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Bem-vindos ao "Realpolitik", uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.

Eu sou o Sérgio Sousa Pinto.

E nós hoje vamos falar, ainda não sabemos bem até onde é que vamos conseguir ir. Isto é altamente profissional. Nós vamos falar sobre esta enorme polêmica com os exames, vamos falar sobre a falta de água em Almada, esse local remoto. E nós estamos a rir porque estamos deste lado. Se estivéssemos do lado de lá, não nos estávamos a rir. Nós não nos estamos a rir, atenção, estamos a rir das pessoas que são responsáveis por isto, já lá vamos. E se houver tempo e paciência, talvez falemos sobre-

Trampo o árbitro.

Trampo o árbitro, exato. Vamos ver se chegamos aí ou não. Antes disso, Sérgio, às vezes parece que somos um país do terceiro mundo. Esta semana pareceu duas vezes que éramos um país de terceiro mundo. Vamos à primeira vez em que parece um país de terceiro mundo, que é com os exames. Muito rapidamente, nós estamos pela primeira vez a ter um novo modelo de avaliação generalizado. Houve uma experiência no ano passado com o exame de filosofia. Agora os alunos escrevem as respostas, tudo aquilo é digitalizado de uma forma que eu acho que posso qualificar como profissionalíssima e depois a avaliação é feita online e isto está a dar chatíces umas atrás das outras, os prazos já foram todos adiados. Enfim, há aqui muita coisa a correr mal. Não sei por onde é que queres começar, Sérgio.

Não sei. Aparentemente estamos perante um novo SIRESP. Já não víamos nada assim desde o SIRESP. Portanto, cada vez que o país embarca na ilusão de que vai sair da cepa torta graças ao deslumbramento tecnológico e às suas aventuras tecnológicas, os resultados são desta natureza.

Há uma incapacidade do Estado em concretizar qualquer coisa que tenha a ver com tecnologias. Eu ia dizer novas tecnologias, mas aqui nem é bem novas tecnologias, é digitalizar umas coisas.

Pelos vistos, existia uma antiga aspiração nacional que era digitalizar exames. Eu não estava corrente desse desígnio, mas foi sempre com agrado que vi mais um objetivo histórico a ser alcançado. O ano passado, o objetivo histórico saldou-se num fiasco, fez-se um teste piloto com 20 mil alunos de filosofia e chegou-se à conclusão que provas desapareciam temporariamente do sistema, respostas cortadas, respostas trocadas entre páginas, digitalizações incompletas. Eu pergunto qual é a diferença entre os resultados do teste piloto e os resultados do teste não piloto, que é o pandemónio e a confusão em que estamos mergulhados este ano.

Portanto, não se aprendeu nada, não é?

Não, não se aprendeu. Quer dizer, fez-se um teste piloto, demonstrou que o sistema não estava a funcionar, que precisava de ser aperfeiçoado. Foi prudente fazer o teste piloto, não serviu pra nada. Portanto, avançou-se para o sistema. E avançou-se porque, não faço ideia, mas posso especular, como estavam envolvidos dinheiros do PRR e as coisas têm que estar a funcionar, senão é necessário devolver os dinheiros do PRR, que neste caso ainda são uns valentes milhões. Portanto, em vez de arriscar ter que devolver os valentes milhões por incompetência público ou privada, porque convém também aqui empreender empresas privadas, porque o Estado não tem, evidentemente, capacidade de ser ele próprio a pôr de pé um sistema desta natureza. Avançou-se na mesma, mas provavelmente não vai ser preciso devolver milhões nenhuns ao PRR, o dinheiro foi manifestamente bem aplicado. Estamos todos beneficiados, a pátria reconhecida, as famílias desorientadas, os exames todos ao monte, não sei se viste as imagens na televisão, parecia o Banco Alimentar, um barracão que só tinha papel em vez de vivres.

