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"Quente e Frio", todas as tardes na Rádio Observador com a Filomena Martins. Olá, Filomena, boa tarde.

Olá, Nelson.

Vamos começar a olhar para o fim de semana. Parece que o calor dá uma trégua este fim de semana, principalmente nas regiões mais a norte, pelo que percebi, mas volta pra semana, é isso?

É, são só dois dias. E quando voltar o calor vai apertar. Na próxima semana, Portugal pode voltar a escapar ao pior da nova vaga de calor que aí vem, e que ameaça sobretudo Espanha e França, mas no entanto, fica por cá. Fica calor, apenas pode não ser aquele calor bem forte das ondas de calor. E portanto, só não temos calor durante estes dois dias. Depois, os modelos meteorológicos estão a apontar todos para uma subida a partir de segunda-feira, que se deverá prolongar ao longo de toda a semana. E em Espanha e França, cresce mesmo a possibilidade de uma nova onda de calor associada à formação de uma cúpula de calor sobre parte da Europa Ocidental. Em Portugal, para já, os cenários são menos extremos, porque o Atlântico deverá voltar a limitar o calor na faixa costeira, enquanto o interior, esse sim, pode aproximar-se novamente ou até ultrapassar os 40 °C.

Até lá, este fim de semana traz também um país quase a duas velocidades, não é?

É, tem sido o costume. Mantém-se este contraste que tem marcado este verão. As temperaturas mais elevadas continuam a centrar-se no interior do Alentejo, na Beira Baixa e no Algarve. Por exemplo, Beja, Évora e Faro deverão atingir os 37 °C, Castelo Branco chegará aos 36 °C, Portalegre e Santarém aos 35 °C e depois no extremo oposto, e com o ar do Atlântico, o Porto não deve ultrapassar os 25 °C, Peniche também nos 25 °C, Aveiro nos 26 °C. Há quase uma diferença de 12 °C entre as zonas mais quentes do país e as zonas mais frescas.

Para amanhã ainda se mantém um aviso amarelo no Algarve, não é?

É isso, porque no Algarve as noites continuam tropicais. Faro voltará a não descer dos 24 °C à noite, enquanto Lisboa, Setúbal e Beja devem ficar próximas dos 20 °C. No interior norte, pelo contrário, as temperaturas durante a madrugada descem para valores entre os 15 e os 17 °C. É preciso levar um casaquinho.

Gosto. Estou com saudades.

Estás com saudades do casaquinho?

Sim.

Quanto às poeiras do Saara-

Falaste aqui disso ontem.

Falei? Quanto às poeiras do Saara, que já começaram a chegar a Portugal, devem manter-se durante todo o fim de semana. Já sabem, podem contar com aquele céu, sei lá, nem sei a cor daquilo. Cobre?

Cobre, sim.

E podem reduzir a qualidade do ar. E se houver aguaceiros, e estão previstos no norte, não se exclui a tal chamada chuva de lama.

Que deixa os carros todos sujos.

Exatamente. Portanto, no sábado o estado do tempo muda pouco em relação a hoje. Seco, geralmente soalheiro e quente no interior, enquanto no litoral vai beneficiar daquele vento noroeste, a tal nortada. No domingo vem algum alívio e as temperaturas descem, sobretudo no litoral e nas regiões norte e centro, e ficam nuvens. Há possibilidade de aguaceiros fracos e dispersos no Minho, Douro litoral, alguns pontos do interior norte, enquanto o sul deve manter o céu pouco nublado e tempo seco. A partir de segunda-feira é que as temperaturas começam novamente a subir. Os modelos apontam pra um reforço gradual do calor ao longo da semana, sobretudo no interior, e acompanhado desta vaga de calor prevista pra grande parte da península Ibérica e da Europa Ocidental, embora Portugal deva continuar, para já, na margem dos valores mais altos, dos valores extremos. Já na água, no mar, não há onda de calor e mantém seus 19 °C a 21 °C na costa ocidental e os 21 °C a 23 °C no Algarve. Pronto.

Vamos então ao fenômeno de hoje. Falas dessa semana que aponta calor.

Muito calor.

Mas não é ainda uma onda de calor, pois não?

Ainda não se pode dizer isso, ainda estamos a alguns dias. Portanto, percebe-se que há uma tendência, todos os modelos meteorológicos apontam no mesmo sentido, e quando assim é, é porque está alguma coisa a acontecer. Depois da descida das temperaturas prevista pra este fim de semana, vários destes modelos meteorológicos convergem neste cenário, que já se repetiu este verão várias vezes, que é a formação de uma cúpula de calor sobre grande parte da Europa, com Espanha e França a serem as vítimas novamente. Quer França, quer Espanha, quer vários países da Europa Central, devem enfrentar temperaturas muito acima do normal já a partir desta segunda-feira. Portugal, mais uma vez, deverá ficar na margem da parte mais intensa deste episódio de calor.

