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11 da noite na capital portuguesa. Não há ruído, não há sorrisos, não há abraços, não há músicas nem danças, não há pessoas. Escuta-se de quando em vez o som de uma bicicleta a passar, com um trabalhador que, às costas, transporta o jantar para um lisboeta confinado. Escuta-se o elétrico que passa vazio. Escutam-se cordas de guitarra ao fundo da rua. De frente para os armazéns do Chiado, Fredo Mergner, também conhecido por Will, toca para as paredes e para as pedras da calçada. Uma noite despida, uma noite que há um ano era bem diferente. Recuamos até à primeira semana de março. Já com o primeiro caso de Covid-19 em Portugal confirmado, a vida continuava. Vamos fazer um roteiro pela noite lisboeta. Começamos pelo Bairro Alto. Porta número quatro da Rua Diário de Notícias. Entramos no Suave. João Pires, o dono, recorda a última noite.

Eu lembro-me perfeitamente, na última noite, na quinta-feira, de haver um ambiente pré-apocalítico. E depois há um cliente, eu acho que ele não tinha estado cá antes, mas era um senhor muito simpático e ele virou-se para mim a certa altura e disse assim: "Tu sabes que isto hoje vai ser a última vez que vamos poder estar a fazer isto durante muito tempo." E eu lembro-me daquilo me bater assim um bocado: "Epá, não sei se é assim tanto tempo." "Epá, olha, eu não sei se vai ser tanto tempo quanto eu imagino ou não, mas pelo sim pelo não, eu estou a aproveitar cada momento que estou aqui contigo agora. E eu não te conheço de lado nenhum." Ele disse-me isto. Eu achei muito interessante esse momento, porque entre nós, eu e um estranho que eu não conhecia, encurtou-se ali anos de nos conhecermos, que foi do género: "Epá, olha, se calhar é verdade, se calhar vamos estar aqui muito tempo sem apreciar as coisas simples da vida e estes pequenos prazeres que se pode ter."

E o estranho tinha razão. Nesta última noite, seguimos bairro acima, ao som latino do A Checoiva. Número 121 da Rua do Norte e à porta está Cleber Soares.

Era clientela de todo lado, gente de todo lado, portugueses, turistas. Estávamos sempre cheio. Tivemos que limitar a entrada, porque trabalhávamos muito bem. É uma casa que tem a sua atmosfera, alegria, um bar latino-americano, é um bar cubano e tem esse contágio.

Quantas pessoas é que costumava ter cá dentro?

Nós para ir 100 pessoas, praticamente todos os dias.

100 pessoas já era apertado.

100 pessoas, isso cheio. Também não havia como controlar a porta para não entrar mais. Eu acho que nem lembro, sinceramente, mas sempre cheio.

Um pouco mais à frente, no número 17 da Travessa da Água, chegamos ao Friends. Resistiu até à última. Henrique Pereira foi obrigado a fechar.

Fechamos no último minuto, à última hora, à meia-noite. Estava sentado ali no sofá, porque não tinha mesas, tinha ali um sofá, e o governo decidiu à tarde que fechava no dia a seguir e nós fechamos, e a polícia andou aí a fechar à meia-noite. A última semana já havia menos gente nos espaços, que as pessoas já estavam a adivinhar, porque isto estava cheio todos os dias, durante a semana toda, e aí já havia menos gente. E depois o governo decidiu que fechar e fechou. Mas foi uma coisa progressiva, as notícias foram saindo aos bocadinhos, não foi assim de repente, não fechou de um dia para o outro, porque foi devagarinho.

Tinha clientes nesse dia?

Tinha. Os clientes tiveram que sair no dia em que o governo disse que os clientes iam ter que sair à meia-noite. Costumava fechar às duas e o governo resolveu fechar num sábado, e nunca mais abriu. Fechou sábado e depois esteve fechado.

Com a noite pelo Bairro Alto a terminar, descemos a Rua do Alecrim e chegamos ao Cais do Sodré, em que nessa última noite ainda era fácil encontrar sorrisos e muita música. Entramos no Music Box, Rua Nova do Carvalho, número 24. João Nogueira, o responsável de sala, recorda uma noite estranha.

Essa noite já foi uma noite em que já se sentia algum receio na rua. A rua estava bastante vazia. Mesmo nós, ninguém sabia exatamente o que estava a acontecer, havia pouca informação e tivemos muito poucos clientes nessa noite. Nós até arranjámos um esquema de pedidos com papéis e lápis para evitar o contato com o cliente, mas essa noite esteve mesmo muito vazia.