Eu gostava de saber-

E portanto, lá estamos nós a criar problemas, a tropeçar em nós próprios, a gastar mal o dinheiro europeu, a criar problemas cuja existência não tínhamos detetado. E depois o ministro, ainda por cima, em vez de pedir desculpa, a primeira coisa que devia dizer era pedir desculpa. Dizer que correu mal, pedir desculpa. Não, não pediu desculpa, explicou que correu bem. Os professores, que são as primeiras pessoas que são confrontadas, ou os classificadores, como se diz, disseram: "Não estamos a conseguir fazer o nosso trabalho." O ministro veio em perigoso desmentir essa canalha toda. Está aqui só a maldizer estes progressos históricos. E a situação é esta, e os miúdos estão numa situação... Uma avaliação é uma coisa muito séria, é um caso de justiça administrativa. Chama-se justiça administrativa. Mas não, nós com o nosso aluiço habitual, entendemos que digitalização, modernização, tecnologia, modernidade. Lá vamos nós, engarnamos a primeira com os milhões do PRR e agora estamos no fundo de um broco. Mais a tecnologia, mais os exames, mais o ministro, mais os classificadores e mais as famílias. Pronto, cá está Portugal na sua progressão em direção ao desenvolvimento.

E de facto é extraordinário como mesmo quando nós queremos estar no topo do desenvolvimento tecnológico, somos sempre atirados pra as cavernas. Houve este caso dos agrafos, em que supostamente foram dadas instruções a quem estava a separar as provas pra não agrafar as provas "Não agrafem isto." E eles decidiram fazer o quê? Agrafar aquilo. E o que aconteceu? Foi preciso haver pelo menos uma pessoa nesse bendito armazém de que tu estavas a falar, uma pessoa cuja função passou a ser tirar agrafos.

Queres tecnologia, levas uma agrafadora.

Com certeza. Já estou a imaginar um professor, eu vi nas fotos, estavam ali muito bem de calções, devia estar muito calor. Estou a imaginar ali um professor de calções desesperado, só a tirar os agrafos um a um, a tentar não dar cabo dos papéis. A mim o que me fez mais impressão nesta história, houve muitas coisas a fazerem impressão, mas fez muita impressão nesta história a demonstração de incapacidade política do ministro. O ministro Fernando Alexandre é alguém-

Por quem aliás sempre tivemos simpatia, apreço e esperança.

Exato. Simpatia e esperança. Alguém com capacidade técnica e política, alguém que já tinha estado num governo. Não foi agora de repente descobrir a máquina do Estado e alguém que tem a obrigação de ter sensibilidade política. E aquilo que me deu mais impressão foi aquilo que correu mal por culpa dele, porque até podia dar-se o caso de, de repente, haver uma conspiração de informáticos contra tudo isto e tudo a correr mal.

Por não estarem sincronizados com o pessoal dos agrafos.

Exato. Os agrafos foram para o pavilhão A e os computadores para o pavilhão B. Tudo muito bem. Mas depois houve uma série de coisas que foram culpa exclusiva do ministro.

A comunicação com o país foi calamitosa. E o ataque desferido às famílias que se permitiram marcar férias numa época tão solene como a seguir ao calendário de exames. Não foi em cima do calendário de exames, tipo: "Lá vou eu para Marvelha no calendário de exames."

Não, era a seguir ao calendário de exames, mas o Estado majestático, o Estado imperioso, sentado em cima de nós, ainda se considera no direito de dar ralhetes sobre: "Tão meu amigo, foi pra Costa da Caparica tirar água da cisterna, em vez de estar em casa à espera dos resultados dos exames."

À espera que nós organizemos o teste do seu filho, que metade está agrafado, o outro está no barraco e o terceiro apareceu todo em preto.

Mas aí o ministro teve esse comentário infelicíssimo de dizer que as famílias tinham tido a imprudência de confiar no Estado e marcar férias. Depois a seguir, para emendar isso, não sei se é para emendar, enfim, veio dizer que as pessoas que demonstrassem que de facto tinham sido prejudicadas financeiramente por este erro do Estado poderiam ser ressarcidas. Portanto, afinal, não foram imprudentes. Afinal, quem foi imprudente foi o Estado e o Estado vai pagar as férias em Benidorm.

