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Foram 15 épocas a jogar fora do país, com passagens por clubes como o Hapoel de Jerusalém ou o Fulham. Com o aproximar do fim da carreira, Bruno Luz, hoje com 33 anos, decidiu voltar a Portugal. Passou pelo Vitória de Setúbal e pelo Amora, mas esta época não está a ser fácil arranjar clube.

É um choque. Mas não há que ter vergonha de nada, porque nós estamos aqui para treinar para nós próprios. E caso surja uma oportunidade ou tu fanta que, fisicamente, já estou perto daquilo que eu não estaria se tivesse em casa.

Um percurso semelhante ao de muitos jogadores que procuram a oportunidade nesta iniciativa do sindicato, como é o caso de Diogo Ramos. Em três épocas, o avançado de 35 anos marcou 60 gols na segunda divisão do Chipre. O ano passado regressou a Portugal e quis dar prioridade à família, com algum prejuízo para a carreira.

A minha mudança do Norte para aqui, porque meti a família, neste momento, em primeiro lugar, e minha mulher é professora, foi colocada cá embaixo, é o maior handicap na procura de clube e o sindicato é a maior ajuda na valorização do jogador português e dos jogadores que estão aqui.

Nesta fase da carreira, ambos os jogadores, por culpa da idade, mais de 30 anos, sentem alguma dificuldade para assinar contrato. E por isso, Bruno Luz reforça a importância de haver um plano B.

Há muitos jogadores que deixaram de jogar e que hoje em dia não têm um curso, não têm estabilidade financeira para poder enveredar por outras aventuras.

Uma vertente que é a prioridade para o presidente do sindicato, Joaquim Evangelista.

Nós temos consciência que a maioria não tem plano B. Nós apostamos muito no conceito de carreiras duais, na transição para outra atividade e nessa medida fazemos questão que eles se preparem para esse efeito.

Em 2022, tem lugar a 20ª edição do Estágio do Jogador. Uma iniciativa para os atletas que ainda não têm clube e que, de acordo com o presidente, tem sido um sucesso.

Procuramos, sobretudo, dar condições desportivas, ou seja, os jogadores terem treinos, fazerem jogos de exibição. Nas 19 últimas edições, participaram, na totalidade, mais de mil jogadores, mais de 600 celebraram contrato, uma taxa de empregabilidade de 61%. É obra.

Para Bruno Luz e Diogo Ramos, poder participar no Estágio do Jogador é mais do que uma oportunidade.

O sindicato é um privilégio estar aqui a treinar.

Um orgulho que é partilhado também por quem já alinhou nos melhores palcos do mundo.

Tem condição de treino top. É um orgulho estar aqui.

Há 10 anos, Agostinho Cá assinado pelo Barcelona.

"Agostinho Cá han pisado por primera vez el césped de la ciudad esportiva bajo las órdenes de Eusebio Sacristán. Agostinho Cá lo hecho..."

Este era o primeiro treino ao serviço da equipa catalã. Hoje, Agostinho mantém a forma no Estágio do Jogador.

Eu estava em casa, estava sem clube, depois o meu amigo me ligou e disse: "O sindicato vai começar treino, é só para escrever, para ir manter a forma".

Antevia-se um grande futuro para Agostinho Cá. Chegou a ser internacional pelas camadas jovens da seleção portuguesa. Atualmente, ambiciona apenas poder continuar a viver daquilo que mais gosta.

O meu objetivo é trabalhar cada dia, trabalhar cada dia para ficar mais fisicamente bem, qualquer oportunidade é para agarrar, trabalhar para jogar futebol.

Agostinho é um dos muitos jogadores que participam nesta edição do Estágio do Jogador, que é orientado por Nandinho. O treinador sublinha a importância de, acima de tudo, ser realista com os atletas.

É um pouco essa questão também pedagógica para com os jogadores e sobretudo percebermos que por trás do jogador, primeiro, está o homem. E é importante nós percebermos aquilo que vai na cabeça deles. Acima de tudo, temos que ser realistas e explicar-lhes qual é o contexto, mas que isto não é o fim de nada.

Nandinho explica que, por vezes, os jogadores podem ter alguma vergonha em participar no Estágio do Jogador. Algo que o técnico compreende, mas que tenta contrariar.

Perceber, eu percebo. Fazer sentido, não faz sentido, mas cada um é como cada qual. Eu tenho a experiência, como já disse, dos outros anos em que estive aqui, e passava-se o mesmo. Tivemos alguns jogadores que tinham estado em divisões profissionais, primeira e segunda ligas, que já estavam numa fase terminal da sua carreira, já estavam a jogar em divisões mais baixas e que apareciam.

Mesmo que os jogadores não encontrem clube, o trabalho desenvolvido pelo sindicato não se resume apenas à vertente desportiva. No campus do jogador, Carlos Fernandes ocupa os dias a dar treinos a mais de 20 atletas sem clube. Uma realidade que também viveu depois de uma carreira de Primeira Liga, Liga dos Campeões, Taça das Nações Africanas. Um choque que o guarda-redes descreve como dramático.

Isso é o que me fez isolar do mundo e ficar fechado em casa. Essa fase, como eu costumo dizer, é como se o holofote tivesse apagado.

Nesta fase difícil da vida, o guarda-redes internacional angolano não tem problemas em dizer que a ajuda do Sindicato dos Jogadores foi fundamental.

Ajudou-me no sentido de eu poder voltar a aproximar da realidade que eu vivia, que é os jogos, e no fundo o cheiro da relva proporcionava-me as lembranças e as vivências que eu tinha tido.

Histórias como a de Carlos Fernandes levam o Sindicato dos Jogadores a alargar horizontes para lá do futebol. Nesse sentido, o presidente, Joaquim Evangelista, deixa claro: os atletas são a prioridade.

O nosso foco é o jogador, e este projeto é um projeto que nos orgulha imenso, sobretudo porque é de responsabilidade social. Tem muito a ver com a forma como nós vemos o apoio ao jogador, quer ao nível da empregabilidade, ao nível da saúde mental, garantindo apoio psicológico e o pagamento das consultas aos jogadores, na educação, facultando cursos e bolsas aos jogadores para que façam a própria formação.

Nesta 20ª edição do Estágio, Carlos Fernandes é treinador. No entanto, ainda não decidiu se vai ou não abandonar a carreira de jogador. Deixa apenas uma garantia.

Vou continuar ligado ao sindicato, que é uma causa nobre, são pessoas que estão sempre dispostas a ajudar e eu também identifico-me com esse perfil de ajudar os outros, de ajudar o próximo.