Foi uma decisão que tomaram nessa noite ou já estava a acontecer nas noites anteriores?

Isto já passou um ano, a minha memória também... Mas eu lembro-me que no fim de semana, nós fechamos uma quinta-feira, eu lembro-me que no fim de semana anterior a casa esteve cheia, completamente cheia. Duas noites com uma programação, duas residências, na verdade. Na sexta-feira foi a noite Príncipe, que estava a casa completamente cheia. No sábado também esteve bastante cheio. Era o DJ Glue com alguns convidados que eu também já não me lembro. Mas ambas as noites tiveram muita gente. A rua estava cheia, nós estivemos cheios Foi logo após esse fim de semana que a preocupação começou a surgir e a haver um pouco mais de informação em relação ao que se estava a passar.

Logo ao lado, no número seis da Rua Nova do Carvalho, já escutamos as vibrações do Jamaica. Fernando Pereira, o dono, descreve noites de normalidade sem uma real noção do que aí vinha.

Eu acho que foi normal. Acho que, a essa data, ainda não havia a percepção da gravidade daquilo que iríamos passar. E mesmo tendo consciência de que tínhamos um problema em mãos, a expectativa era que esse problema se limitasse a dois meses, três meses, quatro meses no limite. E, portanto, no verão já estaríamos a funcionar em pleno. Ao fim de semana nós conseguíamos meter aqui 150. Temos consciência que às vezes era um bocado difícil controlar e portanto as coisas passavam um bocado esse número, mas seria o normal numa sexta ou num sábado meter aqui no mínimo 150 pessoas.

O Jamaica fechou nessa primeira semana de março. Quando fechou a porta, não sabia que ia ser a última vez que ia fechar esta porta?

Não sabia que ia fechar a última vez.

A última noite em liberdade foi também a última noite do Jamaica na rua Cor de Rosa. Vai mudar-se para o Cais do Gás. Porque a noite ainda é uma criança, seguimos o nosso roteiro e acabamos na discoteca Mome. À porta do número 68 da Avenida 24 de Julho, está o segurança Frederico Candeias, ou apenas Fred, que recorda uma das melhores noites deste espaço.

Realmente foi uma noite fora de série. Não é estar aqui a dar um bocadinho de graxa ao DJ, mas realmente o Ari é excelente na área dele. E quando foi a última semana, todas as semanas aqui são boas, ou eram boas. Mas realmente a última ultrapassou todas as expectativas.

O Mome recebia a after party do Moda Lisboa e o DJ Ari Girão fala com angústia sobre essa última festa.

Lembro-me perfeitamente que a casa foi provavelmente das noites mais incríveis que nós tivemos aqui no Mome, que foi essa noite de 7 de março. É basicamente com muita tristeza que estou a lembrar-me disto, porque esta é uma profissão que normalmente quem está nela está mesmo por amor e por prazer àquilo que nós fazemos. É quase uma angústia estar aqui a falar acerca disto.

São memórias da noite de Lisboa em liberdade, sem máscaras, sem distanciamento, com sorrisos destapados, mas com uma pandemia a bater à porta. Tanto bateu que obrigou a fechar todas as portas de bares e discotecas. Agora, um ano volvido, não há ainda sinais que permitam antecipar um regresso à normalidade. Voltamos a 2021 e à única música que ecoa pelas ruas da capital.

Então olha, isto é Lisboa.

À boleia das cordas do Will, entramos novamente Bairro Alto adentro. Desta vez, conseguimos escutar os nossos próprios passos. Regressamos ao Suave. A porta está fechada, sem luzes e também sem som. O dono João Pires olha para trás e assume que nunca esperou estar fechado por tanto tempo.

O pior cenário que foi discutido na altura era o país estar fechado até setembro de 2020. Eu acho que ninguém antevia o tipo de arrastamento da situação em que nos vemos agora.

Quando é que houve o clique de: "vai ser muito tempo"?

Em setembro, eu diria, porque é compreensível que estejamos fechados nesta altura. Eu próprio senti as diferentes evoluções emocionais de ver o meu negócio fechado, ver as contas a acumularem, ver alguma inércia do governo, que provavelmente é justificada com o mesmo tipo de surpresa que eu também terei sentido quando as coisas chegaram a isto. Eu acho que ninguém estava pronto para a dimensão do que aconteceu. Agora, eu posso responsabilizar em alguns aspetos a inércia e a falta de sensibilidade. Havia falta de alcance de algumas respostas.

João Pires analisa também os apoios do Estado para dizer que foram úteis, mas que faltou clareza para chegar até eles.

