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No final deste mês de junho, 27, 28 e 29, em Monsanto, Jardim Carlos do Amaral volta a receber o Lisbone, Jardim Sonoro. É mais um festival de música eletrónica na capital portuguesa, um dos principais já na cena nacional. Falamos na Rádio Observador com o José Diogo Vinagre, organizador e diretor deste evento, o Lisbone, Jardim Sonoro. Bem-vindo à Rádio Observador, José. O que é que podemos esperar deste evento este ano, que já tem encantado os Jardins de Monsanto nos últimos anos? O que é que podemos esperar para a edição deste ano?

Em primeiro lugar, olá, Miguel, obrigado pelo convite. O Lisbone celebra neste fim de semana a sua décima edição. São 11 anos de festival. É, de facto, um crescimento que desde 2014 se tem observado, como o jardim cresceu e muito. Isso porque a procura da música eletrónica e a procura de festivais ao ar livre, com jardins, com bom serviço, tem aumentado. E isso deve-se, claro, a Lisboa, às pessoas que gostam de música. E o que é que temos para este ano? Muita música. São 12 horas de música na sexta, 12 horas de música no sábado e no domingo um pouco menos, das 16h até à 00h. Nos outros dias é das 16h às 04h. São três palcos, música de techno a house, passando pelo minimal. Tudo o que as pessoas podem gostar de eletrónica encontram no Lisbone. E esta é a oferta diferenciadora do nosso festival, ou seja, tu gostando de eletrónica, podes gostar mais de techno, podes gostar mais de house, podes gostar mais de disco, mais de minimal, podes querer descobrir talentos que nunca viste, ou seja, lisboetas que andam a tocar ainda em sítios muito pequenos, tocam no Lisbone. Podes ver artistas que esgotam Berlim, Ibiza, estão a tocar no palco principal do Lisbone. Há toda esta panóplia, toda esta variedade de música eletrónica que o Lisbone oferece. Depois, não obstante da música, temos também a enorme variedade de comida, temos o mercado. Este ano, a nossa aposta vai ser com um pequeno mercado que as pessoas podem ou tatuar ou comprar algumas peças de vestuário, acessórios, etc. E zonas de descanso. Obviamente, vai estar muito calor este fim de semana, por isso vamos ter muitas zonas de descanso, muitas sombras. Vamos espalhar borrifadores pelo recinto, onde as pessoas podem pegar e simplesmente andar com eles e molhar-se um bocadinho. E pronto. O que podemos prometer é, pela décima vez, vamos oferecer a melhor música eletrónica que é feita atualmente.

Este é um festival que, na verdade, e para quem já teve a possibilidade de estar no Lisbone, há aqui sempre uma grande conexão com Monsanto, com esta realidade no meio de uma floresta. Os palcos também vivem um pouco desta ligação. A própria cultura, muito a promover a questão da reciclagem, não deixar essa pegada ecológica, mas falavas já aqui nesta questão de estar muito calor. Preparam-se já avisos meteorológicos, também da Proteção Civil, para o risco de incêndio. Há alguma preocupação especial quanto a isto e quanto àquilo que pode acontecer durante o festival?

