e nem de calor muito acima dos 30 °C para o início desta semana, da próxima semana, nem do fim de semana. As máximas vão andar perto ou abaixo disso, mas já não vão ultrapassar os 30 °C. Portanto, temos uma combinação curiosa que vão ser trovoadas, aguaceiros, granizo, mas que vão aparecer sem que tenha chegado o frio. Só entre terça e quarta-feira a descida das máximas se torna mais evidente em algumas regiões. Olhando mais para frente, os modelos mostram a depressão em altitude depois a perder a influência e o anticiclone Atlântico, o nosso anticiclone dos Açores, a tentar novamente ganhar terreno, ou seja, o calor a voltar lentamente, que até pode depois, se calhar, ganhar terreno.
Falavas dos Açores, nos últimos dias.
Só do anticiclone.
Sim, mas o anticiclone dos Açores, há aqui uma nota para os Açores, porque tem estado a sofrer os efeitos da passagem da tempestade Ana.
Esta Ana. Já perdeu as características tropicais, mas não perdeu os impactos, de facto. A depressão pós-tropical está a levar chuva, muitas vezes muito forte, e também possibilidade de trovoada a todas as ilhas. Ainda há avisos laranja esta sexta-feira para algumas ilhas e até ao fim da noite vai ficar assim. E há avisos amarelos ainda para amanhã. É um bom exemplo de uma regra importante na meteorologia: um sistema destes não deixa de ser tropical. Mesmo quando deixa de ser tropical, não significa que deixe de ser perigoso.
Ora bem, vamos ao fenômeno de hoje. Falaste que vem aí a tal DANA ou gota fria. É como levarmos com um balde de água?
Pode ser e pode não ser. É um estilo Marcelo Rebelo de Sousa enquanto comentador.
Nim.
Portugal vai entrar nestes quatro dias favoráveis a trovoadas e vamos ouvir muito provavelmente, muitas vezes, esta palavra DANA. E afinal, o que é isto? E por que uma DANA pode estar associada a um dilúvio, a esse tal balde a despejar cá para baixo numa região e deixar apenas alguns aguaceiros noutra? Isto começa muito acima das nossas cabeças, porque na alta atmosfera existe a tal corrente de ventos muito fortes, a corrente de jato, o famoso jet stream, e por vezes essa corrente começa a ondular. Eu já falei destas ondas aqui. E ao ondular, ao fazer ondas, pode-se formar uma espécie de língua de ar frio que desce para sul. Normalmente, a corrente de jato deve estar aqui um bocadinho acima de nós, ali à beira do Reino Unido. Quando ela desce e essa língua desce para sul e vem parar acima de nós, chama-se o tal cavado. E essa língua pode se alongar cada vez mais e, de repente, separar-se daquela circulação. E fica uma espécie de bolsa de ar frio que fica isolada em altitude. É isso que é uma DANA, é assim que foi batizada pelos espanhóis, porque são as iniciais de Depresión Aislada en Niveles Altos. Está muito bom meu espanhol, não está?
Está ótimo. Depressão isolada em níveis altos.
E é aqui que está o mais importante. Uma DANA transporta esse ar frio em grande altitude, mas não transporta um balde d'água.
Mas pode trazer uma chuva torrencial.
Sim, se houver condições para isso, porque para termos chuva torrencial são necessários outros ingredientes. Muita umidade disponível, instabilidade, que são aqueles movimentos ascendentes do ar, sobe e desce, e condições que permitam às trovoadas organizar-se e persistirem. É o que está a acontecer agora outra vez no leste de Espanha. Estamos com avisos vermelhos devido à precipitação torrencial na zona de Barcelona e Valência. Há previsões localizadas que chegaram aos 90 litros por metro quadrado numa hora e 250 litros em 12 horas. Mas não basta dizer que foi a DANA. Foi a DANA, mas o Mediterrâneo está a fornecer estas enormes quantidades de umidade. Os ventos transportam esse ar úmido para a terra e depois quando há convergência com as montanhas, obrigam o ar a subir e formam-se as tais novas células sucessivas de trovoada. E depois ainda há os comboios de trovoada, tal e qual como os comboios de tempestades, que forma-se uma célula, depois outra célula, depois outra e todas as outras a atravessarem aproximadamente o mesmo corredor, cada trovoada vai acrescentando mais água sobre a mesma região e os acumulados disparam. É por isso é que o centro de uma DANA não tem necessariamente de coincidir com o lugar onde mais chove e isso também explica porque razão Portugal pode ter uma depressão isolada em altitude por perto, sem ter automaticamente os acumulados extraordinários de chuva do Mediterrâneo espanhol. É preciso que se encontrem todas estas condições para que haja isto.
Vamos à curiosidade de hoje. Terminamos na Tailândia com o mar que deixou de ser azul e passou a ser verde. Era poluição, não?
Não. E eu esqueci-me de acrescentar a magnífica foto, porque o verde é realmente muito bonito. Isto aconteceu na ilha turística de Koh Larn, no Golfo da Tailândia. A água é de um verde intenso, é muito bonito. Não fosse também o cheiro intenso e muito desagradável que lá está. Isto não é poluição, verde, nem é tinta, é uma enorme floração de plâncton. Os investigadores da Universidade de Burapha identificaram a Noctiluca, que é um organismo microscópio, que quando se multiplica em enormes quantidades, altera por completo a cor da água. Isto deveu-se às chuvas fortes e às cheias recentes na Tailândia, que transportaram para o mar água e nutrientes de terra e criaram condições favoráveis a que este plâncton proliferasse por ali fora. Os investigadores continuam a estudar o peso exato dos vários fatores que estão envolvidos neste processo. Normalmente, estas florações duram apenas alguns dias. O problema pode aparecer depois, porque grandes quantidades deste plâncton morrem, decompõem-se e consomem oxigênio da água e obviamente, se o oxigênio da água baixar demasiado, os peixes e os outros organismos marinhos ficam em dificuldades. Portanto, isto é uma cadeia curiosa que liga novamente meteorologia e oceano, porque chove muito em terra, os nutrientes chegam ao mar, o plâncton multiplica-se e durante alguns dias o azul fica verde, mas esse verde não é bom para os peixinhos.
Não, senhora, porque ficam sem oxigênio. Foi a curiosidade de hoje. Fomos até à Tailândia, é lá que fechamos o "Quente e Frio" no que toca a esta semana. Fizemos aqui também a projeção do tempo para o fim de semana, com de facto muitas mudanças. Atenção à trovoada e ao regresso da chuva, principalmente ao interior, principalmente às regiões do centro, mas também algumas zonas do sul. O "Quente e Frio" com a Filomena Martins está de regresso segunda-feira, depois das 16h. Até lá, Filomena.
Até terça.
Até terça, pois é, estou lá confindo. Agora falávamos do feriado. Bom fim de semana.