Achei os apoios disponibilizados dispersos, confusos e era quase como uma caça ao tesouro. E é um ajudas preciosíssimas. Sem elas nós não teríamos e eu não estaria aqui neste momento a dar-te esta entrevista neste espaço Se não fosse isso, garanto.

Sem os apoios não conseguia.

Não valia a pena, não tinha conseguido pagar a renda, não havia hipótese de fazer nada disso.

Neste momento, estando fechado, por mais quanto tempo consegue?

Eu diria até julho, no máximo. Repare, eu não consigo neste momento oferecer-lhes uma bebida, porque é o único stock que eu tenho. Não é que eu seja um mau anfitrião, pelo contrário, mas eu neste momento não consigo quase abrir a torneira da água, porque isso é uma despesa que eu não sei por quanto tempo é que eu vou ter de manter ao mínimo possível.

No momento em que fechou, o Suave não tinha funcionários. Era o próprio dono, juntamente com um sócio, que serviam neste bar. Mariana, companheira de João, também ajudava, para além de atuar como DJ em muitos outros espaços da noite lisboeta. Quanto aos apoios, Mariana tem uma opinião mais negativa.

Eu um dia decidi fazer as contas. Se eu tivesse só o apoio, quanto é que eu teria por dia para comer? E isso dava à volta de 2,20 € que eu tinha por dia para o pequeno-almoço, almoço e jantar. Portanto, obviamente que eu tive também ajuda dos meus pais. Tinha algum dinheiro de parte que usei, mas o que foi mais difícil para mim foi ter que ter uma vida completamente regrada, contar os trocos, e não que eu fizesse grandes extravagâncias, mas de repente senti que está complicado.

Praticamente um ano com rendimentos reduzidos e sem perspectiva para regressar ao trabalho. Seguimos pelo Bairro Alto, onde anteriormente seria difícil atravessar cada rua, agora não há viva alma que cruze cada uma destas avenidas. Acompanhados pelo silêncio, chegamos ao Cohiba, que ainda nos recebe com música, mas com uma pista de dança vazia.

Boa tarde.

Boa tarde. Cleber Soares, um dos donos, fala nas dificuldades para resistir a uma paragem forçada.

Fico noites e noites sem dormir, pensando o que vai acontecer se isso não abre, como é que vai ser os apoios, a ajuda. Ninguém está a fazer reserva financeira para enfrentar uma coisa que não sabia que ia acontecer. Então, meio que um desespero.

Olhando para essa perspectiva, quantas pessoas é que trabalhavam aqui?

Só nessa casa nós temos sete pessoas a trabalhar. A gente tem tentado manter os postos, se endividou bastante para isso. Não sabemos quanto mais vamos aguentar. Eu sei que quando isso tiver uma retoma, não sei quando vai ser, nós já estamos mentalizados que pelo menos o próximo ano é só para pagar dívida. Com sorte.

Teve que despedir pessoas?

Não, não despedimos ninguém. Como eu te digo, vai falar: "Vocês trabalhavam tão bem e de repente acontece isso, você tinha que ter algum dinheiro". E realmente tínhamos algum dinheiro, não tínhamos mais porque tínhamos investido em outros negócios e também contraímos empréstimos que vamos ter que pagar mais cedo ou mais tarde, vai ter que pagar esse apoio do governo que veio, que foi muito bom, mas não foi o suficiente.

Quanto tempo é que conseguiria aguentar?

Eu acho que, pelas nossas contas, já estivemos a fazer as contas, mais um mês estourando.

A fazer contas, Cleber olha para um bar despido, que foi obrigado a reinventar-se e a servir refeições nos últimos meses do ano. Era a única alternativa que tinham para poder abrir a porta, tal como o Friends, em que Henrique Pereira conta que passou a funcionar quase como restaurante.

Tivemos que nos adaptar, abrimos em função de restaurante, que era até à meia-noite, tínhamos tolerância até à 01:00. Aí já deu para fazer algum dinheiro para pagar algumas coisas para atrasadas. Depois o governo resolveu tirar a uma da manhã e passou para as 10:00 da noite. Houve muitas inspeções da Polícia Municipal, porque nós estamos aqui na rua da Polícia, a Escola da Polícia nesta rua. E depois foi o segundo fecho, que é este confinamento que estamos agora. Foi sempre uma aventura, foi sempre diferente, nunca foi igual.

Em constante mudança para responder às regras que estavam em vigor. Henrique Pereira assume que foi essa abertura, de forma adaptada, que permitiu resistir.