Não. Portugal é um país quente no verão, ou seja, custa-me acreditar que alguém que vá este fim de semana ao Lisbone, vá ter a sua experiência mais calor de sempre. Estamos habituados. Seria mais preocupante com chuva, que já aconteceu no Lisbone, e com frio. Existem preocupações que nós estamos a fazer, a sensibilizar as pessoas para irem já com calçado confortável, hidratadas, com protetor solar, e existem medidas que nós estamos a implementar no recinto para proteger as pessoas desse calor, obviamente. As noites, por exemplo, vão ser muito agradáveis. É uma coisa que, em Monsanto, normalmente, durante o dia, faz 20, 22, 23 °C, as noites são frias. Este ano vamos ter noites bastante agradáveis, por exemplo. Estamos a criar medidas. Não há qualquer tipo de preocupação alarmante com o calor, ou seja, não é nada que ninguém tenha vivido e ultrapassado. Estamos a fazer muitas sombras, vamos manter as pessoas bastante hidratadas, ninguém vai passar sede, de certeza absoluta. Obviamente que temos os bares, mas temos uma equipa pronta para responder. E depois, o festival sendo em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, temos um posto de comando com a Proteção Civil, com a PSP, com bombeiros, que vai reforçar a sua presença não só no recinto, como no Parque Florestal de Monsanto. Pegando agora aqui no tema que tu estavas a dizer e que também eu gostava de salientar, que é onde é que nós estamos. Ou seja, nós estamos em Monsanto, um dos parques mais emblemáticos de Portugal, senão até da Europa. Bastante protegido, e ainda bem. E de facto, a nossa preocupação com Monsanto é que nós não somos alheios, às vezes, a algumas polémicas, que é fazer um evento com milhares de pessoas no Parque de Monsanto. No entanto, a nossa preocupação é deixar o parque ou deixar aquela zona melhor do que a encontramos. E de facto, é isso que temos feito desde 2022, quando fizemos a primeira edição lá, que é não só de reabilitação, ou seja, quando acaba o festival, como de melhoramento de espaço. Existem uma série de áreas que nós até acabamos por melhorar durante o ano e depois todas as associações, como a Casa dos Animais de Lisboa e como o CRAS, que é o Centro de Recuperação de Animais Silvestres, que nós apoiamos através de uma doação, que é todo o dinheiro que as pessoas deixam na pulseira, ou seja, que não levantam, que não fazem o refund Nós oferecemos integralmente, através de uma doação pública, a estas duas entidades. Ou seja, a nossa preocupação, de facto, é, um, deixar o parque melhor do que o encontrámos e, segundo, homenagear Lisboa, homenagear o parque. As áreas de Lisboa são para os lisboetas viverem. Obviamente que temos de viver com respeito com os animais, com tudo o que nos rodeia, mas estas áreas é para serem celebradas, com respeito, como é óbvio, e com bastante cuidado, mas de facto é conseguir mostrar aos lisboetas, e também estrangeiros, que vêm alguns, o que é Monsanto. E há muitas pessoas que, por exemplo, o palco principal do anfiteatro, imensa gente conhece, porque vão lá passear os cães, têm lá festas de aniversários, etc. Os palcos lá de cima, o Discover Carlsberg Stage e o Lake Stage, que são lá mais em cima, eu diria que provavelmente 80% das pessoas que vão a Lisbon não conhecem aquelas zonas e acabam por apaixonar-se e acabam por passar lá depois bastantes dias durante o ano.

E têm tido algum feedback da Câmara, de quem faz a gestão do Parque de Monsanto, sobre essa ligação que vão tendo e dessa ajuda também, que vão dando também ao local?

Sim, e é um sucesso. Ou seja, o primeiro ano foi desafiante. Foi muito desafiante, tivemos muitos anticorpos para fazer lá, porque não era comum um evento, ainda por cima apoiado pela Câmara, fazer um evento em Monsanto. Mas, de facto, vamos para o quarto ano e a minha perspetiva é continuar lá durante muitos anos, porque é cada vez mais fácil produzir lá o Lisbon. E eu digo isto muitas vezes à Câmara, que é, apesar de tudo, houve aqui uma sinergia muito forte entre a Câmara e o Lisbon, ou seja, nós tivemos muita sorte com as pessoas que estão lá, com as pessoas que estão no Parque Eduardo VII, desculpa, em Monsanto, e que estão na Câmara, assim como a Câmara também teve muita sorte em ter nós como promotores, porque nós temos este rigor e esta preocupação em produzir bem.

Certo. Há sempre esta questão do estacionamento. Em Portugal, ou pelo menos os portugueses têm o hábito de ir de carro para todo lado. Este é um festival que também tem muitos estrangeiros, mas como é que deve ser feita a circulação para o meio de Monsanto, para um festival cá em cima em Monsanto? O que vocês recomendam?