No meio disto tudo, o que nos aproxima mais do desenvolvimento e o que nos aproxima mais do bizantino, do surrealista, do país único no mundo?

Acho que isto está tudo no surrealismo.

Mas vamos todos pra 5 de Outubro, que agora é outro sítio, dizer assim: "Estão aqui os meus bilhetes pra Benidorm, faz favor, quero um ria um bolso."

Não, mas não vais, sabes por quê? Porque ontem, na entrevista à RTP, o ministro disse o seguinte: "Enfim, vai ser muito difícil provar esse prejuízo." Portanto, já nos está a anunciar que o Estado porá toda a sua máquina a fazer com que o teu bilhete, que foi comprado numa plataforma qualquer on-line, afinal não serve porque tens que ter um papel com o carimbo 52. O ministro meteu-se nesta confusão escusada. Depois meteu-se também numa confusão escusada com os prazos, em que estava a dizer que os prazos iam ser cumpridos, para umas horas depois vir dizer que afinal os prazos não iam ser cumpridos. E ontem, na RTP também, veio anunciar ao país que um líder não pode mostrar dúvidas. Um líder tem que ter confiança. Bom, a confiança deu nisto. Nós já tínhamos pouca confiança em todo este sistema, deixámos de ter confiança no ministro, que afinal de um momento pra outro, afinal os prazos já têm que ser outros. Mas foi pior, Sérgio, porque ele disse assim: ontem na RTP, realmente aquela entrevista da RTP foi uma desgraça. O ministro disse assim: "Nós alterámos as datas de tudo isto e é um custo político que eu assumo", disse ele, "porque estamos a pôr o ênfase no rigor". Mas depois ele disse isto: "Podíamos não ter alterado. Podíamos não ter alterado as datas, teria sido possível não alterar." Então, mas mal. Era possível alterar, porque os serviços diziam que não era preciso alterar. Então era preciso alterar, não era preciso alterar.

Nós estamos aqui a falar das férias, mas o que importa verdadeiramente são as famílias e os estudantes, e a ansiedade e a incerteza, porque isto é uma coisa muito séria, porque boa parte dos cursos nas universidades públicas estão sujeitos a um sistema numerus clausus. Quer dizer, esta seriação das pessoas, esta classificação das pessoas, é absolutamente crucial para o seu futuro. E andamos aqui nesta palhaçada com essas teorias que o papel de um líder é apontar o caminho em frente, tipo Mao.

Aqui é Mao Ku.

É o grande salto em frente, tecnológico. E o resultado também está a ser igual ao chinês, o grande salto em frente tecnológico. Lá vamos nós. Pronto, e a seguir vem a revolução cultural, que deve ser mais uma inovação qualquer paga pelo PRR. Quer dizer, tudo isto pra quê? Agora imagina o seguinte: lembra-se como era no nosso tempo. Fazíamos um exame, pedíamos as provas, demoravam um tempão a chegar à secretaria, lá íamos buscá-las, vinham todas rasuradas, encarnado, riscado. Era fácil fazer um pedido de revisão de prova. Agora aparece-te uma prova com um enigmático número ao lado Cotação: cinco. Nota atribuída: dois. Um dois imperioso e silencioso. Como é que se argumenta contra um dois imponente e não fundamentado? Mas é o futuro, é melhor. Os ingleses fizeram, também queremos, vamos embora! E para o ano vamos tentar estender esta calamidade a todos os níveis de ensino.

Mas eu acho que até pode ser melhor. Acho que o que nós não podemos ter é um ministro, enquanto recuperas o fôlego, ontem, mais uma vez na entrevista à RTP, o ministro disse assim: porque entretanto é preciso distribuir as respostas, as respostas dos exames são desagregadas e enviadas para os professores avaliadores e é preciso distribuí-las. Ontem o ministro disse que a percentagem de respostas que falta distribuir é reduzida. E o jornalista João Lino Faria perguntou-lhe: "É reduzida, mas então é de quanto?" E o ministro diz: "20%". Portanto, o ministro acha que faltar 20% de respostas distribuídas aos professores avaliadores, acha que é pouco. 20%, um quinto. Acho que é um quinto. É um quinto, não é?

