As manifestações que têm vindo a acontecer pela Europa chegaram a Portugal em força: em  Lisboa e no Porto acampam, resistem a ordens diretas da polícia , destroem património público e  gritam palavras de ordem que colidem de frente com o objetivo pelo qual estes jovens dizem lutar.

Recordo-me em especial de uma reportagem da RTP Notícias em que, por segundos, senti pelo  entrevistado, que dizia estar perdido por não conseguir habitação. A pena rapidamente me passou  quando o plano de gravação saiu daquele exército de campistas e centrou no dito homem, que,  por acaso, tinha tatuado no pescoço o símbolo da foice e do martelo. Ou seja, a pobreza desta  pessoa, e da maioria daqueles manifestantes, sendo honesto, é muito mais do espírito do que da  carteira. São daqueles que acham que o que falta em Portugal são tetos às rendas, ocupação de  casas e arrendamentos forçados. À conta desta minoria delinquente e ruidosa, regressaram à  sociedade portuguesa debates tolos que só servem para perceber o que seria o nosso país se a  esquerda regressasse ao poder, repetindo a geringonça.

Estas pessoas insistem em não perceber o óbvio: qualquer política limitativa da posição do  senhorio ou do vendedor de uma casa vai ter um e só um resultado, o aumento da escassez. É  verdade que explicar como funciona a procura e a oferta a quem usa o Manifesto Comunista como  a Bíblia da sua vida não é tarefa fácil, mas também o é que um país inteiro não deve ser condenado  à ruína por dar demasiados ouvidos a um conjunto de mentecaptos que se recusam a estudar antes  de falar. O meu olhar sobre o que se tem passado seria totalmente diferente se lá estivessem,  ordeiramente, pessoas com reivindicações legítimas e com sentido, por exemplo como uma afronta aos Governos que híper burocratizaram a construção, que eram favoráveis a taxasridículas  de imposto sobre as rendas, e outras tontices que tais. Mas não é isso que vejo. Contentava-me  com manifestantes que estivessem de acordo com a extensão das medidas de garantia pública  aprovadas por este Governo, por exemplo, ainda que continuem teimosamente a atuar no lado da  procura, quando o problema reside na oferta. Infelizmente, o nível de ignorância é muito maior  que este, já que o que está em causa não o apelo a um mero incentivo à procura, mas um ataque  em toda a linha a quem garante a existência de tetos nas nossas cidades.

A cultura do trabalho e do mérito é esmagada quando o Estado se mete demasiado ao barulho, e  é precisamente essa ingerência que esta enchente defende. Não existe solução nenhuma para o  problema da habitação que não passe pela construção em massa, e não haverá construção em  massa se não abdicarmos de boa parte da burocracia, das regras tolas de urbanismo e de ordenamento do território, dos impostos e da fiscalidade sufocante, dos longos e complexos  processos camarários para aprovação de projetos, de um ping-pong de emails e de contactos entre  os particulares e as entidades públicas que não respondem, respondem de forma vaga, ou que  exigem pagamentos absurdos de cauções ou de outras garantias do género.

O discurso da sociedade tem de ser de censura para com estes manifestantes. Tem de ser de apoio  à polícia e de militância pela ordem pública. As televisões não devem perder horas de comentário  político em roda da “importância dos jovens reivindicarem por mudanças na habitação”. Devem antes demonstrar que nem a forma nem o conteúdo destas manifestações merecem mais do que o  repúdio puro e simples da população. Só assim resolveremos o problema da habitação e  poderemos perspetivar um país mais rico, mais justo e com futuro.