Olha, o que eu não recomendo: carro, viatura própria. Evitem ao máximo. Nós queremos que as pessoas se divirtam no festival, nós queremos que as pessoas dancem, festejem, celebrem, bebam e peço, por favor, que evitem ao máximo a viatura própria, por várias razões. Em primeiro, pela própria segurança. Porque é um festival de música, vendemos álcool, eu não quero as pessoas a sair do meu festival e a pegar na sua viatura própria. Em segundo, porque Monsanto não é um bom espaço para termos 4 mil, 5 mil pessoas a sair na sua viatura própria. O que é que fazemos para responder a este tema? Um, muito importante, temos uma parceria com a Carris. Temos shuttles das 16h até às 22h, se não me engano, desde o Marquês de Pombal até ao recinto, eu penso que é de 15 em 15 minutos, ou seja, são dezenas de autocarros que estão constantemente a ir e a voltar, a ir buscar as pessoas, numa paragem que está devidamente identificada com a nossa marca, mas ao pé da Feira do Livro, ali da zona da Feira do Livro, já para que as pessoas saibam onde fica, e deixa-los à porta do recinto. E depois, a partir da meia-noite, se não estou em erro, até às 05h, ou seja, até uma hora depois das portas fecharem, temos outras dezenas de autocarros a trazer as pessoas do recinto para o Marquês de Pombal. No Marquês de Pombal, temos metro, temos Uber, há pessoas que andam a pé, que vivem ali perto, etc. Em segundo lugar, temos uma parceria com um TVDE, com parceiro TVDE, que é a Bolt. Basta pesquisar nas nossas redes sociais, temos lá essa parceria já formalizada, com um promo code, em que as pessoas podem ir para o recinto. Muito importante, que é: temos um parque disponível a cerca de cinco, 10 minutos a pé do recinto, fica na Avenida Universidade Técnica. No entanto, estou a alertar já que há muitas pessoas que estacionam em Monsanto, ou seja, no meio dos pinhais, quase. Este ano vai haver um reforço por parte da Polícia Municipal para reboque destas viaturas. Ou seja, eu estou já a alertar que vai haver aqui um reforço de policiamento para viaturas mal estacionadas. Por isso, por favor, adiram aos nossos meios de acesso, seja o shuttle, seja TVDE, seja táxi, e divirtam-se.

Zé Diogo, uma última questão, até porque este é um tema que tem sido abordado ao longo deste ano. Vimos alguns festivais já bem antigos em Portugal não terem edições este ano. Fala-se já numa crise, talvez, do setor dos festivais em Portugal. Perceber se o Lisbon sente esta crise, prepara alguma situação de crise, se houve alguma mudança para perspetivar alguma quebra na procura por este tipo de setor em Portugal. Como é que olham também para este tipo de situações?

