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Junta-se a nós em direto o Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Francisco Miranda Rodrigues. Bom dia, Francisco Miranda Rodrigues. Obrigado por estar em direto conosco. São muitos os desafios que todos temos enfrentado nos últimos meses. Dava conta de uma lista ainda há pouco. Os portugueses continuam a ter dificuldades em aceder a um psicólogo?

Olá, bom dia, muito obrigado. Sim, neste Dia Nacional do Psicólogo é bom lembrar que, por muito que exista um número mais do que suficiente de psicólogos em Portugal e muitos especializados, a verdade é que nem todos os portugueses, pela sua condição socioeconómica, conseguem aceder, pagando do seu bolso, para ter acesso aos serviços dos psicólogos. Isto, pelo menos, quando nos referimos aos serviços na área clínica, que são, porventura, aqueles que são mais conhecidos da opinião pública e dos portugueses. Mas a verdade é que nós sabemos que provavelmente cerca de 50% ou mais da população tem muita dificuldade em aceder, porque os serviços públicos não têm o número de profissionais minimamente suficiente para que possa haver uma resposta àquilo que são as suas necessidades. E os portugueses têm essa consciência e essa experiência de tentar e de não conseguirem, nomeadamente, ao nível dos centros de saúde. Esse é o grande problema e, portanto, a resposta é: infelizmente, sim, ainda há muitas dificuldades por parte de muitos portugueses.

E que medidas é que deviam ser tomadas, Francisco Miranda Rodrigues, para tentar facilitar o acesso dos portugueses à saúde mental?

Neste momento, a questão crítica, e que nós alertamos infelizmente há demasiado tempo, é mesmo da contratação num número que seja minimamente significativo para os centros de saúde, de psicólogos e psicólogas que possam dar esta resposta em proximidade. Nós temos cerca de 300 psicólogos nos centros de saúde para todo o país. Trezentos, apenas. E precisamos, no mínimo dos mínimos, de uma duplicação para podermos começar a ter algum tipo de resposta que seja digna desse nome. E portanto, isso é a resposta mais premente e que já ninguém compreende muito bem porque é que não acontece, uma vez que existe um consenso na sociedade portuguesa sobre esta matéria e uma grande necessidade que vai sendo todos os dias visível por parte da população.

E com estes desafios todos que elencávamos há pouco, Francisco Miranda Rodrigues, torna-se cada vez mais importante o acesso a estes profissionais de saúde. São muitos desafios que temos vivido nos últimos tempos.

Sim, é verdade. São muitos. O mundo já por si só nos brinda com cada vez mais incerteza e volatilidade numa velocidade muito voraz. E nós ainda não nos adaptámos a isso, o que é natural, que não nos tenhamos adaptado facilmente a isso. Estes tempos são muito desafiantes e nós precisamos muitas vezes, ao longo da nossa vida, cada vez mais face a estes desafios, de ajuda.

Esta questão específica do aumento dos preços, da subida da inflação, é um motivo de ansiedade adicional para a população.

É, com certeza. E é preciso lembrar um aspeto relacionado com isso, que é: quando nós entramos em situações de perda de recursos, em que sentimos maior escassez de recursos, nós acabamos por, e há quem explique isto através de um fenómeno chamado escassez mental, ver reduzido o espaço que temos do ponto de vista mental para tomar decisões, o que faz com que as nossas decisões percam qualidade. Ou seja, a escassez, e quando nos vemos confrontados com maiores dificuldades do ponto de vista financeiro, e isso não significa necessariamente estar numa situação de pobreza, significa ter, a partir de agora, menos do que o que tínhamos antes. Significa também que podemos entrar num círculo, numa espécie de espiral de maior dificuldade de tomar boas decisões e, com isso, agravarmos a nossa própria situação. E o conhecimento disto mesmo, de como é que nós funcionamos nestes processos mentais e de percebermos quando é que por nós próprios não conseguimos lidar com este efeito e de ultrapassá-lo e podemos precisar de algum tipo de ajuda, é absolutamente essencial e cada vez mais nos tempos de hoje. Mas não podemos, de facto, desconsiderar que o contexto e esta situação também de perda de recursos, as questões da habitação, que hoje em dia também são um problema cada vez mais a criar pressão sobre todos nós. E essas são dimensões muitíssimo importantes relativamente à saúde mental, com certeza.