Ser abaixo de 100% já é uma vitória.

Mas eu cada vez mais acho, olhando para tudo isto, para a gestão política deste caso e para a forma como o ministro Fernando Alexandre estava dentro de um buraco e continuava a escavar, eu já tenho uma ideia há muito tempo, que eu acho que é uma ideia vencedora. Eu acho que cada gabinete ministerial, e não só, isto serve para todos os responsáveis políticos, mas cada gabinete ministerial devia ter um assessor cuja função era estar em casa. Não saía de casa. Estava em casa, de robe, a ver televisão, a ver jornais, a ouvir rádios e estava fora daquela bolha, fora daquela loucura, eu imagino a loucura num momento destes, e a função dele era estar fora disto e pegar no telefone e dizer: " Senhor ministro, não diga isso. Faça um favor, não diga isso. Olha, senhor ministro, para quem está de fora, de robe em casa, uma pessoa olha para isso e pensa: isto não faz sentido nenhum". O problema é que as equipas políticas, nestes casos, entram naquela mentalidade de cerco, em que põem as carroças todas, como no velho Oeste, a fazerem um círculo para resistirem aos índios, e depois acabam nisto.

Eu penso assim: se não existisse o PRR, não existiam 12 milhões para torrar neste novo riquismo tecnológico. Estavam a fazer outras coisas. Podiam estar, por exemplo, a fazer tubagens em Almada, coisas que sabem fazer. Escavar, meter tubos, coisas compatíveis com a especialização nacional, em vez de andar a desperdiçar dinheiro, como fizemos agora, mais uma vez, com os fundos comunitários, para resolver um problema cuja existência não tinha sido detetada.

Muito bem, nós já vamos para a água em Almada, vamos só fazer um ligeiríssimo intervalo e já voltamos. Bem-vindos de volta ao Realpolitik. Sérgio, segundo momento do terceiro mundo desta semana, a falta de água em Almada. De repente, as pessoas que vivem ali, eu ia dizer a dois passos de Lisboa, mas, na verdade, isso é irrelevante.

É irrelevante.

Podia ser onde fosse. Não estamos a falar de falta de água provocada pelas alterações climáticas, não é nada disso. É pura incompetência de gestão. E neste momento temos milhares de pessoas que não têm água, não conseguem ter água. Ainda hoje eu ouvia nos nossos noticiários uma senhora desesperada, com toda a razão, a dizer: "Eu pago tudo, pago os meus impostos, pago as minhas taxas e não tenho água." E não tem água, Sérgio.

O que é que se há de fazer? As pessoas já fugiram do SNS com os seguros de saúde privados, estão a fugir da escola pública para os colégios, mas da água não vejo para onde é que possam evadir-se.

Só se tiverem um furo próprio, coisa que hoje em dia até é cada vez mais difícil.

Têm furo próprio, parece que as pessoas que têm furo próprio estão a ser solidárias com os outros munícipes. Mas também parece que a solução que a Câmara sugere para o facto de as fugas da rede serem muito significativas é fazer mais furos. Portanto, cada furo, 35% de perda, é como termos um balde furado, que não enche. E decidimos: "Vamos buscar outra mangueira." Até termos três mangueiras e o balde não enche. Como é que isto é possível? Um fenómeno físico. É incompreensível. Não há justificação para esta situação num país do primeiro mundo. Não sei se são os ciclos eleitorais, mas há uma dificuldade de pensar o médio, longo prazo, enorme. E estas obras são obras que não se veem.

Certo. Não é inaugurar uma rotunda.

