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Relatório de jogo com Luís Francisco. O Benfica acaba, ao fim de uma hora e meia, por saltar diretamente para o primeiro lugar, num jogo condicionado, e muito, já na segunda parte, pela expulsão de Gonçalo Inácio, mas uma primeira parte onde o Benfica até não entrou mal. Entrou a tentar pressionar alto. O Sporting, quando se reorganiza, é aí que começa a ter algum ascendente sobre a equipe encarnada.
Sim, o Benfica não entrou nada mal. O Sporting entrou um bocadinho fora de ritmo, com alguma dificuldade em perceber o que o adversário estava a fazer. A pressão alta do Benfica permitiu explorar alguns erros na saída de bola e permitiu, principalmente, que o Benfica pudesse sentir-se mais confortável a jogar num perímetro mais curto. O Sporting caiu nessa armadilha nessa fase, talvez por alguma falta de confiança, porque com algumas saídas de bola erradas, a equipe perdeu alguma confiança para alargar o passe. Este Sporting joga com muitos passes de 30 metros. Mesmo a primeira saída de bola, muitas vezes, é feita com passes largos para os alas, que devolvem para o meio e que devolta para o outro lado. Portanto, é um Sporting sempre com vistas largas. É muito difícil contrariar este futebol quando ele é executado na perfeição, mas não aconteceu nessa fase. E o Benfica, durante 15, 20 minutos, foi superior, podia até ter marcado, embora tenha quase sempre criado as oportunidades em cima de erros do adversário, não propriamente em virtudes de construção. Depois, o Sporting acertou o passo e foi muito melhor do que o Benfica até o intervalo. Acaba por marcar o gol também mesmo em cima do apito para a ida para as cabines, mas parece-me que nessa altura já se aceitava como normal que o Sporting estivesse na frente, porque estava, de facto, a jogar muito melhor do que o Benfica, que não se deu muito bem com essa largura no terreno, com essa necessidade de espalhar as peças pelo campo todo. O Benfica também ainda, às vezes, com algumas indefinições na movimentação, que com o Morato sobre a esquerda perdia claramente uma arma ofensiva. Enfim, é um Benfica ainda um bocadinho a apalpar terreno. E depois veio a segunda parte e parecia tudo apontar para a continuação da primeira, porque não houve alterações nos 11 e porque não houve alteração na forma das equipes jogarem, mas depois com 10 foi tudo muito diferente.
Primeira parte ainda, queria a tua opinião. Muito pouco Di María. Praticamente, o Benfica não teve Di María em jogo na primeira parte.
Quase nada mesmo. Foi uma figura ausente. Eu acho que se viu Di María talvez nos últimos 20 minutos da partida.
A cruzar a bola pra área.
Exato. E nos últimos 20 minutos da partida, já se viu alguma coisa de Di María, quando ele teve mais espaço para se mexer. Eu acho que mais preocupante do que Di María não ter criado nada em termos ofensivos, foi a sua completa incapacidade de reação à perda. Isso já vem sendo tradicional, mas em jogos muito equilibrados torna-se bem mais pesado. E várias vezes ele e também o João Mário, atenção, porque o João Mário não está isento desse pecado, acabavam por cair pro chão com ar de que tinham sido severamente atingidos e levantavam-se logo a seguir e continuavam a jogar. E como isso aconteceu umas quatro ou cinco vezes com cada um deles, eu se fosse treinador deles, mostrava-lhes o vídeo e dizia: "Das duas, uma: ou estás mesmo lesionado, e então aí a equipe médica entra em campo, ou então se é pra te levantares a seguir e ires a correr, então tens que correr logo atrás de quem te rouba a bola." E qualquer um deles esteve muito mal nesse pormenor e o Benfica sofreu com isso, em termos coletivos. Agora, Di María esteve praticamente ausente durante toda a partida até chegar ali àquela fase final de assédio, onde assumiu, de alguma maneira, protagonismo. Mas é pouco para Di María e faz-nos pensar que, se calhar, ele faria mais falta na meia hora final, quando as equipes contrárias já estão desgastadas, para meter antes gente que dê mais capacidade de choque à equipe do Benfica, que nitidamente, com Roger Schmidt nesta fase, privilegia os jogadores mais sóbrios de posse, aqueles que dão mais garantias de não perder a bola, do que os artistas. Ainda por cima, não há David Neris, portanto, torna-se mais difícil pro Benfica criar problemas às equipes adversárias.
Gonçalo Inácio expulso, a partir daqui o jogo realmente muda muito, o paradigma da partida é completamente diferente. O Sporting, apesar de tudo, o Rúben Amorim creio que bem, mete um jogador rápido, o Sanguste, fecha a linha, a cinco. Pareceu muito confortável, ainda com menos um, o Sporting sempre confortável no jogo.
Sim, demorou muito tempo.
É verdade, o Ivo é muito de iógeres a esticar o jogo.