Por que estamos a conseguir escapar a esta cúpula de calor? E ainda bem.

A explicação está na atmosfera. Tem havido sempre uma depressão situada no mesmo sítio, que é entre a ponta do Reino Unido e o início da península Ibérica. Isso favorece a subida de uma dorsal de altas pressões sobre a península Ibérica e o resto do continente, e ao mesmo tempo traz-nos ar fresco. Como é que eu explico isso de forma simples? Ela roda e se o imaginares a rodar, ela roda e traz o ar fresco, e depois ao rodar novamente, vai lá ao deserto do Saara e traz a frente muito quente e passa por cima de Espanha e volta outra vez ao Reino Unido e traz-nos outra vez ar fresco e volta a ir buscar o ar quente lá abaixo, ao Saara. E, portanto, é assim que isto funciona. Obviamente que isso favorece a subida da dorsal de altas pressões e o resto do continente vai ficar assim e traz nesse ar fresco que eu estava a falar. E quando essa dorsal se reforça, forma-se aquilo a que os meteorologistas chamam a cúpula de calor.

Uma espécie de campanula, aquele prato que pomos por cima do bolo, por exemplo.

Do bolo. É mais ou menos isso. Mas ao contrário do que um pode sugerir, não é uma bolha de ar quente parada sobre um país. Aquilo funciona quase como uma tampa. O anticiclone obriga o ar a descer lentamente e ao descer o ar comprime-se e é a compressão do ar que aquece. Ao mesmo tempo, dificulta a formação de nuvens, impede a entrada de ar mais fresco e permite que o calor se acumule ali junto ao solo durante vários dias. Essa tampa pode favorecer também a onda de calor, mas os dois conceitos não são iguais. A cúpula de calor é um mecanismo atmosférico, a onda de calor é o episódio de vários dias consecutivos com temperaturas excecionalmente elevadas. Para já, o Atlântico está a colocar Portugal numa posição diferente do resto da Europa, porque o vento de oeste e noroeste e a entrada de ar marítimo limita-nos o calor, sobretudo no litoral, porque nas zonas do interior faz muito calor. Mas há aqui um detalhe. Basta que esta dorsal avance umas centenas de quilómetros para oeste e o cenário muda completamente.

É verdade. Vamos à curiosidade de hoje. Traz-nos borboletas. Por quê?

Para já, porque eu gosto de borboletas.

Eu também.

E depois, porque as borboletas parecem muito frágeis, mas não são. E fazem também grandes migrações e algumas dessas migrações passam por Portugal. Quando pensamos nas grandes migrações da natureza, lembramo-nos quase sempre de pássaros, das aves. Mas só que há insetos capazes de percorrer milhares de quilómetros. E é o caso de uma espécie de borboleta que se chama borboleta-das-cardas, e é uma das mais viajadas do planeta.

Muitas milhas então acumuladas por esta borboleta-das-cardas.

Das cardas. Todos os anos, milhões destas borboletas atravessam o Mediterrâneo e deslocam-se entre África e Europa, aproveitando os ventos favoráveis, que elas também não estão para dar muito às asas.

Claro.

Algumas conseguem percorrer mais de 4 mil km ao longo de várias gerações e passam aqui por Portugal durante a primavera e o verão. Só que os cientistas ainda descobriram mais. Recentemente, eles perceberam que estas migrações são muito mais frequentes e mais organizadas do que se pensava. Tal como acontece com as aves, a direção do vento, a temperatura e as condições meteorológicas ao longo do percurso determinam, obviamente, o sucesso da viagem. Mas mesmo frágeis à partida, estas pequenas viajantes conseguem atravessar mares, montanhas e desertos, e tornam-se um exemplo impressionante de migrações do mundo animal.

Eu acho que a meteorologia tinha muito a beneficiar se conseguisse perceber melhor os pássaros, porque eles parecem perceber a meteorologia melhor que os humanos.

Quase sempre.

Quase sempre. Nessas migrações, a evitar tufões e coisas do gênero. Falamos de borboletas que migram e muitos quilómetros no fecho do "Quente e Frio" desta sexta-feira com a Filomena Martins. Bom fim de semana, Filomena.

Bom fim de semana.