Não, como é que se vai inaugurar um novo sistema de canalização ou tubagem, ou como é que isto se chama, não sei exatamente, sem fugas, sem perdas. Todo o país tem perdas de água astronómicas. Pelos vistos, Almada é um caso que se singulariza por 35%, segundo diz a Ministra do Ambiente, a obrigação de conhecer os números, 35%. Os valores da Câmara não andam longe, porque entre a água não faturada e a água perdida porque a rede está decrépita, aponta pra um valor em torno dos 30%. É incrível, somos todos os dias educados pelo Estado, desde o tempo do poupa eletricidade, poupa energia, até à reciclagem, e o sistema público perde um recurso essencial, perde 30, 35% da água. Sim, quando estamos a ter discursos alarmistas, justamente ou injustamente, cada pessoa terá sua opinião. Adaptarmo-nos às novas condições. Precisamente. E quando começa no Estado o desperdício, por assim dizer, e quando, de repente, coisas perfeitamente legítimas, como ter um jardim para regar, começa a ser visto quase como um crime público. Bom, podemos decretar o fim dos jardins, claro, é uma possibilidade, eu estou aberto a isso. Mas porque estamos numa situação em que as pessoas não têm água para nada? Sim, é difícil imaginar as condições em que neste momento estão as pessoas das zonas mais afetadas do Conselho de Almada. Como é que se pode viver sem água? Não, e depois, repara, tu nem sequer sabes quando é que isto se vai resolver, porque nem sequer é uma situação em que tu diz: "Olha..." Parece que são duas, três semanas. O que é que uma pessoa faz em duas, três semanas? Emigra? Tenho grandes dúvidas que sejam duas, três semanas. Duas, três semanas em julho, agosto, no Conselho de Almada, sem água, é uma situação dantesca e de terceiro mundista. Agora, nós estivemos aqui na primeira parte a falar de um fracasso do Estado central nos exames, na digitalização dos exames. Agora aqui na questão da margem sul, estamos a falar de um fracasso do Estado local, de autarquias. Tudo falha. Não, mas vamos lá ver. É verdade que a responsabilidade, nos termos da lei, a responsabilidade principal compete à autarquia e aos Cemas, mas o governo também tem responsabilidades. A Ministra do Ambiente tem a obrigação de saber o que é que se está a passar no país em matéria do funcionamento da rede de abastecimento d'água. Aliás, como é costume, mais uma jogada de mestre, o PSD lembrou-se logo de propor na Assembleia um voto de protesto contra a Câmara Municipal de Almada, que também é uma coisa que não lembra a ninguém. Portanto, este voto é apresentado pra dizer que o Ministério do Ambiente, o governo e a senhora ministra não têm nada a ver com isto. Vamos já votar aqui o nosso voto de protesto, que já recebeu o entusiástico apoio do CHEGA, contra a Câmara de Almada. Isto é uma pantomina. Agora, o que é facto é que num país do primeiro mundo não se concebe uma situação tão grave, penosa. Os portugueses, esmagados por impostos, com dificuldade em aceder a serviços públicos fundamentais. Há pouco falávamos da escola, os portugueses fogem do Estado, se puderem, se tiverem recursos econômicos, têm um seguro de saúde privado, se tiverem recursos econômicos, têm os filhos num colégio. E depois, se fugirem do Estado o mais que podem, aqui não é água, tem que ir à cisterna, não há outro remédio. O Estado fracassou até no abastecimento d'água, o Estado no sentido amplo, como é evidente, as autarquias não são Estado. Só resta, a seguir a fugir do Estado, fugir do país. Quem tem possibilidades não passa por esta cegarreira dos exames porque candidata-se a universidades estrangeiras. Outros tiram o curso cá, se tiverem a possibilidade de trabalhar e trabalhar pra fora, vão trabalhar pra fora. E assistimos a tudo isto, aqui nesta nossa vida, na nossa regularidade semanal. Vamos contemplando isto. E depois o primeiro-ministro vai ver jogos de futebol, como é um adepto fervoroso. É um homem do povo, como diríamos nós. Porque as pessoas que vivem na outra margem, com certeza que a falta d'água é, sem trocadilho, o fundo do poço, mas são pessoas a quem o Estado já falhou muito. Nós há algum tempo publicamos uma reportagem no Observador sobre o problema que é chegar a Lisboa vindo da outra margem, as falhas permanentes, por exemplo, em tudo que é- Aliás, tu és o maior escrutinador da Transtejo nacional. Precisamente. Por quê? O que nós percebemos que estava a acontecer? É que as empresas que trabalham em Lisboa, sempre que faziam recrutamento e sempre que viam um currículo de alguém que vivia na outra margem, diziam: "Não, preferimos não." E por mais que o candidato dissesse: "Mas eu sou a pessoa mais responsável do mundo, vocês não têm que se preocupar, eu vou estar aqui a tempo e horas." As empresas diziam, os departamentos de recursos humanos diziam: "Não, mas você pode ser a pessoa mais responsável do mundo, mas se não tiver barco, se tiver um problema na ponte, se tiver isto, aquilo, você não vai poder chegar cá a horas. E por isso nós perdemos X dias de trabalho por ano com os nossos funcionários que vivem na outra margem. E por isso nós não queremos mais." Portanto, são estas pessoas que já vivem