Não, mas foi uma exibição absolutamente extraordinária, de facto. Não fosse do outro lado estar aquele gnomozinho pequenino de camiseta vermelha e, de facto, sem ofensa, claro, porque ele é pequenino, mas na verdade, que grande exibição do João Neves e que grande exibição do Gyökeres, porque estava aqui e estava a lembrar-me duma história que um amigo meu leu em algum sítio. Passo agora a estar a divagar um bocadinho. Na tomada da Cidade do Cabo, os holandeses cercaram os portugueses. Aquilo durou um tempo incrível pra que finalmente eles convencessem os portugueses a render-se e quando saíram de lá meia dúzia de gatos pingados, os holandeses o que disseram foi: "Se eles fossem mais, nunca mais conseguiríamos." Se houvesse mais iógeres em campo, o Benfica teria a vida complicada, porque ele sozinho, que semeou o terror por ali, é de facto um jogador precioso. Agora, o Sporting depois, com a saída do Edwards, perdeu de alguma maneira a capacidade para ligação, de levar a bola no pé.
Trincão não conseguiu.
Não, não conseguiu, de facto. E o Pedro Gonçalves também não tem o feitio nem a predisposição pra levar a bola consigo. É um jogador precioso noutras áreas. E de facto, uma coisa é colocar a bola em iógeres e ele segurar, à espera que a equipe suba, mas numa altura em que a equipe já nem vai subir, é mais importante ter um jogador que leve a bola lá pra frente, que esteja aqueles 20, 30, 40 segundos a tirar a pressão para os jogadores se reorganizarem cá atrás. E o Sporting perdeu, de facto, essa capacidade. Trincão não conseguiu fazê-lo e o Sporting acabou por ficar em cinco, três, um, com enorme dificuldade pra chegar à frente. O Benfica instalou-se no meio-campo adversário.
Mas o Benfica, que ainda assim, e já abordaste o tema, muito cruzamento, um futebol telegráfico, sem grande rasgo.
Sim, não havia ali O jogo todo, desde o princípio, teve uma enorme falta de trabalho pelos flancos, mas isso, pela disposição das duas equipes, percebia-se que ia ser muito isso. E o corredor central sempre muito privilegiado, muita dificuldade em abrir o jogo e por parte do Benfica, ainda mais. Na segunda parte, houve muitos cruzamentos. Eu creio que a taxa de sucesso é reduzidíssima e depois acaba por dar resultado no último gol. Mas a verdade é que o Benfica cruzou de forma muito previsível, com muitos jogadores na área, não conseguiu ganhar. O Sporting sente-se muito confortável, porque tem três centrais e tem três bons centrais e, portanto, sentiu-se confortável com isso. Era preciso o Benfica variar de alguma maneira. Houve ali uma tentativa com aquele remate de meia distância do Di María e finalmente com os arranques com bola no pé para desequilibrar no um contra um de Gonçalo Guedes, que entrou a três minutos dos 90, mas eu acho que foi fundamental para criar uma nova lógica em toda aquela zona da área do Sporting.
E desorganizar o Sporting.
Claro.
E desorganizar o Sporting.
Porque é nesses movimentos de compensação que pode aparecer a brecha e depois a equipe tem que ser rápida a explorá-los. E parece-me que a presença do Gonçalo Guedes foi muito importante para isso acontecer.
Relatório de jogo hoje com o Luís Francisco. Pergunto agora, para fechar, que fator mais positivo destacarias realmente do encontro?
Este foi um daqueles jogos de seis pontos, porque é um jogo entre rivais diretos. Eu acho que há aqui ainda mais um pontinho de bônus, porque o Benfica ganha uma motivação extra e carrega muito negativamente em cima do Sporting. Isto é muito difícil de engolir. Eu acho que concordo com o Rui Marinho, foi a melhor equipe em campo e acaba por perder já depois dos 90. Não interessa ser depois do 90, mas acaba por perder de forma dramática. Eu acho que o que este derby nos trouxe de bom, e que eu acho que vai ser muito difícil de esquecer, foram a emoção, a intensidade e a vibração. Este jogo vai ser histórico. Daqui a 20 anos, ainda vamos lembrar-nos deste jogo, de certeza, pelas coisas que aconteceram, algumas delas não muito boas para um lado ou para o outro, mas no seu conjunto foi um jogo tremendamente emocionante, um jogo absolutamente inesquecível.
É um jogo que vale o bilhete.
Vale muito. Vale muito o bilhete.
Olha pela negativa.
Pela negativa, eu acho que há aqui alguns dados. Foi o 10º jogo consecutivo do Sporting frente a Porto e Benfica sem ganhar, mas até parece mal falar desta estatística num jogo que foi resolvido desta maneira e com este enquadramento. Mas realço, uma equipe que não consegue, em 10 ocasiões, ganhar aos rivais diretos, candidata-se a não ganhar as competições em que participa. E isso pode ir pesando. Foi um jogo em que, mais uma vez, Roger Schmidt revelou algumas limitações no trabalho a partir do banco durante o jogo. Foi um jogo em que Di María esteve muito fraquinho, mas eu acho, não querendo fulanizar e sem carregar muito na culpa, que Gonçalo Inácio é o elemento mais negativo deste jogo. Acho que não fez uma boa exibição na primeira parte. Ele é muito bom a jogar com a bola nos pés e a colocar passes, e desta vez vimos falhar vários passes na saída, na primeira parte e na segunda. Com a expulsão, acaba por condicionar todo o jogo. Portanto, eu diria que o pior deste jogo, pelo impacto que teve no resultado e na forma como a história do jogo decorreu, foi a noite desastrada de Gonçalo Inácio.
Foi o relatório do jogo assinado pelo Luís Francisco. Fica também disponível em podcast da Rádio Observador.