Foi uma sorte, mas se não tivesse a licença, teria estado um ano fechado, ainda estaria fechado como bar e agora, provavelmente, quando abrir outra vez, não abrirá os bares. Os bares continuarão fechados, provavelmente vão abrir os restaurantes e depois os bares. Por isso, como bar, o bar está fechado há um ano.

Fechado como bar e sem previsão para voltar a esse regime. Para já, o Friends está também fechado como restaurante. Seguimos na noite lisboeta rumo ao Cais Sodré, para voltar a entrar no Music Box, onde o dono, Gonçalo Riscado, também assume que não esperava uma paragem tão prolongada.

Eu penso que toda a gente tinha aquela ideia dos três meses. Qualquer coisa que vai acontecer durante três meses, fazer contas, o que custa parar uma máquina destas durante três meses, que é um absurdo de dinheiro. É muita gente, são muitos salários, são responsabilidades com fornecedores que se mantêm, mas nunca pensando que não iríamos trabalhar durante o verão.

Quando é que tiveram essa noção que iam ter que estar fechados durante tanto tempo?

Vamos tendo.

Defesa do setor da cultura e iniciativas online. Foi esta a forma encontrada pelo Music Box para responder ao impacto inicial da pandemia, num espaço que procura manter a estrutura intacta.

Toda a nossa estrutura, quando fechamos, tinha à volta de 35 funcionários.

E ainda mantêm essa estrutura?

Nós mantemos. Toda a nossa estrutura base está intacta. Houve alguns contratos de curta duração que estavam ligados essencialmente ao restaurante que nós também temos, que é o Povo, e que nós, obviamente, não renovamos, mas em termos do que é toda a nossa equipe principal do Music Box, continuamos cá todos até ao fim. Ou aguentamos todos ou acaba.

União, até porque Gonçalo Riscado assume que só pode reabrir no regime que tinha antes de fechar.

Para nós existirmos, não só precisamos de trabalhar quase na nossa lotação máxima e temos que trabalhar nos horários que tínhamos atribuídos. Portanto, no caso do Music Box, que são às 06:00.

O regime que existia antes deste novo confinamento, com algumas salas a abrir para alguns espetáculos, mas a fechar às 22h, não é, de forma nenhuma, viável, nem a curto, médio, longo, nem a nenhum prazo.

Para já, o Music Box continua encerrado, tal como o Jamaica, que, na verdade, não vai voltar a reabrir na Rua Nova do Carvalho. Fernando Pereira olha para lá das dificuldades financeiras e fala no que estes espaços podiam dar aos clientes.

O maior gozo que me dá num espaço destes é ver as pessoas a dançar, a saírem daqui umas com as outras, quando não se conheciam. E acho que é isso que falta. Perceber, chegar aqui e ver o espaço vazio e saber que hoje à noite não vai acontecer nada, que as pessoas não vão dançar, não se vão divertir, que as pessoas não se vão libertar e assim sucessivamente. Amanhã é igual, a seguir é igual.

Animação que o Jamaica promete recuperar já numa nova casa no Cais do Gás, uma vez que a pandemia acelerou esta mudança.

Sem o confinamento, aquilo que tinha sido pensado e aquilo que se mantinha como ideia era que Jamaica, Tokyo e Europa se mantivessem aqui até o novo espaço estar pronto. Com o prolongamento da pandemia e com uma proposta que o senhorio nos fez, nós conseguimos antecipar a saída, ou seja, neste espaço, que toda a gente conhece, o Jamaica não vai voltar a abrir.

Num ano em que celebra 50 anos, o Jamaica muda de casa. Espera poder abrir no final do ano, se as regras restritivas forem levantadas. Também há um ano de portas fechadas, está a discoteca Mome. João Magalhães, dono deste espaço, recorda o momento em que teve de tomar a decisão de encerrar.

Faz-me lembrar um bocado quando nós somos crianças e apercebemo-nos de um perigo qualquer e travamos, mas achamos que o perigo era relativo. No fundo, o que nós fazemos é juntar pessoas, é fazer as pessoas divertirem-se, é fazer as pessoas abraçarem-se, beijarem-se, é fazer as pessoas embabadarem-se e esquecerem-se dos seus dia a dia. Portanto, é uma terapia que também faz falta a todos nós. Obviamente, isso era tudo contranatura, aquilo que se estava a passar para uma prevenção do vírus. Portanto, consciente logo percebemos que teríamos que fechar e que tínhamos de fazer um stop, mas nunca nos passou pela cabeça que iria ser uma coisa tão demorada.

João Magalhães é também dono da discoteca Bliss, no Algarve, e gere os bares do Casino do Estoril. Pouco depois do início da pandemia, procurou alternativas para retomar a atividade destes espaços.