rodeadas de problemas provocados pelo Estado por todo lado, têm dificuldade em arranjar emprego. Por causa disso, quando arranjam emprego, estão sempre num sufoco para chegarem a horas ao emprego e tentar perceber qual vai ser o plano B, C e D para poderem chegar a horas ao emprego. Agora, não têm água. E de facto, eu imagino que se chega a um ponto em que até é difícil. Eu andava a pensar aqui um bocadinho sobre como é que isto se transforma depois em responsabilização política, ou seja, até que ponto é que os responsáveis políticos temem que falhas destas venham a ser pagas quando houver uma eleição seguinte. E a capacidade dos eleitores de se lembrarem de tudo isto para depois, pelo menos, apresentarem uma fatura. Mas realmente colocando-nos nos sapatos das pessoas, já é pancada de tantos sítios que o que sobra, as soluções que sobram não são bonitas.

Miguel, também me manda a justiça reconhecer que há conselhos mais problemáticos do que outros. E o Conselho de Almada não é um conselho fácil. Não é só a sazonalidade, como é evidente, que agora se fala a propósito de tudo e nada, é a sazonalidade, é a dispersão, é a demografia, características socioeconômicas, décadas de desregramento urbanístico. É um conselho difícil. Imagino o orçamento necessário para modernizar essas infraestruturas que agora estão a fracassar. Mas repara, nós estamos aqui a falar sobre isto, porque é grave, porque as pessoas estão realmente a passar um mau bocado, estão a sofrer com esta situação, não merecem, é inconcebível, não há justificação. Mas nunca se fala das obras que estão a ser feitas em Lisboa, que vão custar 250 milhões, que foram iniciadas pelo Fernando Medina para melhorar o sistema de escoamento das águas pluviais. Não é a mesma coisa, não tem nada a ver com abastecimento.

Certo.

É para a maré cheia, não sei o quê, inundações. É uma obra que causa algumas perturbações no trânsito e é assim que se vai dando por ela. A obra está a ser continuada pelo Carlos Moedas, só vai estar pronta lá para 2030. É uma obra que não se vê, é uma infraestrutura fundamental, é uma obra feita num sistema democrático, que tem em consideração o longo prazo, não é verdade? Portanto, é possível. Mas as coisas boas também têm que ser salientadas. Olha, a Câmara do PS começou, a Câmara do PSD prosseguiu e esta infraestrutura fundamental está a ser feita. Almada teve décadas e décadas numa situação política um pouco especial. Desde o 25 de abril, era uma Câmara a partido.

Governada pelo PCP.

Governada pelo PCP.

Parabéns ao PCP.

E agora pelo PS também. E a verdade é que estes problemas não estão resolvidos, resolvem-se outros problemas. Resolve-se o problema da digitalização. Temos o direito a estar obcecados com a digitalização, porque sempre é melhor que estarmos obcecados com o avião da seleção.

Não, mas eu estava convencido que nós já estávamos na fase-

Já aterrou, se não aterrou.

Já aterrou.

Já aterrou.