A crise sente-se em todo o lado. Ou seja, sente-se desde os festivais que estão a deixar de existir, aos que estão a redimensionar-se para mais pequenos e aos que estão aparentemente saudáveis, que é o caso do Lisbon. O Lisbon não vamos acabar, não estamos a redimensionar o evento, mas sente-se as dificuldades, de facto, por várias razões. A primeira é por causa da inflação, ou seja, os custos de produção aumentaram bastante. Eu posso dizer que o bilhete do Lisbon dos últimos anos tem vindo a aumentar, não significativamente, mas tem vindo a aumentar, e não se aproxima de todo Dos custos, ou seja, não é paralelo ao aumento de inflação que nós tivemos de produção. Nós estamos a observar custos de alguns serviços com 100% de inflação. Então com mão de obra qualificada, o Covid veio trazer isto, houve muita gente que deixou de trabalhar em eventos, em serviços técnicos, etc. E o que aconteceu foi: estes fornecedores tornaram-se mais pequenos, mais especializados e mais caros. Está muito mais caro produzir um evento, não tem comparação. E depois, é também a inflação artística, ou seja, os artistas hoje em dia são rockstars. E nós observamos isso, os próprios festivais, se nós olharmos para festivais de grande dimensão, que não importa aqui, mas que ainda existem, estão a começar a contratar DJs. Por quê? Porque os DJs é uma pessoa. Podem ir até às três, se tiverem o tour manager, etc. Não tem um backline, não tem guitarras, não tem baterias, não tem nada, ou seja, o avião vem vazio. É um bilhete de avião, é um quarto de hotel, toca e vende 15 mil bilhetes, 20 mil bilhetes. Ou seja, os DJs hoje em dia são rockstars. E o que está a acontecer é, festivais como o Lisbone, que desde 2014 fazem música eletrónica, música eletrónica esta que há 10 anos atrás tinha uma conotação extremamente negativa, não de todo a que tem agora, e que de facto, o que nós observamos é o nosso competidor direto, não só em público, mas também agora em artistas, são festivais com budgets de investimento completamente diferentes do nosso. Por isso, é difícil. Eu acho que os eventos que eventualmente deixaram de existir, foram eventos que não estavam tão preparados para esta mudança significativa da procura do cliente. O que nós sentimos é que cada vez mais, as pessoas estão agora um bocadinho a ir ao encontro do boutique, ou seja, o que é que é tailor-made, o que é que se está a fazer com cuidado, com respeito. E de facto, os festivais, infelizmente, habituaram as pessoas muitas das vezes a demorar horas para beber uma cerveja, a demorar 15 minutos para ir à casa de banho, a ver um concerto muito longe, com uma qualidade de som terrível. Alguns estão a pagar a fatura, outros estão a aproveitar a onda de: "Ok, nós estamos cá há muitos anos, fizemos isto sempre bem feito, sempre respeitámos o cliente", que é uma coisa que muitas vezes o promotor, e falo aqui muito para os meus colegas de profissão, muitas vezes se esquecem de respeitar o cliente. O que é que o cliente pagou? O cliente pagou o bilhete. Temos que respeitar o cliente. Se o cliente pagou o bilhete, tem que ter acesso imediato a uma casa de banho, tem que ter uma garrafa d'água quando quer, uma cerveja. E de facto, é o chamado projeto a médio e longo prazo, que é quando tu crias um projeto a médio e longo prazo, no que estás a pensar? E estás a pensar exatamente nisto, que é: eu não estou a dizer que eu estou a crescer desenfreadamente, até porque não é o caso, porque de facto é muito difícil, estamos a atravessar uma fase muito complicada. Mas de facto, nós conseguimos ter uma fidelização bastante elevada. Por exemplo, o Lisbone, anualmente, nós vendemos mais de mil bilhetes sem qualquer tipo de cartaz. Este ano, inclusive, vendemos quase mil bilhetes, ainda nem data tinha. Ou seja, as pessoas querem ir.

Já existe uma fidelidade.

As pessoas querem ir, por quê? Porque as pessoas querem ir pela experiência, porque sabem que chegam lá, seja um dia, seja três dias, vão encontrar amigos, vão gostar da música.

E do local.

Vão gostar do local, não vão ter surpresas de este ano não há o que quer que seja, não vão ter filas de espera. E depois, observamos alguns festivais que passam muitos anos a investir na qualidade musical, que toda a gente gosta. Quem é que não gosta de ver as maiores bandas do mundo, mas que depois peca na experiência. Então o que acontece é, quando existe algum ano, que existe, nós todos temos esse ano, que é: há anos que o cartaz é tipo um jackpot. Tivemos sorte. Por quê? Porque aquilo alinha. Nós quando fazemos o cartaz, do princípio ao fim, o cartaz que eu desenho agora para 2026, o cartaz que eu vou começar a desenhar em julho, e que já estou a pensar em alguns nomes, vai ser 5% do que eu vou acabar por ter no final do ano. Por quê? Porque há competidores, porque os artistas vão tocar noutros sítios, têm outros compromissos, etc.

Problemas de logistics.

E o que acontece é, quando eu não invisto na experiência, fico dependente disso. Então quando eu tenho um ano um bocadinho aquém, e às vezes dois, porque há azares, o cliente simplesmente não acredita no nosso projeto. E isso é muito complicado. Ainda para mais quando tu tens um festival de média dimensão, quando tens um ano mau, perdes dinheiro. Quando tens um festival grande, quando perdes dinheiro, perdes dinheiro a sério. Ou seja, é preciso aqui uma estrutura também muito mais pesada.

Muito bem, Zé Diogo, obrigado também por esta análise a este setor. Lisbone, este sim, um festival que está saudável, como ouvimos aqui, 27, 28 e 29 de junho, este fim de semana em Monsanto. Música eletrónica a animar a grande floresta da cidade de Lisboa.