Eu recordo-me que havia uma discussão: como é que se podia abrir uma discoteca, sendo que na discoteca não se consegue garantir um distanciamento entre as pessoas? De facto, isso é possível. E à semelhança de grandes clubes lá fora, que não têm pista de dança, funcionam muito com os camarotes. E o que nós podíamos fazer era, obviamente, reduzir drasticamente a nossa lotação, mas encaminharíamos as pessoas para espaços privados com a lotação que era aceitável. Como é um restaurante, poderiam sentar-se seis pessoas, oito pessoas, e as pessoas poderiam divertir-se sendo controlada essa situação.

Proposta que não foi acolhida e que, para João Magalhães, potenciou o aparecimento de festas ilegais. Perante esse cenário, João critica a falta de representatividade do setor e aceita a posição do governo.

Eu não os culpo 100% de terem abandonado este setor. Culpo, sim, os representantes deste setor. E sim, foi um erro de todos nós.

Faltou união ao setor?

Mais do que isso. Eu acho que nem sequer existe uma representação digna do setor. E eu sei que se calhar depois desta entrevista vou ter não sei quantos e-mails a dizer: "Se não achas que há representação, então chega-te à frente". É uma verdade, mas deixe-me que diga que se os empresários falassem mais, que é para nós todos podermos trabalhar com horários e não estarmos aqui sem reino nem roga.

Desta forma, discotecas e bares continuam fechados. Fechados, mas com esperança. Todos eles acreditam que os clientes não vão ter receios no dia em que seja reposta a normalidade. Esperam casas cheias e, por parte de quem passa música, espera-se alegria. O DJ Ari Girão admite que já pensa nas músicas que vai passar.

Eu acho que a tendência musical vai ser uma onda muito mais positiva do que propriamente se estava a tocar até então. Vai ser muito mais o house, vai ser música muito mais melódica, muito mais cantada, para trazer o lado positivo, que vai ser voltar a termos a nossa vida outra vez no dito normal.

No Suave, Nuno Bernardino, também DJ, anseia pelo regresso, mas ainda não tem certezas sobre que música vai passar.

A música tende a reagir a isso, àquilo que nos estão a fazer ou àquilo que nós estamos a sofrer. É possível que, pelo menos nos primeiros tempos, seja aquela explosão de alegria, que a música acompanhe isso.

No Friends, Phil, o DJ, ainda não sabe que música vai dominar no momento de regresso, mas já escolheu uma canção para abrir e fechar a primeira noite.

"I Will Survive". Eu acho que faz sentido. "At first I was afraid, I was petrified". É isso, porque vamos sobreviver, eventualmente. Então, acho que é essa. Talvez até para terminar também, para começar e terminar, "I Will Survive", porque vão ser só os sobreviventes aqui.

Para já, ficam apenas promessas para esse regresso. Neste momento, a noite de Lisboa continua despida. Não há ruído, não há sorrisos, não há abraços, não há música nem danças, não há pessoas. Mas escutam-se ainda as cordas de guitarra ao fundo da rua. Fredo Mehrtner, também conhecido por Will, continua de frente para os armazéns do Chiado. Toca para as paredes e para as pedras da calçada. Toca por Lisboa.

Eu estou aqui por causa desta situação, numa de sobrevivência neste momento.

Não tocava na rua antes da pandemia?

Já tocava, sobretudo à noite. Pelo prazer de tocar à noite, pelo ambiente noturno e pelo som do sítio.

Gosta da noite?

Gosto, claro que gosto da noite. Não gosto de discotecas e coisas assim, não é nada. Gosto da noite, sobretudo porque eu procuro lugares à noite que estão mais calmos.

E gosta mais desta noite sem pessoas na rua, de noite?

Gosto. Podia ser sempre assim. Só que também tenho de ganhar umas moedas, se não, não tenho ninguém. Nas ruas de Lisboa, eu toco porque eu gosto. Neste momento, até é a minha sobrevivência, posso dizer, mas não toquei sempre na rua. Eu sou guitarrista profissional e também toquei em salas de concertos e coisas assim.

Wilfredo Mehrtner tem 62 anos. Viajou para Portugal já há algumas décadas. Fez carreira na música, foi um dos fundadores dos Resistência. Tocou em grandes salas de espetáculo e até em estádios de futebol. Tem álbuns editados. Agora, toca numa noite despida. Gosta das ruas assim, mas lamenta que sem pessoas também não tem moedas. A noite continua despida. Para Will e para todos, sem qualquer perspectiva de regresso. Até lá, resta recordar a última noite.