Eu depois da última eleição presidencial, achei que nós já estávamos numa fase de desenvolvimento em que queríamos que o que saísse das torneiras era vinho, era a proposta do João Vieira. Mas não, nós já só queremos que saia água e, portanto, uma parte do país já só quer água, não quer mais nada. E nem sai dali. Sérgio, eu acho que ainda dá para irmos ao mundial e ao Trump, para depois não nos dizerem que nós não falamos das coisas realmente importantes. Tu já sinalizaste aqui, e bem, que a seleção nacional já chegou ao território nacional, já está na pátria e, portanto, pelo menos isso está resolvido. Acho que o Ronaldo não vai. Tenho lido entrevistas, uma coisa qualquer sobre isso. Nos Estados Unidos, nós tivemos Donald Trump a ligar ao presidente da FIFA com o pedido de reversão do cartão vermelho que foi mostrado a um jogador da seleção americana pra ele poder jogar contra a Bélgica. Não é só aqui que a política e o futebol se misturam. Lá nos Estados Unidos, na semana passada, eles não sabiam o que era futebol. Agora, tiveram aqui um curso rápido e já perceberam que a política se mistura com o futebol. Donald Trump fez isso, mas nós também vimos Marco Rubio também dar a sua opinião sobre o cartão vermelho. E mesmo Mamdani, essa grande esperança da esquerda, fizeram-lhe uma pergunta sobre isto do presidente ter ligado à FIFA, e ele disse que estava a torcer pela seleção e achava que o jogador nunca devia ter visto o cartão vermelho. Ele disse que foi um cartão vermelho cruel. Portanto, o Mamdani também. Temos os populismos todos alinhados nesta mistura entre futebol e política.

Bem, eu devo começar por dizer que não vi essa jogada e mesmo que tivesse visto era igual, porque não percebo nada de futebol, eu não teria percebido nada. Mas acho um episódio da maior importância e gravidade, porque ele revela como é tão fácil as pessoas e as instituições se vergaram a um tirano. As pessoas mais corajosas, íntegras, as pessoas mais desinteressadas, os discípulos do bem e da verdade, das regras e do direito As pessoas agacham-se diante do poder tirânico. Tu já viste a intimidação em que os árbitros que arbitrarem os futuros jogos com a seleção americana vão estar? Provavelmente nem faltas vão poder dar, vai ser futebol americano, vai nascer ali uma modalidade que é futebol americano contra futebol europeu. Futebol sem faltas.

Uns com capacete, outros não.

Uns com capacete, aqueles ombros colossais. E depois, de repente, cartão amarelo.

Sabe que o presidente americano disse que tinha estado a olhar para o passado do árbitro que mostrou o cartão vermelho e disse que ele tem um passado terrível e que é um pouquinho suspeito.

Não tarda nada.

Eu não faço ideia quem foi o árbitro.

BlackRock atrás. Também deve ser do Hamas.

Mas é espantoso como toda a classe política americana desistiu. Realmente, desistiu. Porque mesmo aqueles que não apoiam Trump, como o Mamdani, chegaram à conclusão de que é possível fazer como Trump e que dá votos fazer como o Trump.

Isso é corrupção. É corrupção moral. As pessoas submetem-se, as pessoas agacham-se, as pessoas claudicam, as pessoas querem sobreviver de joelhos, de gatas, deitadas, transportá-lo aos ombros em cima de um escudo. Pronto, é assim. Não olhamos para os nossos antepassados, que se submeteram a tiranos, a déspotas e a barutos de todos os efetivos, como pessoas que não tinham a possibilidade, nem o privilégio de frequentar a escola pública e fazer exames nacionais. Não! Eram pessoas exatamente como estas que nós estamos a ver. Os poderosos da FIFA, as associações de árbitros, toda a gente aceita isto. O bullying entra em cena e há uma submissão.

Sendo que a FIFA não é propriamente um exemplo de-- como é que eu hei de dizer?

Sim, não é a mais prestigiada das instituições.

Não é. E o Gianni Infantino não é propriamente um modelo a que aspirem os jovens que acabaram de fazer os exames nacionais e que estão à espera das notas.

Sim, não é uma referência para as gerações vindouras.

Não é. Mas de qualquer forma, apesar de tudo, deveria haver alguns limites para isto. O que vale é que, de facto, depois deste mundial, a próxima vez que fizermos um campeonato-

Esperemos que não seja decretado nenhum bloqueio ao mundial.

Não, mas em certo sentido-

E pedir os adeptos das outras seleções para assistirem aos jogos

...mas em certo sentido, de facto, a derrota dos Estados Unidos foi a grande garantia de estabilidade para o resto da competição. E mais uma vez, para as pessoas que nos estão a ouvir, eu gosto sempre de repetir isto: lendo os jornais que são menos propensos a criticar Trump, se nós formos ler o Telegraph em Inglaterra, se formos ler o Wall Street Journal nos Estados Unidos, o que eles dizem disto que aconteceu é-

Foi feita justiça

...pouco mais ou menos. Não. São críticos, ou seja, eu não gostava que os nossos ouvintes pensassem: "Isto é uma obsessão com o Trump, Trump Derangement Syndrome." Não. Vários articulistas, comentadores, que são em muitos pontos próximos da administração americana e apoiantes de várias políticas de Donald Trump, olham para isto e reconhecem que isto é um absurdo. Não é possível defender uma coisa destas, uma coisa em que nem sequer se disfarça. É um exercício do poder puro. Não há disfarce possível.

Aliás, o Trump não esconde a sua natureza. Agora foi à cimeira da NATO mais uma vez destratar os seus aliados europeus. E disse que só tinha ido porque estava lá o senhor Erdogan, porque o senhor Erdogan é alguém por quem o Trump tem muita consideração. Aliás, disse logo que ele era um strong leader. Se fosse necessário, era perfeitamente capaz de telefonar para a FIFA e dizer para tirarem um cartão amarelo a um jogador turco.

Vontade não lhe deve ter faltado.

Nós vivemos num mundo que é assim. Para os Estados Unidos civilizados, isto é uma vergonha. Estamos de embaraço ao país, embaraço ao Ocidente, à nossa pretensa superioridade moral.

Porque nós não estamos a falar da seleção americana contestar uma decisão da FIFA, o que seria perfeitamente legítimo.

Normal.

Não, foi um membro do governo americano, envolveu-se pessoalmente a arranjar advogados para o governo poder arranjar argumentos contra a apresentação do cartão vermelho.

Eu não sabia que tinha havido todo esse labor jurídico.

É, foi.

Pensei que tinha sido pegar no telemóvel, "cá ao telefone esse Fiorentino ou Florentino, como é que se chama ele?"

Não, senhor, Infantino.

Infantino. "Alguém me arranja o número do Infantino."

Foi o poder do Estado a mobilizar-se, mais uma vez, a máquina do Estado a mobilizar-se para isto.

De facto. Ainda bem que não apareceu lá aquela milícia do Trump que anda à caça de imigrantes, apanhavam o Infantino e levavam-no preso.

O ICE. Como é que se chama isso? O Infantino que deu, nunca nos podemos esquecer, o prémio da paz da FIFA.

A quem?

Ao Trump.

E agora pode também dar a Taça do Mundo. Em vez de dar à seleção, dá ao Trump, que marcou.

Ou uma solução como a da Corina Machado, que recebeu e depois foi entregar ao Trump. Aqui a seleção que vencer pode ir depois entregar o prémio à Casa Branca.

Tempos tristes e deprimentes.

Muito deprimente, mas enfim, voltamos não tão deprimidos na próxima semana, tenha certeza. Na próxima quarta-feira, cá estaremos em direto e também em todas as plataformas de podcast. Já sabem, a todos aqueles que, e são muitos, Sérgio, me andam a pedir as nossas T-shirts. No outro dia encontrei uma pessoa que me pediu expressamente a T-shirt e eu gostava de dizer que vamos tratar disso. Vamos fazer várias versões da T-shirt, com várias frases, para podermos entrar no mundo do merchandising, Sérgio, que é o futuro.

Vamos nisso, estamos nessa. Ainda não fui abordado por ninguém interessado na minha T-shirt, mas tu um dia.

Eu já tenho três. Portanto, pelo menos três T-shirts nós vamos ter de fazer.

Olha a família.

Até para a semana, Sérgio.